– Que porra que você está fazendo, Sesshoumaru? – falou consigo mesmo enquanto dirigia para casa que coincidentemente era próxima ao orfanato da menina – Que porra que você está fazendo?!

Nunca admitiria para ninguém, mas se arrependimento matasse, ele já estaria morto por causa daquila menina. Havia ficado semanas observando-a como se fosse um assassino serial, deixando de lado várias reuniões de trabalho só para ter aqueles curtos momentos nos finais de tarde. Até fez uma promessa, mas acabou sendo a única que o youkai não conseguiu seguir em todos os seus longos anos de existência.

Foi recepcionado pela jovem governanta, não deveria ter mais do que seus vinte e cinco anos, havia sido recomendada por Izayoi depois que a antiga cometeu suicídio pulando do telhado da mansão, que é feita em materiais modernos e em arquitetura avançada. A antiga governanta havia sido recomendada pela mãe de Sesshoumaru, então o tempo passou e a mulher deixou uma carta em cima dos travesseiros da suíte principal. Até hoje ele não sabia o que falava na carta, jogou-a no fogo crepitante da lareira antes de dormir, e então no outro dia percebeu que ela havia se jogado lá de cima.

– Seja bem-vindo, Sr. Sesshoumaru - ...mas ele parecia estar muito longe em seus pensamentos, passando diretamente pela atual governanta... – O jantar está...

Sesshoumaru não estava bem o suficiente para se alimentar. Não sabia se estava fazendo besteira ou queria apenas proteger a menina, infelizmente não tinha a menor idéia do que aquele seu comportamento poderia sinalizar para a menina. Por ser muito nova e extremamente... alheia à realidade... seria difícil vê-la com dois grandes olhos recheados de expectativas e interesses. Jogou seu sobretudo negro em cima da poltrona vermelho-sangue, e quando desabotoava a camisa de seda negra que ele sentiu falta de algo.

A mansão não tem o cheiro dela.

Havia se envolvido naquele odor doce e suave dentro do carro, foi sequestrado sutilmente por ele e quando deu por si já cheirava a mão que fechou o pulso da menina. Fechou os olhos. Sabia que estava sendo um maníaco, nem queria saber quantas vezes ele tinha a idade dela. Sesshoumaru agora estava forçado a interromper seus instintos, sabia que era errado.

Mas ao mesmo tempo não queria cancelar o jantar.

– O que fazer? – suspirou exausto enquanto terminava de se despir para tomar banho.

(...)

– Está tudo bem? – perguntou Sakura no meio da aula de jardinagem, uma das atividades extracurriculares que ambas faziam três vezes por semana nas tardes.

Rin cortava várias mudas de plantas enquanto a amiga as separava em cima do balcão do laboratório ao ar livre da Academia de Kyoto. Era uma das atividades que a menina mais gostava em toda a Academia porque ela simplesmente poderia respirar o ar livre e ter contato com a natureza. Ficava em um lugar diferente, mas eram três quadras de distância.

– Por quê não estaria? – Rin perguntou de volta em um dar de ombros, fingia não notar o seu nervosismo por ter que encontrar o youkai mais tarde.

– Não sei, eu estou te perguntando, doidinha – respondeu rindo – Qual das plantas você quer separar para pesquisa?

– O arbusto da família das Rosáceas – respondeu se levantando da terra recém-adubada, teria que tomar o banho mais rápido da sua vida para ter tempo de se arrumar. Só de pensar aquilo, suas pernas tremiam embora a curiosidade só aumentasse. As dúvidas a respeito de suas roupas pipocavam em sua mente também, não tinha conseguido nada das outras meninas – Ele está mais estragado, acho que a outra dupla não está cuidando dele. Vou deixar uma nota para a professora a respeito disto.

– Você ainda não me respondeu – insistiu a amiga, mas Rin estava indecisa quanto comunicar aos outros que conviviam com ela sobre o youkai que encontraria mais tarde para jantar.Sesshoumaru Taisho não é um mero youkai. Só isso já assustava, e esconder essa informação seria desejável.

Mas...

– Jura que não vai encher o meu saco? – perguntou mordendo o lábio inferior, nervosa. Sakura tinha uma rede de informações muito boa por causa de seus pais.

A amiga ergueu uma sobrancelha. Os cabelos loiro-claro conseguiam ser... er, esquece. Japonesa de cabelo claro sempre seria algo estranho para a jovem Rin, ou talvez Sakura seja estranha. Talvez.

