Capítulo 3: Vida Rural
No dia seguinte, quando Rosemary chegou para trabalhar, viu os patrões a descerem as escadas, de mãos dadas.
"Finalmente que fizeram as pazes de uma vez. Pensei que ainda chegava aqui hoje e iam estar os dois outra vez zangados." disse Rosemary.
"Não. Já está tudo resolvido." disse Brianna. "A partir de agora, o Bill volta ao nosso quarto e voltamos a comer juntos."
"Acho bem, que eu já estava farta de fazer duas comidas diferentes por cada refeição." disse Rosemary. "E o meu ordenado a dobrar e as coisas para o meu gato? Espero que não tenham ficado esquecidas."
"Não se preocupe que eu não me esqueço." disse Brianna, aborrecida. "Uf, lá se vai o dinheiro."
"O dinheiro é para gastar." disse Bill. "E decidi que agora vamos mudar a nossa vida. Vamos começar uma nova etapa."
Enquanto Rosemary se dirigia à cozinha, os patrões entraram na sala de jantar.
"O que é que quer dizer com isso, Bill?" perguntou Brianna, confusa. "Está a referir-se exactamente a quê? Agora estou curiosa."
"Vai ser uma surpresa. Depois verás Brianna. Agora vais ter de esperar um pouco"
"Você disse que não me ia esconder mais coisas, Bill. Afinal, já está com segredos outra vez."
"Isto é diferente. É uma surpresa. Em breve vais saber tudo." disse Bill, sorrindo.
A Vida da Família Lewis
Dois dias depois, ao almoço, Allison, Brianna e Bill estavam sentados à mesa da sala de jantar. Rosemary estava a colocar arroz no prato de Allison quando Bill decidiu anunciar a novidade.
"Comprei uma quinta." disse ele.
Brianna arregalou os olhos ao ouvir aquilo, Allison ficou especada, a olhar para o pai e Rosemary deixou cair a colher do arroz no chão.
"Uma quinta? Bill, está doido?" perguntou Brianna.
"Não, não estou. Eu fui criado no campo e sempre sonhei em ter uma quinta. Claro que a minha vida mudou quando os meus pais se mudaram para a cidade, cresci aqui e tenho a minha empresa agora, mas também tenho o dinheiro para concretizar o meu sonho." disse Bill. "Portanto, fiz uns contactos, havia uma quinta à venda por um bom preço e um comprei-a."
"Ai, uma quinta cheia de animais?" perguntou Allison, horrorizada. "Animais vivos como cavalos e assim?"
"Sim filha. Há cavalos, vacas, galinhas e muito mais." respondeu Bill, sorrindo intensamente.
"Que horror! Eu sou péssima com animais." disse Allison. "Os animais costumam ser muito malcheirosos e… enfim, eu não vou meter os pés nessa quinta, com toda a certeza."
"Ai isso é que vais, Allison. Vamos todos. Este fim-de-semana, vamos passá-lo na quinta para conhecermos tudo." disse Bill, de maneira firme. "Não aceito recusas, portanto vais fazer um esforço e vens também, mesmo que não gostes muito da ideia. Rosemary, tu vens connosco."
"Eu?" perguntou Rosemary, que já apanhara a colher do chão. "Não me pagam para isso. Ir para uma quinta no fim-de-semana, fazer sei lá o quê? Eu tenho muita coisa que fazer, porque sou uma mulher muito ocupada e com uma vida social super mega activa."
"Vais receber mais por ires connosco." assegurou Bill.
"Ah, então aí já é outra coisa. A vida social fica adiada, que não tem problema nenhum, porque senão ainda tinha de ir aturar a minha irmã Graziella, portanto, sempre é melhor ir para uma quinta. Mas posso levar o meu gato comigo?"
"Podes sim. Não tem problema. Mais um animal não fará qualquer diferença."
Rosemary acabou de servir os patrões e retirou-se.
"Bill, você deve ter gasto imenso dinheiro na compra da tal quinta." disse Brianna, ainda atónita com aquela situação. "Temos de poupar! Ganhámos o dinheiro da lotaria, mas assim vamos gastá-lo todo. Depois ainda vamos viver para alguma barraca ou para debaixo da ponte…"
"A minha empresa está a dar lucro e a quinta é um investimento. Temos gado, árvores de fruto, cortiça e outras coisas que, a longo prazo, serão lucrativas." disse Bill. "Estou muito contente com a minha compra. Vai ser uma coisa óptima, vão ver."
