Sai, finalmente, chegou à casa dos Haruno. Os cabelos estavam desarrumados; a calça, com pequenas marcas de queimado, e a camisa, aberta em um botão. Naruto tinha o terno enrolado no braço esquerdo e as pernas da calça puxadas até os joelhos. A gravata de Sasuke estava frouxa no pescoço e, na camisa do mesmo, formaram-se pequenos círculos de suor.

- Mau dia... mau dia. – Sai praguejou, recompondo-se de sua aparência desleixada.

- Hm. – Sasuke murmurou impaciente. Estava cansado, suado e entediado.

- Se isto te consolar, o dia não foi bom só para você. – Naruto comentou, saindo do carro e indo ao porta-malas.

- Eu imagino. – Sai respondeu ao comentário de Naruto. Pegou as chaves do automóvel e, acionando o controle que nela estava, destravou o porta-malas. – Passou boa parte do tempo quieto e não queria largar aquele cigarro de jeito algum.

- Eu já pedi desculpas pelo incidente. – Naruto pegou a bagagem no porta-malas, colocando-a no chão. Olhou para Sasuke, que estava encostado na parede da garagem, apenas observando. – E a culpa foi desse teme.

Sasuke tomou ar para responder à acusação. Quando o faria, foi interrompido por Sai:

- Não vamos recomeçar essa discussão. – passou a mãos pelos cabelos, procurando as palavras corretas para dizer. Qualquer coisa parecia servir de centelha à implicância daqueles dois. – A minha calça continuará inutilizável e vocês dois continuarão a dar-me problemas.

Realmente, essas palavras ajudaram em nada a situação.

- Esqueçam o que eu disse. – Sai ordenou, desistindo de lidar com aquilo. Lembrou-se do porquê de não ser muito comunicativo: simplesmente, não tinha vocação.

Sasuke tinha se agachado em frente a Naruto, a fim de ajudar este a separar as malas dos dois. O primeiro, ao ouvir as últimas falas de Sai, inclinou-se para o outro, aproximando a boca do ouvido dele:

- Vamos fazer um trato. – cochichou pausadamente. Percebeu que Naruto parara o que estava fazendo e virou a cabeça, para olhar nos olhos do Uchiha. – Proponho uma trégua durante a nossa estadia por aqui.

- Por que eu faria o trato? – o loiro falou com um semblante desconfiado, estreitando os olhos. – Tenho vários motivos para duvidar de você.

- Está falando do incidente do cigarro?

- Também.

Sasuke deu um suspiro curto. Manteve o contato visual com o par de olhos azuis.

Era incrível como um dobe podia ter olhos tão belos. Às vezes, um simples olhar era mais eficiente que palavras. Não havia situação específica para que aquele azul intenso transmitisse algo. Não havia consciência do ato para que aquele azul intenso sensibilizasse algo.

- Esqueça nossas divergências. Elas estão enterradas no passado e assim devem continuar. – Naruto arregalou um pouco os olhos, mas continuou quieto e atento. – Mal chegamos e já estamos causando problemas aos nossos anfitriões.

- Ao nosso anfitrião, você quer dizer. Nós não vimos Sakura-chan ainda, e duvido que ela seja tão problemática quanto Sai.

- Isso não vem ao caso. –Sasuke ajeitou-se na posição de cócoras. – O que tenho a propor é o seguinte: um recomeço amistoso. Como eu disse anteriormente, esqueceremos nossas divergências e retomaremos nossa amizade.

- Retomar nossa amizade...? – Naruto refletiu por alguns minutos. Em seguida, abriu um sorriso sereno. – Eu não preciso retomar nossa amizade: ela nunca foi perdida!

Sasuke, em um primeiro momento, ficou surpreso. Era inegável que Naruto estava cheio de não-me-toque desde que soubera que Sasuke faria companhia a ele. Não imaginava, por isso, que o outro ainda nutrisse alguma consideração pelo Uchiha e muito menos que mantivesse a amizade com o vigor que aparentara.