Limpou os joelhos com um pano umedecido, se aproximando do balcão e da pia onde a amiga estava terminando o trabalho. Rin respirou fundo enquanto o olhar intrigado da menina a analisava atentamente, gerando mais curiosidade.

– Não, não juro – respondeu de imediato – Me fala logo! Agora já estou ficando um pouco preocupada, você tem o costume de andar por aí sozinha e...

– ...Sesshoumaru Taisho quer me ver daqui a pouco – cortou-a rapidamente, seu coração batia acelerado.

Sakura piscou uma vez. Duas vezes. Três vezes.

– Se for uma brincadeira, é de péssimo gosto – falou seriamente, cruzando os braços.

Hein?

Coçando o pescoço, e um pouco arrependida de ter contado aquilo, Rin balançou a cabeça enquanto lavava as mãos na pia. Procurava evitar o olhar direto da amiga.

– Não é uma brincadeira, Sakura – começou cuidadosamente – Ontem ele me levou até o orfanato, e...

Sakura nem esperou-a terminar, interrompeu a limpeza de Rin para chacoalhá-la.

– Sua... louca...! – exclamou assustada, largando uma Rin um tanto quanto tonta – Sesshoumaru Taisho é um demônio! Bem, youkais são demoníacos, sim, mas no sentido de que ele é um demônio! Sabia que uma governanta suicidou por causa dele? Sem falar nas pessoas quedesaparecem da vida dele em um estalar de dedos!

Err...

Os olhos da amiga estavam tão sérios e decididos a falarem mal do youkai que Rin desistiu de falar mais. Nem contaria que iria jantar justo na casa dele, seria melhor assim. Afinal, por que mesmo que ela contou à Sakura?

– Ele não pareceu assim – comentou inocentemente – Ele foi...

Sakura revirou os olhos impacientemente.

– Dizem que ele come as meninas e depois mata, Rin!

Oi?

– 'Come'? – perguntou confusa – Então ele come as meninas vivas?

A amiga acertou a própria testa com um tapa leve.

– Sempre fiquei com medo de você entrar em uma furada, não tem ninguém para cuidar de você, só aquele orfanato idiota que tá nem aí pra você – falou após um suspiro – Está decidido, você vai para minha casa dormir lá hoje.

– Sakura, eu disse para Sesshoumaru Taisho que aceitaria jantar com ele hoje – alegou – Não sou de falar sim, e depois falar que não. Se eu aceitei, então tenho que arcar com minha responsabilidade. Mesmo se eu fosse para sua casa, ele não deixaria.

– Porque? – perguntou assustada – Como assim?

Rin deu de ombros.

– Ele disse que me buscaria na Academia, e temos que entrar com o relatório ainda hoje – respondeu organizando suas coisas em cima do balcão – Fique tranquila, nada vai acontecer. Acho que as pessoas inventam essas coisas sobre ele.

A colega, e amiga, a observava como se não pudesse acreditar naquilo que Rin dizia tão facilmente.

– Uma vez minha mãe estava entrando com um processo contra os Taisho, representando uma médica lesada por eles há algum tempo, - Sakura contava com uma expressão sombria no rosto – mas mamãe recebeu um recado desse Sesshoumaru Taisho avisando que, caso continuasse com aquilo, teria sérios danos. Ela deixou o caso para um colega da firma, e ele insistiu... mas aí que começou o horror. A casa do homem pegou fogo um dia depois de entrar com o processo. Não preciso dizer que nenhum advogado aceitou a causa daquela médica mais. Você sempre foi ingênua, vai acabar mergulhando numa fria!

Por mais que as pessoas falassem que o jeito de Rin era um tanto quanto inocente, a mesma não se sentia tão irresponsável quanto Sakura costumava colocar. Sempre se virou suficientemente bem, toda vez que alguma adversidade aparecia no caminho, Rin tratava dela com seriedade. Esse tipo de acusação já a estava deixando sem paciência, pois...

...a vida é minha.

– Se eu sobrevivi tão bem a ponto de passar em segundo lugar no exame da Academia de Kyoto, - começou a argumentar após alguns minutos de silêncio no laboratório – mesmo não tendo nenhuma orientação de pessoas mais velhas, acho que tomo as decisões corretas. A decisão é minha. Você tem para quem voltar na sua casa, já eu não.

