Capítulo 2
Centro Médico de Columbus
Columbus, GA
12:02 p.m.
Conseguir acesso aos registros médicos tornou-se mais fácil falar do que fazer.
"Sinto muito, madame." Os olhos da balconista de informação foram brevemente de Scully para Andy e Mulder e então de volta a Scully. "Mas temo não poder ajudá-la."
Scully continuou segurando o distintivo na frente da mulher, e pelo que seria a milésima vez na parceria deles, Mulder não pôde deixar de admirar a calma e profissionalismo dela. Ela sempre o impressionara por esse comportamento, mas desde o pesadelo na Base da Força Aérea em El Rico, o senso de determinação e propósito dela pareciam ter dobrado e redobrado.
Ele supunha que fosse pelo menos parte em compensação pelo próprio colapso emocional dele durante aquele caso, mas eles nunca realmente conversaram sobre isto. Nunca parecia ser a hora certa.
Agora, ele desejou que eles tivessem arrumado tempo para isso.
"Acesso para registros médicos por oficiais de execução de lei é uma exceção de uso rotineira sob o Ato de Privacidade Federal", Scully estava dizendo. "Eu posso lhe proporcionar uma declaração escrita se for necessário..."
A balconista parecia nervosa, mas também balançava a cabeça. "Não, senhora", ela interrompeu. "Você não entende. Não é que eu *não vá* dá-los a você; Eu *não posso*. Sabe, eles não são..."
"Sheila, algum problema?"
Mulder se virou e viu uma mulher mais velha parada atrás deles. Ela era pequena, menor do que Scully, de fato, com fios de cabelo cinza e uma expressão severa.
"Sra. Peters." O alívio da voz da balconista era claro. "Esses três são agentes do FBI, e eles querem ver os relatórios da noite passada, dos pacientes que foram picados pelas abelhas. Eu estava tentando explicar..."
"Tudo bem, Sheila," a outra mulher respondeu. "Eu assumo daqui." Ela virou para os dois agentes. "Meu nome é Marilyn Peters; sou a Chefe de Informações Médicas. Em que posso ajudá-los?"
Scully estendeu o distintivo para a Sra. Peters. "Sou a Agente Especial Dana Scully; este é o Agente Especial Fox Mulder. Somos do FBI, e viemos investigar o incidente da noite passada."
Marilyn Peters os estudou por um momento, então olhou para Andy. "E você é?"
"Andrea Baker, do Ledger-Enquirer," a repórter disse.
A outra mulher acenou brevemente. "Você encontrará o escritório de relações públicas no lado oeste," ela disse rapidamente, e voltou sua atenção para Mulder e Scully. "Por que não vêm comigo e discutimos isso em particular."
Mulder viu Scully lançar um olhar de desculpas a Andy Baker, e então os dois agentes seguiram a Chefe de Informações Médicas por um corredor para outro escritório, onde ela gesticulou para as duas cadeiras em frente à escrivaninha.
"Agora," disse a Sra. Peters, sentando-se à mesa. "Suponho que me dirão por que estão aqui."
Mulder permaneceu calado, deixando mais uma vez Scully falar, e com algumas frases curtas ela deu uma versão editada do interesse deles no caso, concluindo com uma reiteração da autoridade deles para revisar os registros sob o Ato de Privacidade. Quando ela terminou de falar, a outra mulher uniu os dedos na frente dela e pareceu perdida em pensamentos por um momento. Finalmente, ela disse, "Sinto muito, mas não poderemos ajudá-los." Ela ergueu uma mão para frear qualquer objeção. "Eu não disse que não estamos dispostos; eu compreendo a Lei, e este centro médico sempre cooperou com as autoridades da melhor forma possível. No entanto, desta vez não *podemos* ajudá-los, porque os registros não estão mais aqui."
As sobrancelhas de Scully subiram, e Mulder sentiu seus olhos se arregalarem.
"Não estão aqui?" ele perguntou. "Como podem não estar aqui?"
A Sra. Peters parecia um pouco desconfortável, mas respondeu, "Os pacientes e suas fichas foram transferidos esta manhã."
"Transferidos?" Scully repetiu, num tom incrédulo. "Você quer dizer que transferiu as cópias, não é? Vocês não mandariam os originais."
