Capítulo III

Katherine Austen nunca esteve tão impressionada em toda a sua vida. Caminhava pelo salão de baile da Mansão dos Rosseau olhando em todas as direções apreciando cada detalhe. Seu deslumbramento não passou desapercebido aos olhos de sua irmã.

- Acho melhor fechar a boca minha irmã, ou pode entrar algum mosquito.

Kate voltou os olhos esverdeados para Ana-Lucia e riu levemente de seu comentário.

- Oh Analulu, por que és sempre tão rabugenta? Não vais me dizer que também não está impressionada com tudo o que estamos vendo, é maravilhoso! A mansão, as pessoas, os vestidos das damas, o colorido da decoração, nunca tivemos oportunidade de estar num lugar como esse. E agora que vamos deixar o convento vamos poder ir a todos os eventos sociais que quisermos.

Ana-Lucia passou o braço pelo braço de Kate, prendendo-o junto de si.

- Irmã, tu vais sair do convento, eu ainda hei de permanecer lá até que tenha de assumir meu compromisso com o Conde Linus.

Kate franziu o cenho.

- E por que não foges? Poderias conhecer um cavalheiro especial esta noite no baile e fugir com ele para escapar do casamento com o Conde Linus.

- Suponhamos que eu fizesse tal coisa absurda. E depois? Como ficariam as dívidas de nossa família?

- Serão sanadas quando os escoceses derrotarem os ingleses.- Kate cochichou.

Libby acercou-se delas, puxando Nikki pelo braço.

- Donzelas, devo dizer a vocês que ao invés de estarem cochichando pelo salão deveriam manter seus olhos atentos aos nobres cavalheiros que ornamentam esse baile.

- Não posso fazer isso Libby.- afirmou Ana-Lucia. – Sou uma mulher comprometida.

- Até segunda ordem.- completou Libby. – O Conde Linus ainda não colocou um anel no seu dedo, portanto o compromisso está só na palavra e meras palavras não são válidas aos olhos da sociedade. Já imaginou se de repente tu vens a conhecer um partido ainda mais rico do que o Conde Linus? Seria preferível do que casar-se com ele, já que ele também deteria o poder de saldar as dívidas do Castelo de Isenwood.

- Eu não gosto de pensar no amor como um negócio.- disse Kate.

- E o que mais seria então? Talvez os aristocratas não amem, só os camponeses podem se permitir esse luxo.- falou Ana-Lucia, voltando-se para Nikki. – E tu minha cara, já encontrou o homem a quem entregarás teu coração?

Nikki ficou ruborizada.

- Talvez, senhorita.

- Por que talvez?- indagou Kate.

- Porque ainda não tenho certeza dos sentimentos dele.

Nesse momento, Libby começou a se abanar exasperada com seu leque.

- O que houve, Libby?- perguntou Ana-Lucia.

- Vocês viram com quem Sir Charlie está conversando?

Kate parou para observar as companhias do primo, um pouco adiante delas no salão. Ele conversava com três homens, os três quase da mesma estatura, sendo que um era muito moreno, tinha bigode e cabelos encaracolados, o outro possuía cabelos castanhos claros, compridos e ombros largos, não parava de sorrir. O terceiro foi o que mais chamou sua atenção. Tinha os cabelos lisos e castanho-escuros, os olhos de um tom de castanho que puxava para o verde, a barba charmosa enriquecia a assimetria de seu rosto e sua expressão tinha um quê de bondade e delicadeza que mexeram com Kate.

- Então tu vês o que eu vejo, não é pequena endiabrada?

- Como?- indagou Kate a Libby.

- Então não estás olhando para o Capitão Jack Shephard, conversando com teu primo?

- Tu o conheces?- perguntou Ana-Lucia.

- Sim, fomos escoltados na estrada a caminho de Paris pelo regimento dele. Homem excepcional, devo dizer.

Kate riu: - Ora, como sabes, querida Libby?

- Eu senti isso nele quando trocamos um olhar. O Capitão tem algo de puro misturado com lascivo.- ela se abanou.

- Libby és uma mundana.- riu Kate.

Ana-Lucia se conteve para não rir também, apesar de suas excentricidades, Libby a divertia muito.

- E qual é o problema com isso, querida Kate? Por que fazer sempre o que esperam de nós? Embora não seja do conhecimento da maioria dos homens, as mulheres possuem desejos fortes e muito conhecimento da arte do amor.

