Capítulo 2
DAMMED IF YOU DO, DAMMED IF YOU DON'T
Toda manhã de volta de férias naquela casa a lembrava d'A Toca. Mesmo sempre lembrando os filhos que precisavam organizar seus malões na véspera, Ginevra não se conformava com a capacidade de coisas que Lily acabava por deixar para fora; as roupas que James insistia em deixar jogadas pelo quarto, corredor e banheiro; e o mau humor insuportável de Albus ao mal levantar e ser repreendido por ainda não ter fechado seu malão.
Não ajudava nada o fato de Harry ficar apressando todos e lutando com a chave do carro na hora de sair. Durante o primeiro ano de James em Hogwarts a ruiva tentou convencê-lo de que era extremamente mais prático e rápido aparatarem com as crianças até a estação, mas ele insistira em utilizar o meio de transporte trouxa, evitando o máximo que podia aparatar.
Quando finalmente todos os malões e gaiolas e crianças estavam devidamente alojados no carro, Ginevra e Harry partiram rumo a King's Cross, onde as crianças pegariam o trem às 11h para Hogwarts. Quase todo o percurso foi feito em silêncio, eventualmente interrompido por comentários aleatórios do homem.
Harry gostava de reclamar. Sobre os duendes, de Albus. Sobre os preços, de James. Hoje estava reclamando dos motoqueiros — ainda não tinha conseguido chegar em Lily.
— Não entendo como o senhor pode reclamar de motoqueiros — Albus comentou à certa altura enquanto Harry batia no volante, contrariado. — Vovô te devolveu a moto, não devolveu?
— Mas a minha moto voa, ela não fica cortando os carros.
— Seu avô sempre teve um parafuso a menos, Albus — Ginevra comentou, observando o trânsito, apreensiva. — As crianças vão perder o trem desse jeito, nunca chegaremos a tempo.
Cada vez mais impaciente, Harry conseguiu chegar a King's Cross em cima da hora para a partida do trem. Os filhos saltaram rapidamente do carro enquanto os pais pegavam a bagagem. James ainda estava emburrado com a mãe pela situação na manhã anterior, mas aparentemente Harry ainda não sabia do ocorrido, ou — Ginevra acrescentou mentalmente enquanto via o marido ajudar os filhos mais velhos a atravessar a barreira mágica que separava a plataforma 9 ¾ do mundo trouxa — estava apenas esperando a melhor oportunidade para questioná-la a respeito.
O Expresso de Hogwarts já estava cheio de estudantes, a maioria ansiosos pelo retorno à escola. No entanto, um sonserino, em especial, que se encontrava parado diante do trem, despedindo-se do pai, a mulher sabia, desejava com todas as forças não ter que retornar a Hogwarts tão cedo.
— Eu vou com Scorpius — Albus disse, pegando o carrinho com seu malão e se dirigindo em direção aos Malfoy.
— Você não vai se despedir da sua mãe, mocinho? — Harry perguntou, chamando a atenção do filho enquanto ajudava Lily a embarcar com sua bagagem.
Albus se dirigiu à mulher, que gesticulou.
— Eu vou com ele — disse Ginevra. — Venha aqui, James, Lily — beijou os dois antes de seguir com o filho do meio.
Os Malfoy os avistaram muito antes que estivessem perto o suficiente para que se cumprimentassem. Scorpius, educadamente, perguntou como Ginevra estava e em seguida ele e Albus se afastaram um pouco dos dois.
— Como vai Romilda? — perguntou, observando o garoto abatido que agora conversava desanimadamente com Al.
— Melhor impossível — Draco respondeu secamente.
— Eu me preocupe com ela, Draco — respondeu, fitando-o.
— Como se preocupação fosse curá-la.
— Você pensou no que eu te disse?
— Seu marido parece ter pensado — Ginevra viu que Harry não parava de olhar para os dois.
— Draco, não mude de assunto, por favor. Não trate Scorpius como se ele fosse parte do problema. Ele não tem culpa.
— O que você entende disso? Meu filho é assunto meu, Ginevra.
— Meu filho está sofrendo junto com seu filho, se você conseguisse olhar para algo além de seu próprio umbigo, se conseguisse observar o quadro como um todo, teria notado.
— É por isso que você está aqui?
— Eu gostaria de saber como sua esposa está.
— Morrendo. Como se você não soubesse disso — o trem deu o primeiro sinal de que partiria e os dois garotos se aproximaram.
Ginevra observou Harry se despedir de James e Lily pela janela do trem enquanto Albus lhe dava um beijo na bochecha e seguia Scorpius — que já havia se despedido do pai com um abraço.
Segundos depois, o trem começou a se movimentar, os pais começavam a deixar a plataforma quando Harry se aproximou dos dois. Antes que qualquer um deles dissesse algo, Draco se afastou.
— Vamos — Harry disse simplesmente, guiando a mulher pelo braço em meio aos pais que atravessavam a barreira entre as plataformas trouxa e bruxa.
Pouco antes de voltar ao lado trouxa de King's Cross, Ginevra viu Draco observar o casal e desaparatar. Entraram no carro em silêncio e Harry deu a partida, visivelmente contrariado.
— O que houve? — Ginevra perguntou quando já estavam há mais de dez minutos no trânsito, ambos absolutamente em silêncio.
— Como vai Romilda? — Harry evitava olhá-la.
— Posso saber por que o interesse?
— Você foi até Malfoy pra perguntar dela.
— Ela está morrendo, Harry.
— Eu sei. Albus me disse — pararam num semáforo, que havia acabado de fechar.
— Os curandeiros...
— Eu sei — ele a cortou. — O que eu não sei é por que você foi até a casa deles ontem. Ou melhor, por que eu não sabia que você foi até a casa deles ontem, quando até mesmo Luna e Zabini sabiam.
— Não sabia que você agora tinha dado para ouvir fofocas, Harry — o semáforo abriu e continuaram o caminho.
— James me disse que você foi até lá. Você está falando que nosso filho é fofoqueiro? — ela suspirou e olhou através da janela.
— Eu me referia a Luna e Zabini.
— Eu os encontrei no Ministério ontem — respondeu simplesmente. — E nenhum dos dois me disse absolutamente nada.
— Isso foi antes de eu levar Albus para ver Scorpius. Eles sequer sabiam que eu estaria lá.
— Eles e ninguém, aparentemente.
— Harry, Romilda está morrendo. Ele e Albus são amigos, é natural que nosso filho queira confortá-lo, mesmo que não haja mais nada a fazer.
— Você podia ter me avisado, ao menos.
— Tome cuidado! — disse, vendo-o passar por um cruzamento cujo semáforo havia acabado de fechar para a direção em que iam. — Por que eu deveria ter dito antes? Para que você ficasse como está agora?
— Gin, você sabe que eu não gosto de Malfoy. Ele continua sendo um cretino, não mudou nada com tudo o que aconteceu.
— Eu fui levar Albus para ver Scorpius, Harry, não Draco.
— Desde quando você o chama pelo primeiro nome? — o marido perguntou, freando bruscamente.
— Desde quando existem três Malfoys a quem eu poderia estar me referindo.
— Eu não esperaria que você fosse ver nem Romilda nem Draco — ele cuspiu o nome. — Eu achei que você achasse que eles não valiam o trabalho.
— Harry, Romilda está morrendo. Você consegue entender isso?
— É claro que eu consigo enteder isso, Gin, não sei se você se lembra, mas eu já morri,
— Você quis morrer, é completamente diferente. Você acha que Romilda quer deixar o filho sozinho?
— Romilda nunca se importou com ninguém a não ser com ela mesma, por que seria diferente agora? Ou você esqueceu que por causa desse mesmo "casalzinho vinte" seu irmão quase morreu só porque ela queria dizer que tinha saido com o famoso Harry Potter e ele não se importava nem um pouco com quem poderia se machucar enquanto tramava um assassinato?
