A História é uma Adaptação, e eu irei falar o nome da história no final. Os personagens de Inuyasha também não me pertencem.


Norte da Inglaterra, 1142

Um murmúrio rouco interrompeu a quietude da manhã na floresta.

— Ele não está vindo.

— Quieto! — Se Edmund não fosse seu melhor arqueiro, Kagome de Ryonne o teria deixado no castelo.

Ela esperava que lorde Falcon passasse por ali antes de o sol nascer por completo. Os primeiros raios já penetravam na densa folhagem, iluminando as folhas cobertas de sereno. A luz matinal não serviria para esconder os homens ocultos nas árvores e arbustos.

Um farfalhar de galhos anunciou outro sussurro:

— Até ele chegar, estarei dormente demais para me mexer.

— Ele logo estará aqui. — Kagome temia que seus homens abandonassem os postos, caso a presa não chegasse logo.

Não. Era uma preocupação sem sentido. Aqueles eram os soldados de Kouga. Eles levaram o corpo do patrão a Taniere e lá ficaram. E cada um jurara lealdade não ao pai dela, lorde de Ryonne, mas a ela, senhora de Taniere por direito.

Com seu noivado com Kouga Du Pree, tudo ficara acertado para que Kagome assumisse as responsabilidades como lady de Taniere. Até Falcon aparecer e jogar todas as esperanças e sonhos por água abaixo.

Inuyasha pagaria por tudo o que tirara dela. Kagome estudou os homens que a rodeavam. Todos a ajudariam na vingança. O líder, Naraku, elaborara aquele plano para capturar Falcon. Ao espalhar a notícia sobre a morte de Kouga e ao contar a todos sobre a covardia de Falcon, Naraku estava certo de que o assassino o procuraria. E, quando ele aparecesse, todos estariam prontos.

Kagome engoliu as lágrimas que ameaçavam transbordar. Apesar de saber que a tristeza não passaria com a captura do Falcão Endiabrado, ficaria com o coração mais leve por ter vingado Kouga.

Se Deus a ajudasse em seu intuito, teria o cadáver de Falcon a seus pés ainda naquele dia. E quando tivesse terminado com ele, todos saberiam que não era a ave de rapina que imaginavam. Seria um prazer provar que as histórias eram falsas. Todos saberiam que ele não passava de um homem. Um mortal como qualquer outro.

Um ruído mais intenso entre os arbustos sinalizou a aproximação de cavaleiros.

Kagome olhou por entre as árvores e sorriu. A espera estava quase no fim.

Inuyasha puxou as rédeas de leve. Seu garanhão se mostrava desconfiado, e o tropel firme de alguns momentos atrás começaram a hesitar. O animal recuou na estrada, jogando a cabeça para trás.

— Calma, rapaz. — Inuyasha bateu no pescoço musculoso da montaria. Ele também sabia que havia algo errado, e sentiu um frio na espinha.

Então, ergueu a mão, fazendo parar os cinco homens que o acompanhavam.

Quando avançou sozinho, Inuyasha observou por entre as árvores em busca de algum sinal que pudesse tê-lo assustado ou ao cavalo, mas não encontrou nada. No entanto, a floresta estava silenciosa demais.

Com cuidado, deslizou a mão para o punho da espada, controlando as rédeas com a outra.

Os homens avançaram. No mesmo instante, algo caiu das árvores e saiu de trás dos arbustos, separando Inuyasha dos demais.

Antes que pudesse empunhar a espada, uma espessa rede de pesca caiu sobre ele e o cavalo. Inuyasha se debateu com vigor e praguejou alto ao ver que não conseguia se livrar.

— Não! Esperem! — Mas suas palavras não foram ouvidas em meio à batalha de espadas e aos homens gritando.

Um par de mãos enluvadas agarraram as rédeas do garanhão de Inuyasha. Quando o animal, por fim, parou, ele sentiu uma ponta metálica afiada pressionando-lhe as costelas.

Incapaz de se armar, Inuyasha se desvencilhou da ameaça da lâmina. Três outras espadas tomaram o lugar da primeira. Rendido, jogou a própria espada no chão e gritou para que seus homens parassem de lutar.