- Então já tivestes um amante?- Kate questionou curiosa, em tom baixo.

Ana-Lucia corou até a raiz dos cabelos.

- Por Deus Katherine, isso não é assunto para se discutir em público, principalmente por donzelas.

- Mas eu tenho muita curiosidade em saber, irmã. As freiras sempre nos dizem que temos de proteger nossas virtudes até o casamento, mas não sei realmente o que isso quer dizer, nem imagino como seja um homem nu.

- Oh Deus, cale-se!- ralhou Ana-Lucia se abanando com o leque. – Pare de falar em pecado, criatura.

- Me desculpe, doce e inocente Ana.- protestou Libby. – Mas como tua irmã não irá pensar em pecado tendo tantos representantes da beleza masculina à nossa volta, aliás, já reparou que o Capitão Shephard não tira os olhos de ti Kate.

- Sério?- ela indagou enrubescendo. – Ai meu Deus, e o que eu faço?

- Ignore-o!- bradou Ana-Lucia.

- Não escute a tua irmã querida, ou irá ficar para tia. Devolva o olhar a ele, de forma sutil e doce, tenho certeza de que consegue fazer isso.

Kate tomou o leque nas mãos e lentamente lançou um olhar ao belo Capitão Shephard. Não sabia ao certo o que estava fazendo e seu coração acelerou a batida. Alguns segundos depois, quase desfalecia nos braços de sua irmã ao ver que ele lhe devolvia o olhar.

- Que foi?- perguntou Ana-Lucia.

Kate deu um risinho por trás do leque de madre-pérola.

- Então não vistes Analulu? O Capitão retribuiu o meu olhar.

- Santa Madre de Dios, não faça mais isso!- Ana-Lucia exclamou estupefata. – Pare de lançar olhares para o Capitão, uma donzela não pode fazer isso!

Um pouco mais adiante no salão Jack não conseguia parar de olhar para a belíssima de cabelos avermelhados, vestida de branco. Um anjo, pensava consigo, inebriado. Desde a morte de sua doce Sarah, levada cruelmente pela tuberculose, motivo pelo qual se tornara médico além de militar, nenhuma outra mulher jamais tinha chamado sua atenção dessa maneira.

Agradeceu ao bom Deus quando o homem que acompanhava tão formosa donzela aproximou-se dele e de seus amigos do regimento e que coincidentemente era o homem a quem ele abordara na estrada a caminho de Paris. Estava criando coragem para pedir ao nobre rapaz que o apresentasse às damas, quando Desmond, seu primo insolente finalmente tomou uma atitude que não o desagradou nem um pouco.

- Sir Charlie, vejo que veio acompanhado de formosas damas.

- Oh sim, Sir Desmond, duas são minhas primas, a outra uma jovem a quem minha tia Lady Diana Austen acolheu quando ficou órfã e a que traja o vestido mais simples é uma camponesa que trabalha no Castelo de Isenwood a quem minha tia mandou para servir minhas primas.

- Por certo.- disse Desmond. – Poderia nos apresentá-las? Gostaríamos de tirá-las para uma dança se não houver objeções de sua parte.

- Oh não, claro que não. È a primeira vez que minhas primas debutam em sociedade. A Srta. Thompson já está acostumada. Venham comigo cavalheiros.

- Kate, o que fizestes?- perguntou Ana-Lucia nervosa ao notar que o Capitão Shephard e outros homens se aproximavam delas.

- Eu não fiz nada.- ela se justificou dando de ombros.

- Pare de tolices Ana-Lucia, Sir Charlie com certeza se interessou em nos apresentar aos nobres cavalheiros já que somos moças solteiras e disponíveis.

- Senhoritas?- disse Charlie quando se aproximou delas. As quatro fizeram educadas reverências. – Deixe-me apresentá-las aos cavalheiros. Estes são Sir Desmond Hume, o Visconde Sayid Jarrah e o Capitão de um dos principais regimentos inglês, Jack Shephard.

- Encantado.- disse Jack tomando a mão de Kate com delicadeza. Quando sentiu os lábios dele em suas mãos, Kate mal pôde respirar.

- Estas são minhas primas Katherine e Ana-Lucia Austen, a Srta. Elizabeth Thompson e a Srta. Nicole Murray.

