I PARTE


BLACKFISH


Tinha-se encostado a uma árvore. Toda a pele do seu corpo estava enrugada. Mas o homem não sentia nada. Não sentia frio, não sentia calor. Não sentia, sequer, alívio. Fechou os olhos e inspirou fundo (mais uma vez, e mais uma vez). Abraçou-se a si mesmo comprimindo os braços com a mínima força que tinha. Sentia as gotas de água pingarem sobre o seu peito, provenientes da sua barba. Fechou os olhos e tentou dormir, mesmo que isso se tenha concretizado numa tentativa escusada.

Inspirou mais uma vez.

Abriu os olhos.

A visão continuava turva, mas sabia que tinha que se concentrar e decifrar onde estava. Queria encontrar-se novamente e, para isso, começaria pela sua localização. Apenas ouvia o som da água a correr ao lado dele. Sabia que estava perto dela. Sabia também que tinha fome e acima de tudo sabia que a probabilidade de morrer era grande. Não hoje. Não depois de tudo que passei.

- Sei que vais ser um bom cavaleiro. – Lord Darry pousou a sua mão no ombro dele. – Mas nunca te esqueças quem realmente és. – Um peixe é e sempre será um peixe, seja ele pequeno ou grande. Um Tully será sempre um Tully, mas o mais importante é que um homem será sempre um homem de si mesmo, se não for de mais ninguém.

Brynden Tully pestanejou mais uma vez e outra, e outra. Percebeu que estava realmente ao lado do rio que o havia trazido até ali. Como conseguira sair da corrente, não percebia.

Ao seu redor haviam árvores baixas. Percebeu que, onde se encontrava, a densidade do arvoredo não era muito grande, pois os raios de sol conseguiam penetrar facilmente por entre as folhas e pelas próprias árvores inundando o terreno com luz.

Sentia-se fraco, mas ainda assim queria levantar-se e planear os passos seguintes. Assim, usando as únicas forças que lhe podiam restar, apoiando-se pela dorsal no tronco da árvore onde estava encostado, levantou-se. As pernas podiam-lhe ceder a qualquer momento, mas a coragem que o invadia era maior que tudo e contradizia-se a toda a agonia que podia sentir.

Depois de se ter levando, começou a desapertar a pouca roupa que ainda tinha. Tinha que se aquecer e secar-se para se pôr a caminho de algum lado que nem ele percebia qual seria.

O tempo pareceu estender-se até ter tudo organizado. Poderia sentar-se novamente, aproveitar os raios de sol e descansar. Mas, quando olhou ligeiramente para a árvore que estava por cima dele, reparou que havia alguma esperança. Os ramos estavam carregados de pequenas maçãs. Ainda estavam verdes, mas Brynden precisava comer alguma coisa, e aquilo haveria de servir.

Comeu oito maças seguidas, torcendo a cara a cada dentada. Os frutos estavam completamente desprovidos de açúcar, mas isso não fazia com que não fossem suficientes para satisfazer a sua fraqueza, eliminando-a. Caminhou até à margem do rio, nu, lavou as mãos, levou-as à cara, passando água pelos olhos para tentar que a sua visão se tornasse menos turva. De seguida, bebeu dois goles de água. Depois de estar saciado, percebeu que talvez tivesse passado por situações piores e que havia sobrevivido. Agora não haveria de ser diferente. Deitou-se no chão, deixando que o calor do sol o envolvesse. Fechou os olhos e adormeceu.

-x-

Quando acordou o sol já se tinha posto. Não há muito tempo, visto que o céu ainda não estava envolvido em trevas completas. Blackfish sabia a partir daquela hora não iria a lado nenhum. Repreendeu-se por ter dormido mais do que tinha planeado, mas soube que tinha sido melhor assim. Sentia-se quase recuperado depois de todas as turbulências passadas. Sentia fome, novamente, mas sentia mais sede. Então dirigiu-se para a beira do rio. Baixou-se, deixou que a água lavasse as suas mãos e arrepiou-se pelo frio que se fazia sentir. Depois de se habituar levou as mãos à cara e esfregou-a, tentando eliminar todos os vestígios de sono que ainda podiam estar remanescentes, mas acima de tudo despertar a sua aura a fim de tomar uma decisão o mais depressa possível. Bebeu água e voltou para o sítio onde tinha acordado. Lembrou-se que ainda estava nu, e o vento agora batia-lhe na pele e tornava-se mais frio. Palpou as roupas e deu-se conta que as mesmas estavam secas. Vestiu-se novamente, com alguma dificuldade. Sentia que tinha sido espancado. Tinha quase a certeza que não tinha partido nenhum osso, mas o seu corpo estava todo manchado de hematomas, grandes e pequenos. Mediante tudo isso, sentiu os seus movimentos um pouco presos, e o facto de ter dormido durante tantas horas fez com que os seus mesmos ficassem mais limitados e menos habituados ao mundo real.

