Rachel podia sentir os olhares em cima dela. Nunca se sentira tão observada como agora. Sempre havia sonhado com o dia em que todos iriam ter as atenções voltadas para ela e esse dia finalmente chegara.

Mas o motivo pelo qual as pessoas observariam cada um de seus movimentos, nos sonhos dela, era totalmente diferente do de agora. Seria porque ela era uma estrela da Broadway, uma atriz consagrada, ganhadora de vários Tony Awards, talvez até, quem sabe, pretendendo investir na carreira cinematográfica. Todos estariam especulando quando ela ganharia seu primeiro Oscar. Certamente não demoraria muito, eles diriam.

Mas não era por isso que Rachel chamava a atenção naquele momento. As pessoas olhavam para ela não com admiração, mas com curiosidade, até mesmo choque. Ela procurou ignorar o motivo. Independente do que fosse, já era uma oportunidade de ir treinando para quando se tornasse uma celebridade.

As pessoas viam como Finn Hudson e Rachel Berry conversavam amigavelmente perto do armário dela. Sim, vocês leram bem: Finn Hudson e Rachel Berry! Ninguém mais, ninguém menos. Finn Hudson, que estava no topo da pirâmide social do Mckinley High, e Rachel Berry, que estava quilômetros abaixo da última camada desta mesma pirâmide.

Eles especulavam desde quando os dois eram amigos. Era bem verdade que ela sempre estava andando para cima e para baixo com o meio-irmão dele, Kurt Hummel, mas nunca a viram trocando uma palavra com o quarterback Finn. Isso não era contra as leis do colégio, ou algo do tipo?

Era como imaginar o grande rei leão se tornando amigo do mais insignificante dos animais da floresta.

Era uma boa metáfora, Rachel pensou. As pessoas os olhavam tão fixamente que ela estava mesmo se sentindo um animal. Sendo que um num zoológico, exposta à observação dos curiosos que passavam.

Até mesmo Finn, acostumado a ser o centro das atenções, estava se sentindo um pouco desconfortável com tamanho interesse. Quando concordara com aquele plano, ele não tinha se lembrado da diferença de popularidade entre os dois. Mas Finn não estava desapontado, pelo contrário. Quanto mais atenção chamassem, mais as pessoas falariam sobre o assunto, o que significava que mais comentários chegariam aos ouvidos de Quinn. E tudo aquilo era só o começo, eles ainda nem tinham começado a "namorar".

– O plano está dando certo. – Finn falou, num cochicho, para que apenas Rachel pudesse escutar.

– Parece que sim. – ela respondeu, no mesmo tom baixo. – Eles parecem bem chocados, no entanto.

– Ah. – Finn encolheu os ombros. – Era de se esperar.

– Humm. – foi a resposta dela.

Não era apenas o fato das pessoas estarem olhando para ela que era estranho. O fato de eles estarem conversando um com o outro, por si só, já era uma situação completamente nova. Rachel estava acostumada a admirar o garoto de longe, mas agora ela olhava diretamente nos olhos dele. E ele a olhava de volta! Finn Hudson, o sonho de consumo de Rachel Berry, desde que ela se entendia por gente, tinha toda a atenção voltada para ela!

E agora que podia olhar bem, Rachel viu que os olhos dele eram mais claros do que ela pensava. Naquele momento, ela se sentiu hipnotizada por eles. Além do mais, por causa da diferença de altura, ele estava um pouco inclinado na direção dela, para poder falar mais baixo e, assim, ninguém além deles mesmos poderia escutar. Sem perceberem, eles forneciam uma cena ainda mais íntima para aqueles que os olhavam.

Rachel só precisaria ficar nas pontas dos pés para que...

– Mas já está na hora da aula, melhor nos apressarmos. – Finn falou e obrigou Rachel a voltar à realidade, piscando os olhos três vezes. – Vamos que eu te acompanho até sua sala.

