Entre a Raposa e o Falcão

Escrita por BastetAzazis

Capítulo 3: A Vila do Som

O que estaria escondido por trás da figura de um ninja envenenado?

Quando Sakura cruzou as fronteiras entre o País do Fogo e o País dos Campos de Arroz, sentiu o mesmo frio na barriga que a dominara quando ela, Naruto e o Capitão Yamato invadiram o esconderijo de Orochimaru anos atrás, na esperança de reencontrar o companheiro perdido do Time 7. Aquilo lhe trazia péssimas lembranças. O espanto ao encontrá-lo, amadurecido, ainda mais bonito, imponente e impassível ante os antigos amigos. A constatação de que ele realmente jamais evoluiria tanto se tivesse permanecido em Konoha. A decepção ao ouvir que sua vingança era mais importante que até mesmo sua própria vida. Mesmo sabendo que ele nunca traíra Konoha, que ele os ajudara a conquistar a paz que as vilas shinobi gozavam agora, ela deixou a antiga Sakura – aquela que sofria pela perda do amor de infância – a dominasse num único momento de melancolia. Depois, levantando a cabeça, disse para si mesma que estava lá não para correr atrás do Sasuke, mas para atender um chamado dele. Era ele quem precisava da ajuda dela, era ele quem reconhecera o seu valor.

Uma revoada de pássaros chamou sua atenção assim que pisou no país estrangeiro. Parecia um bom presságio; era uma imagem bonita com o pôr-do-sol ao fundo, e Sakura continuou sua jornada seguindo as explicações que Sasuke indicara em sua carta. Ela não precisou andar por mais de meia hora, e um ninja do Som apareceu em sua frente. Ela o reconheceu como Juugo, um dos três acompanhantes do Sasuke no dia que ele fingiu invadir Konoha.

- Sakura-sama – ele a cumprimentou.

Sakura respondeu com um assentimento de cabeça, e ele continuou:

- Sasuke-sama me pediu que a escoltasse até a vila oculta. Estes campos não são seguros para quem não é daqui.

Ela estranhou as últimas palavras, afinal, já estavam vivendo um período de paz há cinco anos, quais perigos uma ninja treinada como ela, uma sannin, correria naquele país? Mas Juugo não lhe disse mais nada, apenas pediu para que ela o seguisse. Antes disso, ela reparou que ele parecia conversar com um pássaro semelhante aos que ela vira anteriormente, e a ave voou rapidamente do ombro dele para o mesmo sentido que eles se dirigiam.

Eles andaram por mais alguns minutos até chegarem numa pequena fortaleza. Juugo fez sinal para que ela entrasse, e depois explicou:

- Este é o esconderijo sul. Nós seguiremos pelos labirintos subterrâneos. Não é permitido que um ninja de outra vila conheça a localização exata de Otogakure.

- Claro – Sakura respondeu, contrariada. Ela estava ali para ajudar, a pedido do próprio Sasuke, e era tratada como uma prisioneira ou uma invasora.

As paredes rústicas iluminadas por pequenos castiçais presos entre as rochas a fizeram relembrar novamente daquele dia, quando ela correu desesperada, cômodo por cômodo, procurando pelo Sasuke; a idéia de que Sai tinha a missão de matá-lo assombrando seus pensamentos. Como ela fora tola, pensando que Sai podia ser um perigo para o "novo" Sasuke. Agora, ela andava calmamente, seguindo Juugo pelos inúmeros corredores que se dividiam e viravam ora para um lado, ora para outro, seguindo um padrão que ela jamais seria capaz de repetir sozinha.

Num determinado ponto, eles subiram por uma escada mal iluminada e chegaram num corredor semelhante, mas cheio de portas em suas paredes. Seguiram ainda mais alguns metros, até que Juugo parou em uma das portas e avisou:

- Chegamos. Satoshi-kun está neste quarto.

- Hai – ela assentiu, esperando que Juugo abrisse a porta.