Por fim, viu-se cativado pelas palavras do loiro. Um sorriso brotou nos lábios de Sasuke, corroborando com o que o outro dissera.

Naruto expandiu ainda mais o sorriso. Pegou sua bagagem e levantou-se. Ofereceu sua mão ao moreno para que este se levantasse também.

Sasuke aceitou de bom grado a mão que lhe foi oferecida:

- Pelo visto, aceitou o acordo.

- Sim. – Naruto, que já estava andando para fora da garagem, virou-se para trás com uma expressão de desdenho para Sasuke. – Mas só enquanto me convir, teme.

- Dobe. – Sasuke respondeu ao comentário. Sentira saudades daquele idiota. Será que ele sentiu saudades suas?

- Hei! Os dois! – a cabeça de Sai surgiu de uma das quinas que definiam o formato da casa. – Encerraram a reunião do clube da luluzinha?

- Poupe-nos de seus comentários desgostosos. Estávamos apenas conversando. – Sasuke, sério, respondeu a Sai. – E saiba que foi para ajudá-lo.

- Ajuda? Vinda de você? Tenho mais motivos para me preocupar, então.

- Parem de se provocar. – a voz feminina encerrou a guerra verbal entre os dois homens, mas não a troca de olhares mortais.

- Sakura-chan!! – Naruto largou as malas e correu para a mulher sentada em uma cadeira de balanço, na entrada da casa.

- Naruto-kun! – Sakura tentou levantar-se, mas a dor de suas costas lhe convenceu de apenas esticar os braços para receber o rapaz. – Como está bonito!

- Você é que está linda! Deixou os cabelos crescerem; está mais corada e... – Naruto olhou para a barriga estufada de Sakura. – O que aconteceu com seu estômago, mulher?

- Eu ainda estou grávida, Naruto-kun. – uma gota brotou na cabeça de todos, que ouviram a exclamação de Naruto.

- Você não tinha feito cesariana? – Naruto colocou as mãos na barriga de Sakura com extrema delicadeza. – A cirurgia não deu certo? Você teve uma reação alérgica aos medicamentos?

- Calma, Naruto-kun. Eu só optei pelo parto natural. É mais seguro tanto para mim quanto para o bebê.

- Era o mínimo esperado de uma médica tão talentosa. – Sasuke, que resolveu ignorar Sai e tinha se aproximado da dupla, pegou a mão da moça e beijou-a. – Quanto a você estar linda, eu concordo plenamente.

Todos presenciaram a cena estarrecidos, inclusive Sakura:

- Sai, tem certeza que pegou o Sasuke certo?

- Tenho. – Sai torcia os punhos de maneira ameaçadora. – Tenho certeza até demais.

- Parem o mundo, porque eu quero descer. – Naruto sussurrou, ainda chocado com o que acabara de acontecer.

- O que foi, Sakura? Não está acostumada a elogios? – Sasuke perguntou calmamente.

- Eu estou acostumada a elogios, sim. Só aqueles vindos de você que me causam estranheza. – a moça piscou os olhos várias vezes e continuou, com um tom de voz nostálgico. – Quando eu daria um braço por um simples "ohayo" seu, você mal me olhava. Agora, você despeja elogios em mim com tanta naturalidade!

- É que, agora, você é madura o suficiente para recebê-los. – Sasuke sorriu e girou o corpo na direção das malas que havia depositado no chão. – É muito bom revê-la, Sakura-chan.

- Olhe aqui! – Sai se interpôs entre Sasuke e as malas. – Se você continuar a dar em cima da minha mulher... Se você tocar nos cabelos dela, eu o mato!

- Meu carinho por Sakura se deve à nossa grande amizade. –Sasuke ficou totalmente indiferente à ameaça. – Se você não se garante, apenas sugiro que não a sufoque com seu ciúme.