— Nossas prioridades mudaram, Harry, assim como as dela. Romilda tem um filho, e você devia saber que a vida de uma pessoa muda completamente quando um filho nasce. Nós éramos adolescentes, estávamos descobrindo as coisas boas e ruins da vida. É normal, todo mundo tem sua época egoísta, inclusive você! Você não pensou em ninguém quando resolveu morrer, você não pensou em como eu me sentiria, nunca, você nunca se importou realmente!
— Como você pode dizer uma coisa dessas? Você fala como se quando eu tivesse decidido morrer, você não fosse ter reclamado, não fosse ter tentado me convencer do contrário! É óbvio que eu pensei no que você sentiria, Gin, mas existem coisas que precisam ser feitas pelo bem maior.
— Eu estou cansada de ser colocada em segundo plano por causa de algo bem maior.
— Você preferia que eu tivesse ficado? Que eu tivesse pensado em você e em como você se sentiria e ter deixado Voldemort vir destruir todos vocês, toda sua família, todos os seus amigos, os nossos amigos, por minha causa? Você acha que eu poderia suportar ver você, ou Ron ou Hermione morrerem por covardia minha? Eu não sou covarde, Gin. Esse é o Malfoy.
— Você preferiu me ver morrer um pouquinho a cada dia.
— O que você quer dizer com isso?
Ginevra respirou fundo, evitando olhá-lo. Era como se toda a água represada durante aqueles anos estivesse a ponto de arrebentar o concreto e iniciar uma enxurrada. Encarar os olhos verdes do marido seria o ponto final, ela sabia.
— Harry, você não pode ultrapassar pela esquerda.
— Eu sei perfeitamente bem o que eu posso ou não fazer, parece que é você quem não sabe.
— O que você quer dizer com isso?
— Você não tinha nada que ter ido na casa dos Malfoy. Especialmente sem me avisar. Eu sou seu marido.
— Você não é meu dono, para eu ter que avisar cada passo que eu dou.
— Você fez questão de não me dizer. Isso é traição.
— Traição? — repetiu, indignada. — Harry, eu fui levar Albus, se você não se lembra, ele é menor de idade e não pode aparatar. Ele está assustado com essa situação, e preocupado com o melhor amigo dele!
— Você deveria ter me dito. Você teve a tarde inteira para me avisar, você podia ter me dito quando voltou! Você não quis me dizer, admita.
— Pra quê? Não mudaria nada! Você daria o escândalo que está dando agora na frente das crianças.
— Eu não teria "dado escândalo" na frente das crianças. E, você poderia ter me dito mesmo depois de eles irem dormir. Mas, não, você fez questão de manter segredo e eu tive que ouvir de James.
Ela suspirou.
— É óbvio que você daria escândalo, Harry, exatamente por isso eu não te contei ontem. E se você prestasse um pouco mais de atenção nos seus filhos, veria que Albus não dormiu.
— O que eu vi foi que você não dormiu. Preocupada com seus amiguinhos?
— Eu estou preocupada com o nosso filho, ao contrário de você.
— Eu estou preocupado com por que minha mulher achou que precisava esconder de mim que ia ver os Malfoy. O Malfoy. Eu estou preocupado com por que minha mulher vem se esquivando de mim toda vez que eu me aproximo dela.
— Você está mais preocupado com o fato de eu ter ido até a casa dos Malfoy do que como nosso filho está lidando com toda essa situação. Mais uma vez, seu ego vem antes do de qualquer outra pessoa.
— Eu estou preocupado em por que minha mulher FOI PRA CASA DO AMANTE DE ESCOLA SEM ME DIZER!
Ginevra permaneceu sem reação por um instante, vendo-o dar uma fechada no milésimo carro naquele dia.
— Eu nunca, absolutamente NUNCA, te traí, Harry.
— Aparentemente, DEAN NÃO PODE DIZER O MESMO, NÃO É?
— O que diabos você sabe do meu relacionamento com ele?
— O que eu sei? Eu não sei de nada! O que eu sei é que quando você supostamente o namorava, Dean já estava com Seamus! O que eu sei é o que eu ENTREOUVI A LUNA CONVERSANDO COM MALDITO ZABINI OUTRO DIA.
— Você agora deu para entreouvir conversas alheias e tirar conclusões?
— Então você vai NEGAR? Vai me dizer que o MALDITO MALFOY não foi seu primeiro? Vai me dizer que LUNA E BLAISE estavam mentindo a troco de nada?
— Você SEMPRE soube que não foi o primeiro, Harry.
— Mas há uma GRANDE diferença entre DEAN e MALFOY.
— Óbvio, Draco nunca foi apaixonado por Seamus! Nem nunca se chamou Michael, se você realmente precisa saber quem foi o primeiro.
— E POR QUE mentir? Por que você VIVE MENTINDO SOBRE TUDO QUE TEM A VER COM MALFOY?
— Porque eu sempre soube que você jamais admitiria que Draco foi melhor do que você em algo.
— SE ELE É TÃO MELHOR QUE EU, VÁ LÁ DAR PARA ELE!
— Porque eu não sou igual você, Harry! Eu não ignoro meus problemas criando outros.
— O QUE VOCÊ QUER DIZER COM ISSO?
— O fato de nosso casamento não ir bem não quer dizer que eu vá sair por aí DANDO PARA QUALQUER UM! Isso não resolveria NADA!
— O NOSSO CASAMENTO IA MUITO BEM ATÉ EU DESCOBRIR SUAS MENTIRAS!
Ginevra o encarou, o rosto de Harry estava vermelho e podia ver as veias saltadas em seu pescoço.
— Isso é o que VOCÊ acha.
Harry freiou o carro tão bruscamente que foi impossível para o motorista de trás parar a tempo, começando um imenso engavetamento na saida de Londres. Ginevra balançou a cabeça, ainda mais irritada, saindo do carro. Harry saiu atrás dela, batendo a porta atrás de si com toda a força sem dar a mínima pros motoristas atrás que se gritavam e xingavam.
— TALVEZ ELE ESTIVESSE MELHOR SE VOCE SE ESFORÇASSE PARA MELHORAR!
A ruiva riu, nervosa.
— EU? — berrou. — Não sou eu quem procura mais os amigos do que a esposa. Não sou eu quem uso os filhos como desculpa pra viver enfurnado na casa do cunhado. Não sou eu que não percebo que algo está acontecendo exatamente DEBAIXO do meu nariz. Não sou eu quem sufoca a esposa com declarações, na esperança de ouvir uma resposta verdadeira.
— TALVEZ EU FAÇA ISSO PORQUE VOCE NUNCA PAREÇA ESTAR INTERESSADA!
— Não me culpe pelos SEUS erros, Harry! — Ginevra respondeu, desaparatando em seguida.
Não tinha parado para pensar que dezenas de trouxas tinham acabado de vê-la desaparecer do nada, Harry podia consertar isso em um piscar de olhos, com ajuda de Hermione. Ela entrou em casa irritada, abriu o armário com força, fazendo a porta se soltar do resto, e jogou o antigo malão de Harry no chão, abrindo-o com um movimento da varinha e jogando todas as roupas do marido que encontrava dentro dele. Harry havia ido longe demais com as acusações de traição e culpando-a pelo fracasso do casamento — que, para ele, aparentemente havia acontecido há pouco, o que apenas a deixou mais sentida com a situação. Ele fora incapaz de perceber o quanto Ginevra tinha se anulado, pouco a pouco, o quão sufocada se sentia com aquela relação, o quanto a machucava com os pequenos gestos.
Estava cansada. Cansada das mentiras e das aparências, cansada de se sentir presa, frustrada e impotente para ser feliz. Cansada de Harry Potter, cansada de ser a mulher do menino-que-sobreviveu-para-se-tornar-um-marido-ausente.
