N.A.: Na verdade eu deveria postar daqui uma semana e tal, mas é que sou fraca e esse capítulo estava pronto e me implorando para ser postado. Espero que gostem desse capítulo e que comentem mais. Quero agradecer: Hell's, Triele e Fernanda que comentaram. Muito obrigada, mesmo!
Espero que muitos comentem e gostem da fic. O nome do capítulo quer dizer Recomeço. E escrevi esse capítulo ouvindo Lacuna Coil, se não conhece, procurem. É uma banda perfeita!
Não ganho nada com essa fanfic e por escrever com essas personagens. Nenhum deles me pertence, pois se me pertencessem tudo seria muito diferente.
Boa Leitura.
Capítulo 2 - Resumption
Após a Guerra.
"Onde vai?" Hermione perguntou e Harry apenas virou o rosto para trás. Até mesmo as vozes estavam distantes, tristes, abandonadas e sozinhas. Virou o rosto para a frente, sabendo que ela o seguiria. Sua perna doeu. Harry sentia-se fraco, sem utilidade trancado naquele quarto. Via Lupin andar pela casa abandonada que ocuparam em Camdem, um distrito de Londres. Hermione também tinha sua utilidade, ajudando o Lobisomem. Harry apenas ficava no quarto, desejando morrer, desejando sumir. Desejando algo que não fosse a realidade que ocupava demais sua semi-vida. "Harry, não force a perna."
Ela o amparou e Harry percebeu que chorava. Chorava de raiva das coisas que aconteceram e ele, somente ele, não pudera impedir. Ela o abraçou, o amparou. Aquilo lhe deixou com mais raiva.
"Me solte." Sua voz era fria, profunda. Via dentro dos olhos castanhos dela que a machucara falando daquele modo. "Não vê? Eu não quero ajuda. Eu não quero que acreditem em mim. Me deixe morrer em paz."
Quando conhecera Hermione, sete anos atrás - quase oito - sabia que ela seria uma amiga. Aquela amiga que ele sempre pedira, que estaria com ele não importasse onde, não importasse o que. E vira a coragem, a fidelidade, a força brilharem nos olhos dela por sete anos. Porém, agora, não havia nada. Agora eram espaços vazios preenchidos da cor castanha. Eram espaços que ocupavam-se de dor e... nada. Para Harry olhar dentro daqueles olhos era como olhar dentro do inferno. Olhar dentro das lembranças que o perseguiriam pelo resto da vida.
E não espantou-se quando a palma da mão dela lhe feriu a bochecha com um tapa. Por mais que ardesse, ela poderia apunhalá-lo, que ele não importaria-se. Ela era forte, e infelizmente, estava sendo forte pelos dois.
"Não ouse dizer isso. Estou farta de você dizendo-me que quer morrer. Estou farta de suas besteiras. Você está cansado de receber ajuda? Pois bem, eu estou cansada de ajudar!"
Hermione chorava ao fim da frase. Harry sentia-se pior. Ele a fizera chorar. Ele sempre a fizera chorar. Ela, a amiga, mulher, e mãe que ele sempre pedira e tivera. Abraçou-a, sentindo-a lutar contra si, como se quisesse afastar-se. Não importou-se que ela estivesse lhe machucando, não importou-se que os gritos dela tivessem chamado a atenção de Lupin. Na verdade, Harry apenas importou-se em estar ali. Em ficar ali. Talvez, ele pudesse ser algo para ela naquele momento.
"Se tivesse me deixado morrer, não estaríamos aqui hoje."
"Se tivesse morrido, não estaria viva hoje."
A boca de Hermione encontrou a sua, devagar. Era estranho. Era como cair dentro do vazio, dentro de um buraco negro e esconder-se eternamente. Os lábios dela estavam salgados. Ouviu Lupin afastar-se. Sabia que ele entendia o porque, eles precisavam daquilo. Talvez Lupin entendesse melhor do que ninguém o quanto a solidão machucava. O corpo dela estava quente, mas as mãos dela estavam geladas. Harry sentia-se caindo fundo e fundo dentro daquele beijo. Dentro daquela realidade que parecia ser tudo, menos o mundo que ele ajudara a destruir.