Era um quarto simples de hospital. O garoto, Satoshi, parecia inconsciente e recebia algum tipo de medicamento pelo braço. Mas o que mais chamou atenção da Sakura foi a menina de olheiras profundas sentada ao lado da cama, segurando firmemente a mão do garoto. Uma inspeção mais cuidadosa, e Sakura reparou no vaso de flores sobre a mesinha ao lado da cama, recordando-a dela mesma, quando tinha a idade que a menina aparentava. Haviam duas flores nele, uma delas claramente era mais nova que a outra, indicando que a menina estivera lá todos os dias.

- Momiji-chan – Juugo chamou a menina. – Esta é a médica que Sasuke-sama mandou chamar de Konoha.

A menina levantou os olhos para examiná-la. Um brilho intenso iluminava o azul enfraquecido de outrora, mas quando ela abriu a boca para falar, foi outra voz que Sakura ouviu. Uma voz que há muito tempo ela ouvia apenas nos seus sonhos mais secretos.

- Sakura.

O tom dele era seco, frio, mas ainda assim foi capaz de fazê-la prender a respiração. A médica de Konoha virou-se quase que instantaneamente, e seus olhos se arregalaram ao encontrar o companheiro que não via há cinco anos. Ele não mudara muito, ela examinou, a expressão do rosto parecia ainda mais séria e amadurecida, e o kimono aberto na frente ainda a fazia se perder na imagem do peito delineado que ele desenvolvera enquanto ainda estava sob o treinamento do Orochimaru.

- Obrigado por vir – a voz dele preencheu o quarto, trazendo-a de volta para o presente.

Sakura aceitou o raro agradecimento com um leve assentimento da cabeça, imaginando se era apenas impressão dela ou se a voz dele denunciava o constrangimento daquelas palavras. Mas lembrando-se por que estava ali, afastou aqueles pensamentos da mente e tentou se concentrar no seu trabalho como médica. Afinal, era apenas para isso que ele a chamara.

- O que... O que aconteceu com ele? – perguntou, apontando para o garoto na cama.

- Satoshi e seu time tinham a missão de levar documentos importantes para o Senhor do País do Arroz, mas foram surpreendidos no caminho por um grupo que tentava um golpe de estado. Os ladrões sabiam que os documentos estariam protegidos por ninjas e usaram um veneno desconhecido em suas armas.

- E o que aconteceu com o time dele? – Sakura perguntou, temendo o pior.

- Satoshi protegeu Momiji e Rioko para que eles pudessem completar a missão – Sasuke respondeu, movendo os olhos por um breve momento para a menina ao lado da cama e, depois, voltando-se para Sakura. – Com os inimigos derrotados e os documentos entregues, os três voltaram para a vila. Karin conseguiu curar o maior estrago que o veneno fez aos órgãos vitais, mas todos os esforços dela parecem inúteis. É como se, depois de curado, ele voltasse a ser exposto ao veneno novamente.

Enquanto Sasuke falava, Sakura já se dirigira para a cama onde estava o garoto do Som e começava a examiná-lo, concentrando seu chakra nas mãos e colocando-as sobre o corpo imóvel.

- Entendo – ela respondeu quando Sasuke terminou sua explicação, sua atenção voltada inteiramente para Satoshi. – O veneno atingiu todos os órgãos vitais, e vai continuar agindo sobre eles até destruí-los. Uma técnica de cura só fará com que o veneno continue agindo indefinidamente, num processo vicioso de cura e deterioração.

- Isso significa... – a menina, Momiji, finalmente falou, segurando com força a mão do companheiro de time do outro lado da cama – que o Satoshi-kun... Que ele... ele... não vai mais melhorar?

Sakura levantou os olhos para a menina. Os olhos azuis, que antes brilhavam de esperança, voltaram à cor pálida, e via-se claramente que ela lutava contra as lágrimas que queriam transbordar. Sakura sentiu um aperto no peito como nunca antes sentira nas vezes que precisara dar más notícias à família de algum ninja sob seus cuidados. Prendendo os cabelos ao alto da nuca, como sempre fazia quando estava empenhada em seu trabalho, ela respondeu:

- Eu posso retirar o veneno através da imposição de chakra e, depois, verificar o verdadeiro estrago nos órgãos internos. Mas não posso garantir nada.

Momiji arregalou os olhos e os moveu até Sasuke, que permanecera em silêncio, refletindo.