— Ginevra — a voz de Harry ecoava pela casa. — Ginevra, eu sei que você está aí, Hopkik me disse.
A ruiva apontou a varinha para a porta, fechando-a ao ouvir os passos do marido subindo a escada. Harry tentou abrir a porta em vão, antes de tornar a gritar.
— GINEVRA, ABRA A PORTA.
— ME DEIXE EM PAZ, PELO MENOS UMA VEZ! — a mulher respondeu no mesmo tom, deitando em posição fetal sobre a cama do casal.
— ALORROMORA! VOCÊ NÃO VAI FUGIR DESSA CONVERSA DE NOVO.
Harry se aproximou da esposa, segurando-a pelos ombros e forçando-a a encará-lo. Ginevra agora não tentava conter as lágrimas, tentando se esquivar dele.
— Você fugiu de mim durante anos, Harry.
— Eu?
— Não, minha tia Muriel! É ÓBVIO que eu estou falando de você! De você e da sua negligência como marido!
— EU sou um marido NEGLIGENTE? Você pode dizer EXATAMENTE ONDE EU NEGLIGENCIEI QUALQUER COISA NESSA CASA? EU NUNCA DEIXEI FALTAR NADA PARA AS CRIANCAS, EU NUNCA DEIXEI FALTAR NADA AQUI!
— Você se importou mais com o fato de eu ter ido até a casa dos Malfoy do que com seu próprio filho! Você acha que nunca faltou nada, Harry, porque você sempre viu a realidade com outros olhos. Você sempre fez questão de posar de família feliz enquanto não olhava para a pessoa que estava do seu lado.
— Nada que eu fizesse mudaria a situação de Albus — ele respondeu, com a voz falhando. — Não é que eu não me preocupe, só não posso mudar, DIFERENTE DISSO AQUI.
— Você poderia dar apoio ao SEU filho. Isso era um bom começo.
— EU NÃO ESTOU FALANDO DO NOSSO FILHO, EU ESTOU FALANDO DA MINHA MALDITA MULHER QUE AO INVÉS DE IR PRA CAMA COMIGO FICA RELEMBRANDO AS NOITES QUE PASSAVA ESCONDIDA COM MALFOY COMO SE FOSSE UMA VAGABUNDA DA QUAL ELE PRECISASSE SE ENVERGONHAR!
Ginevra acertou o rosto de Harry com um tapa, deixando a bochecha vermelha marcada onde os dedos o haviam acertado.
— Foi essa vagabunda que você escolheu pra ser sua mulher, Harry Potter. Foi essa vagabunda que você escolheu pra ser mãe dos seus filhos. Foi essa vagabunda que se anulou durante anos, na tentativa de salvar um casamento que nunca deveria ter acontecido. Foi essa vagabunda que escolheu ficar com você, ao invés de ficar com ele.
Harry segurou o rosto, espantado com a ousadia da mulher.
— O que foi, está arrependida, querida? Quer voltar atrás? Vai aproveitar a morte de Romilda para se jogar na cama dele? Foi esse o conforto que você foi oferecer ao querido Draco ontem à tarde? Ou talvez ao amado Scorpius?
A ruiva o empurrou para longe de si, enojada. Sentia-se tonta, sem forças para continuar lutando por uma causa perdida.
— Você definitivamente teria se dado bem na Sonserina, Harry — disse, fitando o homem à sua frente, a respiração dos dois alterada. — Você me acusa de usar Albus mas é dez mil vezes pior ao usar Scorpius. Eu nunca seria capaz, NUNCA. E, pro seu governo, não aconteceu absolutamente NADA entre mim e Draco ontem, mesmo você merecendo um par de chifres.
Harry olhou em volta, vendo o malão no chão.
— O que é isso? — ele falou indicando o objeto.
— Sua mala — respondeu simplesmente.
— Eu sei que é minha mala. As iniciais "HP" não são tão comuns. Eu quero saber é POR QUE você a tirou lugar.
— Porque eu não quero mais viver um conto de fadas de mentira.
— Você está me mandando embora? — perguntou, parecendo chocado.
— Eu apenas estou facilitando as coisas para você, já que você nunca teria coragem.
— É isso que você quer? — ele perguntou, começando a parecer realmente desesperado. — Foi só uma briga, Gin, elas fazem parte de toda relação, não é motivo...
A mulher não pôde controlar a crise de choro que se seguiu. Harry se aproximou novamente, abraçando-a. Ginevra não correspondeu, mas não tinha mais forças para nada além de chorar.
— Vá embora, por favor — ela murmurou, muito tempo depois. — Por favor, se você ainda sente algo de bom por mim, por favor.
— Foi só uma briga, Gin...
— Não foi só uma briga. Não há relacionamento sem confiança, Harry.
— Eu posso confiar em você, eu só estava irritado... Vai passar.
— Não, não vai.
— Só precisamos tentar com mais vontade.
— Confiança não é algo que se tenta.
— Mas o resto é — ele se aproximou mais, passando o lábio inferior pelo lóbulo do ouvido da esposa. — Eu posso ser melhor na cama que o Malfoy — sussurrou.
— Harry, não... — murmurou, tentando se esquivar.
— Eu posso, eu te conheço melhor... Eu posso fazer o que você quiser... Posso apimentar...
— Não é assim que as coisas funcionam, Harry. Não é como se você apertasse um botão e tudo mudasse.
— O que eu preciso fazer para consertar as coisas?
— Nós... — ela o encarou. — Talvez nós devêssemos dar um tempo, pra repensar. Nós falamos coisas de mais um para o outro.
— Você quer que eu durma fora essa noite? Você precisa de espaço, de...? Não sei, o que você precisa?
— E-eu... Eu acho uma boa idéia, pra nós... Eu preciso descansar, Harry. Preciso pensar.
— Eu posso... Posso dormir no quarto de hóspedes. Ou você prefere que eu vá para a casa do Ron?
— Eu prefiro ficar sozinha, por hoje.
— Eu... Não acho que você deveria ficar sozinha, Gin... Posso pedir a Hermione para vir pra cá?
— Eu vou ficar bem sozinha, não se preocupe.
— Ou a Luna, se você preferir...
— Por favor, não. Eu preciso ficar sozinha hoje, Harry. Depois... Depois nós conversamos, amanhã ou depois, com calma e...
— Tudo bem... Tudo bem. Eu... Vou pegar algumas coisas e vou para a casa deles... E depois... Depois.
Harry soltou a esposa e abriu o malão, pegando algumas vestes e juntando-as na velha algibeira que Hagrid tinha lhe dado. Ginevra ficou o observando, calada.
— Pra onde você vai? — ela perguntou quando ele terminou de arrumar suas coisas.
— Vou ficar com Ron e Hermione...
A ruiva suspirou, imaginando o que aconteceria depois que o marido chegasse lá e contasse que os dois haviam brigado. Duvidava seriamente que conseguisse ficar sozinha em casa. Harry lhe deu um beijo na testa.
— Tem certeza que não quer que eu chame alguém? — ela assentiu.
— Eu chamo, se precisar.
— Me chame, se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa.
O marido deixou o quarto, não sem antes dar uma última longa olhada para a ruiva deitada na cama. Assim que ele fechou a porta atrás de si, Ginevra tentou se acalmar. Sua cabeça ainda estava a mil e seus olhos ardiam do quanto já tinha chorado.
Draco observou Romilda, a respiração difícil durante o sono agitado. Ainda estava perturbado pela conversa com Ginevra, mais cedo, em King's Cross. Ficou um longo tempo sentado observando a esposa dormir, sem saber o que fazer, o que pensar. Não conseguia entender o súbito interesse da ruiva na saúde de Romilda.
Durante todos aqueles anos Ginevra havia se limitado a observá-lo, de longe, quando as famílias levavam os filhos a King's Cross. Nunca mais haviam conversado ou se encontrado, era como se, ao mantê-lo longe, pudesse esquecer o que haviam vivido. Potter, claro, se assegurava de estar sempre por perto, sempre cercando e paparicando a mulher.
