CAPÍTULO II
Depois de se secar e trocar de roupa, Rin deixou o minús¬culo quarto escuro, levando a vela acesa para se guiar pelo caminho. Enquanto caminhava, notou que as portas dos outros quartos naquele andar estavam fechadas e não havia vestí¬gios de luz. Curiosa, parou e girou suavemente uma maçaneta. Fechada. Assim como as outras que tentou.
Intrigada, Rin ponderou aquela estranha circunstância, desejando saber que segredos se escondiam por trás daquelas portas fechadas. Mais uma vez, seu estômago roncou e ela dei¬xou a exploração em prol de uma viagem veloz até a cozinha.
Com três voltas erradas e um único momento de pânico, conseguiu seguir as direções da criada, encontrando os de¬graus que conduziam a um estreito corredor que levava a uma cozinha confortável e bem iluminada.
A sra. Kaede encontrava-se sentada a uma mesa de ma¬deira longa, com um bule de chá e três xícaras à sua frente. Uma segunda mesa longa, mais alta que a primeira, ocupava toda a parede da cozinha. Atrás dela, de pé, encontrava-se uma mulher com um vestido marrom desbotado. Era alta e magra como uma vara de junco.
O penteado austero acentuava-lhe as maçãs do rosto angulosas. Os olhos castanhos pareciam exaustos e linhas profundas sustentavam-lhe os cantos da boca. Rin suspeitou que a pobre criatura devia ter passado por muitas experiências na vida, e nem todas haviam sido boas.
— Olá, sou Rin Parrish.
Para sua surpresa, a face austera da mulher se iluminou com uma expressão de boas-vindas.
— Pode me chamar de Yura — disse, num tom alto e jo¬vial, o que contrastava com sua aparência rígida. Contornando a mesa, apressou-se em cumprimentá-la com entusiasmo.
Rin lançou um olhar sub-reptício à cozinheira. Nenhuma cicatriz visível. Parecia estar de posse de todos os membros. Depois de conhecer Myouga e a sra. Kaede, esperava encontrar alguém com uma perna amputada. Mas Yura parecia sã e amável, com exceção da expressão em seu olhar, que indicava cicatrizes em algum lugar no fundo da alma.
Retribuindo o sorriso, Rin deixou a cozinheira guiá-la até um assento oposto ao da sra. Kaede. Yura pôs um prato de pão, queijo e carne fria sobre a mesa.
— Como foi a viagem, querida? Bem longa, creio. E o tempo, todo sozinha com um cocheiro contratado.
Yura parecia bastante capaz de manter um monólogo, para sorte de Rin, que enchera a boca de pão e queijo.
— Santo Deus! O vento esta noite estava horrível, e o dilúvio que caiu me fez lembrar de Noé e sua arca — conti¬nuou a mulher. — Ano passado choveu durante três sema¬nas sem parar. A estrada virou um rio de lama. Um rio, estou lhe dizendo.
Enquanto a cozinheira falava, Rin mastigava e a sra. Kaede contemplava uma xícara de chá.
— Que noite terrível, que vento, que chuva! E lorde Craven... Pobre homem. Um dia e uma noite inteira na aldeia, sem descanso.
O coração de Rin acelerou ao ouvir o nome do lorde e ela esperou que Yura continuasse a falar. Respirando fundo, a cozinheira sacudiu a cabeça.
— Pelo menos desta vez não voltou encharcado de sangue.
Rin quase se sufocou quando uma porção de comida en¬trou junto com ar, obstruindo-lhe a garganta. Enquanto tossia no guardanapo, Yura dava-lhe palmadinhas nas costas.
— O chá está frio agora, querida. Tome um gole. Boa menina.
Sangue? Será que entendera direito? Tinha certeza de que ouvira Yura dizer "sangue". Seu olhar deslizou pela cozinhei¬ra e depois pela sra. Kaede, que continuava contemplando a xícara de, chá como se a delicada porcelana contivesse as res¬postas para os mistérios do mundo.
— E suspeito que não lhe deram nada de comer — con¬tinuou Yura. — Levei-lhe uma bandeja. Deixei na porta. Jamais entro na torre.
— A bandeja estará na porta amanhã de manhã. — A sra. Kaede acenou com a cabeça. — Ele não come nada quando está assim. Você sabe tão bem quanto eu.
