Eram sonhos, eu sabia, mas era a melhor lembrança que ainda tinha deles.

Via meu pai e minha mãe parados na estação de trem sorrindo e acenando para mim enquanto eu caminhava.

Por um momento desviei os olhos deles e respirei fundo antes de encarar a parede onde vários bruxos magicamente atravessavam, havia uma plaquinha de identificação escrita Plataforma nove e três quartos.

Olhei para o bilhete em minha mão e o apertei com força, um estremecimento percorreu meu corpo, mas eu respirei fundo e empurrei meu carrinho para mais perto da parede. Mordi o lábio inferior, estava há alguns passos de atravessar a grande e extensa parede de tijolos, mas não pude refrear o impulso de olhar para trás mais uma vez.

Minha mãe enxugou discretamente uma lágrima e sorriu para mim. Sem conseguir resistir soltei o carrinho e corri para um último abraço.

Meu sorriso começou a diminuir a cada passo que dava, quanto mais corria, mais longe meus pais ficavam. Tentei gritar por eles, mas nenhuma palavra saiu de meus lábios, então forcei minhas pernas a irem mais rápido, mas subitamente senti o meu corpo quente e pesado.

Minha mãe gritou o meu nome no exato momento em que uma sombra preta encobriu os dois.

Eu estanquei apavorada ao ver a mesma sombra preta começar a vir em minha direção. Em segundos pude identificar facilmente o rosto desfigurado de Voldemort, vi a loucura em seus olhos e ouvi a gargalhada cruel quando sua sombra atravessou o meu corpo.

Subitamente senti com se mil agulhas me espetassem ao mesmo tempo. Abri meus olhos e os fechei rapidamente, dor era tanta que por mais que tentasse não conseguia segurar o gemido de dor.

- Shh, está tudo bem! – uma voz disse. Havia certa preocupação no tom, embora fosse uma voz dura.

A voz parecia familiar, girei o rosto para o lado em que ouvi a voz, mas eu não conseguia abrir os olhos. Queria gritar para que parassem com a dor, queria que a voz me deixasse em paz, desejava desesperadamente voltar a dormir.

Outra dor aguda invadiu meu rosto quando algo morno tocou minha face.

- Não, não lute Hermione. - a voz era firme e decidida - Estou tentando limpar seus ferimentos.

Estiquei meu corpo tentando afastar a dor e a pressão. Meus pulmões doíam e meu corpo inteiro ardia, se pudesse abrir os olhos teria a certeza que veria fogo ao meu redor.

Novamente senti algo morno em minha testa e sacudi cabeça tentando escapar do toque.

- Está tudo bem, Hermione.

Senti algo gelado colar em meus lábios.

- Vamos, beba. – a voz ordenou.

Em seguida entreabri os lábios e água fluiu entre eles. Não sabia como estava com tanta sede até começar a beber. Estava tentando entender o que acontecia ao meu redor, resistindo a doce tentação de fechar bem os meus olhos e voltar para a escuridão, os abri lentamente e respirei fundo, aos pouco comecei a sentir os dedos, mas era como se tudo tivesse passado por um rolo compressor gigante.

- Abra olhos. Olhe para mim Hermione, vamos!

O tom brusco imediatamente despertou meus sentidos. Mesmo com o corpo doendo terrivelmente obedeci ao comando.

Um tanto tonta comecei a olhar em volta, estava deitada em minha cama e Krum estava ajoelhado ao meu lado com o rosto sério. Olhei para o teto de pedra e trinquei os dentes com força, queria gritar e chorar. As imagens da tortura explodiram como flashes em minha cabeça. E sinceramente eu não sabia por quanto tempo mais eu conseguiria aguentar. Os comensais não torturavam apenas fisicamente e por mais forte que eu fosse, as lembranças que nos forçavam a ver me destruía enormemente por dentro.

Victor tocou meu ombro e eu o olhei. Seu rosto estava apenas alguns centímetros do meu e não havia nada romântico naquilo, eu sabia que ele podia ver toda a dor que eu sentia. Enquanto me observava, sua expressão séria e irritada passou para preocupada, a minha dor refletia em seus olhos. Krum sabia perfeitamente por tudo o que eu tinha passado, ele já fora torturado mais vezes que eu. O bruxo franziu os lábios rapidamente, o movimento era raramente usado quando estava comigo, já que denunciava o quão perigosamente feroz ele começava a ficar. Mesmo raras as vezes, o gesto singular sempre me fazia lembrar da estranha forma que o conheci de verdade.