Sakura enfiou suas coisas na própria mochila rapidamente, sem nenhum cuidado com o que estava lá dentro, e deixou a folha de relatório em cima do balcão para Rin terminar de fazer. A verdade era que Sakura dependia mais da ajuda da amiga do que o contrário. A órfã analisou a folha praticamente em branco enquanto a amiga colocava a mochila nas costas. Com uma expressão nada contente com a atitude de Rin, Sakura balançou a cabeça e suspirou.

– Ok, está bem – concordou praticamente conformada com a situação – Mas não esquece de me ligar. Sei que você não tem um celular, mas no orfanato tem telefone. Me liga, tá? Preciso saber dos detalhes dessa loucura sua.

Rin assentiu levemente, pegando a lapiseira e uma borracha para finalizar o relatório e entregá-lo o mais cedo possível. Sakura mandou um beijinho, assoprando-o na mão, e saiu da sala rapidamente. Ela não era estúpida, sabia que a amiga tinha ido embora mais cedo só para não ter que espancá-la por causa de sua decisão. Por ser algo extremamente pessoal, não dizia respeito à ela.

Ela errou o relatório inteiro.

Não conseguiu deixar de soltar um palavrão, foi como se o dia estivesse cada vez mais atolado de coisas para fazer. Por quê isso está acontecendo só hoje? As coisas não costumavam ficar tão apertadas em seu dia a dia, e hoje todo mundo estava se superando. De início, na primeira aula de álgebra, a professora passou um cálculo tão difícil que Rin ficou quebrando a cabeça durante o horário do recreio. Agora era a fúria de Sakura durante o relatório da aula de jardinagem.

E ainda tenho que me arrumar.

Olhou no relógio de pulso. Sesshoumaru Taisho teria que esperá-la um pouquinho mais porque as coisas não sairiam do jeito que havia planejado. Terminou com o relatório o mais rápido possível, mas sem deixar de ser perfeccionista, e saiu correndo até a Academia para entregá-lo.

Procurou suas roupas quando adentrou o banheiro feminino do lugar, que era feito a partir das cobranças da equipe de natação, o que já ajudava Rin em suas coisas. O bom de se estudar em um colégio extremamente bem planejado, era ter um leque de opções que colégios normais não tem. Apoiou sua bolsa em um dos bancos e retirou dela um vestido verde-claro feito em um tecido bem leve. As mangas eram compridas e um pouco largas a partir do cotovelo, mas era apenas isso o seu diferencial. Sem estampas ou enfeites chamativos, os ombros nus ficavam à mostra. Não tão curto assim, um pouco acima dos joelhos, era um vestido que a deixava discreta, mas arrumada.

Foi o melhor que consegui.

Acordou de madrugada apenas para passar a roupa, e agora todo o seu esforço havia sido recompensado. A roupa acabou caindo muito melhor do que imaginara, vestindo-a depois que tomara o banho mais rápido de toda a sua vida, e até se admirou no espelho. O que a estava deixando tão bonita assim? Seria a roupa ou a situação?

Pelo menos no meu ponto de vista.

Por não ter as orelhas furadas, Rin se contentou com uma simples correntinha prateada ao redor do pescoço. Fez uma maquiagem tão discreta a ponto de pensar que estava sem maquiagem, não porque era essa a sua vontade, mas porque não tinha o suficiente para criar uma. Um blush rosado leve, um rímel preto e pronto. Não tinha mais nada a se fazer.

Olhou no relógio de pulso novamente.

Droga!

Enfiou tudo em sua bolsa, deixando os livros no seu armário da Academia, e correu até a portaria.

Olhou para os lados, não havia quase nenhum aluno do lado de fora. As aulas haviam terminado há praticamente vinte minutos e o sol brilhava alaranjado, pronto para se pôr. Um vento um tanto quanto frio passou por Rin, fazendo o tecido do vestido dançar seguindo o seu ritmo. Respirando fundo, a menina se sentou em um banco em frente o colégio e ali ficou...

...apenas dez segundos.

Um carro preto, justamente o que a levou para o orfanato ontem, parou do outro lado da rua. Indecisa, a menina não sabia exatamente o que fazer pois o vidro era tão escuro que não discernia quem estava lá dentro. Se levantou para ver se enxergava melhor, e Sesshoumaru Taisho desceu o vidro do carro. Ele claramente percebeu o que estava acontecendo, para a sorte dela. Não queria entrar em um carro desconhecido, existiam mil daqueles ali na parte rica do centro de Tóquio.