Tinham o casamento modelo de todo mundo bruxo. A família sempre fora o exemplo de perfeição das revistas, a ponto de parecer surreal. E quando Severus — sua culpa ainda não permitia chamar o menino pelo nome do antigo diretor — fora mandado para a Sonserina, ao invés de isso abalar a imagem de ambos, como havia esperado, só fortaleceu a reputação dos dois, como pais que eram capazes de aceitar as diferenças, se orgulhar mesmo de um sonserino.
Draco sentia a hipocrisia no ar cada vez que os encontrava. A necessidade extrema de sempre parecer que tudo estava ótimo, que nada abalava a estrutura do casal, feliz e contente com seus três filhos. Lembrava de quando Ginevra anunciou que deixaria o Harpies — e de como havia se sentido contrariado com a notícia de que o motivo era a gravidez. James foi capa dos jornais quando nasceu. O mesmo aconteceu com os outros dois filhos.
Claro que nos anos depois da guerra os Malfoy tinham recuperado sua reputação, limpado seu nome, sido isentos de suas acusações por conta do depoimento de Harry, mas isso não o fazia mais disposto a aceitar aquilo de bom grado. Toda vez que via a ruiva se arredondando com a gravidez via um potencial disperdiçado pelos sonhos de uma grande e feliz família de Weasels que Potter tinha.
Enquanto todos celebravam, Draco procurava por um certo brilho no olhar da ruiva — algo que apenas ele saberia identificar, perdido há muito tempo. E então Romilda apareceu. Pouco depois do pequeno James Potter nascer, tinha esbarrado com a antiga grifinória em um dos chás organizados pelas famílias sangue-puro. Lá estava ela, com seus cabelos negros e macios, tão diferente de Ginevra mas com a mesma força no olhar.
O namoro foi curto, o noivado devidamente acertado entre as famílias e, pouco tempo depois, Romilda se transformara na Sra. Malfoy. Ela não tinha a desenvoltura de Ginevra, nem as tiradas ácidas que só a ruiva sabia utilizar como resposta às suas provocações.
Mas ela era aceitável, e agradável, sempre disposta a fazer de tudo para deixá-lo feliz sem ser submissa — sem viver exclusivamente para procriar e cuidar da casa, uma atitude que achava perfeitamente cabível vindo de sua mãe, mas completamente inesperada em Ginevra.
E então veio a notícia de que seria pai. Algo completamente novo e inesperado, comemorado por toda a família. Draco nunca tinha se imaginado pai, mas descobriu rapidamente que podia se adaptar a situação. Era natural se preocupar com coisas que antes jamais tinham passado pela sua cabeça, ou achar razoável Romilda pedir torta de abóbora com sorvete de baunilha às duas da manhã.
Poucas semanas antes do nascimento, sua mãe o procurou após o jantar na mansão em Wiltshire. Sabia que, apesar de disfarçar, ela não estava feliz, mesmo tendo o neto a caminho para celebrar. Era o aniversário de morte de sua irmã mais velha, com quem Draco tivera tão pouco tempo para conviver. Narcissa lhe pediu, então, que seguisse a tradição de sua família, os Black, ao nomear a criança que viria ao mundo.
Ele concordou sem pestanejar, enfurnando-se por horas em seu escritório, analisando mapas de constelações e nomes de estrelas, mitos e idéias ligados a cada uma até escolher um nome. Romilda, que nunca gostara muito de seu nome, ficou preocupada com o uso de nomes tão pouco comuns como os dos Black.
Mas a preocupação passou quando, depois de um parto complicado, ela segurou o pequeno Scorpius em seus braços.
O curandeiro que fora chamado no último minuto para auxiliar a parteira o chamou para dizer que sua mulher não poderia arriscar mais uma gravidez. Draco, que estava encantado com a idéia de ser pai, não ficou muito feliz, mas tentou garantir para si mesmo e a esposa que não teria problema nenhum. Scorpius seria o orgulho dos dois.
Nenhum dos dois poderia imaginar que, catorze anos depois, teriam de lidar com aquela situação. Draco sabia que Scorpius havia ido ver a mãe, mesmo contra a vontade da mesma. Romilda estava dormindo quando o filho a observou durante vários minutos antes de, silenciosamente, se despedir e descer, para encontrá-lo e desaparatarem para King's Cross.
Nunca contara o filho o quanto seu nascimento tinha sido complicado, ou que aquele fora o começo do problema da mãe. Muitos anos se passaram, a doença progredindo lentamente, até que, quando parecia impossível, Romilda tornou a conceber, apenas para perder pouco mais de um mês depois e acelerar a doença.
Romilda jamais se perdoou por isso. Não queria que Scorpius crescesse sem irmãos ou primos próximos. Talvez exatamente por isso tenha ficado tão feliz quando soube da amizade do filho do meio de Ginevra com o garoto Malfoy. Os dois acabaram se tornando melhores amigos — e colegas na Sonserina. Era irônico, afinal, um Potter na casa de Slytherin, enquanto os irmãos foram para a Grifinória, segundo a lógica Weasley de seu sangue.
Romilda despertou, ajeitando-se o melhor possível na cama. Ele a ajudou com os travesseiros.
— Draco — a mulher chamou, segurando-o pelo braço.
— Você precisa de algo? Quer água ou...
— Por que você deixou Scorpius vir me ver?
O loiro suspirou, tornando a se sentar na cadeira ao lado da cama.
— Eu não pude amarrá-lo ao pé da mesa de jantar, Romilda.
— Mas você disse a ele, não disse? — ela soltou um muxoxo. — É óbvio que você disse. Ele sabia, por isso tentou não fazer barulho. Achou que só porque não enxergo também não sinto.
— Ele só queria te ver, antes de partir pra escola. Era um direito dele.
— Assim como eu tinha o direito de preservar minha imagem perante meu filho — a mulher respondeu secamente, os olhos encarando o vazio à sua frente. — Se nem mais a minha vontade você respeita, Draco, então não há mais nada para você fazer aqui.
— Você não vê o que está fazendo com nosso filho, Romilda? — perguntou, irritado. — Você não está pensando em como será o depois, você só está se importando com o agora, você está sendo extremamente egoísta. Você não entende o quão ele está se sentindo sozinho? Você não entende o quão ele não entende por que a mãe dele tem que morrer? Ele é só uma criança, Romilda, uma criança que vai ter que aprender a lidar com o fato de a mãe não querer vê-lo, nem mesmo na última chance que teve pra isso.
A esposa abriu a boca para responder, mas aparentemente desistiu, fechando-a em seguida. Draco saiu do quarto batendo a porta atrás de si.
— Parece que o clima estava tenso lá dentro — Blaise havia acabado de apontar no final do corredor.
— Nem comece com suas gracinhas — o loiro respondeu, esmurrando a parede, na vã tentativa de aliviar a raiva e frustração que sentia.
Zabini riu e cruzou os braços, observando a cena.
— Como você deixou as coisas chegarem a esse ponto? A parede não é o Potter, Draco.
— Eu quero que Potter vá pro quinto dos infernos, Blaise — respondeu rudemente, encarando-o. — Mas, feliz ou infelizmente, Potter não é o motivo pelo qual eu estou...
— Fora de controle? — o negro o interrompeu, um sorriso cínico nos lábios. — Eu sei que não é por causa do Potter, é por causa da Potter.
— Minha mulher está morrendo, Zabini — Draco o empurrou —, você poderia ao menos ter um pouco de respeito.
— Ui! — o outro fingiu estar ofendido. — Agora tudo é por causa de Romilda? Ela vai ser sua desculpa pra tudo?
— Nem tente — respondeu, dando-lhe as costas e caminhando para longe do quarto da esposa.