"Eu tinha exatamente dezesseis anos quando Victor Krum foi jogado dentro de minha cela. Já era madrugada e eu ainda estava acordada, não esbocei reação, apenas permaneci deitada na cama enquanto o observava.

Com os olhos bem abertos, lentamente escorreguei a minha mão até o cós de minha calça jeans e apertei com força a pequena faca que havia roubado na hora do almoço.

Estava escuro e nenhuma luz entrava na cela onde eu estava, sabia que era questão de tempo até que o garoto se acostumasse com a escuridão e percebesse que havia mais alguém ali com ele.

Todos já tinham ouvido falar sobre o rapaz violento que não reprimia a raiva em

momento algum, eu já o tinha visto lutar na arena e ele era fantasticamente bom.

Até onde eu sabia Victor Krum ficava em uma cela sozinho, o bruxo já com os seus dezenove anos não gostava de ter alguém dividindo o mesmo espaço, e isso me preocupava enormemente.

Embora fossem infrequentes as ocasiões em que os escolhidos tivessem que lutar uns com os outros, eu não excluía essa possibilidade. Havia lutado apenas duas vezes na arena e sabia que só estava viva, porque a sorte esteve ao meu lado. Sabia que não teria chance alguma se tivesse que lutar com o rapaz.

Amanhã, quem sabe, todos veriam a encrenqueira Hermione Jane Granger morta.

Distraída não percebi a movimentação sorrateira do bruxo, só notei que o moreno estava terrivelmente perto quando sua respiração bateu em meu rosto.

Gritei e puxei rapidamente a faca. O garoto notou o meu movimento e inclinou-se para trás no exato momento em que eu tentei acerta-lo, o amaldiçoei em voz alta por ter se esquivado e com gestos rápidos troquei a faca de mão.

Krum franziu os lábios rapidamente e urrou, segurou meu braço direito com força, a sua outra mão apertou minha garganta e me empurrou contra a parede. Eu me debati e a mão em minha garganta se estreitou mais, eu já estava com dificuldade para respirar, mas quando ele aproximou o corpo do meu e eu não pude conter um pequeno sorriso.

- Quem é você? – bradou ele.

- Sou eu quem deve fazer essa pergunta.

O bruxo grunhiu e me apertou mais, eu sentia minha garganta arder.

- Eu não divido a cela com ninguém...

- Essa... essa é minha cela. – eu começava a ofegar.

- Não brinque comigo, garota. Posso matá-la facilmente.

A raiva do garoto era imensa, a respiração forte e o corpo tenso demostravam isso e eu não duvidava de suas palavras. Mas reunindo coragem, eu ri em deboche e balancei a cabeça.

O bruxo levantou-me pela garganta e por momentos não consegui respirar, quando seu corpo quase colou no meu, eu ergui as pernas e as enrolei em sua cintura. Os olhos do bruxo se arregalam quando algo frio e pontiagudo tocou seu abdômen.

- Es... esqueceu da outra mão. – o puxei com força para mais perto com minhas pernas e senti a ponta da faca afundando em seu corpo.

Ele olhou para a pequena mancha de sangue que começava a crescer em sua camisa branca e para a faca que também se manchava de vermelho. Um pouco aturdido olhou para minha mão direita que ele ainda segurava contra a parede, eu a abri e uma pedra fina e também pontiaguda caiu no chão.

Eu esperava qualquer reação de Victor Krum menos um sorriso, aquilo me desestabilizou completamente.

- Nossa... – arregalou os olhos. - Acho que empatamos, não foi?

- O quê?

O moreno sorriu e quando sua mão finalmente soltou minha garganta eu puxei a faca. Quando soltou meu braço direito e o deixou livre eu deixei a faca cair no chão.

- Você é rápida, não vi seu jogo de mãos. – deu um passo para trás e sorriu. - Creio que encontrei alguém tão esperto como eu.