O grupo obedeceu à ordem de imediato e não ofereceu resistência quando o inimigo os escoltou de volta para a estrada.

— Está preparado para morrer, Falcon? — perguntou um dos que o ameaçavam com a espada.

Inuyasha cerrou os dentes ao sentir a dor aguda da lâmina que se insinuava por entre os elos da cota de malha, para penetrar em sua carne.

— Não! Contenha-se, sir Naraku — disse uma figura pequena, descendo de um tronco — Quero mantê-lo vivo. Por enquanto.

Inuyasha prendeu a respiração quando seu algoz girou e pressionou a lâmina um pouco mais antes de afastá-la. Aquele corte demoraria um bom tempo para cicatrizar. Quando sentiu o sangue quente escorrer, Inuyasha sentiu vontade de berrar. Preferia morrer de um golpe bem dado que de uma infecção.

Ignorando a dor lancinante do ferimento, voltou à atenção para o recém-chegado. Aquele não podia ser o líder. Um par de imensos olhos verdes encarou-o do meio de um rosto pálido. Não passava de uma criança.

Inuyasha arqueou uma sobrancelha. Por quanto tempo aquele menino ficaria ali, brincando de cavaleiro, sem dizer nada? Ele não tinha tempo a perder.

De repente, uma mão usando uma luva grande demais cortou o ar e Inuyasha ficou observando, espantado, os soldados arrancarem-no do cavalo.

A rede o impediu de se manter em pé. Gemeu de dor por causa do ferimento e caiu de joelhos ao tocar o chão.

Por instinto, Inuyasha golpeou com força o rosto mais próximo. Mas sua alegria durou pouco, e parou de se debater ao sentir a ponta afiada de outra lâmina se infiltrando em seu pescoço, pelas brechas do elmo.

Enquanto três homens mantinham-no imóvel com espadas apontadas para seu peito, dois outros rasgaram a rede. Inuyasha chegou a pensar em escapar, mas desistiu quando sir Naraku pressionou a lâmina contra seu pescoço. Em vez de se moverem, todos olharam para o rapaz em busca de instruções.

Inuyasha também o olhou e sentiu o coração quase parar quando se deu conta do que via.

Um par de lábios cheios e rosados emoldurava o rosto pálido, e longos cílios, castanho-escuros protegiam os olhos imensos. Seria preciso muito mais que uma armadura do tamanho errado para ocultar a mulher que se escondia em roupas masculinas.

— O que você quer de mim?

— Nada, Falcon — respondeu Kagome, rindo — A não ser sua alma inútil.

Apesar de saber a resposta, ele indagou:

— Para quê? Por que quer minha alma?

Ela arrancou uma das luvas de metal e o esbofeteou. Um fio de sangue escorreu pela face de Inuyasha.

— Se vou morrer, gostaria de pelo menos saber o motivo.

Kagome ergueu a luva como que para golpeá-lo de novo, mas parou e ergueu uma sobrancelha ruiva com a mão parada no ar.

— Não sou uma simples mulher, Falcon. — Baixou a mão— Você não me fará esquecer meus motivos num acesso de raiva.

— Então, responda minha pergunta.

Ela tornou a calçar a luva, calada. Não importava. Inuyasha não precisava ouvir nada dela. Kouga Du Pree não tinha irmãs, mas estava noivo, e o ódio no semblante da moça era mais do que eloqüente. Kagome de Ryonne o capturara.

A ação bem planejada decerto resultaria em sua morte. O rei Bankotsu e o conde de York se enganaram ao pensar que nem os Ryonne, nem os Du Pree tentariam uma desforra pela morte de Kouga antes do final do mês.

O silêncio encheu-o de raiva, e ele buscou palavras para falar com ela:

— Não matei o seu noivo.

— Mentira, Falcon!

— Não perca tempo falando — interrompeu sir Naraku, com um olhar ameaçador — Eu o matarei agora!

