A história se chama A Noiva Raptada e pertence a Barbara Cartland bem como os personagens utilizados pertencem a Naoko Takeuchi

De repente, um pano grosso foi atirado sobre a cabeça de Usagi. Mal podendo respirar, percebeu que estava sendo raptada. Só podia ser por ordem do Rei dos Demônios, o fantástico homem que viera do Extremo Oriente... Sentiu que braços fortes a carregavam por uma escada tosca e íngreme. Gritos de marinheiros, velas sendo enfunadas, barulho e cheiro de mar...Passos se aproximaram e o pano que cobria seu rosto foi retirado. Usagi abriu os olhos e viu à sua frente um homem muito diferente do que esperava!

CAPÍTULO III

Usagi percebeu que Umino Gurio a estava cortejando, mas estava tão preocupada com Minako que achava difícil dar-lhe atenção, ou mesmo ouvir o que estava dizendo.

De onde estava sentada, podia ver o relógio sobre a lareira, e quando os ponteiros marcaram onze horas, disse:

— Espero que não pense que estou sendo indelicada, sr. Gurio, mas estou cansada, e o médico que me fez vir para Londres, ao invés de ir para Cheltenham com meu pai, insistiu em que eu devia me distrair um pouco e descansar o máximo possível.

— Entendo — respondeu ele. — Já soube da sua devoção a seu pai após o acidente dele.

Usagi viu que, enquanto eles conversavam, Minako e lorde Furuhata tinham ido para o balcão que dava vista para o pequeno jardim na parte de trás da casa.

Achou que não devia perturbá-los, e disse ao sr. Gurio: — Diga a Minako que eu já me retirei. Sei que ela entenderá.

— Tenho certeza disso. Mas eu vou sentir a sua falta.

Ele atravessou a sala de visitas para abrir a porta, e Usagi se despediu, dizendo:

— Obrigada por me oferecer a sua ajuda. Estou de fato muitíssimo preocupada.

— Sei que está. Daria tudo o que tenho para fazê-la parecer tão feliz quanto sua irmã.

Mais uma vez suas palavras conseguiram encabulá-la, mas ela simplemente sorriu e dirigiu-se rapidamente para seu quarto, sem olhar para trás.

Quando lá chegou, constatou que estava quase tão cansada quanto na noite anterior.

Sentia-se envergonhada por sentir-se tão fraca, mas sabia que o médico tinha razão, e estava certa de que em poucos dias voltaria ao seu normal e estaria pronta para tudo.

Mas se isso incluísse impedir que Minako fugisse com lorde Furuhata, seria sem dúvida uma tarefa extenuante.

A criada ajudou-a a despir-se, e assim que caiu na cama, em vez de ficar acordada preocupando-se com a irmã, como esperava, adormeceu imediatamente.

Dormiu sem sonhos por muito tempo, até que foi acordada pelo barulho de uma porta que se fechava.

Pensou que poderia ser Minako, e embora fosse tarde, decidiu que seria bom falar com ela imediatamente.

Desconfiava que lorde Furuhata tivesse lhe trazido novidades aquela noite. Talvez, quando tivesse voltado para casa, o tio o estivesse esperando, e a conversa que ele tanto temia tivesse acontecido.

"Creio que Minako vai querer me falar sobre isso", pensou.

Acendeu a vela ao lado da cama e colocou um xale que tinha trazido consigo.

Quando viu as lindas camisolas e negligés de Minako, pensou que devia comprar roupas de noite novas o mais breve possível.

Suas roupas para o dia eram simples, mas de bom gosto.

Durante a doença do pai ela não pudera vir a Londres, e por isso contratara uma costureira na cidade mais próxima, que fazia suas roupas do jeito que ela queria.

No entanto, seu guarda-roupa para noite consistia em apenas dois vestidos suficientemente elegantes para serem usados nas festas de Minako. Na primeira oportunidade pediria à irmã que a levasse a uma boa modista.

Não queria que Minako tivesse vergonha dela por causa de suas roupas, embora não pudesse gastar tanto dinheiro como ela em vestuário.

Deu uma olhada rápida no espelho, ajeitou o cabelo e abriu a porta.

O corredor estava às escuras, exceto pelas duas velas em candelabros de prata que eram sempre deixadas acesas à noite e que pela manhã já tinham se derretido.