Lucius Malfoy sentou-se na cadeira de couro negro e observou a sala à sua frente. Seus olhos correndo cada móvel. Sentia que a atmosfera estava fria, que o Ministério estava silencioso demais. Levantou uma sobrancelha, parte de seu rosto era como um sorriso, parte era como uma careta. Lucius Malfoy nunca mais fora o mesmo desde a morte de Narcissa. Vira a mulher de sua vida morrer na frente de seus olhos. Mas levantara os olhos do corpo dela, observara os olhos de Voldemort. Os olhos que quase imploravam para que Lucius dissesse, fizesse ou tentasse algo. Ele não fez. Lucius conhecia-se e conhecia o Dark Lord por tempo demais. Não teria o porque agir como se não o conhecesse.
Com Narcissa morta, seu mundo perdera-se em nada, e agora, com Voldemort a caçar Draco e Severus, sua família, o nome que tanto prezara, já não significava nada. Entretanto, Lucius era alguém ao lado de Voldemort. Ele estava tomando posse do mundo que sempre dissera ser seu, e Lucius ganhara o cargo que sempre almejara; Ministro da Magia. Recostou-se na cadeira de couro, os cabelos presos em uma fita escura. Seria muito fácil começar a mandar, refazer leis, prender pessoas; porém, Lucius aprendera cedo, e bem cedo, que não se pode mudar tudo de uma só vez. Haveria tempo para mudanças. Sorriu novamente, aquele sorriso que um dia Narcissa dissera que a assustava. Lucius mudaria o mundo bruxo junto com Voldemort. Faria sua palavra, e a dele, tornarem-se lei, e ninguém, nem mesmo o Garoto-Que-Sobreviveu, poderia impedir a ascensão do Dark Lord. E de Lucius Malfoy.
"Onde vai?" Hermione perguntou baixo, vendo as costas de Harry. Ele estava sentado na cama, sem camisa. Era uma noite quente, diferente das outras. Hermione moveu-se devagar debaixo do lençol, querendo chegar perto dele. Mas o movimento que ele fizera, afastando-se, fora quase como palavras para afastá-la, impedi-la de tocá-lo. Sentou-se, cobrindo-se com o lençol velho e esperando que ele dissesse algo.
"Você lembra de tudo?" Hermione sentia arrepios quando o ouvi falar baixo daquele jeito. Parecia que Harry estava definhando, desfazendo-se na frente de seus olhos, e não havia nada que ela pudesse fazer. Na verdade, Hermione, não queria saber se poderia fazer algo, em seu pensamento, sua vida estava confusa, quebrada e destruída demais para deixar-se enrolar na teia de dor e miséria que era a vida de Harry agora.
"Harry, eu.."
"Lembra ou não?" A voz dele elevou-se. Ela apertou o lençol no corpo com mais força, sentindo-se suja, sentindo-se errada.
"Sim. Sabe bem que sim."
Ficaram em silêncio. Que bem faria lembrar-se de mortes e tristezas? A Família Weasley, sua família, estava reduzida. Ron fora morto em sua frente, vira quando Voldemort o encontrara, falando algo sobre ser o braço esquerdo de Potter, e então a luz verde encontrou-o e Ron caíra no chão de terra dos terrenos de Hogwarts; morto. Ginny encontrara-se com Bellatrix, ambas batalharam por minutos. Ginny era uma grande guerreira, mas Bellatrix era melhor. Hermione não vira a morte, mas vira o corpo de Ginny. Era uma imagem que gostaria de esquecer, para sempre. Vira membros da Ordem, vira Death Eaters, alunos, Aurores, amigos e desconhecidos, mortos. Hermione já vira tanto horror, tanta desgraça, tanta tristeza, que ficava surpresa quando acordava na manhã seguinte.
"Legilimens."
A voz dele fora um sussurro e Hermione fechou os olhos ao senti-lo em sua mente. As imagens, o sangue, as dores, as batalhas e suas cicatrizes. O dono delas, o que acontecera com Hermione. Era como se estivesse novamente dentro de sua própria pele, como se estivesse novamente sentindo todas as dores, todos os sofrimentos. Harry sussurrava algo, mas era impossível entender, era impossível prestar atenção. Sua vida passava novamente em sua mente, e ele assistia, assim como ela. E ambos choravam.