Os homens as cumprimentaram com gentileza e lhes fizeram convites para valsar. Ana-Lucia recusou todos e foi acostar-se num dos canapés estofados do extenso salão, seguida por Nikki que não queria dançar, pois só conhecia as quadrilhas escocesas que costumava dançar nas festas das colheitas. Libby aceitou de pronto o convite do Visconde Jarrah e Kate nem conseguiu responder, mas logo se viu conduzida até o meio do salão.

A valsa começou e Kate arfou ao sentir a mão do Capitão Shephard delicadamente em sua cintura. Havia tido uma educação muito rígida. Por causa da guerra e do exílio de seu pai fora mandada ao convento aos 11 anos e nada sabia sobre as relações entre homens e mulheres, apenas o que a etiqueta permitia. As freiras passavam a maior parte do tempo dizendo a ela e suas irmã que deveriam se guardar das investidas masculinas. Ela nem sabia em que sentido a palavra investida se encaixava.

Enquanto dançavam, Jack não conseguia tirar os olhos dos brilhantes olhos verdes de seu par. Pela primeira vez em anos sentia um lampejo de felicidade invadir-lhe o coração. Aquela doce e jovem donzela despertava nele todo o tipo de desejos que ele julgava estarem adormecidos para sempre depois da morte de Sarah. Fazia muito tempo que não tinha uma mulher em seus braços, pois se recusava a dançar com qualquer uma nos bailes. Também não freqüentava casas de meretrício como seu primo Desmond, simplesmente não conseguia ir para cama com uma mulher por quem não sentia desejo.

Kate não sabia se era impressão sua, mas o Capitão Shephard parecia completamente hipnotizado por ela e ela não sabia o que fazer em relação a isso. Queria que a orquestra tocasse mais baixo para que pudessem conversar. Quando ele a rodopiou executando um dos passos coreografados da valsa, Kate bateu de encontro no peito dele e arfou. Seus seios subiram e desceram no decote do vestido imaculadamente branco e sem querer os olhos de Jack foram atraídos para as curvas sinuosas como um ímã.

Viu os seios arredondados e aninhados deliciosamente dentro do vestido e não conseguiu tirar os olhos. Sentindo-se derreter inexplicavelmente diante do olhar dele, Kate fez a única coisa que não deveria, mas que seu corpo ordenou inconscientemente, apertou seu corpo junto ao dele. Mesmo com a quantidade de panos que os separava, Jack pôde sentir o calor dela em seu corpo, o que lhe causou uma reação embaraçosa. Sentindo que algo diferente pressionava seu corpo, Kate ergueu os olhos para ele um pouco assustada e curiosa. Jack afastou-a e girou-a delicadamente pela mão finalizando a dança. Agradeceu com um cumprimento e se afastou dela amaldiçoando a si mesmo por sua falta de compostura. E agora, o que a donzela estaria pensando dele?

Depois de fazer uma reverência para Jack, Kate foi sentar-se ao lado da irmã no canapé. Tinha o rosto rubro e a respiração acelerada.

- O que aconteceu minha irmã? Não te sentes bem? Queres tomar um ar?

- Não, está tudo bem.- respondeu Kate abanando-se, milhões de coisas passando por sua cabeça.

O baile chegou ao seu ápice. Todos os presentes pararam para a entrada triunfal do rei inglês Jacob Littleton, a rainha Mary Anne e a princesa Claire. Jack estava ao lado da irmã, Juliet, ainda atordoado pelo que acontecera durante sua breve dança com a Srta. Kate Austen. Juliet percebendo que ele estava diferente, indagou:

- Que tens meu irmão? Algo que te aborrece?

- Não irmã, está tudo bem.

O arauto anunciava que o rei Jacob faria um discurso quando de repente todos os candelabros se apagaram. Um sonoro "Ohhhhhh" foi ouvido dentro do salão. Libby segurou a mão de Ana-Lucia e Nikki, mas Kate havia desaparecido.

- Kate!- ela chamou, mas não obteve resposta em meio ao caos que se instaurou no salão de baile.

No momento em que as luzes se apagaram, Kate separou-se sem querer de Ana-Lucia e Nikki por causa de duas damas idosas assustadas que a empurraram e se viu sozinha no meio do salão escuro. Tiros de pistola foram ouvidos e um cheiro inconfundível de pólvora se instaurou no local. Amedrontada, Kate levou as mãos ao peito. Sentiu de repente que um par de mãos fortes a enlaçava pela cintura.