Allison e a mãe entreolharam-se, sem parecerem muito convencidas, já que nenhuma delas era muito apreciadora do campo, principalmente Allison.
"Allison, até podes convidar a tua amiga Naomi para vir connosco, se quiseres." disse Bill. "Assim sempre és capaz de achar a ida à quinta mais interessante."
"Ah, se posso convidar a Naomi para ir connosco, já fico mais contente."
Allison pareceu mais aliviada. Talvez até fosse divertido explorar a quinta com Naomi.
"Desde que não me aproxime muito dos animais, vai correr tudo bem." pensou Allison.
A Vida da Família Lewis
No Sábado de manhã, todos estavam prontos para partirem para a quinta que Bill tinha comprado. Bill tinha alugado uma carrinha para os levar a todos. Bill ia ao volante e Brianna sentava-se ao seu lado, terminando de aplicar maquilhagem.
Trazia vestida uma roupa estilo rural, mas bastante chique, que comprara nuns saldos, porque era mais barato. No banco do meio da carrinha estavam sentadas Naomi e Allison. Ao lado delas estava Melvin.
Quando soubera que Bill comprara uma quinta e Allison ia lá passar o fim-de-semana, Melvin tinha-se colado a eles e Allison não lhe conseguira dizer que não. No banco traseiro ia sentada Rosemary, vestindo um vestido verde que a fazia parecer mais gorda. Ao seu colo trazia o seu gato, Yuri, um gato cinzento e bastante gordo.
"Estão todos prontos para irmos até quinta?" perguntou Bill, em voz alta, olhando depois para todos os outros.
"Sim, vamos lá querido, não vale a pena estarmos a perder mais tempo." respondeu Brianna. "Eu espero bem que a quinta valha a pena."
"Claro que vale, Brianna. Vamos então embora, a caminho da quinta!" exclamou Bill, colocando a carrinha em andamento.
Pouco depois, a carrinha estava a entrar na via rápida, para chegarem o mais depressa possível à quinta.
"Os trabalhadores vão estar à nossa espera." disse Bill. "Afinal, ainda não conhecem os novos patrões e devem estar curiosos."
"Ai, devem ser todos uns grandes labregos." disse Allison. "Nem devem fazer a barba ou saberem o que é tomar banho. Não devem ter ido à escola e devem andar sempre a cheirar mal por causa dos animais. Uh, onde é que eu me vou meter…"
"Credo Allison, que exagerada que tu és." disse Naomi. "São pessoas normais. Lá por não terem o teu dinheiro, não é como se fossem selvagens. Lembra-te que nem sempre foste rica e não era por isso que deixavas de ser menos civilizada ou asseada."
Allison abanou a cabeça, mas não ficou muito convencida. Melvin mexeu-se no assento.
"A quinta parece-me um bom investimento." disse ele, agarrando de seguida na mão de Allison. "E iremos divertir-nos, minha querida. Vai ser um fim-de-semana fantástico."
"Eu fico muito contente por vir connosco, Melvin." disse Brianna, olhando para o banco detrás e sorrindo. "Ai, você e a minha filha fazem um casal muito bonito. O casalinho mais perfeito que já vi."
"Concordo, dona Brianna." disse Melvin, sorrindo.
Allison sorriu também, mas não com demasiada convicção. Naomi abanou a cabeça e Bill revirou os olhos. Bill não tinha nada contra Melvin, mas também não gostava muito dele. Já Rosemary, torceu o nariz.
"Este rapaz não me engana minimamente." pensou ela. "O que ele quer sei eu! Quer é o dinheiro que a menina Allison e os pais têm. Não gosta nada da menina Allison, de certeza. Eu também gosto de dinheiro, mas faço para o merecer. Não ando para aí a enganar ninguém."
Melvin continuou a sorrir a Allison durante toda a viagem, mas no seu interior, estava farto dela. Queria apenas dar-lhe a volta de uma vez, casar com ela e depois ter acesso a uma vida melhor.
"Tenho de fazer um esforço e aguentar." pensou ele. "A Allison é um investimento. Os pais têm dinheiro e é isso que eu quero para a minha vida. Uma vida com dinheiro e sem preocupações, portanto, tenho apenas de me esforçar mais um pouco e isso estará ao meu alcance."
Depois de vários minutos de viagem, Bill saiu da via rápida. A carrinha atravessou algumas estradas de terra, passou por paisagens verdejantes e acabou por entrar por um grande portão.