Quando está assim, como? Rin engoliu a comida, olhan¬do de uma mulher para a outra. Estava confusa e curiosa sobre o novo patrão, sedenta por qualquer informação que suas com¬panheiras pudessem compartilhar, e achou aquela fascinação estranha e preocupante.
— Julguei ter visto um flash de luz na torre — disse. Dois pares de olhos se viraram para encará-la.
— Fique longe de lá — aconselhou Yura num tom sombrio: Por quê? A pergunta pairou na mente de Rin, mas não foi verbalizada, e as duas mulheres voltaram a atenção para suas chávenas. Rin apertou os lábios, contrafeita e confusa pela mensagem clara de que a torre circular não devia ser visitada, nem mesmo discutida.
— Contem-me sobre o menino — pediu. O pouco que sabia sobre a criança continha a cor biliosa do veneno de tia Cecilia.
A cozinheira arqueou uma sobrancelha.
— Ele tem seis anos. Isso já deve dizer o suficiente.
— Quero muito fazer uma diferença na vida dele — sussur¬rou Rin.
Estreitando os olhos, Yura perguntou:
— Que tipo de diferença?
— Será que é pretensão de minha parte imaginar que posso oferecer a Hakudoushis, uma criança que não conheço, amor e con¬forto e, ao mesmo tempo, quem sabe, que sobrem algumas das mesmas emoções para mim? — Rin mordeu o lábio inferior e imediatamente desejou não ter revelado tais pensamentos em voz alta.
— É por isso que veio para cá? A procura de amor e confor¬to? — A pergunta de Yura a pegou de surpresa.
— Não vim à procura de nada. Só vim com a esperança de poder amar uma criança do mesmo modo como fui amada.
Na manhã do dia seguinte, Rin observou pálidos fei¬xes de luz infiltrando-se pelas cortinas da janela e esparramando-se sobre o piso de madeira. Fazia algumas horas que o fogo se extinguira, deixando o quarto frio. Mas uma larei¬ra apagada não era nenhuma novidade. Suas tias não viam necessidade de desperdiçar carvão com ela, e seu minúsculo quarto no sótão da casa era horrivelmente frio no inverno e terrivelmente quente no verão. Em comparação, seu quarto atual era um luxo.
Levando a mão à boca, abafou um bocejo largo. Atormentada pelas palavras de Yura até tarde da noite, seus pensamentos antes de adormecer tinham estado repletos de terríveis visões sobre lorde Craven recoberto de sangue e uma preceptora sem rosto, assassinada aos pés dele e que de repente se transforma¬ra em Delia, desfalecida ao pé da escada.
Com um gesto decidido, livrou-se da colcha e ergueu-se da cama. Tremendo, caminhou até o jarro de água limpa que Yura lhe enviara na noite anterior. Distribuindo pó dentifrício cuidadosamente sobre a escova, reconheceu que se sentia um pouco tola por deixar a imaginação e o esgotamento da lon¬ga viagem dominar seus pensamentos.
Após se vestir e prender os cabelos em um coque asseado, seguiu o mesmo caminho que a levara à cozinha na noite an¬terior, porém fez uma volta errada e quando parou, incerta de que direção tomar, sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Girou nos calcanhares e seu olhar vagueou, esquadrinhando as sombras escuras.
Um pressentimento estranho fez seu sangue correr apres¬sado nas veias. Alguém a estava observando. Podia sentir a ameaça e a intenção maliciosa no ar. Contendo o desejo de fugir daquele canto deserto da casa e traspassar aqueles corredores pouco conhecidos a esmo, virou-se em um círculo lento, com todos os sentidos apurados. Uma corrida louca só serviria para se perder ainda mais.
Piscou várias vezes na escuridão, virando-se devagar. Ali estava. Agora podia ouvir. O som áspero de uma respiração que se misturava com os batimentos selvagens e angustiados de seu próprio coração.
As instruções da sra. Kaede soavam em sua mente: à esquerda, depois desça mais um lance, caminhe ao longo do corredor, então desça a escada dos fundos à direita... Decidida, Rin se virou, afastando-se do que a espreita¬va nas sombras carregadas de pó, para longe do sussurro maligno que pairava naquela casa. Seguindo com cuidado, tentou repetir o trajeto que fizera na noite anterior. Seu pul¬so reduziu a uma velocidade mais regular, à medida que se afastava e não ouvia mais passos em seu encalço ou suges¬tão de alguém a perseguindo.