A atenção de Inuyasha desviou-se para Naraku. O que quer que o estivesse mantendo sob controle, começava a se dissipar depressa. Todos os músculos dele pareciam prontos para a batalha.

— Tenha mais um pouco de paciência. — Kagome segurou o pulso de Naraku — Quero me lembrar deste momento pelo resto de minha vida.

Ao perceber que Naraku obedeceria, Inuyasha voltou à atenção para a sua captora.

— Vou lhe dizer pela última vez que não matei Du Pree.

— Quieto, Falcon. Guarde suas mentiras. Talvez elas valham alguma coisa no inferno.

O medo não era novidade para quem ganhava o sustento lutando. Às vezes, um certo respeito pelo medo podia salvar vidas. Mas ali não era o caso. Um misto de pavor e arrependimento correu pelas veias de Inuyasha.

Todavia, a raiva pela acusação injusta e pela morte covarde que teria conferiu-lhe forças para resistir. Certo de que estava condenado, quis saber:

— E quanto a meus homens?

— Nada sofrerão. Todos já estão em segurança.

— Segurança?

— Sim, lorde Falcon. Em segurança. Mas é provável que levem algum tempo para encontrar o caminho para a liberdade.

Os homens em volta riram. Inuyasha ignorou a troça e respirou fundo.

— E agora pretende me matar?

— Você matou Kouga com um golpe de espada pelas costas. — Os olhos dela cintilavam — Vai morrer do mesmo jeito. — Com isso, Kagome tirou as luvas e ordenou: — Ergam-no!

Naraku levantou o rosto de Inuyasha com a lâmina, obrigando-o a encará-lo. Ele praguejou, quando os dois soldados começaram a amarrar seus braços nas costas com tiras de couro. Preferia morrer lutando a ser trucidado como um porco selvagem.

— Não!

Desafiando as armas apontadas para si, agitou-se com violência, passou por Naraku e correu para a segurança da floresta.

— Detenham-no!

A fuga durou pouco. Cinco homens voaram sobre Inuyasha, abatendo-o. Foi golpeado na cabeça e no corpo, e sentiu o ferimento das costelas rasgar-se ainda mais. Os soldados enfiaram seu nariz no chão e prenderam-lhe braços e pernas. Em seguida, puseram-no de pé e levaram-no de volta para Kagome.

Com o coração aos saltos, Inuyasha se debateu com uma vulnerabilidade que nunca sentira antes.

— Acabe logo com isso! — gritou, desafiando sua captora.

— Tudo há seu tempo, Falcon. — Kagome saboreou o gosto doce da vitória.

Certa de que ele estava bem preso, ela correu o olhar bem devagar pela forma maciça da sua presa.

As histórias não eram todas falsas. Inuyasha não era apenas grande, mas um gigante perigoso. As tiras de couro que amarravam a cota de malha das pernas davam uma idéia do poder dos músculos que pulsavam por liberdade.

Ela admirou a riqueza da túnica preta e lisa que Inuyasha usava. Mesmo naquela situação, via-se que era um tecido, de muita qualidade. Apesar de ser resistente e forte como a musculatura que cobria, Kagome sabia que era macio e suave ao toque como o pêlo de um gato.

Sua atenção se desviou para a longa bainha de madeira que pendia ao lado do corpo dele. Havia vários falcões entalhados ali, e o largo cinto na cintura servia não só para segurar a bainha, mas também para acentuar a força daquele tórax.

Os feixes de músculos se contraíam e se expandiam com força, na batalha silenciosa que ele travava para se libertar. Kagome ergueu o encarou e estremeceu. Se a força de Inuyasha fosse tão grande quando a determinação de seu rosto, ele logo ganharia a liberdade.

Os lábios cheios estavam contraídos numa linha fina, e a pele saudável, escurecida na lateral da face em que ela o golpeara com a luva. Do outro lado, uma cicatriz fina e branca marcava, como uma lágrima, o caminho entre o canto do olho e a boca.