"Quando é que chegamos? Estou farta de estar aqui sentada e por causa daquelas estradas de terra andámos para aqui a balançar na carrinha e agora até me sinto mal disposta." queixou-se Allison.
"Já devemos estar quase a chegar, não?" perguntou também Naomi.
"Meninas, nós já cá estamos." anunciou Bill.
Todos olharam para o exterior do carro. Passaram mais uma área cheia de árvores, depois por uma grande cerca onde se viam muitos bois e vacas.
"Credo! Tantos animais." disse Allison. "Não pensava que seriam tantos. Aqueles animais e as árvores são nossas agora?"
"Exactamente filha e isto é só uma pequena parte." disse Bill. "Ainda devem haver mais vacas e bois. E depois há os cavalos nos estábulos, as galinhas, os porcos, os cães..."
"Papá, chega. Não me diga mais nada que eu já estou nervosa que chegue. Acho que, definitivamente, não me vou aproximar desses animais."
"Que disparate, Allison." disse Naomi. "Os animais não te fazem mal nenhum. Não tens de ter medo deles. Eu gosto bastante de animais."
"Que bom para ti. Mas eu não aprecio nada animais. Eles devem ser mesmo malcheirosos, principalmente os porcos. Porque raio temos porcos na quinta? Devia acabar-se com isso."
Depois da cerca com as vacas e bois, o grupo viu árvores de fruto e de seguida chegaram ao fim do caminho. Bill parou o carro. Havia uma casa em estilo rústico, bastante grande mas com a pintura a descair. Mais longe, para a esquerda, existiam armazéns e também os estábulos e depois as pocilgas e galinheiros. O grupo saiu da carrinha. Em frente à casa estavam várias pessoas, esperando. Allison olhava para tudo com desconfiança, enquanto Melvin calculava o valor que a quinta valeria.
"Bom dia a todos. Eu sou Bill Lewis e esta é a minha esposa Brianna." disse Bill, olhando para todos os presentes. "Nós somos os novos donos da quinta."
Um homem, de cerca de cinquenta e tal anos, com cabelo e barba castanhos, deu um passo em frente.
"Seja bem-vindo, patrão. Eu sou o capataz da quinta. Chamo-me Larry Brady." disse o homem, estendendo a mão a Bill.
Bill apertou-lhe a mão com entusiasmo.
"Então Larry, conto consigo para me pôr a par de tudo aqui na quinta." disse ele.
"Com certeza, patrão, pode contar comigo para tudo."
Os outros empregados também se apresentaram aos patrões e Bill terminou as apresentações quanto à sua filha, Rosemary, Melvin e Naomi. Dos empregados, Randy Brown, um jovem de trinta anos, com cabelo loiro, que tratava dos cavalos, vacas e bois, sorriu a todos. Quem também se mostrou muito simpática com os patrões foi Faith Winters, empregada da casa, com cabelo ruivo e vinte e oito anos.
"Hum, novos patrões significam novas oportunidades." pensou Faith. "A ver se consigo ficar rica ou ficar com uma boa vida e sair deste fim de mundo."
"Patrão, quer ver a quinta agora?" perguntou Larry. "Posso mostrar-lhe todos os recantos e como tudo funciona."
"Eu, a minha família e os convidados vamos primeiro ver a casa e depois iremos então ver o resto da quinta." respondeu Bill.
"Eu mostro-vos a casa." disse Faith, imediato. "Conheço tudo, já que é onde trabalho todos os dias."
"Óptimo. Então vamos lá." disse Bill. "Agradeço a todos pela recepção. Podem voltar para os vossos trabalhos ou para as folgas ou lá o que têm para fazer."
Os trabalhadores começaram a dispersar. Randy voltou aos estábulos. Larry indicou ao patrão que os esperaria fora da casa, para depois lhes mostrar a quinta. De seguida, o grupo entrou na casa.
A porta principal da casa dava directamente para a sala de estar. Estava decorada em tons laranjas e castanhos, com sofás já antigos, cortinados claros e uma televisão também já antiga.
"Parece que recuámos no tempo." disse Allison. "A decoração desta sala parece que é do século passado ou da idade da pedra."
"Realmente os patrões antigos não se preocupavam muito com decorações nem nada assim." disse Faith. "A casa está decorada em estilo rústico."