Cautelosa eu caminhei até o outro lado da cela sem tirar os olhos do homem a minha frente. Não podia acreditar que estava conversando amigavelmente com aquele bruxo.

- Quantos anos tem?

- Dezesseis.

Ele me olhou surpreso e sentou-se em minha cama, vi sua mão apertando fortemente o ferimento que causei.

- Não o machuquei muito. – garanti, erguendo o queixo.

- Eu sei, não está doendo, mas não quero que minha blusa fique cheia de sangue. – ele olhou o ferimento por um instante depois para mim novamente. – Teve sorte de não acertar um...

- Sabia exatamente onde estava colocando a faca. – bradei. - Não tive em nenhum momento a intenção de feri-lo seriamente, só queria causar um pouco de dor e um susto momentâneo.

- Sendo assim eu poderia matá-la facilmente mesmo com aquela faca enterrada em mim. – levantou as sobrancelhas. – Não teve mesmo a intenção de fazer dano?

Dei os ombros e cruzei os braços. – Na verdade não achei que realmente quisesse me fazer mal. – não olhei para ele quando confessei isso.

- É... você me parece bastante inteligente. – girou o corpo e estendeu a mão. – Sou Victor Krum!

Permaneci no mesmo lugar. – Eu sei quem você é.

O bruxo sorriu e novamente ergueu as sobrancelhas. – Bem, então aonde se encaixa a parte do "Sou eu quem deve fazer essa pergunta"?

- Eu já sabia quem você era assim que o jogaram aqui dentro. Já vi você lutar e já ouvi muita coisa sobre você, seu nome causa medo e desespero. – comprimi os lábios. - E como pode notar, eu realmente pareço ser suficientemente boa e inteligente para não demostrar que já sei o bastante sobre você.

- Sim – ele concordou com a cabeça. -, é bastante fácil notar isso. E é verdade, você me surpreendeu, garotinha.

Victor continuava com a mão estendida em minha direção, não fiz qualquer movimento para ir até ele. O bruxo levantou a sobrancelha e sorriu em desafio. Eu rolei os olhos e devagar cheguei mais perto, estiquei a mão e apertei a dele.

- Sou Hermione Granger.

- Ah, a encrenqueira Granger! – eu fiquei muda e sem reação e ele sorriu. – É, eu sei quem é você.

Puxei minha mão.

- Não são poucas as vezes que ouço os comensais falando sobre você, dizem que dá muito trabalho, garotinha!

- Hermione! – eu quase gritei. – Meu nome é Hermione.

Victor sorriu. – Dizem que você dá muito trabalho, hum... Herms!

Franzi os lábios e me encostei na parede oposta.

- A cela é grande, mas só tem uma cama. – ele disse olhando ao redor. - Na minha antiga cela eu tinha uma cama e uma mesa com duas cadeiras. – suspirou. - Sem contar o banheiro.

- Você tinha um banheiro? – perguntei maravilhada.

- Não pense que era um super banheiro. – riu. - Tinha apenas o essencial e também um chuveiro.

- E bem... por que o colocaram aqui?

Krum balançou a cabeça e deu os ombros.

- Não faço a mínima ideia, não temos uma boa reputação aqui dentro. Acho que queriam que eu desse um jeito em você. – riu. – Ou você em mim. Na verdade não é interessante ter um foco de rebeldia aqui... qualquer que seja.

- E juntar dois focos de rebeldia é a melhor ideia deles? – perguntei sem entender a lógica dos comensais.

- Bom, realmente acho que a ideia era um conter o outro, não digo matar propriamente, mas quem sabe anular essa nossa agressividade. – pensativo ele passou as mão no cabelo. – Não seria um plano tão horrível... veja, nós prisioneiros, estamos do mesmo lado nessa guerra, mas isso não quer dizer que lutaremos juntos. – assenti. - Ninguém aqui é amigo, se tivermos que matar um comensal ou até mesmo outro prisioneiro nós vamos matar. Eu já fiz isso e sei que você também! – ele levantou a mão pedindo silencio ao ver minha intenção de contraria-lo. – Você é bem conhecida aqui, Hermione, mesmo não querendo. São raros os bruxos que ferem Lucius Malfoy e continuam vivos para contar a história.