Quase em frente ao quarto rosa, onde ela estava dormindo, ficava o quarto de sua mãe, e quando ela passou pela porta, parou ao ouvir vozes,

Não havia dúvida de que, dentro do quarto, lady Esmeralda estava conversando com alguém, com sua voz macia e um tanto artificial, e quando uma voz profunda respondeu, Usagi descobriu quem estava lá.

Ela já esperava por isso, mas mesmo assim ficou escandalizada.

"Minako tem que partir amanhã", disse consigo mesma. "Não quero que ela fique na mesma casa com uma mulher que se comporta de forma tão escandalosa."

Seria mais fácil se lady Esmeralda saísse, pois, afinal, a casa pertencia ao pai de Minako.

Por outro lado, era constrangedor saber que lady Esmeralda, ou mesmo o duque, estava pagando ao menos parte das despesas decorrentes da vida extravagante que levavam.

Nesse caso, talvez fosse melhor convencer Minako a voltar para a casa da prima Diana, e depois solicitar a lady Esmeralda que se retirasse.

Tudo isso parecia muito complicado, mas Usagi estava disposta a dizer a Minako tudo o que sentia a respeito da situação, e não permitiria que ela encontrasse desculpas para comportamento da amiga.

O quarto do pai, que ficava numa das extremidades do andar, tinha uma porta aberta para o corredor, que levava a um hall bem pequeno.

De um lado havia um armário suspenso na parede, e do outro um console dourado e estreito, também fixado na parede.

Usagi abriu a porta externa e entrou no hall. Quando ia levando a mão à maçaneta para abrir a porta do quarto, ouviu a voz de lorde Furuhata, que dizia:

— Minha querida, eu adoro você, e ninguém vai tirá-la de mim.

A princípio, pensou que estivesse sonhando. Depois deixou cair a mão, compreendendo, horrorizada, que Minako estava agindo da mesma maneira escandalosa que lady Esmeralda.

Por um momento, ficou imóvel, sem respirar. Então, com medo de ser ouvida, virou-se e deslizou pelo caminho de volta, fechando a porta sem fazer barulho.

Só conseguiu respirar direito depois que chegou ao seu quarto, ficando muito tempo parada de costas para a porta, pensando se não estava tendo um pesadelo.

Como podia Minako, sua irmã, a quem ela amara e protegera desde a morte da mãe, receber um homem em seu quarto, mesmo que estivesse apaixonada por ele?

"Não há desculpas para tal comportamento", murmurou para si mesma.

Fora muito ingênua em não ter percebido desde o começo que Minako e lady Esmeralda tinham ocupado a casa da família justamente para estar com os homens a quem amavam.

Por que ambas estavam agindo de modo a chocar e horrorizar todas as pessoas respeitáveis que ficassem sabendo disso.

"Como Minako pôde fazer algo tão... errado?", perguntou-se ela.

Queria se esconder, queria fugir, e caiu na cama, aos prantos.

Viu a vida de Minako passar diante de seus olhos, como se fosse uma série de retratos.

Minako quando pequena, correndo no parque para colher narcisos.

Minako montada a cavalo na mesma sela que o pai.

Minako sentada no colo do pai, esticando os bracinhos para dar-lhe um beijo de boa-noite.

Minako chorando amargamente quando a mãe morrera, e dizendo, desesperada:

— O que vamos fazer sem ela, Usagi? Eu sei que você cuidará de mim, mas quero mamãe!

O pior, pensava Usagi, é que ela não fora capaz de cuidar da irmã.

Minako escolhera seu próprio caminho, decidindo ir para Londres, e agora estava se comportando de uma forma que partiria o coração da mãe se ela estivesse viva.

"Oh, Minako, Minako!" Usagi chorava alto, e as lágrimas lhe corriam pelo rosto. "Como pôde fazer algo tão infame?"

Nunca lhe passara pela cabeça que a irmã se comportaria de modo diferente da jovem inocente que pensara que ela fosse.

Tinha uma vaga idéia a respeito das tentações de Londres e de como os homens perseguiam e seduziam as jovens bonitas.

Embora tivesse mais de vinte anos, não sabia exatamente como isso acontecia, e nunca pensou que poderia suceder a damas como ela e a irmã.

Sabia que os cavalheiros deviam ficar apaixonados por uma moça bonita como Minako, e que talvez até tentassem beijá-la, mas não imaginava que a afeição deles pudesse ser algo mais perigoso.