"Então acho que temos de a redecorar tudo. Vamos mudar os cortinados, arranjar uns sofás novos, talvez no futuro se tenha de pintar as paredes, vou ter de comprar umas almofadas confortáveis para os sofás…" disse Allison.
"O quê? Está doida, filha?" perguntou Brianna, horrorizada, interrompendo a filha. "Redecorar a casa toda ia custar imenso dinheiro! Ou mesmo só redecorar a sala. Nem pensar, nem pensar. Não se pode andar por aí a gastar o dinheiro à toa. Já bem basta o seu pai ter comprado esta quinta."
Naomi não achava que a casa estivesse mal decorada. Tinha o seu encanto por estar decorada daquela maneira. Melvin decidiu não se pronunciar visto que achava que a casa deveria ser completamente redecorada com tudo do bom e do melhor, mas isso iria aborrecer Brianna e Melvin pretendia manter uma imagem de rapaz ponderado e poupado aos olhos de Brianna.
"Falamos da decoração mais tarde." disse Bill. "Vamos mas é ver o resto da casa."
Faith guiou-os pela casa. Mostrou-lhes os corredores, a cozinha, os quartos do primeiro andar, as casas de banho e tudo o que havia para ver. O andar superior tinha uma varanda que tinha uma boa vista para parte da quinta. Naomi ficara maravilhada com a bonita vista, mas Brianna e Allison não tinham gostado muito.
"Isto é verde demais para mim." disse Brianna. "Nunca gostei assim muito da natureza. Quer dizer, a minha amiga Tina tem uma estufa de flores e são bonitas, mas gosto delas em ramos de flores e não a olhar para elas assim no campo."
"Também são mais árvores e gado que flores, mamã." disse Allison.
"Olhem que eu gosto bastante do campo." disse Rosemary, segurando o seu gato debaixo do braço. "É vasto e aqui temos ar puro. O meu Yuri de certeza que vai gostar de andar por aqui à solta, sem carros sempre a passar e a poluir tudo."
"Exactamente." disse Bill, sorrindo. "É esse o espírito. Apesar de não irmos viver aqui, o tempo que passarmos cá vai com certeza mostrar-nos uma vida mais saudável."
"Ai, podemos ir fazer outra coisa?" perguntou Allison. "Estou farta de estar aqui e essa conversa do ar puro não me convence. Eu é que não me vou aproximar das pocilgas, porque de certeza que ali o ar puro é inexistente."
Os outros riram-se e saíram da varanda, terminando de ver a casa.
"Ao menos existem casas de banho equipadas e não com um buraco qualquer para se fazer para lá as necessidades." disse Allison.
"Não me digas que estavas a pensar que não havia aqui casas de banho ou todas velhas, mal equipadas ou apenas com um buraco desses." disse Naomi, rindo-se.
"Sabe-se lá. Isto fica aqui no meio do campo. Estava com algum receio que até tivéssemos de ir à mata e fazer lá as necessidades."
Bill e Brianna riram-se. Faith revirou os olhos, pensando que aquela rapariga não era com certeza muito inteligente e também lhe começava a dar nervos. Melvin manteve-se calado, tal como Rosemary, mas estava pensar que por vezes Allison era muito burra e aborrecida.
"Agora que já vimos a casa, vamos então ver o resto da quinta." disse Bill.
"Ah, querido, eu prefiro ver a quinta noutra altura. Fiquei com uma terrível dor de cabeça e acho que vou descansar." disse Brianna.
"Está bem amorzinho, se é o que queres, então fica a descansar. Terás outras oportunidades de ver a quinta."
Brianna viu os outros irem embora, saindo da casa. Rosemary e Faith ficaram para trás com a patroa.
"Vou então deitar-me um pouco no quarto principal." disse Brianna. "Não está assim tão mal decorado como os outros. Hum, como é que disse que se chamava? Fiona?"
"Faith, minha senhora. O meu nome é Faith."
"Ah, sim, Faith. Bom, Faith, ajude a Rosemary a ambientar-se aqui na casa, se faz favor e depois tirem as malas do carro. Só trouxemos coisas para dois dias, portanto não estão pesadas." disse Brianna, virando-se de seguida para Rosemary, que continuava segurar o seu gato Yuri debaixo do braço. "Rosemary, trate do almoço com o que houver por aí."
Rosemary acenou afirmativamente. Brianna subiu as escadas e desapareceu pelo primeiro andar. Depois, Rosemary virou-se para Faith.