- Como sabe disso? - murmurei com os olhos arregalados.

- Tenho bons ouvidos. Agora venha. – Krum arrastou-se para o lado e deu dois tapinhas na cama. – Sente-se aqui, temos muito o que conversar, nós não vamos cair no joguinho deles.

Permaneci calada, preocupada, e o rapaz suspirou pelo meu silêncio.

Hermione, você me feriu facilmente, o que nunca acontece. – levantei as sobrancelhas. - Essa é a primeira vez que alguém consegue se livrar de mim sem eu deixar. Como acha que eu me sinto?

Eu sorri, mas permaneci em pé olhando para o bruxo, não havia mais maldade ou raiva nos olhos e nem na postura dele. E ninguém podia imaginar como eu desejava ter um amigo ali dentro, alguém para contar e conversar. Por vezes a solidão machucava muito mais do que as lutas que tínhamos que enfrentar na arena.

Receosa eu caminhei até o rapaz e sentei ao seu lado, sem esperar me bombardeou com perguntas, e me pediu para contar como fui parar ali, de onde eu era e como era a vida de trouxa com meus pais. Sem perceber me deixei levar pelo entusiasmo dele, soube da história de Victor e não pude conter o rubor em alguns momentos, tinha a certeza que o búlgaro não tinha pudor algum. Conversamos por algumas horas e só paramos de conversar quando os comensais entraram de rompante na cela e logo atrás deles entraram os outros prisioneiros que deixaram lá dentro a cama e as roupas de Victor.

Se alguém nos visse dias depois certamente acharia que os dois bruxos eram amigos de infância. Eu e Krum nos tornamos inseparáveis desde então, não havia segredos entre nós. O búlgaro me ensinou a lutar quando a noite caía e ninguém podia nos ouvir, o bruxo ainda mantinha seu lado frio e agressivo, eu via isso em nosso treinamento noturno, mas ele se controlava perto de mim.

O moreno havia passado por muita coisa lá dentro, coisas que eu nunca imaginaria, mas sentira na pele algum tempo depois. A violência exalava em cada poro dele, quando tinha que enfrentava qualquer comensal, na arena ou mesmo dentro de nossa cela.

Mas eu não tinha medo e ele sabia disso, Krum nunca me machucaria, nós estávamos do mesmo lado e sofrendo as mesmas coisas.

Era mais que um simples espaço que nos unia, mais que uma mesma situação, era muito maior do que nossa inesperada amizade.

Nós tínhamos uma promessa feita em um momento de desespero.

Sorrindo juramos nunca morrer naquela arena!

Na verdade juramos nunca morrer."

Quando abri os olhos novamente senti o bruxo tirando a compressa fria de minha testa.

- O que está acontecendo? – murmurei, não conseguia manter os olhos abertos por muito tempo.

- Hermione! – ele segurou meu rosto. – Olhe para mim, tente ficar acordada.

- O quê?

- Você está indo da consciência para a inconsciência num estalar de dedos. – tocou a minha testa e urrou com raiva. – Você está ardendo em febre, eu não sei o que fazer, eu já lhe dei a poção como ervas, mas não funciona.

Ele levantou subitamente e começou a andar na cela, não era difícil saber o quão incomodado e irritado ele estava.

- Krum... – murmurei preocupada. – Victor, está tudo bem.

Respirei fundo e mordi meu lábio para que o gemido de dor não fosse ouvido, mas mesmo assim o rapaz escutou.

Ele ajoelhou novamente ao meu lado e segurou minha mão.

- O que eles fizeram? – sua mão passou delicadamente por meu cabelo.

- O de sempre... – meus olhos estavam quase se fechando.

- Hermione...

- Somente Cruciatus.

- E o que mais?

- Só isso.

- O que mais? – repetiu. – Algum outro feitiço?

- Não.

- Algum feitiço não verbal? Você está ardendo em febre, maldição.

Balancei a cabeça e fechei os olhos. Senti a compressa fria em meu rosto e também a voz masculina me chamando.

- Por favor, Hermione. Não lembra mais de nada?

