And I won't forget you
At least I'll try
And run, and run tonight
Everything will be alright

E eu não te esquecerei

Pelo menos vou tentar

E vou fugir, e fugir esta noite

Tudo vai ficar bem

Everything will be alright - Killers

Talvez não tivesse sido uma boa ideia pressionar Faith. Nos últimos três dias, ela havia tirado não só o seu juízo, como o juízo do pobre Eddie e, por incrível que pareça, de Nathan Ivashkov. Ele apostava que a mulher também havia tirado o juízo de pelo menos umas 10 pessoas na Irlanda para fazê-lo chegar lá em paz. Ele a havia subestimado. Como era aquele ditado mesmo? Os menores frascos escondem os piores venenos.

Não que ela fosse um veneno, mas era pelo menos um enigma. Podia brincar com a mesma facilidade em que ficava séria e executava um trabalho difícil. A maior surpresa foi ela conseguir liberar Eddie da prisão, com apenas algumas horas de trabalho de escritório a serem feitas quando fosse necessário. Como ela havia conseguido aquilo quando nem mesmo a Rainha Vasilisa tinha tido favores, era um mistério. Adrian não gostava de questionar quando as coisas davam certo.

Agora, no avião, enquanto Faith dormia com a cabeça encostada no vidro, ele não pode deixar de perceber como ela era frágil. Sua impressão era de que ela fosse feita de porcelana, como uma daquelas fadas que os humanos fabricavam. Havia começado como uma brincadeira, mas ela realmente parecia um elfo. Mas ele sabia que era só impressão. Afinal, ela era uma dhampir. E ele já havia reparado no número de tatuagens que ela tinha no pescoço... não eram poucas.

Tirou o cinto e se levantou, cansado de horas sentado numa cadeira. Pelo menos, o avião era particular. Haviam 4 acentos. Eddie dormia ao seu lado e ela, na frente. Esticou as pernas e se espreguiçou, satisfeito com o rumo que as coisas estavam levando.

O plano de Faith de sair sem ninguém saber havia funcionado. De alguma forma, a dhampir havia adivinhado que enfrentar despedidas só seria pior para ele. E, aparentemente, iriam ficar em alguma cidade só de vampiros nas proximidades de Dublin, numa pousada de luxo para morois. Ou seja, não só ele estaria livre para andar sem precisar de Eddie e Faith como cães de guarda, como também teria companhia de outras pessoas.

Caminha pelo avião, cogitando pedir algo para comer. Saíram tão cedo pela manhã (dos humanos) que sequer havia tido tempo para um café. Eddie havia apagado quase imediatamente depois que Faith lhe deu permissão para dormir. Ela havia ficado acordada algum tempo checando algumas coisas com a equipe de bordo, enquanto Adrian a observava um pouco atordoado.

Em certos aspectos, a eficiência dela o lembrava de Belikov. A dedicação também. Balançou a cabeça e caminhou até o banheiro para lavar o rosto e tentar afastar as coisas ruins que vinham a sua mente. Eficiência lembrava Belikov, que lembrava Rose, que lembrava que ele havia sido corneado a olhos vistos. Bagunçando a linha de pensamento, Rose o havia corneado com Dimitri com eficiência. Deu um sorriso depreciativo para si mesmo no espelho. Ele estava ficando maluco.

— Está com fome? — o sotaque melódico de Faith chegou aos seus ouvidos e ele balançou a cabeça numa afirmação. — O que quer comer?

— Me surpreenda, Little elf.

— Você vai parar de me chamar de little elf se eu encher seu saco?

— Não.— ele diz, num sorriso. A aura dela estava vermelha, mas com alguns pontos de azul. Ela estava irritada, mas se divertia com a sinceridade. Tudo bem continuar, então.

— Então vou ter que continuar agindo como se eu fosse uma ajudante do Papai Noel. — a seguir, ela pega o cardápio e lê, numa voz meio estrangulada, bem fininha. — Você deseja um trenzinho de brinquedo ou um ursinho de pelúcia para o café?

Ele gargalhou e Eddie permaneceu sem se mexer. Voltou a sentar no seu lugar e tirou o cardápio do bolsão ao lado.

— Acho que um trenzinho é menos indigesto. — a aura dela mudou rapidamente de vermelho para azul e ela sorriu. — E eu não sou zoófilo para comer um ursinho... — isso arrancou gargalhadas dela.