— A propósito — Blaise gritou quando o loiro já estava quase no final do corredor. — Achei que você gostaria de saber, Potter causou um enorme engavetamento na saída de Londres. Pelo que disseram lá no Ministério, ele e sua amada, esposa dele, estavam discutindo, a ponto de a Weasley desaparatar na frente de dezenas de trouxas, deixando o babaca com cara de tacho no meio da rua.
— Vá se foder, Blaise — Draco respondeu.
— Talvez esse seja seu problema, sabe? A falta.
Ginevra ouviu os passos de alguém subindo a escada, sem força para sequer se mover. Estava encolhida, debaixo das cobertas, abraçada ao travesseiro. Não sabia há quanto tempo estava naquela posição, mas era o suficiente para que seus músculos doessem a qualquer tentativa de movimento. Os olhos ainda ardiam, inchados, embora achasse que não conseguiria mais chorar por muito, muito tempo.
— Ginny? — ouviu a voz de Hermione, cada vez mais perto agora. — Ginny, como você está? — a cunhada perguntou, alarmada, finalmente entrando no quarto. — Oh, Ginny, me desculpe não ter vindo antes, e-eu acabei me enrolando no Ministério, e quando cheguei em casa já era tarde, e Harry me contou e... Ah, Ginny, eu sinto muito — acrescentou, sem jeito, encarando a ruiva.
— Você não precisava ter se dado ao trabalho, Hermione.
— Você quer que eu pegue algo pra você? Precisa de alguma coisa? Ron foi pra loja e eu tirei a manhã de folga, então...
— Não é o fim do mundo, sabe? — perguntou, fitando a cunhada. — Nós discutimos, Harry estava dirigindo feito um louco, nada do que eu tenha dito o fez tomar mais cuidado e... Você não precisava ter tirado a manhã, eu estou perfeitamente bem e...
— Oh, Ginny, mas é claro que você está ótima — ironizou. — Eu gostaria de ter um espelho aqui comigo agora, para que você visse sua cara de em perfeito estado de felicidade — acrescentou, preocupada. — Você às vezes me parece ser mais cabeça-dura que seu irmão! Eu nunca vi o Harry daquele jeito, Ginny, e nem você, assim!
— Como se você nunca tivesse brigado com Ron — respondeu, irritada.
— Óbvio que eu e Ron discutimos, Ginny, mas quantas vezes ele veio pedir pra dormir aqui, em todos esses anos? Eu nunca coloquei meu marido pra fora de casa por causa de uma discussão idiota!
— Discussão idiota? — a ruiva riu. — Foi isso que ele disse? — Hermione negou.
— Ele entrou em detalhes com Ron, que disse que Harry havia agido corretamente e que eu não deveria vê-la, que você precisava aprender a ser mulher. Isso, claro, não me impediu de vir, mesmo contra a vontade do seu irmão. Ginny, eu estou preocupada, com vocês dois. Harry disse que... — ela pareceu insegura de perguntar. — Ele, bem...
— O que ele disse, Hermione? — a ruiva perguntou, impaciente.
— Ele contou que entreouviu Luna e Zabini no Ministério ontem e... Bem...
— É verdade — respondeu simplesmente, cortando a cunhada, que pareceu chocada.
— Você... E o Malfoy? — perguntou, incrédula, como se precisasse ouvir da boca de Ginny para acreditar.
— Eu nunca disse ao Harry que ele havia sido o primeiro, Hermione.
— Mas também não disse que havia sido Malfoy, quero dizer — acrescentou, ao observar a expressão da ruiva —, eu sempre achei que havia sido Dean, então...
— Foi Michael, não que isso pareça fazer alguma difereça. De qualquer forma, você disse ao Ron que havia ficado com Krum no baile? — desconcertada, a morena negou. — Então você também não pode me repreender. Eu simplesmente não contei porque... Porque eu sabia que Harry jamais aceitaria, eu sabia que ele ia gritar e brigar e... Bem, não é algo que ele possa mudar, é?
Hermione suspirou.
— É só... Bem, você tem que concordar comigo que é algo ligeiramente chocante. Quero dizer, quando eu disse que você devia tentar se relacionar com outros caras eu não me referia a um filhote de Comensal da Morte — foi a vez de Ginevra suspirar.
— Romilda está morrendo, Hermione — a ruiva disse, séria. — Albus está preocupado com Scorpius, o que é normal, eles são amigos e não sabem lidar com o sentimento de perda, com a morte de alguém, assim, tão próximo. Al me pediu para levá-lo para ver o amigo, e então, eu vi Romilda. Ela... — a voz da mulher ficou baixa e falha. — Eu não consegui controlar as lágrimas, ela está definhando.
— Harry acha que você vai largá-lo porque Romilda está prestes a morrer, e então não terá mais nada te impedindo de procurar Malfoy — Ginevra se irritou.
— Se é isso o que ele pensa de mim, então talvez seja melhor ele sequer botar os pés nessa casa de novo.
— Não fale isso, Ginny... Isso é... Muito sério.
— Ele me xingou, Hermione. Ele me acusou de ter ido me oferecer de consolo para Draco. Ele insinuou que talvez eu preferisse fazer isso com Scorpius.
— Isso... É absurdo... Harry não diria...
— Eu também achava que não. Mas ele disse.
— Eu... Não acredito que Harry...
— Agora eu vou precisar arranjar uma maldita penseira pra te provar?
— Não! — falou, assustada com a facilidade da cunhada de chegar à raiva. — Eu quis dizer... É chocante pensar em qualquer um dizendo algo assim, ainda mais Harry que sempre foi... Tão gentil.
— Só se foi com vocês — respondeu sombriamente.
Um barulho no andar de baixo interrompeu a conversa. Ginny já conseguia visualizar seu irmão vindo atrás da esposa e aproveitando para lhe dar um sermão quando um reflexo de cabelos loiros apareceu na porta do quarto.
— Ginny? — perguntou Luna, a voz muito mais séria que o habitual. — Oh, olá Hermione.
— Ah, é você — falou Ginevra, ainda irritada.
— Olá — respondeu Hermione, tensa.
— O que houve com vocês? — perguntou a loira. — Blaise me chamou através do espelho, me disse que você e Harry tinham brigado...
— Pra variar, Blaise abrindo a grande boca dele.
— Ele achou que eu gostaria de saber — defendeu Luna.
— Desde quando vocês tratam Zabini pelo primeiro nome? — perguntou Hermione, olhando de uma para a outra.
— Ele é meu patrocinador — justificou a loira.
— Você é bem amiga do Harry, Hermione.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou, confusa.
— A discussão toda começou porque eu falei Draco, e não Malfoy.
— Convenhamos que é um tanto estranho.
— 'Peraí, você discutiu com Harry por causa de Draco? — interrompeu a corvinal. — Ah, eu sabia que isso ia acabar acontecendo, mesmo sem ele saber... Er... É... Mesmo que as crianças não dissessem nada.
— James disse a ele, mas nós teríamos discutido, de qualquer forma, porque ele ouviu você e Zabini — disse, olhando diretamente para a cunhada — falando sobre mim e Draco.
— Eu e Blaise? Mas... Como ele pode ter ouvido...? Quero dizer, não estavamos... Não falamos nada demais!
Hermione deu uma risada, sem jeito.
— Não foi o que parece.
— Pergunte ao Harry, ele entendeu o que era preciso — Ginevra respondeu simplesmente.
— Como assim "o que era preciso"? O que exatamente ele ouviu?
— Que eu e Draco tivemos um caso, palavras dele.
— Mas... Onde ele nos ouviu dizendo alguma coisa dessas?
— Ele disse que foi no Ministério, Luna, mas se você quiser detalhes, só ele poderá te dar — a ruiva respondeu, impaciente.
— Estávamos sozinhos no elevador quando comentamos algo sobre o assunto... Blaise disse que Malfoy estava mais mal humorado do que ele jamais tinha visto, desde que vocês terminaram, exatamente isso.