Não respondi, o bruxo segurou meu queixo e me fez encará-lo.

- Me fale, Hermione! – ordenou.

- Imperius. – disse em um fio de voz.

- Herms...

Virei o rosto.

- O que eles fizeram? – sussurrou.

Eu balancei a cabeça e comprimi os lábios. Não lembrava claramente, mas não queria falar nada do que tive de passar. Fechei os olhos e gemi com a dor e então lembrei de Draco rindo e da voz zombeteira de Lucius Malfoy.

Subitamente senti muito frio e ouvi algo agudo se chocando, tentei mover a cabeça tentando fazer o barulho parar, mas só quando abri os olhos notei que era eu quem fazia o barulho, meus dentes batiam incontrolavelmente uns nos outros. Meu corpo tremia de frio, mas diversas vezes um calor repentino tomava conta de mim.

Vi Victor sentado no chão ao meu lado com as duas mãos no rosto, um soluço saiu de meus lábios e o bruxo imediatamente me encarou.

- Ti... tive que ver Drew morrendo de novo. – meus dentes começaram a se chocar novamente. – Me forçaram a ver a morte dele. – eu sorri para o moreno, sem notar a expressão de dor em seu rosto. – E sonhei com meus pais na estação. – meus olhos estavam se fechando. - Mas Voldem... Voldemort estava lá também. – lágrimas inundaram meus olhos, mas eu não as deixei escorrer. – Acho que não vou conseguir cumprir o nosso juramento.

- Não, Hermione! – ele urrou. – Nem pense nisso...

- Desculpe... - murmurei

A última coisa que senti foi o calor que tomou conta do meu corpo por um momento, para logo ser substituído pelo frio.

- Hermione! – berrei e segurei a mão fria dela. – Hermione, abra os olhos. Vamos, olhe para mim.

Toquei seu rosto, mas afastei rapidamente a mão, ela ardia terrivelmente.

- Por favor, por favor.

Desesperado olhava para o lado tentando achar alguma coisa, tentando fazer com que magicamente uma poção surgisse ao meu lado. Eu a estava perdendo e sabia disso. Nenhum maldito comensal apareceu, nenhum barulho foi feito, estava tudo deserto e o que mais me irritava era o fato de todos saberem o que estava acontecendo. Gritei, urrei, berrei, ordenei que alguma coisa fosse feita e por fim amaldiçoei Tom Riddle de todas as formas e línguas que conhecia.

Já não sabia há quanto tempo estava sentando em minha cama, vendo Hermione se contorcer e gemer desesperadamente. Não havia nada que pudesse ser feito, ela estava inconsciente por muito tempo e temia que dessa vez eu enfim a perdesse.

O grito da garota em meio ao silêncio fez meu coração disparar, ela estava com os olhos abertos, mas eu sabia que ela não podia ver nada real, Hermione estava lutando contra sua própria consciência.

- Krum! – berrou a morena.

Eu imediatamente fui até a bruxa e segurei suas mãos frias.

- Hermione! Estou aqui. Pode me ouvir?

- Me ajude. – ela suplicou, permanecendo de olhos fechados, totalmente fora da realidade.

Soltei Hermione e desesperado comecei a pisar nas pedras do chão perto de minha cama, quando senti uma solta me ajoelhei e imediatamente a joguei longe. Meu coração quase parou quando estiquei o braço e apertei uma faca escondida em minha mão direita.

Respirei fundo e andei até a garota, ajoelhei ao seu lado e com as duas mãos, levantei a faca o mais alto que conseguia.

- Não vai mais doer, Hermione! – falei alto e abaixei a cabeça até meus lábios quase tocarem a orelha da bruxa. – Confie em mim. – sussurrei.

Minhas mãos desceram rapidamente na direção de sua garganta. Apenas um pequeno corte foi feito com a ponta da faca, assim que a voz de Draco Malfoy invadiu a cela.

Eu permaneci ajoelhado com os olhos fixos no rosto de Hermione, eu não me movi e a faca permaneceu no mesmo lugar. Olhei para a parede a minha frente e um sorriso frio brotou de meus lábios.

- Achou mesmo que deixaríamos que fizesse isso, Krum? – perguntou Malfoy.