Sai passou da palidez natural para um tom escarlate em um segundo:

- Quem é você para avaliar o meu desempenho como marido? – o cansaço, o calor e a raiva crescente nublavam a consciência de Sai. – É um ser solitário, e quando pôde deixar de sê-lo, desperdiçou a oportunidade com uma desculpa ridícula!

- Você não sabe do que fala, Sai. – Sasuke permanecia altivo, mas, no fundo, sentiu-se abalado com as palavras do outro.

Sai estava com a resposta mais ferina do que a anterior pronta para ser dita, mas o olhar duro de Sakura o impediu de fazer o que pretendia.

- Desculpe-me.– Sai disse, um pouco mais controlado. Andou em direção à esposa e perto dela ficou. – Eu me excedi.

- Tudo bem. Eu também me excedi. – Sasuke murmurou espontaneamente. Contornou a figura de Sai e se aproximou das malas.

Sakura remexeu-se na cadeira de balanço, e Naruto olhava fixamente para a fivela do próprio cinto, ambos incomodados com o clima do momento.

Sai percebeu e quis mudar de assunto:

– Naruto-kun, pegue suas malas e escolha um dos quartos de hóspedes.

- Qualquer um?

- Sim. Na verdade, exceto aquele que Itachi-kun escolheu, obviamente.

Sasuke deixou as alças das malas que tinha posto em seus braços escorregarem. Suspirou profundamente, passando as mãos nas laterais do corpo. Jogou a franja para trás e retomou o trabalho.

Sai, Sakura e Naruto repararam no que ocorrera. Os três trocaram olhares, e Sai perguntou a Sakura:

- Você o avisou que Itachi viria para cá, não avisou?

- Talvez, eu tenha me esquecido disso. – Sakura respondeu, com uma cara nada convincente.

- Sakura, você anda muito esquecida, sabia? – Sai estreitou os olhos para a mulher.

- Qual é o problema? – Naruto indagou. – Itachi é irmão de Sasuke. É natural que ele queira ver o irmão mais novo depois de tanto tempo de viagem.

- Você não sabe que Sasuke e Itachi não se aturam? – Sai rodou os olhos diante da ingenuidade de Naruto. – Ou melhor, Sasuke não atura Itachi, e este só sabe provocá-lo.

- Você sabe que se eu dissesse que Itachi-kun viria, Sasuke-kun se recusaria a se hospedar aqui. – Sakura fez beicinho para o marido. – É uma chance dos dois se conciliarem, benzinho.

- Como você é altruísta, chuchu. – Sai deu o seu típico sorriso cínico, o qual foi correspondido pela mulher na mesma intensidade de cinismo.

E os dois ficaram se encarando e sorrindo indefinidamente.

- Er... – Naruto estava desconfortável com aquela cena bizarra. – Eu... vou pegar as minhas malas e subir.

Sasuke estava atrás de Naruto, segurando todas as malas. Soltou uma de suas típicas falas monossilábicas e dirigiu-se para dentro da casa.

Naruto observou uma última vez o confronto visual do casal Haruno e seguiu Sasuke, que andava devagar por causa da quantidade de coisas que estava levando.

- Deixe-me ajudá-lo, teme! – Naruto pegou uma mala que escorregava do braço de Sasuke no momento.

- Solte! – Sasuke deparou-se com o lance de degraus que tinha de subir para chegar ao andar de cima. – Eu preciso me ocupar, senão eu enlouqueço.

- Isso tudo por causa do seu irmão, dattebayo? – Naruto seguia Sasuke praticamente colado a este. Tinha receio do moreno cair da escada e se machucar.

- Você acha que eu me transtornaria por causa daquele bípede? – Sasuke escorara na parede da escada e a subia de lado.

- Para você admitir que está transtornado logo depois que soube da vinda dele, eu acho que sim.

- Cale-se, dobe. E não fique tão próximo de mim. Tenho pouco espaço para mover-me.

- Ora, Sasuke. Recusando a proximidade do namorado? – quem falara foi Itachi, que estava no topo da escada, observando os dois.