- É um processo doloroso para ele, e dependendo de como o veneno tiver se ligado aos tecidos dos órgãos, ele pode não suportar – Sakura explicou, observando Sasuke tomar sua decisão. – E dependendo da gravidade dos danos, mesmo que ele sobreviva, apenas uma cirurgia muito arriscada poderia garantir que ele volte a ter uma vida normal.

O quarto ficou em silêncio por alguns minutos, até que Sasuke finalmente se pronunciou:

- Se você retirar o veneno – ele ponderou –, pode trabalhar num antídoto?

Sakura apenas assentiu com a cabeça, contrariada. Não acreditava que ele estava pensando em antídotos enquanto ela tinha um garoto morrendo a sua frente.

- Entretanto – ela acrescentou –, é tarde demais para um tratamento apenas com antídotos para o Satoshi-kun.

Sasuke moveu os olhos rapidamente para Momiji, que continuava agarrada à mão de Satoshi, lutando para parecer forte e não chorar. Voltando-se para Sakura, declarou sua decisão:

- O importante para a vila é conseguir este antídoto. Não podemos permitir que mais ninjas sejam impedidos de completar suas missões por causa de um veneno desconhecido.

Sakura estreitou os olhos para o antigo companheiro de time, indignada com a frieza com que ele tomava suas decisões. Ele sempre fora assim, ela lembrou, talvez por isso o papel de líder de uma vila como o Som lhe caía tão bem.

No instante seguinte, a porta do quarto se abriu num estrondo, e uma voz estridente chegou aos ouvidos de todos os ocupantes do recinto.

- Momiji-chan! A médica de Konoha está aqui! Ela veio salvar o Satochi!

Sakura correu os olhos para o garoto de cabelos escuros e espetados que acabara de entrar. Os olhos também escuros brilhavam de alegria, até que ele percebeu as presenças no quarto e, principalmente, o olhar frio e quieto do Sasuke.

- Sasuke-sensei... – ele disse de cabeça baixa. – Eu não sabia que...

- Você não sabe de muitas coisas, Rioko – Sasuke o repreendeu, com a voz baixa mas firme. – Se tem tempo de ficar correndo e gritando pelos corredores da ala do hospital, deveria dedicar mais tempo ao seu ninjutsu. Você não melhorou nada desde que Satoshi está internado.

- Eu... sinto muito, sensei – o menino respondeu, envergonhando.

Não precisou mais nada para que Sakura entendesse que aquele era o outro integrante do time de Satoshi e Momiji, e que os três eram treinados pelo próprio Sasuke. Agora ela também entendia por que ninjas tão novos foram enviados para uma missão rank A.

- Juugo – a voz de Sasuke soou autoritária –, leve Rioko e Momiji daqui. Quanto mais tempo demorarmos, menos chances o Satoshi terá de sobreviver.

Ao ouvir essas palavras, os olhos de Rioko se arregalaram assustados, movendo-se ora para o amigo hospitalizado, ora para Momiji, que se agarrara com ainda mais força à mão de Satochi.

- Por favor, Sasuke-sensei – a menina implorava com os olhos lacrimejando. – Eu quero ajudar...

Sakura apenas observou com tensão o olhar repreendedor que a menina recebera do sensei, mas o que mais a chamou a atenção foi a expressão de tristeza, desapontamento e conformação que tomou conta do garoto que antes entrara tão alegre no quarto. Ela conhecia aquela expressão, não era apenas movida pelo complicado estado de saúde do amigo, mas pela constatação do quanto Momiji estava sofrendo.

- Momiji-chan... – Confirmando as suspeitas da médica-nin, Rioko correu para o lado da amiga, tentando consolá-la. – O Sasuke-sensei tem razão, é melhor a gente deixar a médica cuidar do Satoshi.

- Na verdade – Sakura resolveu interromper, comovida com a cena –, eu vou precisar de ajuda para retirar o veneno do corpo do Satoshi-kun. – Virando-se para o Sasuke, ela continuou: - Se o Sasuke-sama não se opor, vocês podem ficar.