Adentrou o carro imediatamente, sentindo os olhos âmbar do youkai a analisarem atentamente. Era engraçada aquela situação, fazendo-a rir sem-querer. Vestido em negro, aparentemente o que ele só usava, Sesshoumaru era uma visão espetacular para qualquer mulher pois o longo cabelo prateado contrastava com seu sobretudo negro. A expressão facial de superioridade, e até mesmo de dominação, criavam uma atmosfera magnética. Rin não podia negar, aquele youkai era exótico e lindo.

Mas não é para o meu bico.

Isso estava mais que claro.

– Está atrasada – falou voltando a dirigir pelo centro da cidade, já Rin sorriu um pouco sem jeito.

Pelos céus, você nem estava aqui.

– Tive um problema na aula de jardinagem hoje – explicou sorrindo, era como estivesse pedindo desculpas – O senhor ficou aqui por muito tempo? É que eu só te vi aquela hora.

Ele é tão lindo... e esquisito.

Uma aura recheada de autoridade se fazia presente. É claro que aquela figura imponente assustava qualquer pessoa, mas não ela. Não entendia o porquê de ter um sentimento de segurança quando estava perto daquele youkai intimidante, era até contraditório... se for pensar bem.

– Fiquei vinte minutos e cinquenta e cinco segundos – respondeu o youkai. Tem como ser mais exato? Acho que não...– O que houve?

Ela deu de ombros.

– É a minha matéria favorita, não admito falhas ou erros – começou a responder descontraidamente – Aí faço dupla com uma amiga minha, ela resolveu dar chilique e então deixou metade do relatório comigo. O problema era que essa parte que ela fez estava um horror, aí tive que apagar tudo e começar do zero. Eu também atrasei porque o lugar que faço essa aula não é nesse prédio. Bem, tudo se enrolou.

Sesshoumaru assentiu levemente, estavam deixando o centro de Tóquio rapidamente.

– Você está certa, se alguém não consegue fazer o seu trabalho, não pode ser prejudicada por isso – ele está... conversando comigo?– Sei que colocou o nome dela nesse relatório.

– Sim, como que o senhor sabe? – perguntou intrigada – Acho que não te falei isso.

– Parece ser o seu jeito de fazer as coisas – respondeu simplesmente – Não o faria pois cada um tem que arcar com suas responsabilidades.

– O senhor exige demais das pessoas, às vezes temos dias ruins.

Olhando de lado para ver qual era a reação do youkai, Rin chegou à conclusão de que ele se reprimia completamente. Não entendia o porquê mas Sesshoumaru deveria ter um motivo, uma razão, muito forte para ser daquele jeito. Mas não importava, ela se sentia atraída por ele.

O que não é lá uma novidade.

O problema era que ele de modo algum se sentia da mesma forma que ela. Isso era óbvio, as razões do jantar deveriam ser outras... ela definitivamente não tinha a menor idéia.

– Você que é muito ingênua – falou com aquela língua afiada que parecia ser uma de suas características principais – Não pode acreditar nas desculpas que as pessoas dão para não fazer algo.

– Todo mundo que conheço já comentou que sou ingênua, mas não acho que eu o seja tanto assim – ela falava descontraidamente, era como se já conhecesse aquele youkai há muito tempo – Se eu fosse tão ingênua assim, não teria passado na Academia.

– Talvez – respondeu Sesshoumaru – Estamos chegando, é um pouco longe da cidade.

Haviam saído completamente de Tóquio, tomando uma estrada que Rin nunca reparou em toda a sua vida mesmo morando por aquelas bandas. Estavam sozinhos no meio da escuridão, sendo iluminados por postes negros que não pareciam pertencer ao governo, ela reparou que o jardim da propriedade possuía uma grande diversidade de plantas, chamando-lhe a atenção imediatamente.

– Aqui parece ser interessante – comentou admirada com os carvalhos antigos que acompanhavam a estrada – Onde estamos?

Com a mesma expressão facial de sempre, Sesshoumaru checou-a com uma olhadela rápida.

– Na minha mansão.

'Mansão'?

– O jardim parece ser muito bonito, pena que está um pouco escuro – falou levemente, estava se sentindo estranha... como se algo estivesse tranquilo e leve dentro de si... – Os carvalhos parecem ser tão antigos.