- Olá, Itachi-kun. – Naruto acenou para o homem lá em cima. – Sasuke, dê-me algumas malas: você é muito atrapalhado.

- Eu falei para se calar! – Sasuke continha-se com dificuldade. Realmente, a presença do irmão o fazia ficar bem irritado. – Itachi, seu inútil, ajude-nos!

- Eu acho que Naruto-kun dá conta do recado, irmãozinho. – Itachi debruçou-se no corrimão da escada. – Seu namorado é forte.

- Naruto não é mais meu namorado. –Sasuke gritava "E você sabe disso!" na própria mente. Deixou Naruto ficar com as malas que puxava para si.

- Oh! Eu lamento muito! – Itachi se afastou da escada e deixou Sasuke, muito corado, passar feito um foguete.

Ouviu-se o barulho da porta sendo batida por Sasuke quando este entrou em um dos quartos.

- O que foi isso? – Naruto estava cada vez mais confuso. Havia menos de 20 minutos que chegara àquela casa e já acontecera tanta coisa.

- Nada, Naruto-kun. – Itachi pôs as mãos dentro dos bolsos da jaqueta que vestia e esticou as costas, estralando-as. – Ele fica alterado desse jeito, pois, toda vez que ele me vê, ele se lembra da burrada que fez.

- Burrada? Que burrada?

- Quem deve contar a você é o próprio Sasuke. – Itachi olhou fundo nos olhos de Naruto e deu um sorriso sedutor. – Mas, diga-me: você arranjou outro namorado?

- Ah... não. – Naruto ficou ligeiramente encabulado.

- Então, está livre para um relacionamento? – Itachi tirou uma das mãos do bolso e tocou o rosto de Naruto suavemente.

- É muito cedo para pensar nisso, Itachi-kun. – Naruto desvencilhou do toque de Itachi e pôs-se a andar. – Eu colocarei essa bagagem no meu quarto. Com licença.

- Toda. – Itachi abriu espaço para que o loiro passasse. Viu o rapaz entrar no quarto e trancar a porta. Colocou, novamente, a mão no bolso e desceu a escada.

Ao olhar pela porta da entrada, viu Sai e Sakura se encarando, ambos com os olhos lacrimejantes.

- Sakura? – Itachi chamou pela moça com receio. – Tudo bem aí?

Sakura virou rosto para Itachi e meneou a cabeça. Sai também saiu do transe e esfregou os olhos.

- Eu queria agradecer pela hospedagem. Os quartos são ótimos. – Itachi encarava o sorriso cínico de Sakura, o qual parecia ter se congelado na face da mulher. – Eu... pegarei um copo d'água. Hã... Continuem o que estavam fazendo, se isso lhes agradam.

O casal viu Itachi seguir reto e dobrar à esquerda, onde daria direto na sala de jantar. Esperaram e não o viram voltar.

- Acha que o assustamos? – Sakura perguntou a Sai, massageando o rosto.

- Ele sobrevive.

- Sabe, eu adorei o seu ataque de ciúmes, embora você fosse dizer o que não deveria.

- Você adora ver-me em situações degradantes.

- Exagerado. Você sabe que as maldades que faço são necessárias ou inofensivas.

- Resolveu admitir que é maquiavélica.

- Só porque você é meu cúmplice, mesmo que não queira.

Sai olhou para a mulher, a qual lhe abraçou com ternura. Ele pareceu um pouco desconcertado, mas retribui o gesto da esposa.

- Quando você fica com ciúmes, você me faz lembrar de que ainda me ama. E que essa barriga enorme não esfriou o nosso casamento.

- Sakura, se pudesse voltar ao passado... – Sai apertou o abraço. – ... algumas coisas eu mudaria, e casar-me com você não está nessa lista.

- Eu também te amo. – Sakura ergueu a cabeça e tocou no rosto de Sai. Este se agachou, ficando de joelhos no chão.

Sakura tomou o rosto do marido entre as mãos e o beijou. Um beijo demorado, intenso e romântico.