Ela concordou com a cabeça e os dois finalmente saíram de onde estavam e começaram a andar pelo corredor, ele segurando os livros dela. Mas não estavam de mãos dadas ainda. Por enquanto, os dois eram apenas amigos.

Minutos mais tarde, quando Rachel se sentou em sua cadeira, já dentro da sala de aula, ela lentamente pôs a mão sobre o lado esquerdo da face, com o olhar perdido. Ele a tinha beijado bem ali!

Rachel mal podia acreditar no que havia acontecido. Finn acabara de lhe dar um leve beijo no rosto, ao se despedir dela, na porta da sala de aula. Naquele momento, Rachel pedia a Deus, com todas as forças, para não acordar ainda, caso aquilo fosse um sonho.


– O que significa tudo aquilo? – Mercedes perguntou a Rachel.

Os três amigos, Rachel, Kurt e Mercedes estavam sentados perto um do outro, na sala de coral. Esta última correra para o lado deles assim que os vira. Ela não tinha visto a cena, mas ouvira comentários e estava disposta a descobrir tudo naquele exato momento.

– Rachel, – ela continuou. – eu ouvi todo tipo de comentário sobre você e Finn Hudson. – ela olhou para Kurt. – Finn Hudson, irmão dele. – de volta para Rachel. – Que história é essa?

Rachel trocou olhares com Kurt. Eles não tinham contado nada para Mercedes ainda e não sabiam se deveriam contar. Era como Kurt dissera antes, quanto menos gente soubesse melhor. Mas Rachel conhecia Mercedes há muito tempo e confiava nela tanto quanto confiava em Kurt. Quando terminou de contar tudo o que havia acontecido, Mercedes a olhava com o queixo caído.

– Quer dizer que você vai namorar com Finn?

– De mentira. Nós não vamos namorar realmente.

– Mas todo mundo vai pensar que vocês estão namorando.

– Sim, essa é a ideia. – falou Kurt.

– Você vai ajudá-lo a voltar com Quinn? Por que faria isso? – Mercedes estava confusa. Até onde ela sabia, Rachel gostava de Finn, portanto não havia lógica nela querer que ele e Quinn voltassem a namorar.

– Bom... – Rachel olhou para Kurt, procurando ajuda. Ela não tinha certeza de como explicar.

– Rachel está aproveitando a oportunidade para poder passar um tempo com ele. – explicou Kurt. – É tudo parte do plano. A ideia é que eles possam se conhecer melhor e aí, quem sabe, Finn possa mudar de opinião em relação a Rachel. Se isso não acontecer, e ele ainda quiser voltar com Quinn, pelo menos ela vai ter tentado.

– Sei. – disse Mercedes.

Ela via uma brecha naquele plano, mas não sabia se deveria dizer ou não. Sim, era uma chance de sua amiga, que suspirava pelos cantos por causa daquele garoto, conseguir o que sempre quisera. Mas se ela não conseguisse, se Finn voltasse para Quinn no fim das contas, Rachel poderia acabar pior do que havia começado. Aquilo poderia causar muito sofrimento, e ela seria a única a sair mal dessa história.

– Você não pode falar nada a ninguém, Mercedes. – pediu Kurt. – É segredo absoluto. Ninguém pode saber, senão vai acabar chegando aos ouvidos de Quinn e o plano irá por água abaixo.

– Não vou falar nada. – foi o que ela decidiu responder.


Rachel estava voltando para casa com Finn e Kurt, na camionete de Burt. Ela estava sentada no banco da frente, Kurt, no banco de trás e Finn, no do condutor. Kurt estava falando qualquer coisa atrás dela, mas Rachel olhava, com o canto do olho, para o garoto sentado ao seu lado, enquanto ele prestava atenção na estrada.

Ela pensava em como as coisas haviam mudado tão de repente. Há uma semana atrás, a vida dela corria na normalidade de sempre. Mas agora, ela estava sentada no carro, ao lado de Finn, pela terceira vez naquela semana. Rachel ainda não conseguia acreditar que tudo aquilo fosse verdade.

