Olá. Este conjunto de cinco pequenas estórias é a resposta a um desafio de drabbles proposto no fórum Saint Seiya Yaoi (o qual pode ser visto aqui: .?mforum=ssdforum&showtopic=1415&mforum=ssdforum&st=0).
Este capítulo recebeu a nota 9 (nove).
EM TEMPOS DE PAZ
III - SILÊNCIO
Em tempos de paz...
...cultivamos nossa humanidade. Somos tão humanos quanto qualquer um que caminhe sobre a Terra. Suscetíveis aos prazeres e às dores, nos deslumbramos e nos desiludimos. Ocupamos nosso tempo com tarefas simples ou treinamentos complexos. Aproveitamos para apreciar a natureza e a vida humana que batalhamos para proteger, às vezes sacrificando nossas próprias vidas.
Nesses tempos sem guerra tudo é estranhamente silencioso. Não há gritos, não há estrondos de golpe contra golpe, nem de templos ruindo ante nossos olhos. No Santuário o dia amanhece e anoitece tranqüilo, como se fosse ele a nos admirar. E no silêncio dos nossos aposentos dormimos e temos sonhos inquietos.
Mas num desses templos há um de nós que quase nunca dorme, embora mesmo desperto ele pareça envolto num sono tranqüilo e profundo.
Quando meus pesadelos atormentam-me à noite − o sangue, os urros, as mortes − sigo até onde ele está buscando obter um pouco da paz que ele carrega consigo. No salão do templo de Virgem, sento-me ao seu lado, na difícil posição de lótus e procuro encontrar a tão sonhada tranqüilidade.
O cosmo dele é como uma fogueira, iluminando meus pensamentos, esquentando meu corpo resfriado pelas brisas gregas. E, silenciosamente, ele permite que eu compartilhe dessa energia. Silenciosamente nós passamos a noite até que eu caia no sono.
Quando acordo pela manhã, ele está sempre no mesmo lugar.
Desde que as batalhas acabaram nós nunca trocamos uma palavra. Mal nos conhecemos e nunca nos demos ao trabalho. Acho que, na realidade, isso jamais foi necessário.
Shaka é como um deus na Terra. Ele carrega o peso de conhecer verdades que eu jamais poderia contemplar. Ele está acima de meros mortais como eu que ainda estão longe de findar seu ciclo de mortes e renascimentos. Eu não sei dizer se ele é de fato uma encarnação de Buda, nem posso sequer supor o que se passa em sua cabeça. O que eu sei é que me sinto bem estando ao seu lado e que me acostumei a passar as noites deitado no chão do seu templo, às vezes mesmo quando não tenho nenhuma inquietação.
Talvez, inebriado da bem-aventurança da iluminação, ele nunca sequer tenha prestado atenção que passo quase todas as noites ao seu lado. Por muito tempo essa dúvida ficou em minha cabeça.
Certa noite notei que ele estava muito magro. Imaginei que ele não comia há dias, tão compenetrado que deveria estar em sua meditação. Na noite seguinte coloquei ao seu lado uma tigela de arroz com legumes. Ele não pareceu notar. Então sentei-me para meditar e acabei dormindo, como sempre.
Na manhã seguinte a tigela estava vazia e sobre mim havia um cobertor. Ele, no entanto, continuava no mesmo local.
− Você se move ainda... − murmurei, mais para mim mesmo.
Peguei a tigela e preparei-me para voltar ao meu templo. Antes de sair, porém, pela primeira vez depois de tanto tempo, ouvi sua voz.
− Não sou um deus. Ainda sou humano.