Inuyasha se inclinou para frente e, por um momento, os cabelos rebeldes esconderam suas feições. O sol iluminou a cabeleira mais longa na parte de trás e, quando ele se empertigou, um cacho escuro caiu em sua testa. Kagome teve de brigar contra o impulso de passar os dedos pelas mechas rebeldes, recolocando-as no lugar.

Olhou-o nos olhos e ficou horrorizada ao perceber que Inuyasha acompanhava seus movimentos. Reflexos dourados brilhavam nas íris castanho-claras.

— Olhe bem, milady, pois eu sou aquele que assombrará suas noites. Você irá desejar nunca ter me capturado.

Kagome virou-se depressa para esconder o constrangimento e cerrou os dentes. Por que perdia seu tempo estudando aquela criatura vil?

— São palavras ousadas para alguém que está preso como um suíno.

As sobrancelhas negras de sua presa arquearam-se sobre um quê divertido. Seria fácil alguém se perder naquele olhar. Para surpresa dela, Inuyasha apenas riu, e o tom desesperado da risada fez um arrepio de remorso percorrê-la. Por trás de toda aquela raiva, existia algo como... dor.

Kagome já vira aquela expressão ao mirar-se no espelho. Tristeza. Perda. Coisas que já povoavam seus pesadelos.

O que Falcon podia saber sobre dor? E sobre perda? Aquele homem espalhava morte e destruição como passatempo. Não se preocupava com as vidas que tirava ou que arruinava no processo. Não, apesar de não saber definir, ela sabia que não era dor o que vira nele.

Mas, ainda que Inuyasha tivesse uma ponta de arrependimento naquela alma negra, que diferença faria? Nada mudaria. Kouga continuaria morto. Como Kagome encontraria um marido com o tempo que lhe restava? Porque, se não se casasse, Bankotsu tomaria Taniere.

O som das rodas de uma carroça vindo pela estrada acidentada interrompeu seus pensamentos. Mais alguns homens chegaram para dispor do corpo de Falcon, mas o que mais a incomodou foi ouvir Naraku praguejando.

Descontrolado-se de repente, os homens de Kouga avançaram para o prisioneiro, dispostos a vará-lo com as espadas.

— Não! Ele é meu! — Kagome atirou-se sobre Naraku, jogou-o no solo e pegou sua espada.

Empunhando-a com ambas as mãos, ela se virou para Falcon. Então, respirou fundo e caminhou para ele, concentrando-se no que estava prestes a fazer.

— Olhe para mim, droga! Se você tem coragem para tirar minha vida, tem de ter coragem para me ver morrer.

Honra e bravura fizeram-na encará-lo. O horror obrigou-a a desviar-se. O que fazia? Aquilo não seria vingança. Seria assassinato.

Falcon se mantinha firme. Aceitaria a morte sem implorar por viver, como um covarde. A espada pendeu e caiu das mãos dela.

Aturdida, Kagome obrigou-se a sair do transe.

— Você está cometendo um grave erro, milady — disse ele.

— Coloquem-no na carroça — ela gritou, decidida. Falcon se debateu contra os homens que o atiraram no veículo. Suas imprecações pesaram nos ouvidos de Kagome. Sem querer ter de escutá-lo durante a viagem de volta a Taniere, ela se inclinou na lateral da carroça, dizendo apenas:

— Pare, Falcon.

— Vocês pagarão por isso. Todos vocês. — Fitou os soldados — Aceitam obedecer a uma mulher? O rei vai abatê-los um a um!

As ameaças vazias irritaram-na.

— Falcon, já o mandei parar. Caso contrário, arrumarei um jeito de silenciá-lo.

— Não vê no que está se metendo, sua vadiazinha? — provocou-a — Você vai se arrepender.

— Sei muito bem no que estou me metendo e não me arrependerei. — Kagome pegou um pano sujo e amassou-o numa bola — Isto cessará suas ameaças.

Irritada, enfiou o pano na boca dele e afastou-se daquele olhar de ódio.

Se seu desejo de vingança não fosse tão forte, Kagome sabia que estaria acabada. Se tivesse amado menos Kouga, seria fácil ordenar que soltassem Falcon e sair dali. Mas a perda do amor pesava em seu coração.