— Sozinhos no elevador? — perguntou Hermione. — Luna... Você tem certeza disso?
— Harry jamais inventaria algo assim, é óbvio que ele ouviu alguma coisa.
— A menos que... — Hermione pareceu engolir seco. — A menos que estivesse usando a Capa.
— Ele me disse que entreouviu a conversa.
— Isso certamente se encaixa em entreouvir — falou a cunhada, acenando a cabeça. — Mas por que ele estaria usando a capa?
— Coisas que só Harry Potter pode te responder.
— Ele me perguntou outro dia se eu achava seguro fazer negócios com Blaise — mencionou Luna, os olhos arregalados.
— Harry e ele nunca foram, você sabe, amigos. Harry nunca confiou em nenhum sonserino. Não até Albus entrar em Hogwarts, quero dizer. Você vê, nem em Snape ele confiava, precisou que o homem morresse pra ele descobrir a verdade.
— Harry sempre sentiu necessidade de descobrir "a verdade" — falou Hermione, parecendo arrependida imediatamente.
— O que você quer dizer com isso?
— Sempre que achava algo misterioso, ou estranho, ou desconfiava das intenções de alguém, ele queria investigar... Foi por isso que se tornou Auror e tudo mais, não é mesmo?
— Isso inclui andar sob a Capa em pleno Ministério?
Hermione deu os ombros.
— É a única explicação que eu vejo.
— O elevador parou em um dos andares e ninguém entrou, nem memorandos — observou Luna. — Pode ter sido aí que... Sinto muito, Ginny.
— A culpa não foi exatamente sua, nem de Blaise. Mas talvez nada tivesse acontecido se ele não fizesse comentários sobre mim e Draco — acrescentou, ressentida.
— Eu te disse que você deveria ter contado para ele.
— Eu não sei, Luna — contemporizou Hermione. — Eu não sei se faria alguma diferença.
— Eu deveria ter feito um milhão de coisas que não fiz.
— E não ter feito muitas coisas que fez — acrescentou Hermione.
— Se você está se referindo ao meu envolvimento com o Draco, saiba que isso é algo que se encaixa no grupo de coisas que "não me arrependo por ter feito" — disse, irritada.
— Eu não entendo por quê.
— Não é para ser entendido.
— Ele a fazia feliz — disse Luna, sentando ao lado da ruiva. — É um bom motivo, acho.
— Entre outras coisas.
— Confesso que é uma idéia um tanto difícil de se lidar.
Ginevra deu de ombros.
— Não faz muita diferença, agora.
— Não, não faz... O que faz diferença é... Como vão ficar as coisas entre você e Harry?
A ruiva suspirou.
— Eu pedi pra ele ir embora. Ele se desesperou e acabou indo passar a noite na sua casa, eu pedi pra me deixar sozinha. Eu precisava, e ainda preciso, pensar.
— Isso é um passo sério demais para você dar por causa de uma única briga, Ginny... Eu sei que o que ele disse foi... Nojento, mas são vinte anos... Tem seus filhos também.
— Eu sei, eu sei de tudo isso.
— Foi só uma briga... Era informação demais... Ele vai voltar a ser o mesmo Harry de sempre assim que se acalmar, Ginny, você vai ver...
— Eu não quero que ele volte a ser o mesmo — respondeu, ainda mais irritada.
— O que você quer dizer?
— Ginny diz que as coisas já estavam ruins... Você procurou por Zonzóbulos nas...
— Não tem nenhum maldito Zonzóbulo, Luna, eu já disse!
— Não custa nada procurar... Posso?
— À vontade.
Luna abriu o malão e começou a mexer em cada peça de roupa sob o olhar intrigado de Hermione. Ginny pegou o olhar da cunhada e deu os ombros, sinalizando para deixar a loira fazer o que bem entendesse.
— Como estavam ruins?
— Há muito tempo — respondeu, cansada.
— Ruins como?
— Ruins, Hermione. Não tente entender.
— Eu preciso entender pra poder ajudar.
Ginevra riu.
— Mesmo que eu explicasse, Harry nunca admitiria, e jamais mudaria. Então pra que perder tempo?
— Ele mudaria sim, ele faria de tudo para não te perder, Ginny, ele te ama.
— De que adianta ele não me perder e eu me perder?
— Como assim?
— Eu definitivamente não quero falar sobre isso.
— Se você tem certeza... — falou Hermione com um suspiro.
— Romilda está afetando nossas vidas — declarou Luna, ainda mexendo nas roupas.
— Romilda está morrendo.
— Eu sei disso — ela suspirou. — É justamente o que está afetando nossas vidas.
— O que você quer dizer? — perguntou Hermione.
— Eu passei horas imprensando cascas de ovos de Blibbering Humdinger para ela. E Ginny — continuou, agora investigando as cuecas, sob o olhar constrangido da morena — foi à casa de Draco e aproveitou para relembrar as antigas discussões.
— Não é culpa dela, Luna.
— Não, é culpa da tensão mal resolvida entre vocês.
A ruiva suspirou.
— Chega com esse assunto, ok?
Luna deu os ombros, mas Hermione não parecia achar que o assunto tinha acabado.
— Existe uma tensão mal resolvida entre vocês?
— Você também vai começar com isso agora? — perguntou, impaciente. — O que houve entre mim e Draco foi muito bem esclarecido, anos atrás. Eu fiz minhas escolhas, ele fez as dele, ponto final.
— Blaise parece pensar diferente.
— Diferente como?
— Diferente do tipo ele-nunca-te-superou.
— Isso não é problema meu.
— Foi algo tão importante assim? — questionou Hermione.
— Ginny foi a primeira — falou Luna, levianamente.
— Wow. Eu nunca imaginaria...
— Nem eu, para ser sincera.
— Ele... Te disse isso, assim?
— Não, foi Blaise quem nos disse — respondeu Luna, rindo.
— Eu não posso fazer nada com relação a isso. Quero dizer, se ele superou ou não, é problema dele.
— E isso não faz a mínima diferença para você? — perguntou a loira, descrente.
— Eu... — ela suspirou. — Ele foi importante, sim, mas eu terminei tudo, não terminei? Eu estou casada com o Harry, e ele com Romilda.
— Por pouco tempo, ao que parece — falou Hermione, séria. — Como ela está?
— Luna deve saber responder melhor que eu, porque aparentemente Draco resolveu que não é interessante me contar do estado de saúde dela.
— Romilda está doente há anos — falou a corvinal, parando de mexer no malão e olhando para as duas, séria. — Desde que Scorpius nasceu, para ser mais exata. Ela... Perdeu um bebê no começo do ano passado e isso agravou a doença.
— Mas o que, exatamente, ela tem?
Luna balançou a cabeça, sem saber explicar direito.
— As células dela estão matando umas as outras... Algumas mutações estranhas... Se espalhando pelo corpo. Atacou os olhos — falou a corvinal, incerta.
— Scorpius sabe que ela está doente desde o primeiro parto? — Ginevra perguntou, preocupada.
— Eu não sei — deu os ombros. — Provavelmente não. Duvido que Romilda fosse deixar o garoto saber.
A ruiva suspirou.
— Espero que não. O menino já terá problemas suficientes em ser criado por Draco.
— Eu sempre ouvi dizer que ele era um pai atencioso — concedeu Hermione. — Mas imagino que isso possa ser diferente com a atual situação.
— Ele está desesperado com a idéia. Não que não goste do menino, óbvio, mas acho que a realidade só bateu na porta agora. Ele não sabe como reagir.
— Não é também como se alguma de nós fosse saber o que fazer... Quero dizer se Ron... Se Ron... Eu não sei o que faria — falou Hermione, engolindo seco.
— Não é algo para o qual qualquer pai ou mãe esteja preparado. Ele vai ter de enfrentar. Eles terão de enfrentar, juntos, ou não vai dar certo.