Agora sentia que de repente caíra numa espécie de inferno que nem mesmo sabia que existisse. Estava cercada pelo mal, e sentia-se aterrorizada.

"Tenho que falar seriamente com Minako", decidiu.

De repente, sentiu-se fraca diante das circunstâncias, e desejou voltar para casa em busca de apoio, mas esse pensamento a envergonhou.

— Se ao menos eu tivesse alguém com quem falar! — disse alto.

Mas não havia ninguém a quem recorrer — muito menos ao pai, que ficaria furioso, o que sem dúvida o faria adoecer novamente.

"Tenho que cuidar disso sozinha", disse para si mesma. Porém, o que mais temia era que Minako se recusasse a escutá-la.

Dormiu muito pouco. As horas pareceram se arrastar até o amanhecer.

Quando ouviu os primeiros ruídos de rodas na rua, decidiu primeiro ir à igreja, antes de enfrentar Minako e acusá-la de estar se comportando tão mal.

Antes desse domingo, ela tinha pensado em sugerir à irmã que fossem à igreja, como sempre tinham feito em casa.

Lembrou-se de que a Capela de Grosvenor, aonde tinham ido com a mãe na última vez em que haviam estado em Londres, ficava bem perto.

Estava certa de que devia haver um culto logo cedo, ao qual poderia ir em busca de apoio para o que tinha de fazer mais tarde.

Levantou-se e vestiu o seu melhor vestido de domingo, colocando na cabeça um chapéu pequeno, muito simples, em vez do chapéu maior e mais moderno que comprara especialmente para vir a Londres.

Sabia que o procedimento certo seria pedir a uma das criadas que a acompanhasse à igreja.

Depois achou que elas talvez não estivessem acordadas, ou ficassem ressentidas por serem obrigadas a deixar suas tarefas de lado para acompanhá-la.

"É melhor eu ir sozinha", pensou. "A Capela de Grosvenor fica a poucas quadras daqui, e devo estar de volta antes do café da manhã".

Apanhou a bolsa e o livro de orações que pertencera a sua mãe. Pegou também as luvas e abriu a porta para o corredor.

Embora não tivesse experiência dessas coisas, imaginava que àquela hora, o duque e lorde Furuhata já deviam ter ido embora.

Desceu correndo as escadas, e quando chegou lá embaixo, viu que a porta da frente estava aberta.

Isso significava que os empregados já deviam estar em atividade, e ela esperou encontrar uma criada limpando os degraus da frente.

No entanto, não havia ninguém lá, nem mesmo um lacaio de plantão.

Quando ia abrir a porta e sair para o pálido sol da manhã, deparou-se atônita com uma grande mala.

Era uma das malas de sua irmã, que ela reconheceu imediatamente, pois a ajudara a arrumá-la quando Minako deixara o campo e viera para Londres.

Estava presa com correias. Ao olhar para ela, veio-lhe um pensamento horrível à cabeça.

De repente, ouviu uma voz masculina atrás dela perguntando:

— É a srta. Tsukino?

Usagi virou a cabeça e viu um homem, obviamente um criado, e respondeu:

— Sim, eu sou a srta. Tsukino.

Assim que ela respondeu, o homem atirou um pano preto e grosso sobre ela, cobrindo-a, e pegou-a nos braços.

Depois carregou-a para fora e colocou-a não muito delicadamente no que ela percebeu ser o assento traseiro de uma carruagem. A porta foi fechada. Ela ouviu o barulho de algo pesado sendo jogado sobre o teto, e os cavalos partiram.

Estava tão abismada com o que estava acontecendo, que não conseguia nem respirar.

Depois sentiu que o homem atava algo em torno de seus quadris. Não era uma corda, mas um material que não a machucava, porém impedia-lhe que se movimentasse.

Tentou se livrar do pano que a cobria da cabeça aos joelhos, mas, antes que pudesse mover os braços, algo foi amarrado em torno de sua cintura.

Sentiu que estava totalmente imobilizada. O homem não disse nada, mas Usagi podia perceber que estava sentado em frente a ela no estreito assento da carruagem. Ela também, paralisada de medo, não conseguia dizer nada.

O pano pesado tinha empurrado o chapéu para a sua testa, e a palha comprimida espetava a sua pele.

"O que significa isso? Quem está me raptando?", perguntava-se.