A outra mulher apertou os lábios. "Neste caso, enviamos os originais." Ela piscou rapidamente para um papel na escrivaninha, e então olhou novamente para os agentes. "Houve 127 casos na triagem. Não tivemos tempo de tirar cópias." Ela apertou os lábios novamente, e Mulder percebeu que ela não estava muito feliz com a situação. "Eu... Prometeram que os registros seriam devolvidos no devido tempo," ela finalizou.
"Para onde foram tranferidos?" ele perguntou.
A Sra. Peters olhou rapidamente para ele, e então desviou o olhar. "Lamento. Não estou autorizada a dizer."
Mulder assentiu devagar, e percebeu que no fundo deveria ter esperado por algo assim. Ele se recostou na cadeira, combatendo uma onda de desespero que ameaçava consumi-lo. Eles perderiam novamente. Menos de vinte e quatro horas após o ocorrido, a máquina já estava em ação...
"Mulder!" Ele ergueu os olhos, e viu Scully de pé na frente dele, com a mão em seu ombro. "Vamos," ela disse. "Isso ainda não acabou."
Ele a encarou por um momento, tirando força do olhar dela. Ele vinha fazendo muito isso nos últimos meses e parte dele odiou o senso de dependência que criou dentro de si. Mas ele não podia fazer nada; não tinha mais nada em que se agarrar.
E após um momento ele se levantou e a seguiu para fora da sala.
12:21 p.m.
Os dois entraram no corredor, mas antes que Scully pudesse expressar sua próxima sugestão -- achar Andy e ver se ela teve mais sucesso -- a repórter apareceu a poucos metros deles. Ela olhou para Scully e fez um pequeno aceno com a cabeça, para que os agentes a seguissem. Scully olhou para Mulder e ele, de volta para ela... E eles se viraram para seguir Andy.
Ela se virou quase imediatamente para eles e nada poderia ter escondido o brilho em seus olhos. "Forte Benning", ela sussurrou. "Eu sabia. Eles estão no Forte Benning."
Scully se adiantou. "As vítimas? *Todas* elas?"
"Como você descobriu?" Mulder perguntou.
Andy deu um largo sorriso. "Sempre custa fazer amigos na equipe de serviços ambientais."
Rodovia Georgia 520
Leste de Columbus, GA
1:22 p.m.
O cheiro de hambúrgueres gordurosos e batata-frita enchiam o carro, com Mulder dirigindo com uma mão só, almoçando enquanto falava. A velocidade era mantida a 55 Km/h, sob o conselho de Andy de que os policiais adoravam parar quem excedia a velocidade.
"Então, se o campo estiver ao sul da base, eles provavelmente farão triagem em um hangar," ele disse. "Eu esperaria que transportassem algumas das vítimas para fora dali. Se for o que achamos que é, precisarão mantê-los congelados."
"Por que?" Scully perguntou, parando para beber o chá. "Se querem incubadoras, por que mantê-los congelados? Por que não deixá-los gestarem?"
Mulder deu de ombros. "Chamaria muita atenção," ele disse. "Obviamente querem manter em segredo. A última coisa que querem é um bando daquelas coisas repulsivas correndo por aí."
"Com licença."
A voz de Andy veio do banco traseiro, e os agentes viram seus olhos arregalados e a face pálida. A voz tremeu quando ela continuou, "Mas do que diabos vocês estão falando?"
Mulder e Scully trocaram olhares por um longo momento, concordando silenciosamente. Mulder voltou a prestar atenção na estrada, enquanto Scully se virou no banco para encarar Andy completamente. "Isso vai parecer, bem, loucura," ela começou.
1:45 p.m.
Até Scully terminar a história, Mulder tinha estacionado numa loja de conveniência ao lado de uma reserva militar. Ela editou a explicação, mantendo a cautela, e foi cuidadosa ao cobrir os diferentes pontos de vista dela e de Mulder, mas ainda incluiu a maioria das informações pertinentes. Andy manteve um silêncio atordoado, ainda tentando absorver tudo o que ouviu.
"Então as abelhas estão levando este vírus, e se alguém é picado, gera esta... criatura dentro dele?" ela perguntou, em tom cético.
Mulder atirou um sorriso debochado para Scully. "*Isso* soa familiar, Scully", ele disse, em tom de provocação.