Rin notou que ele queria falar algo, mas não tinha o talento de ficar quieta na presença dele. Simplesmente falava, falava e falava mais ainda. Se estranhava porque não era uma menina lá muito dada às amizades, geralmente tinha um jeito mais tímido.

Não com ele.

– Chegamos.

Era uma mansão, de fato, mas bem diferente. Era uma arquitetura moderna que lembrava as novas instalações da universidade de Tóquio, e não tinha a menos idéia de quantos quartos haviam sido construídos naquele imensidão. Uma fonte de pedra branca, e enorme diga-se de passagem, ficava na frente da construção. As janelas enormes pareciam dar uma sensação de liberdade que as casas japonesas não tinham. Sesshoumaru parou na entrada, e antes de ajudá-la a descer, Rin já explorava o lado de fora. As rosas brancas em vasos de porcelana rodeavam a escadaria, eram tão grandes quanto as que criavam em laboratório.

Sorrindo, a menina sentiu o olhar do youkai em suas costas.

– São rosas cultivadas aqui? – perguntou admirada, e ele assentiu – Mas como são tão grandes? Olhe só essas pétalas!

– Não entendo muito de jardinagem, mas você parece gostar – comentou subindo as escadas, era como se ele dissesse: 'Vamos logo' – Não pensei que tivesse tanto interesse assim.

Ela se esforçou para acompanhá-lo, subindo os degraus rapidamente.

– Lido melhor com plantas e animais do que com pessoas – revelou sorrindo – Tenho essa característica desde quando me entendo por gente.

Sesshoumaru abriu a porta da frente e permitiu que ela entrasse primeiro, fechando a porta assim que ambos ficassem lá dentro. Totalmente iluminado, o lugar parecia fazer parte daqueles museus de arte contemporânea que atraía gente famosa. O enorme luste de cristal do hall de entrada chamou-lhe a atenção de imediato, logo em seguida se dirigiu até as obras de arte.

Logo escutou o barulho do impacto do salto no piso.

Toc. Toc. Toc.

Uma jovem uniformizada entrou no hall de entrada abrindo um sorriso como se ver Sesshoumaru Taisho fosse um deleite para os seus olhos. Rin reparou que a mulher estava quase devorando o youkai com os olhos, mas ela lhe direcionou um olhar confuso quando percebeu que havia mais alguém lá dentro.

– Bem-vindo, Sr. Sesshoumaru – ela recepcionou-o impecavelmente, ignorando a presença da menina – O jantar será servido em dez minutos.

O que não passou despercebido pelo youkai.

Sesshoumaru parece ser o tipo de homem difícil de lidar.

– Onde você quer jantar, Rin?

Os dois a miravam atentamente, fazendo suas pernas tremerem diante de tanta atenção. Olhou para a mulher, depois para o youkai. Os olhos âmbar eram indescritíveis de tanta profundidade, penetravam facilmente em qualquer material. Já a mulher a olhava estranhamente.

E eu nem entendi a pergunta.

– 'Onde'? – repetiu mexendo na correntinha ao redor do pescoço, e sorriu sem jeito.

– No jardim – ordenou à mulher sem esperar outra resposta da menina – Em cinco minutos.

A governanta fez uma reverência e saiu do hall de entrada, mas antes havia analisado a menina da cabeça aos pés. Rin ficou com a sensação que a mulher não gostara da sua presença ali, fazendo-a lembrar do caso da ex-governanta que suicidou do alto do telhado daquela mansão. Pelo menos foi o que Sakura havia lhe dito naquela tarde. Mas Sesshoumaru não parecia abalado pelos olhares da mulher, era como se ela fosse um item dispensável para ele.

Talvez seja minha impressão.

– Desculpe, eu não havia entendido o que o senhor quis dizer – observou-o por alguns segundos enquanto o mesmo retirava o sobretudo negro e jogava em cima do sofá de seda bege-claro – Quem é aquela mulher?

– A governanta – respondeu aproximando-se dela – Quer conhecer a mansão?

É um item dispensável mesmo.

O lugar era incrivelmente grandioso. As salas tinham uma temática diferente, algumas tinham o piso diferente do resto da mansão. Ela nunca havia entrado em um ambiente tão luxuoso, então cada cômodo se tornava uma surpresa. Suspeitava que ele se divertia às suas custas, principalmente quando ela perguntou quantos quartos ali tinha. Um incrível número de trinta e duas suítes, vinte quartos, e à medida que Sesshoumaru apresentava as principais delas, mais Rin tinha a sensação de que era uma mansão feita para muita gente... mas como ele mesmo disse, morava sozinho ali há...