Deslizou para fora da mente dela, caindo da cama, chorando. Sua perna doía, sua mente estava embaralhada com suas memórias e agora, as dela. Memórias das mortes. Como o corpo de Ginny fora encontrado, a cabeça separada do corpo. Ron machucado, sem vida, morto por Voldemort. Seus amigos sofrendo, morrendo por uma Guerra que não deveria acontecer. Voldemort nunca deveria existir. Voldemort só existia porque as pessoas não sabiam lidar com o estranho, com o diferente. Voldemort não era fruto do mal, era fruto das pessoas. Das pessoas que hoje ele matava por puro prazer e poder. Ouviu-a soluçar, virou-se, olhando-a na cama. Ela tinha cicatrizes recentes. O corpo dela era divino, mas a mente era uma desgraça. Ninguém deveria viver o que ela vivera, e ainda vivia.
"Por que não vai embora?"
As palavras eram feitas para machucarem. As palavras eram frias. Ele a queria longe, a queria fora daquele mundo, daquela Guerra. Queria que ela estivesse longe quando fosse enfrentar Voldemort novamente e morresse para que nada mais pudesse dar errado e ser sua culpa. Harry sabia que queria fugir da responsabilidade que já era dele. Harry era covarde, e sabia disso. O mundo precisava ver isso. Ela precisava ver isso.
"Você vai?" A resposta dela já lhe dizia tudo. Ela nunca o deixaria.
Escorou-se na cama, subiu no colchão, arrastou-se até ela, abraçando-a. Fechou os olhos, mas voltou a abri-los no segundo seguinte, fechar os olhos agora lhe traziam as imagens de Ginny sem cabeça e Ron sem vida. Eram imagens que Harry nunca mais conseguiria tirar da mente. Ela o segurou contra si, apertado, chorando em seu ombro. O corpo dela estava quente, as mãos ainda estavam geladas. O que acontecera para que Hermione se tornasse seu mundo e seu refugio? O que acontecera - e quando acontecera - para que ela fosse apenas a pessoa para qual o grito sufocado dentro de sua garganta se dirigisse? O que exatamente ela era agora? Quem exatamente ela era agora?
"O mundo não nos pertence mais Harry."
"Nunca pertenceu."
Sua resposta a fez soluçar alto, apertou-a contra si. Deitou-a na cama, a faria esquecer do mundo destruído, ao menos por alguns minutos. Beijou-a. Seus dedos escorrendo pelas cicatrizes na barriga dela, nas cicatrizes nas coxas. Ela era divina, ela era marcada. Sabia que ela se vingaria daquilo. Sabia que ela apenas estava esperando uma oportunidade de vingar-se de Voldemort pelas mortes e pelos ferimentos que ela recebera quando fora torturada. Mas nada poderia ocupar a mente deles agora. Nada poderia deixá-los triste agora. Harry faria com que tudo fosse esquecido, mesmo que por alguns minutos.
"Eu te amo."
As palavras dele a assustaram, mas ela respondeu.
"Não, não ama."
E a resposta dela não surpreendeu Harry. Separou as pernas dela devagar com seus joelhos, enterrando-se dentro do corpo dela devagar, ouvindo-a gemer em seu ouvido. Fechou os olhos, as imagens das mortes borravam, sumiam devagar enquanto movia-se contra ela. Aquele momento era o único momento em que Harry não sentia-se covarde, na verdade, naquele momento Harry sentia-se nada... apenas Harry.
"Então, o que faremos?"
Draco perguntou para Severus. O homem observou-o por um momento e voltou a fitar a janela do quarto de hotel barato que estavam.
"Continuaremos fugindo."
"Por que está me ajudando?"
Draco estava sentado na cadeira do canto do quarto. Era um hotel barato, caindo aos pedaços e que nunca seria nem ao menos alvo de seus olhares em outras épocas. Entretanto, agora, era sua mais nova moradia, só não sabia por quanto tempo. Olhou Snape pensativo, em pé, observando a janela, a rua e a noite. Snape quase não falava, e quando falava, Draco sentia que mais um peso acrescentava-se as costas dele. Era como ver o homem curvar-se na frente de seus olhos, e ele já não tinha certeza quanto mais Severus aguentaria.
"Draco..."
"Responda."