Subitamente, compreendeu o que estava acontecendo. Era inacreditável, como se fosse uma história tirada de um livro, mas era verdade.

O homem que a raptara pensara que ela fosse Minako!

Quando ela concordara que era a srta. Tsukino e ele vira a mala ao lado dela, não tivera dúvidas de que fosse a pessoa a quem procurava.

Não havia necessidade de perguntar quem quereria raptar Minako e quem era a única pessoa que poderia saber ou imaginar o que ela estava fazendo.

A mente de Usagi corria velozmente, na medida em que ela desenrolava toda a fantástica cadeia de eventos, descobrindo a chave do enigma.

Minako e lorde Furuhata tinham combinado de fugir juntos aquela manhã, como sua irmã ameaçara fazer.

Talvez tivessem sido impelidos por algo que Mamoru Chiba dissera ao sobrinho antes de ele vir para o jantar.

Era óbvio que eles iriam fugir logo cedo, antes que alguém acordasse.

O lacaio da noite provavelmente trouxera a mala de Minako para a porta da frente e fora buscar outra. Por esse motivo não estava lá quando Usagi chegara.

Mamoru Chiba — agora ela sabia que ele era realmente o Rei dos Demônios — tinha suposto ou tinha recebido a informação do que iria acontecer, e conseqüentemente decidira raptar Minako, antes que ela pudesse se encontrar com seu sobrinho.

Infelizmente, porque Usagi pretendera ir à igreja, eles tinham pegado a irmã errada.

Parecia impossível, mas, pensando bem, Usagi concluiu que fora certamente isso que ocorrera.

"Não sei para onde estão me levando", pensou Usagi. "Mas tenho certeza de que o sr. Chiba vai ter um choque quando eu lhe disser quem sou." E como, desde o que Minako lhe contara, passara a não gostar dele, sentia uma grande satisfação em poder vê-lo desconcertado.

"Ele não tem o direito de fazer algo tão horrível como raptar minha irmã", pensou. "Deveria ter sido bastante cavalheiro para discutir a situação com ela e tentar persuadi-la a sacrificar-se pelo homem que ama".

Os cavalos corriam muito, o que indicava que eram bem alimentados e bem treinados. Usagi de repente se deu conta de que Mamoru Chiba, com sua atitude ultrajante, facilitara a fuga de Minako e lorde Furuhata.

Eles deviam ter descoberto que uma das malas sumira, mas isso não os deteria. Aliás, Minako tinha tanta roupa que poderia encher uma dúzia de malas.

Usagi ficou pensando numa maneira de, assim que encontrasse Mamoru Chiba, persuadi-lo a voltarem imediatamente, a tempo de impedir que lorde Furuhata levasse Minako para fora do país.

Tinha certeza de que era isso que lorde Furuhata faria, e que eles iriam para Paris, pois a França era o país de mais fácil acesso para quem saísse da Inglaterra.

Ou talvez escolhessem a Itália, pois Minako sempre quisera conhecer Roma.

Usagi começou a sentir-se extremamente desconfortável, com os braços presos e incapaz de movimentar as pernas.

O pano que a cobria era tão grosso que, se ela atentasse falar, seria difícil ouvi-la, e se gritasse, ficaria numa situação ainda mais ridícula do que aquela em que já se encontrava.

O fato de sentir-se tão indefesa fazia crescer sua raiva.

Enquanto Mamoru Chiba a fazia transportar para um destino ignorado, Minako e lorde Furuhata estavam fugindo juntos, sem ninguém para impedi-los ou convencê-los a agirem sensatamente.

"Isso é ridículo! Absolutamente ridículo!", disse para si mesma.

Estava com tanta raiva que nem sentia mais medo.

Mamoru Chiba provavelmente não a machucaria. Na verdade, a única coisa que poderia fazer seria desculpar-se pela maneira indigna como a estava tratando.

Depois ele iria atrás do sobrinho e de Minako, embora Usagi duvidasse de que ele conseguiria encontrá-los.

"Talvez seus espiões lhe tenham dito para onde eles foram", pensou.

Ela nunca gostara de pessoas que usavam os criados e até os amigos para obter informações que de outra forma não teriam.

No entanto, supunha que aqueles que tinham vivido no Oriente considerassem usual esse comportamento, e talvez devesse agradecer a Mamoru Chiba por não tê-la envenenado, como Umino Gurio sugerira.