Montou rápido e cavalgou para casa, deixando os demais para trás.

"Falcon pagará pela traição. Tenho testemunhas da culpa dele." Os próprios homens de Kouga levaram o corpo inerte do patrão de volta para Taniere e descreveram o açougueiro que o matara. O que mais a impressionava era o detalhe que, por trás do elmo, o assassino tinha um par de olhos que lançavam reflexos dourados pouco antes da morte.

Sim, Falcon mutilara o bom Kouga até deixá-lo irreconhecível. Daquilo não havia dúvidas. E se todas as forças do lorde chegassem aos portões dela, que assim fosse. Logo aprenderiam que não bastava um nome para salvá-los de seus pecados.

Foi com imenso prazer que Kagome avistou as espessas paredes cinzentas do castelo. Ao verem-na, os guardas se apressaram em erguer a ponte levadiça.

Kagome atravessou os portões e desmontou no pátio interno, onde entregou as rédeas ao encarregado do estábulo. Em seguida, avançou para os degraus íngremes que conduziam ao grande salão.

Antes de chegar à tranqüilidade de seu quarto, Kagome parou para saber de Kanna, a criada, que chegara uma carta do padre de Du Pree. Assim que entrou em seus aposentos, ela apressou-se em despir a armadura encharcada de suor. Aliviada, rompeu o lacre real do pergaminho antes de desabar na cama para examinar seu conteúdo.

Pela primeira vez em vários meses, experimentava um misto de alívio e satisfação. Deus, enfim, ouvira suas preces.

Kagome entrou na cela da torre. Mesmo adormecido e acorrentado ao leito, Falcon era formidável. Será que era mesmo um servo do demônio? Que se comprazia nas lutas e mortes que provocava?

As diversas cicatrizem que o marcavam atestavam sua coragem. Mas, fosse ele um bravo ou um covarde, continuava sendo um assassino.

Um assassino vivo e respirando.

Kagome franziu o cenho. Quando planejara a vingança com Naraku, não conversara sobre o que fariam quando Falcon fosse levado a Taniere. A única discussão se dera sobre onde enterrar o cadáver.

Foram necessários três homens para detê-lo enquanto Kagome despejava, pela garganta dele, a poção para dormir feita por Kanna. Ela também não havia sido muito gentil quando limpara e costurara o ferimento na costela de Falcon e cuidara dos cortes do rosto e do pescoço.

— Quer ajuda, milady? — Shippo entrou na pequena câmara que servia de cela para Falcon.

— Não. Está tudo bem.

O jeito como o capitão acompanhava cada passo dela quando Falcon se achava por perto era quase risível. Em menos de um dia, a notícia já começara a se espalhar, e muita gente ficara sabendo que Kagome usava a torre como prisão e que tinha um prisioneiro.

Menos que quinze dias antes, ela deixara a propriedade do pai, em Ryonne, apressada. Quisera sair antes que ele voltasse do serviço que fora fazer para o rei e a detivesse. Como ainda não pudera organizar sua própria força de trabalho em Taniere, vários de seus servos antigos estavam lá. Não se arriscaria a matar Falcon com tanta gente de Ryonne por perto. Todos falariam e, apesar do motivo justo, seu pai não aceitaria a vingança de bom grado.

Mas Kagome podia esperar. Afinal, capturara o Falcão Endiabrado.

— Milady, não faça nada impensado. — Shippo pigarreou. Kagome virou-se para encará-lo, mas não disse nada. A expressão preocupada de Shippo encheu-a de culpa.

— Shippo, juro por minha honra que não matarei este homem hoje.

O capitão estudou as feições dela por um momento, alertando:

— Ficarei de olho em sir Naraku. Acho que ele não desistirá tão fácil.

Kagome nunca iria entender por que Shippo não confiava nos homens de Kouga.

— Ele vai morrer por causa dos ferimentos? — Shippo aproximou-se do catre.

— Não. Está dormindo por causa da poção de Kanna. — Kagome conduziu o capitão ainda mais preocupado para a porta — Vá. Não haverá conseqüências maiores para Falcon que uma dor de cabeça.