"Temos então de ver o que há para fazer para o almoço dos patrões." disse ela. "A dona Brianna não é assim muito esquisita com a comida, porque também se fosse tínhamos de gastar imenso dinheiro em comida boa e ela gosta é de poupar. A menina Allison prefere pratos de peixe e o patrão Bill prefere de carne. Bom, vamos lá ver na cozinha o que há e preparamos o que for necessário. Depois faz-se uma lista de compras do que faltar para outras refeições."
"Pois, faça você isso. Eu tenho muitas outras coisas para fazer, porque sou uma pessoa muito ocupada. Trabalhe você e faça o almoço." disse Faith, já sem qualquer vestígio de simpatia.
"Mas olhe lá, você não é empregada desta casa? Então, tem de fazer o trabalho da casa. Se tem outras coisas para fazer, aqui em casa, então vem comigo até à cozinha, vimos do almoço e depois posso ajudá-la no que for preciso em termos de outros trabalhos."
"Pois, mas eu não preciso de ajuda e também não sou cozinheira. Agora, com licença que eu não tenho tempo a perder com empregadas."
Faith virou costas e afastou-se, desaparecendo por uma porta. Rosemary abriu a boca de espanto e depois ficou irritada, abanando a cabeça, em sinal de desaprovação.
"Viste isto, Yuri? Ainda agora aqui chegámos e já temos problemas. Aquela parecia toda simpática, mas mal os patrões viraram costas mostrou o que é." disse Rosemary, afagando o pêlo do gato. "Ah, mas se ela pensa que vai ser assim, está enganada. Eu trato-lhe da saúde! A mim não me passam a perna, que eu já tenho muita experiência de vida. Yuri, lembras-te daquela patroa que não me pagou durante dois meses e depois me despediu? Ficou tudo resolvido e ela com menos dois dentes, portanto, estou preparada para tudo e para pôr esta rapariga na linha."
A Vida da Família Lewis
Enquanto isso, Bill, Naomi, Allison e Melvin tinham saído da mansão e estavam a percorrer a quinta juntamente com Larry, que lhes estava a explicar tudo sobre a quinta, desde os funcionários, o que a quinta tinha, o número animais e árvores, entre outras coisas. O primeiro lugar a que se tinham dirigido eram os estábulos. Os estábulos dos cavalos eram bastante grandes e como Allison notou de imediato, também eram algo malcheirosos.
"Credo, aqui está um cheio insuportável." disse ela. "Uh, isto é pavoroso."
"Desta vez tenho de concordar contigo." disse Naomi.
"Pois claro que sim, porque eu tenho razão. Eu acho que se devia comprar perfume para os cavalos, a ver se cheiravam menos mal e se os estábulos por causa disso também ficariam mais bem cheirosos."
Bill estava embrenhado numa conversa com Larry, que lhe estava a explicar sobre os cavalos, o seu valor e até os prémios que alguns já tinham ganho. Melvin aproximou-se de um cavalo que estava ali perto e pôs-se a avaliá-lo. Allison e Naomi afastaram-se dos outros e caminharam para as traseiras dos estábulos. Quando viraram numa esquina, Allison esbarrou numa poça de água.
"Ah!" gritou ela.
Naomi não a conseguiu agarrar. Allison ia a cair quando sentiu uns braços à sua volta, amparando-a. Randy tinha surgido de uma porta ali perto e agarra-a antes de ela cair ao chão.
"Está bem, menina?" perguntou ele, preocupado. "Não se magoou?"
"Eu estou bem. Agora estou bem."
Randy largou-a e Allison respirou fundo, tentando acalmar-se, pois ficara nervosa por ter escorregado e já se estava a imaginar caída no chão, em cima de uma poça de água e ficando também enlameada. Allison afastou esse pensamento da sua cabeça rapidamente, porque nem gostava de pensar na possibilidade de ficar assim toda suja.
"Ao menos não caíste no chão, Allison." disse Naomi. "Temos de ter mais cuidado e ver onde pomos os pés. Obrigado por ter amparado a Allison... hum, como é mesmo o seu nome?"
"Randy. Chamo-me Randy Brown."
"Então obrigada, Randy." disse Naomi, olhando de seguida para a amiga. "Allison?"
Allison tinha ficado calada, olhando para Randy e avaliando-o. Randy era alto, atraente, musculado mas não em demasia e Allison estava a pensar que, se ele tivesse outro tipo de vida, até poderia ter sido modelo. Naomi tocou no braço da amiga e Allison despertou dos seus pensamentos.