Precisava convencer-se de que imaginara tudo aquilo, mas tinha certeza de que pelo menos por um curto período de tempo não estivera sozinha. Uma angústia sinistra a in¬vadiu enquanto desejava saber quem a estaria observando e por quê.
Quando se aproximou da cozinha, hesitou, insegura se de¬veria expressar suas preocupações aos outros. Não tinha pro¬vas. Na verdade não havia nada para contar.
— Haku, você vai tomar o café da manhã com seu pai e a nova preceptora. Ponha esse bolinho no lugar. — A voz da criada era suave, mas firme.
Rin ficou espantada quando entrou na cozinha. A sra. Kaede estava sorrindo, bem como Yura.
Ambas olhavam para um menininho, que bateu o pé no chão antes de pôr na travessa o bolinho que segurava. A crian¬ça parecia ter se vestido com as roupas de um maltrapilho. A calça tinha um enorme rombo no joelho, as meias eram de co¬res diferentes, e os cabelos escuros estavam espetados em um topete desleixado no alto da cabeça.
— E talvez seja melhor darmos um jeito nesse cabelo. Vai conhecer sua nova preceptora no café da manhã.
— Espero que papai a faça ir embora, como fez com as outras.
Yura trocou um olhar preocupado com a criada antes de caminhar até o menino e se ajoelhar na frente dele.
— Oh, não, Haku — disse, abraçando-o. — A srta. Okawaé uma moça muito simpática e boazinha.
— Não sei... — respondeu o menino, a voz amortecida pelo ombro de Yura. — Ainda não a conheço. Mas se ela for como a srta. Strubb, ou a srta. Rust, ou a... — o garoto estremeceu e hesitou brevemente antes de dizer o nome da outra mulher — ...sra. Winter, então acho que não vou gostar nem um pouco de conhecê-la. E se for como a sra. Winter, é bom que vá embo¬ra e não volte nunca mais. Papai poderia despachá-la em uma caixa de pinho, como fez com a sra. Winter.
Em uma caixa de pinho? Rin estacou, congelada, dige¬rindo as implicações de tudo que escutara. Só havia um tipo de caixa de pinho a que o menino poderia estar se referindo.
Um calafrio perpassou-lhe a espinha. Parecia que a sra. Winter havia deixado Manorbrier em um caixão e, segundo as palavras da própria criança, fora lorde Craven quem a co¬locara lá.
Enquanto Rin se debatia com aquele pensamento, o me¬nino ergueu o olhar e a pegou espiando não intencionalmente.
Os olhos azuis de Hakudoushis se alargaram e a cor desapareceu de sua face, enquanto ele se precipitava mais profundamente no abraço de Yura.
— Bom dia — disse Rin num tom jovial. Cruzando o ca¬minho, ajoelhou-se na frente dele, de modo que suas faces fica¬ram frente a frente.
— Estou feliz em conhecê-lo, Hakudoushis.
Os olhos do menino se arregalaram ainda mais. Com um olhar rápido à criada, Rin continuou:
— Ouvi a sra. Kaede chamá-lo de Haku. Acho que me per¬mitirá a mesma familiaridade. E você me chamará de srta. Rin. "Senhorita Parrish" soa muito formal.
Hakudoushis contraiu os lábios e os grandes olhos redondos a estudaram com um ar suspeito. Mas aceitou a mão que ela lhe ofereceu, num gesto cavalheiresco, confirmando que lhe ha¬viam ensinado boas maneiras.
Rin ergueu-se e depressa ajeitou a frente da saia antes de virar as costas para seu jovem pupilo.
— Bem, Haku — disse com um sorriso. — Terei de lhe pedir que me acompanhe até a sala do café da manhã. Não tenho a mínima idéia de onde fica e estou certa que não queremos fazer seu pai esperar.
Rin respirou fundo. O pensamento de ver lorde Craven na¬quela manhã lhe trouxe um sentimento estranho, meio apreen¬são, meio antecipação e nervosismo.
— Um cavalheiro escolta uma dama assim. — Posicionando o braço de Haku, ela pôs a mão suavemente no lugar.
O menino hesitou e focalizou a mão feminina sobre seu bra¬ço. Então, fitou Yura com um ar desesperado. A cozinheira sorriu e acenou com a cabeça, encorajando-o.