- Venha comigo senhorita.- disse uma voz masculina doce e firme ao mesmo tempo.

Sentiu-se conduzida à parte onde se faziam as refeições no salão e foi arrastada para debaixo de uma mesa. Nervosa, indagou ao homem que a arrastara.

- O que está acontecendo? Quem és tu?

- Srta. Austen, sou eu o Capitão Jack Shephard.

- O que está acontecendo, Capitão?

- Estamos sendo atacados pelos rebeldes, por isso é melhor que permaneça aqui para sua segurança.

Ele fez menção de sair do lado dela. Ainda se ouviam muitos tiros pelo salão.

- Oh não Capitão, não me deixe sozinha, por favor, me perdi de minha irmã.

Jack ponderou um pouco, precisava se juntar ao regimento para proteger o rei afinal ele era o capitão. Mas não queria deixar aquele doce anjo à mercê dos rebeldes e lembrando-se que Juliet estava em segurança com Desmond, permaneceu ao lado de Kate.

- Capitão, será que isso tudo ainda vai demorar muito?

- Eu espero que não, meu anjo.

Apesar da escuridão, Jack podia vislumbrar o lampejo do verde dos olhos dela e sem perceber acariciou sua face macia com os polegares. Kate começou a respirar mais rapidamente e Jack sussurrou sem poder conter os anseios de seu coração.

- Meu doce anjo, estou fascinado por ti desde a primeira vez em que a vi. O que és? Uma fada?

Kate sorriu enrubescida: - Não sei o que dizer Capitão...

Ele tomou a mão pequena e delicada entre as suas e indagou:

- Sei que é muita pretensão e ousadia de minha parte, mas estou tomado por uma loucura infinita que me arrasa os sentidos, por isso ouso te pedir que me deixe provar seus lábios.

- Oh Deus! Sim!- exclamou Kate, sem raciocinar.

Aquilo era loucura, pólvora, folguedos e imprecações explodiam lá fora e ela sentia um desejo avassalador de ter seus lábios tocados por os de um homem. Fechou os olhos instintivamente quando sentiu a respiração quente do Capitão Shephard em seu rosto e emitiu um som lânguido quando a boca morna e macia tomou a sua bem devagar.

- Hummm...- ela gemeu suavemente entreabrindo a boca num gesto inconsciente, permitindo que a língua dele invadisse e tocasse o céu da boca, entrelaçando com a língua dela.- Tão delicioso!- ela murmurou fazendo o sangue do pobre Capitão ferver.

Foi aí que as luzes se acenderam e o burburinho das pessoas foi diminuindo. Uma voz gritou ao longe: - Morte aos ingleses, liberdade à Escócia! Mais um tiro foi ouvido, até que tudo cessou.

Jack fitou Kate, e viu o fogo do desejo em seu olhar. Percebendo que tinha ido longe demais seduzindo uma mocinha virgem, tratou de consertar seu erro e ergueu a toalha de mesa saindo de lá debaixo com ela.

Ana-Lucia avistou Kate no salão de jantar e saiu correndo até a irmã como uma desesperada.

- Kate, querida, onde andou? Eu estava tão preocupada, tu vistes que loucura foi essa?

- Eu estou bem, Lulu.- respondeu Kate abraçando a irmã.

Foi quando ela se apercebeu da presença do Capitão.

- Oh Capitão, foi o senhor quem salvou a minha querida irmã de levar uma bala na cabeça? Tens a minha eterna gratidão.

- Que é isso senhorita, apenas estou cumprindo meu dever como oficial. Agora preciso ir, há rebeldes que tenho de prender. Com licença e boa noite.

Quando ele deixou as duas a sós, Ana-Lucia disse a Kate.

- Oh pobrezinha, ficou tão abalada não foi? E ainda diz que quer entrar pra causa rebelde, por Deus, não agüentaria nem um dia, está até com palpitações. Venha, vamos para o hotel, lhe farei uma tisana e irá sentir-se melhor irmãzinha.

Mas Kate não estava sentindo palpitações por causa do ataque dos rebeldes, mas sim pelo beijo ardente que tinha trocado com o Capitão Jack Shephard. Aquele beijo a havia enchido de desejo e curiosidade, havia muita coisa agora que queria perguntar à Libby e ela teria que lhe responder. Mal podia esperar para chegarem até o hotel.

Continua...