Já era sexta-feira de novo, e o plano de fazer ciúmes em Quinn estava em seu quinto dia. Finn e Rachel estavam juntos sempre que podiam, mostrando para todos que haviam se tornado amigos. Eles sentavam juntos nas aulas em comum e também no refeitório. Finn agia de forma gentil com ela e, passado um tempo, os dois já até conversavam com certa naturalidade.

No começo foi difícil, eles não tinham muito assunto a falar. Rachel sabia de várias coisas sobre Finn, mas ele mal a conhecia. Depois de uns três dias, no entanto, já se sentiam mais confortáveis um com o outro. Ela tinha que agradecer a Kurt por isso, era ele quem intermediava as coisas entre Finn e Rachel no começo, já que conhecia os dois muito bem.

Teve a impressão, inclusive, de que Finn estava realmente interessado nas atividades do Glee Club, toda vez que começava a falar sobre o assunto. Ela começara meio hesitante, mas ele fazia cada vez mais perguntas, e, se tinha algo sobre o qual Rachel gostava de falar, era sobre o Glee. Cantar era sua vida.

Olhou para ele de novo. Às vezes, sem perceber, Finn tocava na mão dela, ou no braço, e, sempre que acontecia, Rachel se estremecia da cabeça aos pés. E quando ele beijava seu rosto, depois de deixá-la em frente à sala de aula e ir embora para a turma dele, Rachel não sabia como conseguia continuar de pé, de tanto que os joelhos tremiam.

Com o passar do tempo, ela agradeceu a Kurt, internamente, por tê-la convencido a aceitar aquilo. Ainda que fosse de mentira, ainda que a intenção dele fosse a de reconquistar Quinn, Rachel aproveitava cada minuto que eles passavam juntos. Ela sabia que, se não fosse por aquele plano, nada disso aconteceria. Nunca. E ela estava feliz por estar tendo aquela oportunidade. Era muito mais do que jamais imaginara acontecer.

Por falar em Quinn, ela ainda não demonstrara nenhuma reação aos falatórios. Rachel percebera o jeito que a loira olhava para os dois algumas vezes, parecia tão chocada quanto o resto dos estudantes. Mas era só. Se bem que ela e Finn não haviam feito nada demais até o momento, afinal, para todos os efeitos, os dois apenas haviam se tornado amigo, portanto, aquilo ainda não era uma competição para Quinn. Finn havia comentado que a esperança dele era que a ex-namorada demonstrasse uma reação mais eloquente quando os dois começassem a "namorar" de fato. Rachel tinha esperanças de que não.

Ela desejava, com todas as forças, que Quinn não ficasse com ciúmes e quisesse voltar com Finn. Porque Rachel sabia que, ao menor sinal, ele sairia correndo atrás dela, sem nem pensar duas vezes.

– Amanhã é aniversário da minha mãe. – comentou Finn, de repente, ainda prestando atenção no trânsito. – Nós vamos todos ao Breadstix. Você não quer vir?

Ao ouvir o convite, Rachel deu um largo sorriso. Kurt já a havia convidado, mas que Finn a convidasse significava muito mais. Até porque eles não estariam no colégio, então, se Finn a estava chamando, era porque gostaria da presença dela lá, pura e simplesmente.

– Minha mãe não está sabendo do nosso plano, então nós temos que ser amigos na frente dela também, assim como de Burt.

Ah.

O sorriso dela murchou. Ela havia se esquecido desse detalhe. Claro que Finn só queria que ela fosse por causa do plano, no que ela estava pensando?

– Aham. – foi só o que ela respondeu.


No dia seguinte, Rachel estava no Breadstix, sentada à mesa entre Kurt e Finn. A família toda havia se reunido para o aniversário de Carole, e Rachel se preocupara o dia todo com a possibilidade dela achar estranho sua presença ali. Por mais que Carole sempre a houvesse tratado bem e dito que gostava muito dela, Rachel nunca estivera presente em seu aniversário.