— Ouvi dizer que Romilda não quis que Scorpius fosse se despedir.
— Eu a entendo, de certa forma, embora não concorde.
— Romilda está muito abatida — falou Luna, desnecessariamente. — Ela não sabe como é perder uma mãe ou não faria isso.
— Ela está tentando se desapegar da vida, Luna. Ela já desistiu, mas não entende que as pessoas que a amam não vão desistir até o último minuto. Mesmo que... — a ruiva suspirou. — Mesmo que seja inevitável.
— Ela está sendo egoísta — insistiu a loira, abaixando os olhos.
— Óbvio que está — disse Hermione. — O que você esperava de alguém que casou com Malfoy? — a cunhada olhou para Ginevra, que fez uma careta. — E-eu não quis ofender, Ginny, mas você há de convir que é... Estranho. Romilda e Malfoy não eram exatamente "conhecidos" em Hogwarts, e de repente anunciam noivado, o casamento em seguida...
— Ele fez as escolhas dele, Hermione.
— Bom, ela sempre teve uma queda por bruxos conhecidos — respondeu a cunhada, suspirando em seguida. — Eles eram felizes?
Ginevra deu de ombros.
— Que diferença faz agora?
— Eles sempre pareceram zelosos e amorosos com o filho — a voz sonhadora de Luna respondeu.
— Não que isso diga muita coisa — Hermione acrescentou, fitando a ruiva.
— Como é que eu vou saber? — Ginevra perguntou, frustrada. — Eu não falava com ele há anos. Sempre os vi de longe, e o pouco que vi faz sentido com o que Luna disse.
— Você sabe... Harry concorda com... Blaise — falou Hermione com uma careta.
— E você — Luna encarou a ruiva —, o que acha?
— Eu... Eu não sei. Não posso falar porque...
— O fato de você ter visto pouco não faz com que você deixe de pensar — a morena argumentou.
Ginevra suspirou.
— Eu não sei se ele a ama e, sinceramente, não é algo que eu queira saber — acrescentou sob o olhar acusador das duas. — Vocês podem, por favor, parar de achar que ele faz parte do presente, quando eu já disse, mais de uma vez, que é passado?
— Ginny, você está falando com a mulher que casou com Ronald Weasley depois de mais de seis anos de discussões pelos motivos menos fundamentados do mundo. Minha experiência diz que o ataque é o comportamento padrão dos homens quando têm medo de se aproximar.
— E vocês estavam discutindo sem o menor motivo — acrescentou Luna.
— Talvez seja por isso que achamos tão difícil acreditar que o passado é tão passado quanto você diz.
— O próximo passo é vocês me dizerem que concordam com Harry quando acha que eu só estou esperando a morte da esposa dele pra me jogar nos braços do meu amor de adolescência — ironizou, irritada.
— Não foi isso que eu disse — falou Hermione, séria. — Eu só duvido que você não se importe.
— Eu me importar ou não, não muda nada.
— Muda muita coisa — disse Luna, voltando a mexer nas roupas. — Muda porque faz a amizade de Albus e Scorpius muito mais complicada do que ela já é.
— O que uma coisa tem a ver com a outra? — a ruiva perguntou, confusa.
— Não é só o fato que os pais deles se odeiam mais. É também o fato que o pai de um e a mãe do outro se importam um pouquinho demais.
— Eu me preocupo com Scorpius, pois é óbvio que ele não está bem com a situação e, por tabela, Albus também não. Que mal há nisso? Eles são melhores amigos e Scorpius nunca me deu motivos para pensar mal dele, quero dizer, além do fato óbvio de ser filho de Draco.
— Eu achava que tínhamos entrado em um consenso que ser filho de Draco não era um motivo.
— O que pelo que eu bem me lembro, você achava encantador — falou a loira, sorrindo.
— Aparentemente, Harry acha que eu estou apaixonada pelo pai e pelo filho encantador — Ginevra respondeu, cansada.
— Harry consegue ser mais lunático do que eu às vezes.
— Falando nele, acho que vocês precisam conversar.
— Acho que tudo o que eu não preciso agora é outra conversa com ele, Hermione.
— Mas as coisas não podem ficar assim! Não me incomoda ter o Harry lá em casa, mas eu desconfio que se vocês não conversarem ele vai acabar se cansando do meu sofá.
— Eu só... Preciso de um tempo.
— Tudo bem — falou a cunhada. — Mas lembre-se que mesmo assim vocês têm que conversar. É melhor eu ir pra casa antes que Harry e Ron botem fogo na minha cozinha.
A ruiva deu de ombros, desanimada.
— Boa sorte — disse simplesmente.
Hermione estava descendo a escada quando outro som de passos foi ouvido e, embora as vozes fossem baixas, Ginevra não teve a menor dúvida sobre a quem aquela voz pertencia. Ela enterrou a cabeça no travesseiro enquanto Luna continuava sua busca.
— Luna? — a voz de Harry estava perto demais agora, e ela sabia que o marido havia avistado a loira dentro do quarto. — O que você... — ele perdeu a fala ao encarar a mulher com uma cueca em cada mão, fitando-o.
— Estou procurando Zonzóbulos — respondeu a loira, sem dar a mínima para a expressão constrangida do homem.
Harry olhou para Ginny, que não tirou o rosto do travesseiro, dando de ombros.
— O que eu poderia fazer? — a mulher disse, evitando o olhar do marido.
— Er... Luna, isso são minhas cuecas.
— Ah, eu sei — ela disse, agora puxando meias de dentro do malão. — Eles poderiam estar em qualquer lugar.
— Luna, eu acho que você já procurou o suficiente — a ruiva tentou.
— Eu já procurei bastante, mas ainda não desisti de descobrir por que ele está se comportando de forma tão rude e insegura.
Ginevra corou por Harry, Luna tinha uma inegável habilidade de colocar verdades desconfortáveis em palavras. O homem ficou sem resposta, olhando de uma para a outra.
— Eu agradeço pela sua visita, Luna — a ruiva disse, sem jeito.
— Não deixe de falar comigo depois — falou a loira, suspirando. — Eu vou ver Blaise, então, temos coisas para conversar, e depois vou ver Romilda.
— Faça isso — falou a ruiva, desatenta.
— Tchau Harry — a mulher piscou para o homem e saiu pela porta.
Receoso, ele se aproximou da esposa, sentando ao seu lado na cama. Ginevra suspirou.
— Como você está? — ele perguntou, contendo a vontade de se aproximar ainda mais e beijá-la na testa, como sempre fazia quando se encontravam ou se despediam.
— Cansada, um pouco.
— Mais calma? — tentou.
— Lily mandou uma coruja, pra dizer que chegaram bem na escola — ela mudou o assunto.
— Bom, não é como se estivéssemos em guerra.
— Ela sempre foi muito mais cuidadosa e preocupada que os irmãos.
— É natural, ela é uma menina.
— Ela disse que Albus está distante.
— Romilda está morrendo. É óbvio que ele está distante.
— Eu não suporto vê-lo sofrer assim, Harry.
— Não tem nada que nós possamos fazer. Se a morte dela pudesse ser evitada, Malfoy já teria feito alguma coisa.
— Eu sei — a ruiva murmurou.
— Eu... Sinto muito por ontem. Eu estava de cabeça quente, não estava pensando direito.
— Nós dois dissemos muitas coisas.
— Eu não quis realmente dizer aquilo.
— Mas você disse, e foi... — ela o encarou com o canto dos olhos. — Foi nojento, Harry.
— Eu sei — ele murmurou, envergonhado. — Eu só queria conseguir te atingir... Você não... Não estava reagindo como sempre.
— Não que você possa dizer o mesmo — alfinetou.
— Eu já disse que perdi a cabeça. Mas eu estava vendo você mentir pra mim, Gin...
— No que você acha que eu menti? — perguntou, ofendida.
— Sobre... Dean e Malfoy.