Sasuke apenas assentiu com a cabeça, fazendo com que Momiji e Rioko ouvissem atentamente a lista de material que Sakura pedia para eles providenciarem. Quando tudo estava pronto, Sasuke, Juugo e Rioko ficaram encarregados de segurar o corpo inconsciente de Satoshi, enquanto Momiji auxiliava Sakura com seu jutsu médico. A cada intervenção da médica-nin, forçando seu chakra no corpo do garoto, Satoshi se debatia violentamente, obrigando Sasuke e Juugo usarem cada vez mais força para que o tratamento pudesse continuar. Com um relance para frente, os olhos de Sasuke e Sakura se encontraram por um breve momento, e ela pode ler uma preocupação e um sofrimento que jamais imaginaria observar no semblante do impassível Uchiha. O momento passou, e ela precisou se concentrar no seu paciente, mas alguma coisa naqueles olhos pretos tão obscuros lhe diziam que aquele menino era realmente importante para ele. Sem perceber, ela esboçou um sorriso ao pensar que Sasuke ainda era capaz de formar laços.

Levou mais de uma hora para que Sakura conseguisse tirar todo o veneno ligado aos órgãos de Satoshi, e os demais ocupantes do quarto esperavam ansiosamente pelo diagnóstico quanto aos verdadeiros estragos da substância. Sakura tentou evitar os olhos esperançosos e inchados pelo choro de Momiji quando quebrou o silêncio do ambiente:

- Ele ficou muito tempo sob o efeito do veneno – anunciou, mirando um ponto qualquer na parede a sua frente. – Eu poderia curá-lo, mas precisaria de pelo menos mais dois médicos para tratar os órgãos vitais ao mesmo tempo, e mais dois substitutos caso o chakra não seja suficiente.

O quarto ficou em silêncio profundo. Quando Sasuke falou, foi para pedir que Juugo retirasse seus dois outros alunos, que ele precisava falar a sós com a Sakura.

Momiji e Rioko seguiram Juugo, mas a menina, antes de chegar à porta do quarto, deu meia volta e correu para a frente de Sakura.

- Sakura-sama, por favor... – Os olhos azuis suplicavam, a voz dela era um fio fino que lutava para atravessar a garganta presa pelo choro. – Por favor, salve o Satoshi... Eu... Se ele precisar do meu chakra, se...

O coração endurecido pelo tempo de Sakura não foi capaz de ignorar um pedido tão sincero. Momiji não precisava terminar a frase para ela entender o que a menina lhe pedia; ela também já tinha sentido aquilo uma vez. Com um gesto tranqüilizador, Sakura levou uma mão ao rosto de Momiji, afagando-o.

- Eu farei o que puder, Momiji-chan – garantiu com um sorriso. Entretanto, dentro dela, Sakura sentia que havia poucas esperanças para o garoto.

Momiji retribuiu o sorriso e pareceu tranqüilizada, saindo rapidamente na direção de Juugo e Rioko. Quando ficou sozinha no quarto com Sasuke, Sakura foi a primeira a falar:

- Quem é esse menino? Por que ele é tão importante para você a ponto de fazer isso?

Ele a considerou com o cenho franzido.

- Eu não sei do que está falando.

- O que foi toda essa cena? – Sakura continuou, levantando a voz. – Por que me trazer aqui, me fazer vivenciar tudo isso de novo, depois de tantos anos?

Sasuke continuou a observá-la, quieto.

- Por que garantir que eu me sensibilizaria a ponto de ser facilmente convencida a ultrapassar meus limites para salvar esse garoto? Por que fazer tudo isso, Sasuke?

Irritada com a falta de respostas, ela simplesmente deu as costas para ele, voltando-se para o garoto sucumbindo na cama. Sem ela perceber, Sasuke deu alguns passos para frente, e sua voz soou mais perto quando ele falou novamente.

- Depois de todos esses anos... – ele disse, praticamente ao lado dela – e eu ainda não consigo esconder nada de você, não é mesmo?

Sakura virou o rosto bruscamente, encarando-o com o cenho franzido.

- Eu podia lhe dizer que Satoshi é um dos meus melhores ninjas, mas você percebeu que não é só isso – ele continuou. – Ele é meu aprendiz, eu o treino há cinco anos, desde que voltei para o Som. Quando eles chegaram com ele inconsciente e nenhum tratamento dava resultado, você foi a única pessoa que me restou para pedir ajuda.