Ao entrar na sala de café da manhã, Rin parou. Havia três lugares à mesa e o aroma proveniente das iguarias nos pratos de prata pairava no ar.
Haku contornou a mesa e sentou-se no assento próximo à janela. Seus movimentos eram tão estabanados que ela temeu que ele pudesse deslocar a toalha de mesa, derrubando toda a porcelana e o cristal.
— Bom dia, Hakudoushis — soou uma voz grave atrás dela. Assustada, girou tão depressa que quase perdeu o equilíbrio.
A figura alta e bem constituída de lorde Craven se encontrava à entrada da porta. Com alguns passos, ele cobriu a distância que os separava e a segurou pelo cotovelo, firmando-a.
— Bom dia, srta. Parrish. Suponho que tenha se recuperado da fadiga da viagem.
— Bom dia, milorde.
O coração dela deu um pulo dentro do peito ao contemplar lorde Sesshoumaru Craven pela primeira vez à luz do dia. Ele é jovem, pensou atônita, não um velhote tirano, mas um homem de seus trinta anos, forte e viril. Era alto e bem constituído. O físico era valorizado pelo corte bem talhado do casaco. Os cabelos escuros e longos lhe emolduravam os traços marcantes da face.
Santo Deus! Era mais que atraente. Era a perfeição em forma de homem! Rin umedeceu os lábios, aturdida pela estonteante beleza masculina e pela sua inexplicável e estra¬nha reação ao lorde. A curva sensual dos lábios generosos de Sesshoumaru se esticou, fazendo-a prender o fôlego e esperando que ele a brindasse com um sorriso.
— Oh, obrigada. Sim, estou totalmente recuperada. — Sentia-se ofegante, com o sangue latejando nas veias.
O sorriso que antecipou não veio, deixando-a estranhamen¬te desapontada. Sesshoumaru a encarou com um olhar atento, como se lhe adivinhasse os pensamentos, então deslizou os olhos, examinando-a de uma maneira indecente.
O pulso de Rin acelerou quando ele voltou a atenção mais uma vez a seu rosto.
— Então a senhorita dormiu bem? Não se assustou com os barulhos da noite?
Os ombros dela enrijeceram àquela referência oblíqua ao terror que ela demonstrara na carruagem no dia anterior.
— Não me assusto com os barulhos da noite, milorde.
— Verdade? Não é propensa a imaginar coisas, srta. Parrish?
Rin não teve resposta para aquela pergunta porque o lorde já presenciara seu comportamento ridículo, dando asas à imaginação. Mordendo ligeiramente o lábio inferior, ergueu o olhar para se deparar com o patrão encarando-a com ar insolente. Respirou fundo. Lorde Craven não a estava olhando do modo como um cavalheiro devia olhar para uma dama.
E isso a agradou. Apreciava o modo como ele a observava, aquecendo-a, tocando-a, fazendo seu corpo formigar de um modo estranho e pecaminoso. A constatação a chocou, deixando-lhe os sentimentos confusos e desorientados.
— ...e eu a acompanhei até a sala de café da manhã e aqui estamos nós — dizia Haku.
Rin ouviu a voz do menino como se soasse bem longe.
— Foi muito útil, querido. — Ela se virou, encorajando-o com um sorriso, grata pela distração.
O garotinho pulou para cima e para baixo no assento, en¬quanto o pai contornava a mesa e se inclinava para deposi¬tar-lhe um beijo na testa. Rin disfarçou sua surpresa pela exibição de afeto paternal. De alguma maneira, imaginara que o lorde seria um pai desinteressado, isso na melhor das hipóteses.
Sesshoumaru Craven ofereceu-lhe uma cadeira em frente à do filho. Sentindo-se desajeitada enquanto se sentava, ela olhou para cima para se deparar com aqueles olhos inconstantes, que brilhavam como duas pedras preciosas, observando-a. A expressão revelava muito pouco.
E o sangue de Rin continuava a bater espesso e forte nas veias. Oh, por que aquele homem fazia sua pulsação acelerar como nunca acontecera antes e seus nervos formigarem da¬quele modo? Era uma completa tola em permitir que seus pen¬samentos vagassem nessa direção. Após um momento, o lorde puxou a própria cadeira e se sentou, contemplando-a com os olhos semicerrados. Seu olhar insistente a deixava confusa, e Rin desejou saber se ele também sentia a inexplicável atra¬ção que pulsava entre ambos.