"Minako nunca deveria ter-se metido nisso", pensou.

Mais uma vez culpava-se por não ter descoberto antes que Minako abandonara lady Luna para se envolver com alguém como lady Esmeralda.

Ainda estava muito escandalizada com o que descobrira na noite anterior. Tentava encontrar uma forma de desculpar Minako, mas achava tudo aquilo tão horrível que preferiu não pensar mais nisso.

A viagem continuava. Usagi começou a se perguntar para onde a estavam levando.

Desejaria saber mais coisas a respeito de Mamoru Chiba. Onde ele morava quando estava na Inglaterra? Qual seria a sua idade?

Imaginava que, sendo ele tio de lorde Furuhata, e tão rico e importante, deveria ter mais de cinqüenta anos.

Fosse qual fosse sua idade, não havia dúvida de que era um ditador e um tirano.

"Provavelmente ele disse ao sobrinho que devia desistir de Minako, sem dar-lhe a chance de explicar o que sentia por ela, e foi isso o que os levou a agir tão precipitadamente", pensou Usagi. "É tudo culpa dele, e vou lhe dizer isso".

Já haviam viajado cerca de duas horas quando ela percebeu, com alívio, que os cavalos começavam a diminuir a marcha.

Como estava muito quente e sem ar debaixo do pano que a cobria, sentia que suas faces deveriam estar coradas, e, com o chapéu todo amassado sobre a testa e o cabelo em desalinho, sua aparência deveria estar ridícula.

Mas a essa altura não estava se preocupando com isso.

"Vou lhe dizer exatamente o que penso dele e de seu comportamento abusivo", pensou ela, furiosa. "Papai também consideraria isso um ato infame por parte de um cavalheiro".

Então, a porta da carruagem foi aberta, e o homem que estava sentado em frente a ela falou com alguém do lado de fora.

Logo depois, ele a pegou e a carregou por uma distância curta em solo macio, e em seguida ela ouviu que seus passos pisavam num chão de madeira.

Tentava descobrir para onde a estavam levando, quando percebeu que o homem subia alguns degraus.

Tudo era muito estranho, e ela estava muito assustada. Temia que Mamoru Chiba pretendesse aprisioná-la em alguma cela.

O homem atravessou uma porta e colocou-a em cima de algo macio. Desamarrou suas pernas e afrouxou o laço que apertava sua cintura.

Ela não se moveu, e ele não tirou o pano que a cobria até os joelhos.

Ouviu quando ele voltou e fechou a porta.

Ficou quieta, quase sem respirar, tentando descobrir se alguém a observava, querendo escutar se havia alguém por perto.

De repente, ouviu passos em cima e vozes que gritavam umas com as outras, e logo depois a cama, ou o que for onde estava sentada, começou a se mover. Percebeu então que estava a bordo de um navio.

Sentou-se abruptamente e puxou para trás o pano que lhe impedia a visão.

Olhou em volta e viu que estava certa. Estava na cabine de um navio que agora entrava em movimento.

Pôs-se de pé com certa dificuldade e foi olhar pela vigia, que era elegantemente emoldurada com cortinas de veludo verde.

Como esperava, viu que estavam deixando o cais, passando por vários navios, e que a barra do porto ficava logo em frente, e além dela, o mar aberto.

Suspirou.

Não podia ser verdade. Era inacreditável que ela tivesse sido raptada e estivesse sendo transportada para longe da casa do pai, talvez até para fora da Inglaterra.

O navio balançou, e ela teve de segurar-se para não cair. Sentou-se numa cadeira presa ao chão.

Em frente à cadeira havia um espelho, e quando olhou para o reflexo de sua imagem, ficou horrorizada.

O chapéu de palha estava amassado e torto, pressionando sua testa, o que lhe conferia uma aparência grotesca.

Tirou-o bruscamente e jogou-o no chão, sabendo que nunca mais o usaria. Limpou o rosto com um lenço e verificou que estava úmido e sujo.

Não tinha pente, mas tentou arrumar o cabelo o melhor que pôde.

Olhando em torno, viu que, sem que percebesse, a mala de Minako fora levada para a cabine.

Concluiu que, se Mamoru Chiba tinha se dado ao trabalho de mandar trazer a bagagem de Minako, era sinal de que pretendia mantê-la prisioneira por muito tempo.