- É claro que eu vou ajudar – Sakura assentiu, comovida –, é o meu dever como médica. Você não precisava colocar os companheiros dele na minha frente para me convencer.

- Eles são uma célula tripla – Sasuke respondeu prontamente. – Eu não precisei colocá-los na sua frente para convencê-la de nada. Mesmo que eu os proibisse de estar com o Satoshi, sei que eles dariam um jeito de me desobedecer.

- Hunf! – Sakura bufou, virando-se para Satoshi para não ser obrigada a encarar Sasuke. – Então você ainda se lembra dele...

Sasuke ficou em silêncio e parou nas costas dela, observando o garoto por cima dos ombros da médica, até começou a falar, quase encostado ao ouvido dela:

- Kakashi sempre foi mais que um mero sensei para mim. E o Satoshi me faz lembrar muito de mim mesmo quando tinha a idade dele. – Depois de um breve momento em silêncio, ele continuou, numa voz quase impossível de se ouvir, não fosse a proximidade dos dois. - Por favor, Sakura... Se tem alguma coisa que você possa fazer por ele... Ele é o filho que eu nunca tive...

Sakura arregalou os olhos sem se virar para ele. Não podia acreditar que Sasuke estava lhe pedindo ajuda com tanto cuidado, que ele estava abrindo seu coração daquela maneira. Ela sabia o quanto era difícil para ele se ligar a alguém, e se entristeceu com o fato que, sem a ajuda que ela estava começando a concluir que não teria, o garoto tinha poucas chances de vida.

- Eu já disse – ela respondeu, sem se virar. – Traga-me mais duas pessoas capazes de realizar jutsus médicos, e eu poderei começar a cirurgia.

- Eu não posso fazer isso – Sasuke respondeu, categoricamente.

Sakura apenas se virou, para finalmente encará-lo.

- Não há ninguém no Som treinado em jutsus médicos – ele respondeu à pergunta não formulada. – Kabuto era o único, e obviamente ele não se preocupou em passar suas técnicas para ninguém. Esta ala hospitalar é o que resta das pesquisas do Orochimaru em tentar retardar a própria morte, mas não podemos contar com muita coisa além de casos como a Karin, que tem uma técnica própria de cura.

- Eu entendo – Sakura assentiu, pesarosa.

Sasuke estava de cabeça baixa. Ele sempre evitava encará-la quando estava numa posição vulnerável como aquela, Sakura relembrou. Ele estava decepcionado, ela sabia. Não porque ela não poderia curar o garoto, mas com a própria impotência do Som, a vila que ele liderava. Era engraçado como mesmo depois de tanto tempo ela ainda o entendia, até o Sasuke havia comentado isso minutos atrás.

Entristecida por ser obrigada a praticamente condenar a morte um garoto que poderia ser facilmente curado se estivesse em Konoha, ela disse as próximas palavras maldizendo sua própria fraqueza:

- Com o que me resta de chakra, eu posso garantir que ele não sinta mais dor até que todos os órgãos parem de funcionar – ela disse vagarosamente, para dar ao Sasuke tempo de assimilar as palavras. - Pelo menos, isso aliviaria a morte dele.

Ele apenas assentiu com a cabeça e, sem encará-la, dirigiu-se para a porta. Antes de sair, de costas para ela, disse:

- Faça o que achar melhor. Apenas me avise quando tudo estiver terminado.

Aquele não era o Sasuke que ela imaginara encontrar no Som. Como antiga companheira de time dele, ela tivera a oportunidade de presenciar o mesmo desânimo, aquele ar de derrotado. Mesmo assim, foram raríssimas vezes. Era surpreendente descobrir que a imagem que ela tinha feito do Sasuke depois que ele deixara Konoha pela segunda vez (depois que ela se decepcionara com o modo como ele tratara seus sentimentos) não condizia com a realidade. Sasuke ainda era capaz de formar novos laços, de se preocupar com eles. O Sasuke que se revelara apenas quando estavam sozinhos era mais parecido com o Sasuke que ela imaginava todas as vezes que ela lutara para encontrá-lo e trazê-lo de volta. Por trás da imagem do líder frio e calculista, ainda existia um Sasuke de carne e osso ali, e ela, de repente, se viu na obrigação de lutar para que este Sasuke não morresse, o que provavelmente estaria mais perto de acontecer se ela não conseguisse ajudar o Satoshi.