Depois de vestido e de se ter sentado novamente no chão decidiu pensar sobre as suas ações futuras. Arranjaria forças para soltar Edmure? Arranjaria um refúgio para ele próprio e deixaria que toda aquela tempestade passasse? Caminharia até um sítio que considerasse seguro e ficaria lá? Brynden ainda não tinha respostas para estas perguntas que decidiam saltar na sua cabeça a todos os momentos. Edmure era da sua família. Do seu sangue. Sentia-se na obrigação e na honra de o salvar, então, praticamente, decidiria o que o manteria cativo nos próximos tempos. Sabia que, de certa forma, Edmure tinha que ser salvo. Como faria isso, ele ainda não sabia, e sentia que não teria a solução para isso tão cedo. Por se sentir cansado e por não conhecer ainda bem o sítio onde se encontrava, decidiu pernoitar ali mesmo. Era da maneira que poderia descansar mais um pouco e, na melhor das hipóteses, um sono prolongado viesse ajudar a organizar as suas ideias, tomar a decisão e caminho mais acertados.

Vagarosamente, encostou as suas costas à árvore e fechou os olhos. A palavra família havia-lhe ficado a germinar na cabeça. O que tinha sido a família para ele? Alguma vez pôde sentir que família era algo além de sangue? Ele era a ovelha negra, mas, ainda assim, pertencia ao rebanho... Mas sentia-se amargurado. Por todos os casamentos que haviam tentado arranjar para ele. Por todas as mulheres (interessadas e não interessadas nele) que lhe foram colocadas em forma de teste. Por todas as tentativas de união entre lordes e terras em que o casamento com Brynden Tully era importante, o peixe negro mantivera sempre a sua palavra e atitude em relação a todas essas oportunidades: afastamento. No entanto, não se sentia arrependido por tal. Naquele preciso momento, conseguia-se sentir aliviado, pois poderia ter a sua esposa cativa em algum sítio... Pior que isso! Um ou mais filhos da mesma forma reféns de algo ou por algo. Então, Brynden chegou à conclusão que ter mantido a sua opinião e posição mediante casamentos tinha sido o mais correto, pois em momentos como aqueles tudo apenas poderia piorar e ir além do resgaste do sobrinho.

Blackfish tentava arranjar todo o tipo de desculpas e vantagens para nunca se ter casado, mas nunca havia arranjado uma para o facto de nunca ser visto ou falado em se ter envolvido com alguma mulher. Apesar de ser um homem que se mantinha afastado de Riverrun a maior parte do tempo, rumores correm sempre como ratos num esgoto: em várias direções, desvairados por encontrar algo e corrompidos. Fossem os rumores falsos ou verdadeiros sobre mulheres na cama do Blackfish, eram, sem dúvida, inexistentes. Já outros rumores mais sórdidos se fizeram ao longo do tempo, principalmente à medida que ia envelhecendo. O rumor era que a ovelha negra dos Tully pecava contra os deuses. Cometido a relações e interesses bizarros e surreais. Envolvimentos carnais com outros como ele. Homens. A verdade é que esse rumor sempre fora muito bem controlado por Brynden. Sempre que aparecia pela boca de alguém, o homem podia não dormir durante dias, mas não descansava enquanto não encontrasse o responsável por soltar tal infâmia. Nunca havia morto ninguém por isso, mas tinha deixado sempre a sua marca, principalmente na garganta, onde encostava a lâmina da sua espada e fazia os alcoviteiros suplicar pela sua vida.

A verdade era outra e mais dura, pois verdade era o rumor. Sempre que chegava a essa conclusão tentava levar os pensamentos para outro lado. Não era como se tivesse vergonha de quem era, mas no mundo onde vivia sabia que era algo impensável de se ser. Ou quase. Contudo, mediante os valores dele e dos seus, seria apenas enterrar-se num beco sem saída se viesse a confirmar todos os rumores que diriam sobre ele. Adormeceu.

Acordou cedo com o chilrear dos pássaros que esvoaçavam na árvore, acima da sua cabeça. Abriu os olhos a custo e olhou para cima, ainda que o sol lhe batesse directamente nos olhos e o ofuscasse. Baixou a cabeça e levantou-se apoiando-se à árvore onde estava. Ainda se sentia tonto e dolorido, mesmo depois de tantas horas de descanso. Mas sabia que era hora. Sabia que não podia adiar a aventura para mais tarde. Tinha que se fazer ao caminho se queria chegar a algum lado.

No momento em que lhe ocorriam este pensamentos pela cabeça, sentiu um ligeiro cheiro a pão. Pela perspectiva dele sabia que o sítio de onde tal odor provinha teria que ser ainda afastado, mas isso não implicava nada. Era uma esperança de comida e bebida que não poderia desperdiçar.

Acabou de se vestir apressadamente e começou a caminhar na direção em que ele pensava vir o cheiro. Depois de muitos passos e tentativas de farejar melhor, sem se dar conta, entrou num caminho de terra batida. Percebendo isso recuou com medo de estar demasiado perto de onde não deveria estar e alguém o ver. Mas de facto o cheiro estava mais intenso. Então continuou a caminhar pelas margens da estrada.