Estava preocupada em saber para onde o navio a levava. Não sabia se devia bater na porta para atrair atenção e pedir para ser levada à presença de Mamoru Chiba imediatamente, antes que o navio estivesse muito longe.

"Enquanto nos afastamos cada vez mais nesta brincadeira absurda", pensou ela, "Minako e lorde Furuhata devem estar a caminho de Dover."

Achava, embora não tivesse certeza, que o porto mais próximo ficava em algum lugar do estuário do Tâmisa, podendo ser alcançado mais ou menos no mesmo tempo que a carruagem levara para conduzi-los ao navio.

"Tenho que ver o sr. Chiba logo", disse para si mesma, sabendo que aquela entrevista seria muito desagradável.

Ainda estava resolvendo se seria melhor ou não esperar que Mamoru Chiba a mandasse chamar, quando ouviu um ruído do lado de fora da cabine.

Endireitou-se na cadeira, tentando esconder o medo, e fitou a porta.

Um homem entrou. Ela imediatamente percebeu que se tratava de um camareiro.

— Trouxe o seu café da manhã, senhorita — disse ele alegremente. — Acho melhor comer logo, porque está começando a ventar, e o mar pode se tornar revolto mais tarde.

Colocou a bandeja em frente a ela, sobre uma mesinha.

— Se precisar de mais alguma coisa, é só me avisar. E, sem esperar resposta, retirou-se em seguida.

Usagi olhou para a bandeja e ficou satisfeita ao ver que tinha uma jarra de café.

Serviu-se de uma xícara. Comeu também os ovos, pensando que lhe trariam mais vitalidade para enfrentar o que tinha pela frente, e a torrada quente coberta de manteiga e mel.

Estava exausta e precisava se alimentar bem. Do contrário, ficaria muito fraca e até podia desmaiar, depois de tudo o que se passara.

Tomou duas xícaras de café e começou a sentir-se melhor.

"Tenho que ser firme", decidiu.

Notou que a embarcação estava indo muito depressa. Quando mudaram de curso, sentiu-se balançar um pouco. Mas sabia que, se estivesse no convés, teria sido difícil mover-se, com o barco nessa velocidade.

Tinha alguma experiência com o mar, pois velejara com o pai, que era um bom marinheiro, na costa sul, no verão, há alguns anos atrás.

Quando o camareiro retornou, Usagi lhe perguntou:

— Poderia me fazer a gentileza de informar-me que navio é este e a quem pertence?

Ele sorriu para ela.

— Pensei que soubesse, senhorita. O dono é Mamoru Chiba, e o Leão Marinho é o novo iate que ele encomendou antes de ir para o Oriente. Chegou dos estaleiros há apenas um mês.

Havia uma nota de orgulho na sua voz quando acrescentou:

— Foi construído nos mesmos moldes dos veleiros americanos, e não existe nenhuma embarcação nas costas da Inglaterra que seja capaz de vencê-lo em velocidade.

— O sr. Chiba está a bordo?

— Naturalmente, senhorita.

— Poderia fazer-me o favor de dizer-lhe que eu gostaria de falar com ele o mais breve possível?

— Vou lhe dar o recado. Mas ele está observando o navio deixar o porto, e não quer ser incomodado.

— Por favor, diga-lhe que é urgente.

Usagi notou que o camareiro deu um sorriso um tanto impertinente, como se soubesse que isso não impressionaria o Sr. Chiba, mas não comentou nada, apenas pegou a bandeja e caminhou para a porta, dizendo:

— Eu lhe direi, senhorita.

"O sr. Chiba vai fazer papel de bobo", pensou Usagi, "Teve todo este trabalho para raptar Minako, e pegou a pessoa errada."

Sentiu sua raiva crescer com o que ela considerava um comportamento infame, mas quando o camareiro voltou para dizer-lhe que o sr. Mamoru a receberia no salão, sua raiva transformou-se em medo.

Agora ela ia confrontar-se com o Rei dos Demônios, um personagem que era capaz de raptar pessoas.

Foi difícil caminhar em plano inclinado e manter uma aparência digna, mas ela conseguiu fazê-lo.

O camareiro abriu a porta e ela entrou num dos mais bonitos salões de navio que já vira.

Então, quando o homem que esperava por ela no fundo do salão se levantou, viu que ele era muito diferente do que esperava!