Ela sempre fora a amiga de Kurt, Carole era a mãe de Finn, e, até aquele momento, Carole mal vira Rachel e Finn trocando palavras de cumprimento sequer. Rachel temera se sentir desconfortável, mas Carole rapidamente a fez relaxar. Se estranhou o fato da presença dela, pelo menos não havia demonstrado. Pelo contrário, ela agradecera a consideração da garota e pareceu ter realmente gostado do presente que Rachel lhe dera.

Nenhum deles comentou também sobre a súbita mudança de atitude de Finn em relação a Rachel. Se antes ele parecia não notá-la, agora ele conversava e até fazia pequenas brincadeiras com ela. Carole podia até não ter comentado, mas ela notara. Ah, se notara.

Finn andara triste e desiludido depois de Quinn ter terminado com ele, mas, por alguma razão, da noite para o dia, o ânimo dele pareceu melhorar cem por cento. E parecia que Rachel tinha algo a ver nisso tudo, ela parecia fazer bem a ele. Se Carole gostava dela antes, agora gostava muito mais.

Uma mãe sempre aprecia quando uma moça faz bem a seu filho.

– Como estão seus pais, Rachel? – Carole perguntou, antes de dar um gole em seu vinho tinto.

– Estão bem, obrigada. – Rachel respondeu, com um sorriso. Ninguém daquela família havia demonstrado estranhamento pelo fato de Rachel ter sido criada por dois pais gays. Esse era um dos motivos dela gostar tanto deles todos. – Papai estava gripado há uns dias atrás, mas já melhorou.

– Fico feliz que já esteja tudo bem, querida. – Carole deu uma palmadinha na mão dela, sobre a mesa. – Algum dia desses, eu gostaria que eles viessem jantar lá em casa conosco. Você e Kurt sempre foram muito amigos e você está sempre lá em casa, nós a consideramos muito, por isso sinto que talvez pudéssemos estabelecer um contato mais próximo entre as famílias.

– Ah... Claro. Eu posso falar com eles. – Rachel concordou.

– A verdade é que sempre admirei seus pais. Não deve ter sido fácil para eles ter criado uma garotinha numa cidade como essa. E posso dizer que, mesmo assim, eles fizeram um trabalho estupendo com você.

– Sim. – Rachel sorriu, com orgulho. – Eu não os trocaria por nada. Devo tudo a eles.

– Isso é uma verdade. – comentou Kurt. – Rachel é assim tão obstinada e decidida porque teve em quem se espelhar. Eles são osso duro de roer. – ele riu. – Por isso conseguiram criá-la bem, mesmo com todas as dificuldades.

– Obstinação é uma das maiores qualidades de uma pessoa, se for bem usada. – declarou Burt. – Não se consegue nada de importante nessa vida sem um pouco de teimosia. Olhe para Finn. – todos olharam e Finn de repente se recostou no assento, como se alguém o tivesse empurrado. – Finn não me aceitava no começo. – ao recomeçar a falar, todos olharam para Burt de volta. – Ele achava que eu ocuparia o lugar do pai dele. Não queria que me casasse com Carole. Eu poderia ter desistido, mas nós temos que lutar por aquilo que vale a pena. – Burt abraçou a mulher pelos ombros com um braço. – E tanto Carole quanto Finn valiam a pena.

Rachel olhou para Finn de novo. Seria isso que Finn pensava de Quinn? Ele achava que ela valia a pena todo o esforço? Será que ele a amava de verdade? Teria Rachel direito a interferir nessa relação e tentar roubá-lo para si?

Mas era como Kurt havia falado. A obstinada ali era ela e essa era sua chance de lutar por ele. Talvez não conseguisse, mas ia tentar, e se Finn e Quinn se amassem de verdade e estivessem destinados mesmo a ficar juntos, então nada nem ninguém impediria que aquilo acontecesse, nem mesmo ela.