Naquele instante, ele voltou a atenção para Myouga, que en¬trava na sala com outro prato. Rin refletiu sobre a peculiari¬dade daquela casa, que utilizava um cocheiro como lacaio, e só Deus sabia que outras funções ele desempenharia.
Erguendo-se, cada um se serviu das comidas oferecidas, com Sesshoumaru ajudando o filho a encher o prato.
Uma vez sentados, Haku tagarelou com o pai e enviou a Rin vários relances incertos, como se esperando alguma reprimenda. Ela sorriu para o menino, mas se absteve de par¬ticipar da conversa. Ainda lutando com sua inexplicável rea¬ção física ao lorde, sentia-se incapaz diante do desafio de uma conversa cortês. Além disso, queria aproveitar a oportunidade simplesmente para observar a criança e conhecê-la melhor. Tinha uma forte suspeita de que se dariam bem, se aquela ex¬periência matutina servisse de indicação. Se estivesse sozinha, teria rido alto da lembrança de Haku escoltando-a até a sala.
O menino recheou um bolinho de aveia com geléia de mo¬rango e o enfiou inteiro na boca, em seguida pegou uma das pontas da camisa e a esfregou com vigor nos lábios. Então pa¬rou e se virou, encarando Rin, assustado ao se dar conta de que não conseguia fechar a boca. Consternada ao perceber o medo da pobre criança, ela ergueu o guardanapo do colo e o passou delicadamente nos lábios. Em seguida fixou o olhar no guardanapo dobrado ao lado do prato de Haku, olhando alternadamente para ele e para o guardanapo. As sobrancelhas do menino se ergueram enquanto as mãozinhas pequenas agarra¬vam o guardanapo e o esfregavam na boca, vigorosamente.
Nesse instante, Rin percebeu que lorde Craven a obser¬vava, num estudo aberto que a deixou com a pele formigando. Então ele acenou com a cabeça uma vez, uma ação que ela in¬terpretou como uma aprovação silenciosa ao seu modo de lidar com o menino.
Mais uma vez Rin sentiu aquela estranha sensação de ter as expectativas viradas de cabeça para baixo. Imaginara que todas as preceptoras anteriores tivessem fugido da influência maligna de lorde Craven. Ainda atordoada pela conversa que escutara na cozinha e pela demonstração de preocupação evi¬dente do pai para com o filho, sentia-se mais confusa que nunca. Era provável que o lorde tivesse apenas despedido todas aquelas mulheres do emprego. Mal acabara de formular aquele pensa¬mento, quando as palavras que Haku dissera na cozinha lhe vie¬ram à mente: Despachá-la em uma caixa de pinho, como fez com a sra. Winter...
Antes que tivesse chance de ponderar um pouco mais sobre aquela tétrica possibilidade, Myouga voltou à sala e se inclinou para sussurrar algo no ouvido do patrão. Fosse o que fosse que Myouga lhe dissera, pareceu afetar profundamente o humor do lorde. Ele não deu nenhuma explicação. Apenas colocou o guardanapo de lado e se ergueu.
— Com licença, srta. Parrish.
O olhar penetrante a manteve cativa por alguns instantes, antes de Sesshoumaru começar a caminhar pela sala, parando ape¬nas para arrepiar o cabelo do filho.
A saída de lorde Craven devolveu-lhe o apetite e ela esva¬ziou o prato com precisão refinada enquanto discutia o tópico favorito de Haku: cavalos. Por várias vezes percebeu que o me¬nino imitava-lhe os movimentos ao manusear os talheres.
— Bem, Haku — ela colocou a faca e o garfo junto ao prato e sorriu quando o menino fez o mesmo. — Começaremos suas lições esta manhã. — A expressão da criança assumiu um ar cauteloso. Rin se ergueu e caminhou até a janela. O sol es¬preitava atrás de uma nuvem, lançando sua claridade sobre a expansão de gramado bem cuidada. — Poderia me pôr a par de suas tarefas habituais?
— Tarefas habituais? — repetiu Haku.
— Sim. As coisas que costuma fazer normalmente. Gostaria de praticar nossas letras e números antes do almoço. Mas o dia está tão bonito que talvez pudéssemos estender uma manta e fazer nossas lições ao ar livre. Você tem uma lousa?