Draco queria entender. Queria saber os motivos de Snape ajudá-lo, defende-lo, arriscar a vida por um moleque mimado que deveria estar morto. Morto como a mãe. Morto como alguns conhecidos. Morto como o mundo estaria em pouco tempo se nada fosse feito. Engoliu em seco, Severus virando-se para olhá-lo, cruzando os braços na frente do corpo, seus olhos negros com olheiras profundas de noites sem dormir. A vida - ou semi-vida, como Draco chamava - estava matando Severus Snape aos poucos. Cruzou os braços, com um pouco de frio, a noite estava fria.
"Muitos anos atrás, quando eu ainda era ignorante, seguia Voldemort como um verdadeiro adorador, percebi que nunca poderia ser nada mais a não ser isso, um seguidor." Draco recostou-se na cadeira, focando-se na voz grossa do homem que começava a lhe contar os motivos de tudo que fizera na vida. "Quando tudo começou a desmoronar, aquele imbecil do Potter achou que seria alguém grande enfrentando Voldemort, ou aquilo que Voldemort era antes de tornar a ter um corpo." Snape balançou a cabeça, seus cabelos negros, agora quase nos ombros cobrindo parte de seu rosto. "Potter era um seguidor também. Um seguidor de Dumbledore. E isso fez dele um fraco, assim como eu era quando seguia Voldemort." Draco semi-cerrou os olhos, começando a entender, mas não o interrompeu. "Você tornou-se um seguidor de Voldemort sem ter a opção de recusar-se. Potter também não teve opção. Eu tive. Tive muitas opções, e escolhi ser fraco."
"Isso quer dizer que...?"
"Que Potter, eu e você somos iguais. Eu não quero que seu destino seja o mesmo que o meu."
Draco calou-se por alguns segundos, olhando Snape ainda na mesma posição, os olhos negros fechados. A mente de Draco trabalhava rápida, e analisava a frase de Severus. Se ele considerava que eles eram iguais, então ele sabia os sentimentos que Draco tinha dentro de si. Sabia o que Draco sentia sobre o mundo, sobre a vida, sobre a morte e... sobre tudo.
"Mas Potter terá o mesmo destino?"
"Potter é um fraco, nunca conseguiria, ou conseguirá se estiver vivo, fazer o que se tem que fazer." A voz de Snape pareceu ficar levemente mais irritada, Draco semi-cerrou os olhos cinza novamente. Era visível o ódio que Snape sentia pelo Potter, e Draco não entendia. Conseguia ver o seu ódio por Potter, mas o de Snape parecia destoar, como se não fosse realmente por Harry Potter e sim por outra pessoa.
"Não acredita que Potter possa vencer Voldemort?"
"Você acredita nisso?"
"Então, no que acredita?" Snape percebera que Draco não lhe respondera a pergunta. O garoto desviara de responder algo vital como aquilo.
"Acredito que já não a mais esperança. Acredito que agora é cada um por si, assim como sempre deveria ter sido."
"Então, eu deveria estar por minha conta."
Draco levantou-se, olhando para o homem seriamente, observando-o levantar uma sobrancelha, desafiando-o. Ele sabia que não abandonaria Snape, mas o homem sabia disso? Snape estava tão confiante de que Draco não deixaria seu lado por medo? E porque essa confiança de que Potter perderia e não seria o herói do mundo bruxo novamente? Ele não vencera Voldemort tantas e tantas vezes?
"Draco, você nunca esteve por sua conta, nem nunca estará. Você não saberia fazer isso." Snape lhe disse como uma bronca, Draco sentou-se na cadeira novamente. "Esse mundo já não é aquele mundinho onde você tinha seu pai para lhe dar o que queria, ou sua mãe para defende-lo. Você só tem a mim agora, e isso quer dizer que você não estará sozinho, mas não significa que você estará seguro." Cruzou os braços olhando para o lado, desviando seu olhar do olhar duro e frio de Snape. "Eu lhe disse, Draco, Potter é fraco, ele não vencerá Voldemort. E esse mundo perdeu a esperança quando Dumbledore pediu para que eu o matasse."
Draco viu pelo canto dos olhos tempestade quando Snape virou-se novamente para a janela, que os ombros dele pareciam ter curvado um pouco mais. O loiro sentiu que os dele também estavam começando a curvar.