Scully o ignorou sugestivamente e falou com Andy. "Eu sei que é inacreditável", ela disse. "Eu mesma não acreditei, e ainda não concordo com tudo o que Mulder acredita. Mas eu sei que há algo grande acontecendo, e eu -- nós -- vamos descobrir o que é."
Andy sentou reta. "Conte comigo," ela disse, firme.
Mulder se virou para encará-la. "Devemos avisá-la, Andy, que será perigoso," ele disse, obviamente escolhendo cuidadosamente as palavras. "Scully e eu somos treinados para isso. E armados. Não acho uma boa idéia você..."
"Fuzileiros Navais, quatro anos, mais oito nas Reservas Ativas," Andy o cortou.
"Minha arma e licença estão na minha casa. Leve-me até lá para pegá-las e trocar de roupa, e estou dentro."
Scully estudou-a por um longo momento, então acenou e virou para Mulder.
"Vamos fazer isso antes de tentarmos a base," ela disse. "Você conseguiu toda informação que queria no drive-thru?"
Mulder assentiu enquanto ligava o carro. "Muitas estradas e encruzilhadas, e acho que a segunda será nossa melhor aposta", ele disse. "Andy, dê uma olhada no caminho de volta e me diga se qualquer coisa parecer incomum ou fora de lugar. Havia algumas ruas fechadas com barricadas de concreto, mas parece que têm estado assim há um tempo."
"Ok," Andy disse. "Há duas bloqueadas assim o tempo todo, mas a maioria das estradas está aberta. Você notou alguma patrulha?"
"Branco claro com luzes azuis", Mulder confirmou. "Dois deles, cada um indo a uma direção. Normal?"
"Pode-se dizer que sim," veio a resposta. "E nós..."
Um som vibrante e estridente a cortou e todos os três pegaram seus celulares.
"O meu", Andy disse, apertando um botão e respondendo com "Baker." Ela parou para ouvir, então disse, "Onde?"
Ao tom excitado na voz de Andy, Scully virou para olhar para a repórter que estava segurando um caderno. Andy anotou algo, então falou novamente no telefone, dizendo, "Eu estarei lá."
Ela encerrou a chamada, então sentou para frente. "Vá direto o mais rápido que conseguir", ela disse. "Houve um ataque de abelhas em Riverwalk."
Riverwalk
Columbus, GA
1:57 p.m.
A viagem até o local do ataque demorou mais do que Mulder gostaria, mas a menos que ele quisesse se desfazer totalmente do conselho de Andy, ele não teve escolha. Os poucos minutos que eles poderiam ter ganhado no passeio breve de vinte milhas teriam sido mais que compensadores do que a demora causada por um encontro com um policial chato que os reteve, e assim ele manteve a velocidade fixa e torturante de umas 57 milhas por hora.
Mulder estava decidido a não permitir que essa oportunidade escorregasse entre os dedos. Ele sentiu um medo temporário no escritório de Marilyn Peters, mas a determinação e confiança de Scully o tinham rejuvenescido como sempre, e agora finalmente ele estava começando a sentir bem sobre a investigação. Tudo parecia estar entrando em lugar.
Quando eles chegaram ao local do ataque, muitos veículos de serviços já estavam presentes, incluindo duas ambulâncias e meia dúzia de carros do esquadrão de várias jurisdições. Também havia uma pequena multidão de talvez duas dúzias de espectadores sendo mantidos à distância por dois oficiais uniformizados.
"Ótimo! Parece que somos os primeiros a chegar." Essa era Andy, já saltando do banco traseiro e tirando seu celular enquanto rumava para o centro da atividade. Mulder a seguiu, Scully se arrastando atrás, e viu Andy apertar um dos botões de discagem rápida. Depois de um momento, ela disse ao telefone "Aqui é Baker. Diga ao Eddie que eu estou na cena agora..."
Mulder ignorou a repórter enquanto ele a seguia, reduzindo a velocidade do passo só o bastante para permitir Scully para alcançá-los. Ele olhou para a parceira e contraiu os lábios enquanto acenava a cabeça na direção de Andy. "Parece que ela está na área dela", ele observou.
Scully deu de ombros, séria. "Ela tem trabalho a fazer, assim como nós, Mulder."
"Meu nome é Andrea Baker, e estou com o Ledger-Enquirer de Columbus."