Kagome esperou até a saída do capitão para voltar para a cabeceira e examinar o resultado de seu trabalho. Como não era muito boa com uma agulha, queria se certificar de que os pontos se manteriam firmes.

Ajoelhou-se no chão e afastou as cobertas. Falcon se mexeu, descobrindo o peito, e ela parou com a mão no ar, corada. Já cuidara de muitos ferimentos do pai e seus homens, e conhecia bem a anatomia masculina. Saciara sua curiosidade muitos anos atrás, de forma que não entendia por que a visão daquele homem a deixava tão abalada.

Inuyasha era o inimigo que matara seu amor, e Kagome rezara incontáveis vezes pela morte dele. Mordendo o lábio, ela respirou fundo, tentando parar de tremer. Estava cansada. Só isso. A excitação pela captura fora grande. Precisava descansar. Nada mais. Assim, puxou a coberta de volta.

Num gesto abrupto, Inuyasha deslizou a mão como uma cobra e prendeu-lhe o pulso.

— O que você está fazendo?

A corrente que o prendia na parede rangeu de leve. Se Kagome já não estivesse ajoelhada no chão, teria caído. Desde quando ele estaria acordado?

— Solte-me!

— O que você está fazendo? — repetiu ele, apertando-a com mais força.

Kagome encarou-o e sorriu.

— Pensei em tirar esses pontos e ver quanto demora para um demônio morrer de tanto sangrar.

Inuyasha a estudou por um longo momento antes de soltá-la.

— Então, prossiga.

— E você simplesmente ficaria aí?

Falcon moveu um braço até o limite do tamanho da corrente.

— Como eu poderia detê-la?

Mas Kagome sabia que ele não era do tipo que aceitaria a morte sem lutar.

— Há quanto tempo você está acordado?

— O suficiente.

Ela sentiu o coração apertado. Não conseguira assustá-lo. Inuyasha, na certa, ouvira a promessa que Kagome fizera a Shippo. Determinada a terminar o que fora fazer e a sair dali, inclinou-se para ele.

Falcon cerrou as pálpebras e contraiu o maxilar.

— Dói tanto assim?

— Só quando você cutuca.

Aturdida, Kagome verificou os pontos e umedeceu a superfície com mais ungüento. Seus dedos tremeram ao roçar a pele dele e sentir a musculatura rígida debaixo. Forçou-se a se concentrar. Então, cobriu de novo o ferimento sem muito cuidado.

— Mandarei uma criada trazer algo para você beber.

— E comida? A menos que pretenda me matar de fome.

Ela fez uma pausa.

— Pode ser.

— Talvez isso a agrade, mas Shippo não ficará satisfeito.

Kagome suspirou. Ele ouvira a promessa feita a Shippo.

— Falcon, pode estar vivo agora, mas não pense que desisti de minha vingança. Até porque, você já esteve na ponta de minha espada uma vez e pode estar de novo, se for preciso.

— Garanto que estarei pronto para você, e não será tão fácil.

Kagome sentiu o sangue correr mais rápido nas veias. Queria arrancar aquele sorriso do rosto dele.

— Julga-se invencível. Acha que vai durar para sempre? Você é só um homem, Falcon. Portanto, acabará morrendo um dia.

— E você é só uma mulher. Como qualquer outra. Diga-me, lady Kagome, que cicatriz a senhorita mais admirou? A de minha coxa ou uma das do peito?

Kagome se enfureceu.

— Vá para o inferno, Falcon! — E ela se foi.

Inuyasha deu risada. Lorde Totosai de Ryonne escolhera bem ao dar à filha a versão feminina do nome do sogro. Era uma lástima ela não ter o gênio bom do pai, porque, apesar de toda a coragem e pose, lady Kagome se irritava com muita facilidade, e explosões emocionais nunca caíam bem. Porém, enquanto ele estivesse ali, elas serviriam para diverti-lo.

Como não fora morto na floresta, tinha a sensação de que permaneceria semanas ali. Se isso acontecesse, acabaria morrendo por ordem do rei Bankotsu antes mesmo de descobrir o verdadeiro assassino.