Num movimento rápido me virei a atirei a faca na direção do loiro. O bruxo gritou e arregalou os olhos ao sentir a faca cravar em seu ombro.

- Surpreso? – perguntei já caminhando na direção do comensal. – Não deveria ficar, Hermione me ensinou bem a manejar uma faca.

O loiro apertou os dentes e puxou a faca do ombro, quando a soltou no chão eu o segurei pelo pescoço.

- O que fizeram com ela? – grunhi.

- Ora, isso tudo é preocupação? – debochou.

- O que, maldição, fizeram com ela? – berrei e apertei seu ombro machucado.

- Não é possível. – Malfoy gargalhou. – Está apaixonado por ela!

Eu soquei seu ombro ferido, Draco abafou o grito de dor e me olhou com raiva.

- O que fizeram? – rangi os dentes.

- Quer saber de qual parte, Krum? – sorriu com malicia. – Antes ou depois de tirarmos toda a roupa dela?

O bruxo caiu no chão com a força do meu soco, queria matar com minhas próprias mãos o comensal nojento, consegui acertar apenas outros dois socos no rosto dele antes que três comensais invadissem a cela e me segurassem.

Draco levantou lentamente, havia muito sangue escorrendo de seu supercílio esquerdo e de seu lábio inferior. O bruxo puxou a varinha e apontou para o próprio rosto, olhou para mim antes de suspirar e balançar a cabeça em negativa. Sem pronunciar o feitiço os ferimentos em seu rosto já não existiam mais.

- É por isso que nós não deixamos os prisioneiros com suas varinhas. – constatou. - É muito fácil curar ferimentos feitos sem magia. – começou a andar e parou ao lado de Hermione. – Sabe, meu pai não teve a mesma sorte. Ferimentos feitos por objetos enfeitiçados são muito difíceis de curar totalmente. Fica sempre uma pequena marca. – sua varinha deslizou pelo rosto da morena. – Talvez eu retribua o favor.

Eu urrei e tentei me soltar dos comensais.

- Não toque nela!

- Um feitiço insignificante causa essa revolta toda em você, Victor? – Hermione se contorceu na cama e Draco sorriu. - É tão fácil fazer isso parar, só é preciso de uma simples varinha. – levantou a mão e olhou para o pedaço de madeira.

Respirei fundo e puxei com toda a força que tinha o meu braço direito, o comensal que o segurava caiu no chão, soquei o rosto do comensal a minha esquerda, mas não demorou nada para que Malfoy me derrubasse com um feitiço e eu fosse imobilizado no chão pelos comensais.

O bruxo agachou ao meu lado e sorriu.

- O que ganha com tudo isso, Krum? – olhou para Hermione. – O amor dela? – franziu os lábios. - É... Acho que não. – irado fechei os olhos, e Draco riu. - Victor Krum apaixonado pela prisioneira de cela? É isso mesmo? Por fim tem um ponto fraco, búlgaro. Esplêndido, esplêndido! Justamente por isso não podemos deixá-la morrer. – apontou a varinha para Hermione. - Finite Incantatem.

Olhei para a garota que parou de se contorcer no mesmo instante, a respiração ficou mais calma e serena, sabia que agora ela apenas dormia tranquilamente.

- Vou lhe contar um segredo. – murmurou. - Será delicioso usá-la para lhe atingir. – Malfoy riu e levantou. – Tenho certeza que ela lhe contará os detalhes mais tarde. – caminhou até a morena, mas parou antes de pegá-la. – Na verdade vou te mostrar as minhas lembranças, caso ela esconda alguma coisa de você...

- Morsmordre! – berrei.

Draco Malfoy estancou e girou o rosto pálido em minha direção.

- O que disse?

- Morsmordre. – repeti e sorri enormemente.

Os comensais se afastaram no mesmo instante e Draco permaneceu estático e muito pálido.

- Morsmordre, Malfoy.

- Não está falando sério. – gritou e apontou a varinha para o meu peito.

Sorri e o encarei com infinita superioridade. Sem deixar de olhar o comensal, subi a manga do moletom de meu braço direito e deixei a vista de todos a imagem de um crânio com uma cobra saindo pela boca como língua.