Mulder olhou novamente para frente para ver Andy segurando uma carteira aberta na frente do xerife grande e corpulento que bloqueava a passagem dela. "Eu não quero interferir", Andy continuou, "mas eu preciso cobrir esta história." O homem já estava balançando a cabeça antes mesmo de ela terminar de falar -- e então Scully se adiantou, o distintivo em mãos.
"Sou a Agente Especial Dana Scully," ela disse, "e este é o Agente Especial Fox Mulder. Somos do FBI, e a Srta. Baker está conosco."
Mulder viu as sobrancelhas do deputado se erguerem e sentiu os próprios olhos arregalarem em surpresa, mas antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, o outro homem estava encolhendo os ombros e saindo do caminho, e então as duas mulheres estavam caminhando rapidamente e Mulder teve que correr para alcançá-las.
"Eu adoro quando você é poderosa, Scully", ele disse com um sorriso leve e foi recompensado com uma sobrancelha curvada antes de virar a atenção dele à cena em frente -- e de repente nada parecia engraçado mais. Havia três -- não, quatro corpos espalhados pela grama que descia até o rio. Um paramédico e um oficial uniformizado trabalhavam em cada uma das vítimas, enquanto outros dois oficiais transportavam materiais e equipamento apressadamente das ambulâncias de espera. Scully já estava se adiantando, Andy na sua cola, e uma vez mais Mulder teve que correr para acompanhá-las. Um dos oficiais avistou-os e corria para pará-los, mas Mulder mostrou seu distintivo ao homem e novamente eles puderam passar. "Eu sou médica," Scully disse, se ajoelhando ao lado da primeira vítima. "O que temos aqui?"
O paramédico trabalhando no caso olhou brevemente para a parceira de Mulder, e então de volta para a vítima -- e Mulder viu que era uma adolescente, talvez de quinze anos, loira e muito bonita. Ela estava virada para cima, os olhos fechados e completamente imóvel -- ou morta ou inconsciente. Mulder chegou mais perto e viu o tórax dela subir e descer. Não estava morta, então. Pelo menos, ainda não.
O paramédico balançava a cabeça. "Não temos certeza, madame. Ela disse que foi picada por uma abelha antes de desmaiar -- aparentemente, havia um pequeno enxame delas, alguém mexeu numa colméia ou algo assim. E a princípio parecia choque anafilático -- cianose, taquicardia, falta de ar... apresentação clássica de sintomas. Mas olhe isso."
O paramédico levantou a pálpebra direita da garota, e Mulder se inclinou sobre os ombros de Scully para olhar mais de perto. Ele estava chocado -- mas não surpreso -- em ver um familiar óleo negro se mexendo pela superfície do olho da garota. Ele ouviu Andy engasgar, e murmurou, "Bem, acho que isso resolve tudo."
Scully olhou para ele e acenou com a cabeça severamente, então olhou de volta para o paramédico. "Já vimos isto antes", ela disse. "Nós precisamos levar esta menina a um hospital, imediatamente. Ponha-a em dois litros de oxigênio e se prepare para transportá-la. Avise pelo rádio e alerte a emergência para se preparar para induzir hipotermia."
"Hipotermia?"
"Faça isso!" Scully disparou. "Se eu for parar para explicar, ela pode morrer." Ela se levantou e foi até a próxima vítima, com Mulder e Andy em seus calcanhares.
A segunda vítima era um homem na casa dos 30 anos, sua condição aparentemente idêntica à da garota. Scully repetiu as instruções, fez o time designado para o caso trabalhar, e marchou decidida até a terceira vítima, uma mulher Afro-americana de meia idade deitada a alguns metros à frente deles.
"Jesus!"
Mulder se virou à exclamação de Andy e seus olhos alargaram em choque à vista de quatro caminhões de exército verdes claros que saltavam por cima do meio-fio e pela grama, dispersando tanto a polícia quanto os espectadores e finalmente parando a alguns metros da primeira vítima. Times de soldados vestidos em trajes de isolamento e equipamento completo de combate saltaram da parte de trás de todos os quatro caminhões e se arrastaram pela margem do rio, empurrando os espectadores civis com eficiência cruel enquanto juntavam as quatro vítimas e colocavam cada uma em um caminhão de espera. Então o comboio pôs-se em movimento novamente, e no momento seguinte, havia desaparecido.