Voltando-se para o seu paciente, Sakura respirou fundo antes de concentrar o chakra nas mãos. Dentro de si, ainda podia sentir a voz da sua mestra a repreendendo: era preciso um controle muito preciso do chakra para não desperdiçá-lo e ter o suficiente para recuperar todos os ferimentos do garoto.

"Eu devo isso ao Sasuke", ela pensou. "Eu devo isso aos laços que sempre imaginei que ele fosse incapaz de criar..."

Com as mãos unidas, ela iniciou o tratamento. Aos poucos, tentou por em prática uma nova técnica que vinha estudando, mas ainda não tivera coragem de testar. Separando as mãos, cada uma preocupou-se em usar o chakra em posições diferentes, curando vários órgãos ao mesmo tempo. Ela deixou que sua energia fluísse livremente no corpo do menino, sem sentir as horas passarem, até que o pulso dele voltasse ao normal vagarosamente. Neste mesmo instante, ela sentiu que havia cruzado um limite perigoso demais, restava-lhe pouquíssimo chakra, e ela precisou lutar contra a fraqueza que tomou seu próprio corpo. Felizmente, quando sentiu que estava prestes a desmaiar, uma enfermeira apareceu na porta.

- Sasuke-sama pediu para verificar se está tudo bem.

Sakura sorriu fracamente, sem forças sequer para levantar a cabeça até sua interlocutora.

- Sim – ela respondeu. – Ele deve acordar dentro de algumas horas.

A mulher arregalou os olhos, impressionada.

- Por favor, leve-me até o Sasuke-sama – Sakura continuou. – Eu preciso dar a notícia para ele. – Ela podia estar fraca, mas sentia que ainda precisava fazer aquilo pelo seu antigo companheiro de time. Ela queria testemunhar o sorriso dele ao descobrir que seu pupilo estava livre de riscos.

Ajudada pela enfermeira, Sakura seguiu os corredores até outra ala, sem entender exatamente onde estava. Quando pararam numa porta ao final do corredor, a mulher explicou:

- Este é o escritório dele. Vou deixá-los a sós e verificar se o Satoshi-kun precisa de alguma coisa.

- Hai – Sakura assentiu, antes de bater na porta.

Com uma ordem mal-humorada para entrar, ela abriu a porta, encontrando Sasuke sentado atrás de sua mesa. Ele foi o primeiro a falar:

- Então...? Acabou?

Sakura o respondeu com um sorriso fraco no rosto.

- Satoshi-kun deve acordar em algumas horas. Ele está... está...

Ela se esforçou para terminar a frase, mas seu corpo parecia não responder suas ordens. O escritório escureceu repentinamente, e quando ela se deu conta que estava prestes a desmaiar, sentiu um par de braços fortes em sua cintura. Depois disso, tudo ficou silencioso e escuro.

Continua...

N.A.: Yo, mina! Finalmente o terceiro cap saiu! Eu avisei que não havia previsão para atualizações, mas nem eu imaginava que este demoraria tanto! Espero que gostem.

Os odiadores do Sasuke podem achar que ele está um pouco OOC nesta fic, mas lembrem-se, ela ocorre depois do "final do mangá", ou seja, depois que o Naruto colocar um pouco de ordem naquela cabeça confusa. Eu imagino que um dia o Naruto vai conseguir mostrar ao Sasuke o quanto os laços são importantes, assim como os laços que ele agora tem com os seus alunos.

Para quem não é um SasuSaku tão viciado quanto eu, Sakura refere-se ao cap 109 do anime (ou 181 do mangá) quando diz que Sasuke nunca foi capaz de encará-la nos olhos em seus momentos vulneráveis. Outra cena que ela também se lembra quando vê um Sasuke sentido-se derrotado é a da Floresta da Morte, quando ele quase desistiu de lutar contra o Orochimaru e só mudou de idéia quando a ouviu chamando-o de covarde (não lembro os números do anime e mangá agora).