...cem anos.

– Sozinho? – perguntou surpresa, ligeiramente boquiaberta – O senhor sempre morou sozinho aqui? Como consegue?

– Digo o contrário, como consegue morar em um orfanato? – revidou com uma pergunta, deixando-a mais surpresa ainda enquanto andavam pelo corredor iluminado e opulento – Pesquisei sobre ele. Pouca estrutura para muita gente.

Ela sorriu, chamando a atenção do youkai.

Ele está menos... fechado.

– Divido o quarto com outras meninas, não é o que possa chamar de bom – respondeu admirando Sesshoumaru, e se concentrou tanto nele que acabou esbarrando em um enfeite de cristal no formato de vaso decorativo – Ai, desculpa!

Por sorte o enfeite só balançou, e não caiu de lado. Ela respirou aliviada, mal chegou na casa dele e já estava pronta para destruir alguma coisa. Coçou o pescoço sem-graça e olhou para Sesshoumaru Taisho, que a analisava atentamente. Rin ficou com uma pergunta na ponta da língua, mas não teve coragem de fazê-la. Poderia ser apenas um engano, mas...

...qual o motivo da minha presença aqui?

Como ele parecia permanecer com a mesma expressão facial, era difícil saber o que pensava ou sentia.

Daí outra pergunta apareceu em sua mente.

Eu não o conheço, mas por que me sinto tão tranquila perto dele?

– Continue – ele pediu, e voltaram a andar pelo corredor como se nada tivesse acontecido – Você falava do orfanato.

– Ah, sim! - ...ai, que vergonha... só espero não tagarelar...– Tem muita gente sim, eles acolhem meninos e meninas, então vira uma bagunça mesmo. Eu sempre tenho que estudar na Academia porque lá é impossível, eu não tenho sossego nem mesmo para dormir. Minhas colegas de quarto costumam colocar música, e preciso dormir para acordar cedo. Sou a única que estuda para ser alguém na vida, elas só se preocupam em arranjar namorado ou algo do tipo. Não sei como a mente delas funciona, sempre foi um mistério para mim. Tenho o costume de colocar o despertador às cinco da manhã para dar tempo de arrumar minhas coisas e chegar no centro de Tóquio, aqui é bem longe. Aí quando chego adiantada, quando não tenho imprevistos, tenho o hábito de ir estudar na biblioteca. Falando nisso, aquela biblioteca é perfeita. Mas voltando ao orfanato, sempre tivemos uma disciplina pesada e eles não aceitam nenhum aparelho eletrônico e aí todo mundo faz escondido.

...tarde demais.

Rin sempre conseguia estragar as situações em que se enfiava. Lidar com pessoas não era exatamente os eu ponto forte.

Mas ele nada falou, apenas a observou... e quando a situação parecia ficar constrangedora, a jovem governanta uniformizada apareceu no final do corredor. Ela ainda olhava para Rin estranhamente, e esta não entendia porque aquilo acontecia. Estava bem vestida, bonitinha e tranquila. Não havia nada para se preocupar, pelo menos para a inocente menina.

Logo foram direcionados para uma varanda no térreo que tinha como vista um enorme lago, que combinava com o jardim de extremo bom gosto e a iluminação escondida dentro de arbustos, nos pés das árvores e em cima da pequena murada que rodeava aonde eles ficaram. Não soube de onde surgiram tantos criados, um deles afastou a cadeira para que ela se sentasse, e assim o fez... mas não deixou de lançar um olhar curioso para Sesshoumaru. Reparou também que nenhum dos empregados se aproximou do imponente youkai, outro fator curioso que chamou-lhe a atenção.

Uma travessa de alguma comida que ela desconhecida foi colocada em sua frente e um outro criado serviu em seu prato de porcelana negra, o formato era de um quadrado. Tudo estava cada vez mais curioso e interessante para a pequena Rin.

E ninguém serviu-o também.

Esperou o criado terminar de lhe servir suco de morango na taça para voltar a conversar com Sesshoumaru, que agora se servia.

– Por que eles não te serviram?

– São humanos, Rin – respondeu calmamente – Eles preferem assim, e eu concordo com a distância.