— Ao ar livre, senhorita? — Ele sacudiu veementemente a cabeça de um lado para o outro. — A srta. Rust só me deixava sair para um passeio à tarde, depois que as lições terminas¬sem. E a sra. Winter nunca me deixou sair.
— Não? Nem mesmo para brincar?
Haku se precipitou contra o espaldar da cadeira.
— A sra. Winter dizia que brincar era coisa do mal. Às ve¬zes, me deixava sozinho no quarto e me dizia para ajoelhar e recitar minhas orações. Então ia embora e ficava fora durante um bom tempo. — O menino relanceou o olhar para Rin e sua voz se transformou num sussurro. — Se eu soubesse que ela demoraria tanto, teria ido para os estábulos ver os cavalos. Mas uma vez ela me pegou e açoitou minhas pernas até san¬grarem. Então papai a despachou em um caixão fechado com pregos.
Rin estremeceu ao ouvir a história horripilante, embo¬ra uma onda de raiva lhe percorresse o corpo. Se estivesse ali também teria se sentido tentada a despachar a sra. Winter em uma caixa de pinho.
— Oh, Haku — sussurrou, ajoelhando-se em frente à cadeira do menino. Sentia-se emocionada por ele ter lhe confiado aque¬la história. Então, lentamente o alcançou e pôs a mão em sua cabeça. — Eu não uso varas. Minha mãe também era preceptora. Ela sempre foi muito gentil e me ensinou que se você se esforçar e fizer seus deveres, tem todo o direito de brincar. Isso mantém sua vida equilibrada. Brincar não é do mal, querido. É um modo de uma criança se preparar para o futuro.
— Sua mãe era preceptora? E seu pai?
A pergunta inesperada a pegou de surpresa, reabrindo uma velha ferida. Um nobre, pensou ela. Um grosseirão. Um homem que prometeu o mundo a uma jovem e a deixou grávida sem ao menos um adeus.
— Meu pai morreu há muito tempo.
Rin não mentira. O pai havia morrido em um desastre de carruagem.
— Oh. Igual à minha mãe. — O menino olhou para a janela e suspirou. — Agora só tenho o papai. Gostaria que ele passas¬se mais tempo comigo.
Erguendo-se, Rin se virou, e seu coração se alvoroçou quando ela viu lorde Craven cruzando o longo passeio. O sol lançava reflexos nos cabelos escuros, enquanto ele marchava vigorosamente em direção a Myouga, que o aguardava à sombra da torre.
Há morte na torre circular, senhorita. Morte. Fique longe daquela torre. Parecia que o cocheiro não dava ouvidos ao pró¬prio conselho, já que se encontrava a poucos centímetros do local que considerava tão tenebroso.
— Haku — disse Rin, sentindo um calafrio perpassar-lhe a espinha. — Sabe o que existe na torre no final do caminho?
— Sim, senhorita.
Algo no tom de voz da criança a fez virar-se.
— Você pode me contar?
O menino a encarou com os olhos arregalados e uma ex¬pressão cautelosa. Por certo Myouga não era o único a temer a torre circular.
— Não, senhorita — disse Haku quase num sussurro. — E não pode me obrigar a falar.
O coração de Rin acelerou ao perceber o medo estampa¬do nos olhos do garotinho.
— Venha, mostre-me seu quarto — disse ela num tom jovial, dirigindo-se à porta. Então, estendeu a mão, esperando enquan¬to Haku entrelaçava os dedinhos ao redor dos dela. — Vamos procurar as coisas que precisamos e faremos nossas lições ao ar livre.
Momentos depois, os dois se acomodaram sobre a grama, após terem pegado uma manta com uma criada mal-humorada no andar superior, que curvou-se em uma mesura e sumiu, an¬tes que Rin pudesse perguntar seu nome.
As horas passaram voando, e a manhã se foi em um piscar de olhos. Haku era uma criança brilhante e doce, absorvia tudo que ela lhe ensinava e se mostrava ávido por aprender mais. Rin sentiu-se feliz por ele parecer gostar de aprender e mais uma vez desejou saber sobre as experiências do menino com as preceptoras anteriores. Com o poder de recuperação da infân¬cia, ele depressa deixara para trás a reticência inicial e agora desfrutava de sua companhia com óbvio afeto.
Rin também achou que esquecera um pouco de sua apreen¬são inicial naquela manhã.
Uma brisa suave soprou, trazendo o perfume sutil das rosas do jardim. Até mesmo a grama era macia e convidativa.