"Hum, o que foi?" perguntou ela, confusa.
"Não vais agradecer ao Randy, por ele te ter amparado?" perguntou Naomi.
"Ah, sim, claro. Obrigada, Randy. Muito obrigada."
"Não foi nada." disse ele, sorrindo.
Randy afastou-se e Allison não conseguiu deixar de continuar a olhar para ele, até ele desaparecer para dentro de uma coxia. Naomi viu aquela reacção e riu-se.
"Amiga, não me digas que agora estás interessada no homem dos cavalos?" perguntou Naomi.
"O quê? Hã? O que é que estás para aí a dizer, Naomi? Eu não estou interessada nele. Credo, nem pensar." disse Allison, apressadamente.
"Pela maneira como estavas a olhar para ele..."
"Eu namoro com o Melvin e não com o Randy, nem quero nada com ele." disse Allison. "O que não quer dizer que não possa olhar para ele. É bonito, pronto, mas não tem nada a ver comigo."
"Porque não é rico?"
"Porque não é rico, cheira a cavalo, de certeza que é rude e sem educação e..."
"Allison, ele não parece nada rude. E mesmo que não tenha grandes estudos, isso não o diminui como pessoa. Aliás, foi simpático, amparou-te, é bonito, tem um sorriso muito lindo..."
"Se o achas assim tão fantástico, fica tu com ele."
Nesse momento, Melvin surgiu perto delas.
"Então meninas, o que se passa?" perguntou ele.
"Ah, nada de especial. Eu e a Naomi estávamos apenas a conversar." respondeu Allison rapidamente. "Só isso. Não aconteceu nada demais. Nem escorreguei em nada e quase caí ao chão. Não aconteceu nada de nada."
Allison não queria estar a dizer a Melvin que quase caíra e também queria evitar que Naomi mencionasse que ela tinha ficado a olhar para o homem dos cavalos.
"Os cavalos da quinta são bastantes bons." disse Melvin. "Não que eu perceba muitode cavalos, mas estão bem tratados e cheios de força. Talvez aprenda a andar de cavalo agora."
"Isso é uma boa ideia." disse Naomi, sorrindo, animada. "Devíamos todos ter lições de equitação. Os cavalos são uns animais elegantes e a equitação é interessante. No outro dia li um artigo sobre equitação e achei que tem muitos pontos positivos. Até há iniciativas em que a equitação ajuda pessoas com problemas e tudo, sabiam?"
Melvin acenou afirmativamente, enquanto Allison encolhia os ombros, não parecendo muito interessada.
"Não sei se me interessa aprender a andar a cavalo. Acho que não teria jeito nenhum." disse ela. "Prefiro estar com os pés bem assentes no chão."
A Vida da Família Lewis
Cerca de duas horas depois, bateram à porta do quarto principal da casa. Brianna ainda estava a descansar e tinha-se estendido em cima da cama. A dor de cabeça já quase desaparecera, mas Brianna não conseguira adormecer.
"Entre." disse ela.
Rosemary entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Brianna sentou-se na cama e olhou para a empregada.
"O que quer, Rosemary?" perguntou ela.
"Primeiro, vinha saber se já está melhor da sua dor de cabeça. Se quiser, eu encontrei uns comprimidos na cozinha, para as dores de cabeça."
"Não é preciso. A dor de cabeça já quase passou. Eu tinha uns comprimidos na mala, mas não achei necessário tomá-los. Afinal, também é só uma dor de cabeça e há que poupar nos medicamentos." disse Brianna. "Mas obrigada pela preocupação."
"Ainda bem que já se sente melhor, dona Brianna. Vinha também para lhe dizer uma coisa. Havia verduras na cozinha e carne também, portanto consegui fazer um bom prato para todos." explicou Rosemary. "Só falta o patrão Bill e os outros chegarem da excursão à quinta e poderá ser servido o almoço."
"Óptimo, óptimo."
"Mas há mais uma coisa. Aquela empregada aqui da casa, a Faith, não me ajudou nada. Mal a senhora virou as costas, disse que tinha mais que fazer e desapareceu. Não sei onde anda." disse Rosemary. "Tive de descobrir, sozinha, onde é que estava tudo aqui na cozinha da casa."
Brianna não pareceu nada agradada com aquela notícia.