Ao longe começou a perceber uma chaminé a fumegar e duas habituações ao lado desse edifício que parecia ser uma taberna. Brynden observou as redondezas cuidadosamente e chegou à conclusão que não havia muito movimento. A não ser que a taverna estivesse cheia e as casas também, mas parecia ser uma hipótese duvidosa. Então, sempre observando se poderia estar a ser perseguido caminhou apressadamente para a taverna.

Quando chegou perto, ouviu algum barulho, mas pouco. O estabelecimento não estava cheio. Mas isso já pouco importava, até porque o cheiro a pão quente começava a hipnotizá-lo e ele realmente queria provar algo quente e cujo sabor já não sentia há algum tempo. Encheu o peito de ar e ultrapassou a porta.

As pessoas que estavam lá dentro calaram-se e olharam para ele. Ao mesmo tempo, olharam uns para os outros. Nesse momento, Brynden pensou ter sido reconhecido. E de facto, poderia tê-lo sido (por alguns). Mas pouco se importavam. Tão pouco, que rapidamente o barulho voltou ao normal e as conversas continuaram. Blackfish caminhou até ao balcão onde uma mulher gorda e vermelha de cara respirou profundamente e o abordou.

- Cara de viajante! – Riu-se. – Jeor! – Gritou. – Jeor! Trás o vinho que este aqui deve estar com uma sede de meter dó aos deuses!

Um homem que aparentava ter a mesma idade que a mulher caminhava apressadamente com uma garrafa turva que o Tully adivinhou ser vinho.

- Talvez um pouco de pão...

- Sim, sim, viajante. Mas isso vai ter que esperar! Aqui o meu Jeor ainda não tirou o pão da fornalha. Mas descanse e beba. Parece que realmente precisa de algo que o anime.

O homem baixou a cabeça em sinal de agradecimento e elevou o copo até à boca e engoliu uma grande porção de vinho. Enquanto pousava o copo e se recompunha, algo nas vozes dos homens sentados na mesa atrás dele o deixaram atento. As palavras "Aegon" e "voltou" era repetidas consecutivamente e Brynden tentou perceber de que estavam a falar. Então concentrou-se e tentou perceber a conversa mesmo apanhando-a a meio.

- ... eu sei o que digo! Eu ouvi bem os rumores! O filho de Rhaegar voltou! - A voz grossa foi interrompida por uma menos grave.

- Já te disse que isso é impossível! O rapaz morreu! Esse tal de Aegon só pode ser um impostor! E tu bem disseste que ele está pela mão do Jon Connington... Isso não me cheira nada bem!

O primeiro homem voltou a falar.

- Se ele realmente está com o Jon Connington e se já conquistou Storm's End como se tem dito, isso só vem confirmar as suspeitas de que o tal de Aegon é realmente um Targaryen.

O outro respondeu:

- Mas o que te leva a ter tanta certeza? – Este parecia ser mais novo. O Tully não se queria virar para trás para despertar atenções. Então mantêve-se quieto no lugar onde estava.

- Às vezes penso se não és o maior asno dos Sete Reinos, rapaz! Então não conheces a história de Rhaegar Targaryen?

- Sim, raios! – Respondeu o outro dando um murro na mesa. – Mas o que é que isso tem a ver com isto?

- Pelos deuses! Tem tudo! O Jon Connington era considerado o mais fiel servo de Rhaegar. Não acho que fosse deixar que usurpassem do nome do filho do seu rei só para uma nova conquista. Se realmente este novo Aegon Targaryen está pela mão do Connington, tudo isso me garante que esse tal novo príncipe é, sim, Aegon Targaryen!

- Mas isso mudará tudo!

- Mudar, mudará! Falta é saber se é para melhor, ou se é apenas mais um dragão louco que vem para chacinar tudo o que resta de bom em Westeros.

As conversas seguintes eram conversas fúteis sobre prostitutas e viagens que os dois deviam ter feito e partilhavam agora com os amigos, mas Tully pensou. E pensou. E pensou. E o pensamento ficou-lhe bloqueado aquando à chegada do pão quente num prato. Pegou nele e mastigou sofregamente. No fim, sabia que a conversa dos dois homens fazia todo o sentido. Então o filho dragão de Rhaegar havia nascido das cinzas e havia voltado para reclamar o que era seu. Precisava saber mais sobre tudo aquilo. Via uma porta aberta e uma nova oportunidade. Talvez, Edmure tivesse que esperar mais um pouco e Storm's End tivesse que ser a sua nova paragem. Isso poderia trazer benefícios tanto para o Blackfish como para o resgate do seu sobrinho.


N/A: Pode parecer um retrocesso na história meter agora um capítulo do Blackfish, mas não é! Vamos tentar continuar a actualizar todas as semanas (pelo menos a próxima, porque o capítulo já está escrito). Dito isso, a história vai-se começar a desenrolar. Esperamos que estejam a gostar e estejam à vontade para nos deixar o vosso feedback!