Tomou um gole do delicioso suco antes de voltar a falar, não sabia que comida era aquela... mas era saborosa. Não se lembrava ter comido algo tão exótico em toda sua vida, e gostado. Um creme estranho com uma carne desconhecida, e mesmo entendendo bastante de jardinagem jamais conseguiu cozinhar no mesmo nível.

– Eu sou humana – constatou o óbvio – E estou próxima do senhor.

– É diferente – discordou servindo-se do suco – Te escolhi para se aproximar de mim, então é óbvio que não pretendo te espantar.

– Tá... – Rin tomou mais outro gole do suco, era extremamente viciante pois não sabia o que tinha ali direito - ...mas o senhor ainda não me explicou a diferença.

– Até quando o orfanato permite sua estadia, Rin? – ele me ignorou totalmente.

Mas como a comida estava gostosa, e o suco mais ainda, resolveu não insistir naquele assunto. Seria abusar da boa vontade alheia fazer um questionamento enquanto aproveita os mimos daquela visita.

Tenha bom senso, Rin!

– Depende – respondeu incerta, era uma área complicada da sua vida – Vou me formar mais cedo por causa da Academia de Kyoto e o orfanato nos coloca para fora aos dezoito anos normalmente. Isso vai acontecer mais cedo comigo, então já tenho procurado alguns lugares para morar... que caibam no meu bolso, é claro.

– Com quantos anos isso acontecerá? – perguntou estranhamente interessado, ela não deixou de perceber.

Que suco gostoso!

– Aos dezesseis, pelo que me parece – respondeu – Daqui menos de dois anos, sem falar que estou sempre estudando para passar em alguma universidade. Já é caro ter que me bancar sozinha em Tóquio, pior ainda será se eu acabar pagando faculdade. Espero que isso não aconteça, sério. Meus planos iriam por água abaixo.

– Entendo – falou calmo, era como se aquele estado de humor fosse permanente nele – Sei que o que você tem é insuficiente para ser independente.

Isso todo mundo sabe, mas não custa sonhar.

Mas peraí, como ele...?

Sentiu uma tontura surgir lentamente, mas penetrante. Fechou os olhos enquanto massageava as têmporas, não entendia porque aquela sensação de sono começou a crescer verticalmente dentro dela. Respirou fundo antes de abrir os olhos, o seu prato estava pela metade mas o suco já tinha acabado. Sesshoumaru terminava de servi-la mais.

– Me desculpe, estou me sentindo um pouco tonta – comentou tomando mais do suco, mas a aparência gélida do youkai nada demonstrava – O que você estava falando mesmo?

'Você'?

Será que ela se sentia tão confusa assim?

– O orfanato recebe muitos pedidos de adoção, Rin?

Ai.

Outra pontada penetrou-a, gerando uma dor de cabeça terrível. Nem deu atenção ao que Sesshoumaru falava porque sua mente parecia estar toda embaralhada, agora ela confundia o que estava comendo e o gosto do suco de morango. Pensando bem, não tinha tanto gosto de morango assim mas continuava sendo perfeito. Fechou os olhos e ficou assim por alguns segundos, e nada do youkai se manifestar.

– Oi? – a menina abriu os olhos mas ainda com as mãos nas têmporas – Desculpe, eu não estou passando muito bem. Não entendo porque estou assim.

E ele nada lhe respondeu.

Sua vista começou a embaçar lentamente e em poucos segundos um sono pesado tomou conta de sua mente, a consciência logo se desligou. Era uma sensação desamasiadamente esquisita para a jovem Rin, era a mesma coisa de desligar um aparelho eletrônico. Uma hora ela estava acordada, na outra jazia de olhos fechados e debruçada em cima da mesa.

N/A: Olá, queridxs! Estou gostando dos comentários, Lapstift e Sotam. Até hoje não consegui decorar seu nome 'Lap-Lap' hahaha estou apreciando voltar para esse antigo shipper que ainda mexe comigo. Obrigada pelos comentários, pensei que essa categoria estivesse vazia. Na época que escrevia costumava lotar isso aqui, mas vai saber. Estou com essa nova 'pegada', como disse a Lap-Lap, que mistura o objetivo com os acontecimentos físicos e com menos enrolação. É, muito menos hahaha. Sotam, eu sei falar inglês mas tenho a sensação que você é made in brasil-sil haha se não for, welcome!