"Rosemary, está a dizer-me que a empregada aqui de casa não fez nada? Não a ajudou? É uma molenga a quem se anda a pagar o ordenado e não faz o trabalho?"
"Assim parece, dona Brianna."
"Ai isso é que não!" exclamou Brianna, levantando-se da cama. "Não vou andar a gastar o meu rico dinheirinho a pagar a empregadas que não fazem o seu trabalho. Vamos à procura da Faith."
"Já a procurei na casa e não está em lado nenhum." disse Rosemary, encolhendo os ombros. "Parece que se esfumou. Cá para mim foi dar uma volta ou assim em vez de ir trabalhar. Tem mesmo de pôr mão nisto, senão qualquer dia só faz o que quer. Aliás, se calhar era o que já fazia com os patrões antigos.
"Tem toda a razão, Rosemary. Visto que não encontrou a Faith, deixe estar. Ela há-de acabar por aparecer. E vai ouvir das boas, que com o meu dinheiro ninguém brinca! Se não quer trabalhar, rua! Não lhe vou andar a pagar o ordenado para não fazer nada."
A Vida da Família Lewis
Por essa altura, Bill, Naomi, Melvin e Allison estavam a regressar à casa. Larry tinha-lhes mostrado a maioria da quinta, incluindo as pocilgas, os galinheiros, os cercos para o gado e as árvores de fruto e de cortiça.
"A quinta é enorme." disse Melvin. "Dará imenso trabalho para gerir, mas se for bem gerida, também me parece que é capaz de dar bastante lucro."
"Também acho que sim. Estou muito contente com este investimento e espero grandes coisas daqui. De qualquer das maneiras, não estou preocupado com a gestão. Trabalham aqui pessoas muito competentes que me vão ajudar a gerir a quinta." disse Bill. "Vai correr tudo pelo melhor, tenho a certeza."
Pouco depois, eles chegaram à casa. Brianna vinha a descer as escadas, com Rosemary atrás de si. Bill aproximou-se da mulher.
"Já estás melhor, minha querida?" perguntou ele. "A dor de cabeça já passou e já te sentes bem?"
"Estou bem, querido. Não é preciso preocupar-se. Mas parece que vou ter outra dor de cabeça, só que desta vez é em sentido figurado." disse Brianna. "Não importa. Rosemary, pode servir o almoço."
Rosemary serviu o almoço. A sala de jantar não era muito grande, mas tinha boa iluminação, uma mesa maciça e cadeiras robustas. Bill, Brianna, Naomi, Melvin e Allison começaram a comer de imediato.
"Então Brianna, diz-me lá, estavas a dizer que ias ter uma nova dor de cabeça. De que é que estavas a falar exactamente?" perguntou Bill.
"Ora, você acredita que aquela rapariga que trabalha aqui na casa, a tal Faith, não ajudou a Rosemary em nada? Não tirou as malas do carro, não lhe disse onde estavam as coisas na cozinha, não pôs a mesa, não ajudou a fazer o almoço. Nada! Desapareceu, apenas." disse Brianna.
"Já começa mal." disse Allison. "Se ainda agora chegámos aqui e já desaparece e não quer fazer nada..."
"Esse tipo de pessoas não é de fiar." disse Melvin. "Se não se impõe agora, a empregada começa a comportar-se como se fosse a patroa e a fazer tudo o que quiser. Ou então a não fazer nada."
"Isso foi o que eu já disse à dona Brianna." disse Rosemary, lançando um olhar aborrecido a Melvin. "Estou cá eu para a aconselhar, não é preciso que dê você conselhos."
Melvin lançou um olhar furioso a Rosemary e Brianna empertigou-se um pouco.
"Rosemary, veja lá, também não fale assim com o Melvin, que é tão bom rapaz e apenas está preocupado em dar bons conselhos." disse ela.
Rosemary não disse mais nada, mas torceu o nariz. Depois, Bill começou a descrever a Brianna a excursão pela quinta.
"As árvores de fruto são imensas." disse Naomi. "E os frutos têm um óptimo aspecto. Não vão ter qualquer dificuldade em vendê-los, de certeza."
"Eu não gostei dos animais. Os estábulos eram malcheirosos, mas as pocilgas ainda pior. Que cheiro! Eu ia quase desmaiando, mamã." queixou Allison. "Não a aconselho a aproximar-se da pocilga. Nunca."
E a conversa continuou, enquanto o grupo almoçava calmamente.
Continua…