Estendeu o braço e fez uma careta quando sentiu a força das correntes. Lógico que não o manteriam acorrentado para sempre. Eles sabiam quem ele era e, portanto tinham ouvido as histórias sobre o Falcão Endiabrado.

Como alguém poderia desconhecê-las? Inuyasha deixara as lendas se espalharem de propósito. No fundo, gostava de ver o medo no rosto dos homens quando descobria quem ele era. E, para capitalizar ainda mais em cima da sua imagem, vestia-se apenas de preto, bem como a seu cavalo e seus homens.

Os que o conheciam bem achavam as histórias sobre o demônio engraçadas e chegavam até a ajudá-lo a fabricá-las. Inuyasha tinha de admitir que elas eram eficientes para manter as filhas de seus aliados bem longe.

Na realidade, nem precisava das histórias para afastar as mulheres. A morte de Kikyo fora suficiente.

De novo, a dor, que parecia muito sepultada havia muito, voltou a incomodá-lo.

— Droga! — disse, alto, observando o sol se pôr pelo buraco da janela.

Quanto seus homens demorariam para encontrar seu capitão, Miroku? Eles haviam dividido os homens em dois grupos. O de Miroku fora para o castelo de Falcon, em busca da ajuda de Sesshomaru, irmão dele. O outro grupo seguira com ele para Richmond. A área mais lógica para começar as buscas parecera ser aquela onde os rumores sobre o assassinato circulavam, mas em vez disso caíram numa armadilha.

Aliás, muito bem elaborada. Como as terras de Du Pree e de Ryonne ficavam ao sul, Inuyasha não imaginara encontrar vingadores na estrada do norte.

"Onde estou?" Seus captores nem sequer se preocuparam em esconder a direção. A caravana seguiu para o norte antes de virar um pouco para o leste, rumo à costa. Aquilo o colocava nas terras do conde de York ou do conde de Richmond. Como ambos eram considerados amigos, era uma região segura.

No entanto, estavam perto da fronteira com a Escócia. E todos sabiam que lorde Falcon era um aliado ferrenho do rei Bankotsu em sua batalha pelo trono contra a imperatriz. Independente do que tivesse havido durante o reinado do rei Henrique, a imperatriz não tinha direito à Coroa.

Por um instante Inuyasha recusou-se a acreditar que a filha de Baldwin fosse fiel ao inimigo. Assim, para onde lady Kagome o levara? Fechou os olhos, lembrando-se dos comentários da corte. Teria ouvido algo sobre Ryonne, Kagome ou Du Pree, além do casamento iminente? Ah, sim! Recordava uma coisa sobre o verão anterior. "O quê?"

Sorriu, então. Taniere. Como pudera se esquecer dos rumores quando Leon entregara suas terras queridas à neta?

O sorriso morreu em seu rosto. Saber onde se achava não ajudava em nada. A única esperança eram seus homens.

Todos deviam se encontrar em Northampton na semana seguinte. Se os soldados não o encontrassem, será que os irmãos conseguiriam evitar a perda de tudo o que possuíam?

Como deixara aquilo acontecer? A situação toda era tão ridícula que Inuyasha começou a rir.

— Uma mulher. O Falcão Endiabrado teve as asas cortadas por uma mulher!

Todos aqueles anos para construir uma reputação arruinada. Meneou a cabeça.

— Nem mesmo uma mulher madura. Ela é quase uma menina.

Quando ergueu a mão para enxugar as lágrimas provocadas pelo riso, Inuyasha estremeceu com a dor impingida pelas correntes. Nem por isso parou de rir.

"Kagome..." Era mesmo um bom nome. Inuyasha imaginou um gatinho de olhos verdes pegando um enorme falcão e sacudindo a ave de rapina entre os dentes brancos, pequenos e afiados.


Estarei postando praticamente diariamente, eu estou adaptando a história aos poucos, espero que lêem. Mandem reviews. Sou nova nisso de adaptações, e queria mesmo saber o que estão achando, Beijos.