Com as lições concluídas, ambos se deitaram sobre a manta para contemplar o céu azul.
— Uma ovelha. Aquela é uma ovelha, senhorita. — Haku apontou em direção a uma nuvem fofa. Rin achou que pare¬cia um coelho, mas não contestou o menino.
— Aquela parece uma carruagem com quatro cavalos na frente — disse ela.
— E aquela parece uma raposa — a voz grave de lorde Craven se uniu à brincadeira.
— Não o ouvi se aproximar, milorde — disse ela, pressio¬nando uma das mãos sobre o peito quando seus olhares se en¬contraram. Os olhos de Sesshoumaru eram de um verde profundo, rico e luminoso, contornados por espessos cílios pretos. Os olhos mais atordoantes que ela já vira.
Irritada por tais pensamentos pessoais e impróprios, reco¬brou-se e se ergueu de joelhos desajeitadamente. Lorde Craven disse-lhe para permanecer onde estava.
— Papai! — chamou Haku. Os olhinhos ansiosos esquadri¬nhavam o céu. — Aquela nuvem lá com uma cauda enorme? O senhor acha que parece uma raposa?
— Sim. — Sesshoumaru sorriu para o filho. Não estava usando casaco e a amplitude de seus ombros delineava-se sob o tecido branco da camisa.
De repente, ele virou a cabeça e a pegou encarando-o. O co¬ração de Rin quase parou de bater e ela baixou o olhar com um rubor de embaraço nas faces.
Santo Deus, o que estava havendo de errado com ela para pensar sobre coisas inadequadas, gaguejar e se ruborizar a cada vez que aquele homem se aproximava? Tinha ciência do que acontecia entre um homem e uma mulher, embora nunca tivesse vivenciado tais experiências. Mas não era mais uma co-legial. Contudo, nunca sentira aquela fascinação antes. Havia algo inquietante, algo perigoso em relação a Sesshoumaru Craven.
— Uma raposa, papai? — Haku se moveu na manta, virando a cabeça de modo a procurar a forma na nuvem. — Tem certe¬za? Aquela lá? Para mim parece um sapo grande e gordo.
Rin riu, e quando olhou para cima, Sesshoumaru ainda a con¬templava.
A linha rígida dos lábios másculos se curvou em um sorri¬so, enquanto ele se abaixava para arrepiar o cabelo do filho. Rin desejou poder vê-lo sorrindo de verdade, ouvi-lo rir sem restrição.
— Você é que é um sapinho, Hakudoushis.
— Fique conosco, papai — suplicou o menino com os olhos brilhando.
Rin assistiu à demonstração de afeto entre pai e filho e sentiu uma vez mais que suas percepções iam de encontro àquela cena. Haku era uma criança que amava o pai e se sentia seguro com ele.
Então, como explicar a sra. Winter e seus terríveis castigos? Teria lorde Craven fechado os olhos para tal tratamento em consideração às outras qualidades da mulher? Não podia ima¬giná-lo perdoando alguém que chicoteava seu filho.
— Não hoje, Haku. Tenho um negócio importante a resolver. Mas amanhã o levarei ao hipódromo.
Dizendo isso, voltou o olhar para Rin e ela teve a súbita impressão de que ele não tropeçara neles por acaso. Estava observando-a trabalhar.
— Por favor — disse lorde Craven, gesticulando para a manta — Não tive a intenção de interromper uma lição tão confortável.
As palavras do patrão poderiam ter sido interpretadas como uma censura, mas algo naqueles olhos verdes a fez pensar que o lorde aprovava seus métodos.
— Srta. Parrish. — Sesshoumaru inclinou a cabeça em uma mesura.
— Lorde Craven — respondeu ela, ainda ajoelhada na gra¬ma na frente dele.
Ele se virou e partiu. Os músculos do corpo viril moviam-se com perfeição. Com o coração disparado dentro do peito, Rin enfrentou a verdade perturbadora e desconcertante.
Ficou aliviada ao vê-lo partir. Mas uma parte de si desejava que ele tivesse ficado.
Estes sao os primeiros Capitulos de uma adaptação que estou trazendo para voces.
Espero que voces gostem é uma boa historia. Cheia de misterio e romance.
Qualquer duvida é só falar provavelmente estarei respondendoas atraves dos comentarios.
Estarei colocando o novo capitulo no sabado...
Ate Lá. Kissus