Ela não era tão ruim assim quando não estava no modo terminator. Será que ela se irritaria se Adrian pedisse que não fosse tão eficiente? Será que ela se sentiria ofendida se pedisse que fossem sempre assim?

— Você deu uma canseira no Eddie para ele ainda não ter acordado, hein? — Adrian diz, com um sorriso meio sacana.

— Você não tem ideia de como eu posso ser devastadora. — ela aperta o botão que chama a aeromoça, com um meio-sorriso. — E você me deu três dias. Tive que aproveitar como pude. Além disso, Castile acabou de se tornar guardião, ele deve se acostumar com o ritmo das coisas. — ela dirigiu um olhar para onde o garoto dormia que era quase maternal. — Na idade dele, com o tempo que ele tem de formado, eu chegava a ficar cinco dias sem dormir por causa do trabalho.

Trabalho? Ou escravidão?— ele levantou uma sobrancelha, mas lembrava da dificuldade que era encontrar Rose dormindo enquanto ela estava no exílio.

Rose. Exílio. Traição.

Sentiu uma dor no seu coração e tentou disfarçar um pouco. A aeromoça veio saber o que queriam e se foi, com os pedidos anotados.

— Foi uma época difícil. — é o que Faith responde, antes de encarar a janela de forma meio distante. A aura dela muda de cor novamente e Adrian não deixa de pensar em como os sentimentos dela são voláteis.

— Isso quer dizer que você não dorme muito? — ele estava pronto para disfarçar o que estava sentindo com qualquer piadinha envolvendo ele e os sonhos dela.

— Não. Eu durmo muito. Durmo três minutos em pé enquanto espero do lado de fora da sala da rainha, por exemplo. Durmo durante 15 minutos depois do almoço. Mas, não, não durmo mais que duas horas por noite.

— Então você não sonha...

— Não se eu puder evitar. — e ela dá um sorriso que faz Adrian largar a tentativa de conversa.

Ficam num silêncio esquisito até comerem o café da manhã.

— O que você espera da Irlanda? — ela quebra o silêncio, enquanto segura uma caneca de café com apreço.

— As plantas mais verdes, as bebidas mais alcoólicas e que, no mínimo, todas as mulheres sejam bonitas como você.

— Você está subestimando o meu país. — ela diz, com um meio sorriso. — Você nunca verá um verde como o da Irlanda, nunca mais vai provar bebida melhor e eu não sou nada comparado à variedade de mulheres que você vai encontrar.

— Você me disse que não era tudo isso. — ele disse, num tom acusatório.

— Nesse aspecto, é mais do que isso. Em outros... — ela dá de ombros e diz, com um sorriso. — Dizem que dá má sorte começar uma jornada numa sexta-feira.

— Quem diz isso?

— Os irlandeses.

— Isso é bobagem.

— Se dependesse de mim, nós não começaríamos uma jornada numa sexta-feira.— ela diz, num tom misterioso.

— Por um acaso é a sua magia de elfo que diz isso? O que pode acontecer, nós sermos atacados por um grupo de leprechauns sapateadores e sermos assassinados?

Ela só levanta uma sobrancelha, como quem o desafia a duvidar.

— Isso não é possível!

— Nunca se sabe, na velha Irlanda. Na bela cidade de Dublin, onde as garotas são tão bonitas... — ela cantarolou, com um sorriso.

— Isso é uma daquelas músicas de bebida! — ele se acomodou na ponta da cadeira, de uma forma que era bizarra para alguém do seu tamanho. Faith achou o efeito geral gracioso.

— Minha mãe cantava para eu dormir, essa. Ela mudava a letra...— ela continuou cantarolando. — "Foi onde eu primeiro vi, minha doce Faith Brennan - oh". Nem rima, mas eu morria de rir toda vez que ela cantava assim.

Adrian tinha que admitir, Faith tinha uma boa voz. E também tinha alguma vocação para cansar os outros, porque Eddie sequer se movimentou com toda a cantoria.

— Me ensina? Essa. E outras. Por favor? — Adrian realmente piscou os olhos algumas vezes, tentando parecer sedutor.

Ela concordou e, pelas duas horas seguintes, repassou pelo menos quatro músicas tradicionais de bebida com ele. No meio, Eddie acordou e se juntou a eles no aprendizado.

— Vocês dois são os PIORES alunos que eu já tive na minha vida! — ela disse, depois da vigésima quinta vez (se não mais) que os corrigiu. — Adrian, você até tem ritmo e voz, mas pare de enfiar palavrões nas músicas. Eddie, você pode continuar só vasculhando os arredores enquanto a gente estiver num pub, ok? É capaz de você ser linchado.