— Eu nunca te disse que você havia sido o primeiro, e nem Dean, muito menos Draco. Eu estava falando a verdade quando disse que foi com Michael.
— Mas você traiu Dean com Malfoy... Não consigo não pensar que você pode ter feito o mesmo comigo naquela época.
— Você não confia mais em mim, mesmo eu te dizendo que nunca te traí? — ela o encarou, ressentida.
— Eu acredito agora... Não... No calor do momento, confesso que não acreditei.
— Me parece que tudo o que você precisava era de uma desculpa.
— De uma desculpa para quê?
— Pra acreditar que eu realmente te traí, e então agir daquela forma...
— Não. Eu... Estava louco de ciúmes.
— E-eu... Eu fiquei com medo, Harry. Eu não te reconheci.
— Nem eu mesmo me reconheci quando eu lembrei. Eu sinto muito...
— É só que... — ela o fitou. — Não sei, Harry, me parece fácil falar e depois pedir desculpas e fingir que nada aconteceu. Eu não quero isso. Porque parece que sempre que um de nós... Que a gente discutir, tudo se resolve depois com um pedido de desculpas, e não é assim que as coisas funcionam. Você duvidou de mim, da minha lealdade e da minha fidelidade.
— Eu duvidei da minha capacidade de te manter fiel e interessada. Eu duvidei da minha capacidade para manter o seu amor.
— Tudo isso porque agora você descobriu que eu tive algo com Draco, anos atrás? Não faz o menor sentido, Harry.
— Tudo isso porque eu não só descobri algo que você nunca me contou, como também descobri que você tinha ido ver a mesma pessoa sem me dizer. Eu achei que o segredo significava que você... Estava tentada a voltar atrás.
— E você continua achando isso agora?
— Só você pode me responder isso.
— Eu quero saber o que você acha.
— Eu não sei, Gin, honestamente não sei. O que eu sei é que estou arrependido de ter assumido coisas, e quero saber a verdade. Quero saber de você.
— Eu nunca seria capaz, Harry — a ruiva suspirou. — Eu respeito o que nós construímos.
— Eu acredito em você então.
— Eu esperava que você confiasse em mim desde o começo — respondeu, ofendida. — E não que tivéssemos que chegar a esse ponto.
— Estamos falando de Malfoy. Malfoy, aquele que planejou a morte de Dumbledore. Malfoy, aquele que quase matou Katie, por Deus, quase matou Ron. Que tramou milhares de vezes para que eu fosse expulso, que tentou transformar minha vida em um caos ao máximo. E então eu descubro que ele foi o primeiro da minha mulher, como você acha que eu me senti?
— Eu nunca disse que havia sido você, Harry, muito menos que foi Draco! — respondeu, frustrada. — Qual parte de "Michael" você não ouviu?
— Corner? O marido de Cho?
Ginevra bufou.
— Com qual outro eu namorei em Hogwarts, Harry? Eu disse, quando você me acusou, que foi Michael. Aparentemente, você estava tão ocupado em me culpar que sequer ouviu minha resposta.
— Eu... Não estava registrando as coisas.
— Você... — ela suspirou, desistindo. — Deu para notar.
— Eu sinto muito, Gin.
— Eu estou cansada, Harry. Cansada de ser apenas uma sombra. Cansada de fingir que tudo está bem, quando não está. Cansada de passar os últimos anos tentando me convencer que você me dá atenção.
— Eu não te dou atenção? É claro que eu te dou atenção!
— Nós nunca conversamos, Harry, nós sempre discutimos. Você sempre faz questão de posar de família feliz, mas a máscara cai quando pisamos em casa. Você me bajula na frente dos outros, mas não se importa com o que eu penso ou o que eu sinto sobre as coisas.
— Isso... Não é verdade!
— É como eu me sinto — a mulher respondeu simplesmente.
— Desde quando você se sente assim?
— Desde... — ela o encarou, perdendo a fala ao notar a intensidade com que os olhos verdes a observavam.
Ele estava genuinamente preocupado e aquela era a primeira conversa sincera que o casal tinha em anos. Sem filtros, sem assuntos os quais um ou outro, por intolerância ou qualquer outro motivo, deixava de responder. A discussão do dia anterior havia, de certa forma, feito com que agora a transparência aparecesse — algo pelo qual ela esperara durante muito tempo.
— Desde...?
— Eu não sei, Harry. Não lembro exatamente de um momento decisivo em que eu tenha me sentido assim a partir de então.
— Tem... Muito tempo?
Ela balançou a cabeça, assentindo, sem responder.
— Por que... Por que nunca me disse?
— Alguma vez você me deu chance?
— Você podia ter dito... Qualquer dia.
— Eu só... Eu não vi oportunidade, nem abertura pra isso.
— Não teve abertura? Gin, nós somos casados e vivemos juntos e...
— Oh, claro, eu deveria ter dito isso enquanto você fazia a barba ou tomava banho, ou talvez quando você estivesse me contando dos assuntos do Ministério ou em qualquer outro momento da nossa maldita rotina.
— Você poderia ter me chamado para conversar.
— Eu não me senti à vontade pra isso, Harry. Não é o tipo de coisa que você conta enquanto faz o café da manhã ou se prepara para dormir. Eu tentei, mais de uma vez, e não consegui. Acho que eu esperava que você percebesse por si mesmo, o que, obviamente, não aconteceu.
— Eu... Ás vezes tenho muita coisa na cabeça.
— Você sempre tem muita coisa na cabeça, sempre há coisas mais importantes com as quais se preocupar.
— O que eu posso fazer, Gin? O meu trabalho não é dos mais simples e nós temos três filhos que sempre exigiram atenção.
— Eu achei que as coisas pudessem mudar depois que Lily foi pra escola. Quero dizer, eles não ficam o tempo todo em casa agora, não é como se não tivéssemos que nos preocupar com eles, mas isso diminuiu. Sem eles aqui, me sinto cada vez mais sozinha, Harry. E você parece nunca ter percebido.
— Sozinha? Gin, eu chego em casa, nós jantamos e depois você se enterra naquelas revistas que sua mãe manda sobre trabalho doméstico... Eu não quero te incomodar.
— Talvez eu quisesse ser incomodada — respondeu, ressentida. — Talvez eu gostaria de mudar um pouco nossa rotina de vez em quando, sabe, só para variar?
— Eu não tinha como saber, Gin. Mas... Eu prometo, prometo que vou me esforçar para fazer isso.
— Eu sinto falta de quando nós saíamos da sala comunal para termos mais privacidade. Quando andávamos pelo castelo, sem rumo. Sinto falta de nunca fazer a mesma coisa.
— Não se pode ter quinze anos pra sempre, Gin.
— Eu não estou dizendo que quero ter quinze anos de novo, Harry. Eu só acho que nós podíamos tentar fazer algumas coisas diferentes, de vez em quando.
— Como o quê?
— Se eu soubesse, não teria usado exemplos de quando éramos adolescentes.
— Então nós temos que pensar juntos. Pensar nas coisas que nós gostamos e... Planejar fazê-las.
Ginevra suspirou.
— Está bem.
Ele se aproximou dela, abraçando-a com visível alívio.
— As coisas vão ficar bem, você vai ver.
— Eu espero que sim.
Eles tinham conversado mais intensamente do que nos últimos dezenove anos. Tudo estava bem. Ginevra tentou realmente acreditar nas palavras de Harry, mas a sensação de que eram desejos vazios de verdade ou significado não a deixou, mesmo conforme ele a beijava ou enquanto suas mãos correriam por suas costas. Harry brincava com seus cabelos, seu rosto, seu corpo, até soltar um longo suspiro final, mas para ela todas as respostas que conseguiam dar eram meros reflexos de uma peça ensaiada a exaustão. Seguiam o mesmo ritmo, mas dentro de si ainda sentia o peso de uma mentira.