— Você é muito rigorosa. Todo mundo vai estar bêbado, qual o problema se eu cantar "Cocks and muscles" ao invés de Cockles and Mussels? — Adrian afunda na cadeira, os seus joelhos encostando-se aos de Faith.

— A Mally Malone vende pintos e músculos, é isso? É como se ela fosse uma cafetina. — Eddie filosofa. — Faz sentido, as meninas já são bonitas... ela só estaria facilitando o trabalho.

— Se vocês continuarem assim, eu vou agenciar os dois no momento em que nós pisarmos em Dublin!

— Nós podemos fazer um cartaz, então. — Adrian soltou o cinto e se levantou, fazendo uma pose de modelo. — Assim. Tira uma foto, com o Eddie atrás com essa cara de guarda-costas tarado e coloca um letreiro embaixo "Horny Americans".

Isso fez os dois guardiões explodirem em gargalhadas. Adrian se sentou satisfeito, passando uma mão pelo seu cabelo bagunçado.

— Desse jeito, vocês só vão atrair mulheres idosas e obesas e homens com fetiches esquisitos. Mas... — Faith enquadra o rosto de Adrian com as mãos e depois passa para Eddie. — Vocês não ficariam mal com roupas de couro.

— Você quer me ver com roupas de couro, Faith?

— Ah, por favor! Não me faça ter pesadelos, sr. Ivashkov!

— Nenhum sonho que me tenha no meio é um pesadelo, little elf. — ele disse, com satisfação. Ele totalmente iria aparecer nos sonhos dela com uma calça de couro.

— Duvido que se o Eddie sonhasse com você, não iria achar que é um pesadelo.

— Sem ofensa, Adrian. Se eu fosse gay, seria um privilegio. — Eddie deu de ombros, com um meio sorriso.

— Se você dissesse o contrário, eu te mandava de volta no primeiro avião pros Estados Unidos!

— Depois do que eu passei para soltar esse menino, se você o mandasse de volta eu te matava na hora!

— Você não me mataria, little elf. Eu faria igual aquele gato daquele filme do cara verde, iria te olhar assim e você não teria escolha a não ser salvar a minha vida.

— Falando em salvar a sua vida, Eddie, vamos repassar o plano. — Faith diz, colocando um ponto final nas brincadeiras e voltando a ser basicamente só trabalho.

Ela era evasiva, Adrian percebeu. Todas as vezes que fazia qualquer referência dúbia, ao invés de responder diretamente como Rose faria, Faith se evade. Muda de assunto. Faz uma piada que não responde as provocações.

Por outro lado, isso era bom. Tira-la do sério daria um ótimo desafio e Adrian precisava ocupar a cabeça. Era o que acontecia, quando deixava sua mente vagar sozinha, ela se escondia em lugares escuros com pensamentos e memórias que o deixariam maluco. Ele precisava se agarrar nas bordas da sanidade, para não se deixar perder.

Era o seu maior medo, ficar insano. Era um dos motivos que o havia motivado a se mudar, porque algo dentro de si dizia que se continuasse na corte, com os acontecimentos recentes, iria perder um pedaço importante de si mesmo.

Sentiu-se levemente culpado de ter deixado Jill para trás, mas a garota deveria aprender a se portar. E enquanto a legitimidade da rainha dependesse dela, ela estaria a salvo. Só poderia esperar que os outros cuidassem da Chave de Cadeia direito, agora que sabiam que ela era irmã de Lissa.

Veja só, ele só estava longe há algumas horas e já conseguia pensar direito. Sua mãe não poderia ter tido idéia melhor. E, pelo ritmo que as coisas estavam levando, ele tinha certeza que iria se divertir em todas as horas possíveis que estivesse na Irlanda. E, quem sabe, esquecer das coisas terríveis que passou nos últimos tempos.

Adormeceu, com suas esperanças altíssimas. Em sua cabeça, cantarolava suavemente... In Dublin's fair city, where the girls are so pretty...

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NOTAS:
A música que os dois cantam é Molly Malone, uma música típica da Irlanda.
Horny Americans – Americanos com tesão –q
Chave de Cadeia = Jailbait = uma garota que tem idade menor que a de consentimento, mas parece ser mais velha. Logo, se você tentar algo para ela, vai para a cadeia. Eu também sou cultura.