Capítulo 3 - Nascido aos dezesseis anos

Ilha Tiberina, Roma, Itália, maio de 1996

Ao mesmo tempo, próximo e isolado do mundo.

Pelo menos, essa era a sensação de um homem de longos cabelos negros amarrados em um rabo-de-cavalo, uma barbicha da mesma cor e olhos azuis brilhantes, enquanto andava pelas ruas da ilha Tiberina, no meio do rio Tibre, no coração de Roma.

Sorriu ao se lembrar que, na época do Império Romano, somente os criminosos mais cruéis e os doentes mais graves podiam viver na Ilha, considerada de péssimo agouro – isso até a construção do antigo templo de Esculápio, deus da medicina.

Ainda hoje, a Ilha é associada à medicina – tanto é que sua casa ficava em um apartamento construído dentro do Hospital Fatebenefratelli.

A residência de Mathias Charriére desde sua prisão em maio de 1981, em Nápoles, durante uma batalha no cume do vulcão Vesúvio – à beira de uma erupção naquela data.

Nascido na França em 1948, em Saint-Ettiénne, Charriére foi criado pela tia beata, já que seus pais haviam morrido em um incêndio na sua casa quando ele tinha pouco mais de um ano. No entanto, a religiosidade extrema da tia fazia com que a sua vida fosse um inferno, e, aos 14 anos, fugiu de casa, rumo à Lyon, onde se juntou à uma gangue de garotos – mais tarde, se tornou seu líder até sua prisão.

Mandado à prisão em Fresnes, conheceu um viajante inglês que mostrou sua verdadeira natureza, com a ajuda de um objeto que ele encontrara durante a viagem entre as duas cidades, enquanto fugia de casa.

Sua varinha.


Centro Penitenciário de Fresnes, França, Janeiro de 1965.

Morrer. Era tudo o que ele queria. Tudo o que ele mais ansiava. Tudo o que ele maisdesejava. Uma morte miserável, indigna de ser registrada, com o seu cadáver sendo atirado em uma vala comum.

E, para sua inteira decepção, esse glorioso dia não chegava.

Por que, meu Deus, por que você não me mata de uma vez?, perguntou-se. Eu já não agüento mais isso!

A sujeira, a podridão, a tensão e as torturas. Lembrou-se, para seu desgosto, do capitão Julian Deveraux, diretor do presídio e que costumava selecionar um prisioneiro por dia para torturar. Porém, mesmo com mais de 1200 prisioneiros como colegas, ele era o único torturado uma vez por semana.

Suspirou. Afinal, foi apenas um único erro. Mas que custara a sua liberdade.

Era um jovem qualquer, que fugira dois anos antes da casa de sua família, em Saint-Ettiénne; nunca suportara o fanatismo religioso da tia, que era capaz de fazer qualquer coisa para manter a sua devoção e as dos seus familiares. Durante uma noite de tempestade, aproveitou que a tia havia ido à Igreja e fugiu de casa, viajando para Lyon.

Quando chegara à cidade, foi abordado por um grupo de garotos, que, como ele, haviam fugido de suas casas. Durante os primeiros dois meses, havia sido apenas mais um integrante qualquer, até assumir a liderança do bando. A partir daí, ele e seus colegas haviam imposto um reino de terror nas noites da cidade, cometendo roubos, assaltos, sequestros e estupros. No seu auge, poucos meses antes da prisão, chegara a comandar mais de cem garotos, que o obedeciam cegamente. Até que cometera o único erro que não poderia cometer: demorar demais.

Estavam assaltando uma casa no centro da cidade e, enquanto alguns de seus homens mantinham o dono da casa, a mulher e a filha de 15 anos reféns, sob a mira de armas, ele e mais outros rapazes pegavam os objetos de valor que encontrassem na casa. Estavam prestes a saírem quando ele observou os reféns, centrando o olhar na garota. Ao ver o corpo dela, que tremia debaixo da camisola, ele sentira seu desejo falar mais alto: enquanto seus comparsas riam sem parar, ao mesmo tempo em que miravam os pais da menina (Que já estavam apavorados), ele estuprara a garota, várias e várias vezes. Insaciável, ele a obrigava a gemer, mesmo sabendo que ela estava sofrendo. E não pretendia parar nem tão cedo.

Até seu desejo acabar.

Até ela conseguir gozar de prazer e dor.

Ou, no caso deles, até a Polícia aparecer.

Ele se entusiasmara tanto com o corpo jovem e, ao mesmo tempo, adulto da garota que acabara ficando tempo demais na casa. Quando seu instinto de alerta falou mais alto, já era tarde demais: os policiais, liderados pelo capitão Deveraux, invadiram a casa; em questão de minutos, todos os rapazes estavam mortos, menos ele, que desmaiara depois de levar uma intensa surra dos policiais, do pai da menina e de Deveraux.

Preso.

O troféu da cidade.

Alvo de insultos e chacotas enquanto era transportado para a delegacia.

Assim que chegara à delegacia, foi empurrado em uma sala escura e atirado à uma cadeira de madeira sem vime. Foi torturado durante trinta minutos, levando golpes de corda no meio das pernas e, logo em seguida, atirado na cela mais imunda da cadeia.

Após um julgamento rápido, fora condenado a cinqüenta anos de cadeia. Foi quando, pela segunda vez na sua vida, fez algo estranho: após receber o veredicto, erguera-se da cadeira, furioso, retirando do bolso da calça esfarrapada um graveto que sempre carregava consigo, tendo roubado de um cadáver no meio do caminho para Lyon.

Agindo, como havia feito muitas vezes ao longo de sua vida, por puro instinto.

Se observarmos por esse lado, nem foi roubo, pensou, enquanto observava o chão sujo da sua cela. Afinal, o cara já estava morto quando eu encontrei aquele graveto! Ainda bem que eu o escondi no local mais improvável possível, pensou, com um tênue sorriso, enquanto retirava das cuecas encardidas o que seria um graveto com cabo de madrepérola. O fato é que, não sei como, um raio verde saiu daqui e, no segundo seguinte, todos os jurados estavam caídos no chão. Mortos!

Resultado: em um segundo julgamento, foi condenado à prisão perpétua, a ser cumprida na temida prisão de Fresnes, nos arredores de Paris. Isso tudo ocorrera apenas um ano antes, e parecia que havia sido ontem.

Mas, se ele achava que já tinha sofrido o pior na cadeia pública de Lyon, enganara-se: Deveraux conseguiu o cargo de diretor, apenas para torturá-lo sempre que podia. E, com o passar dos meses, ele começara a desejar a morte, que chegara perto dele várias vezes desde que pusera seus pés em Fresnes, principalmente quando adoecera de pneumonia. Porém, a maldita médica conseguira curá-lo.

Enquanto desejava a morte, no saguão de Fresnes, um homem esperava: havia requisitado uma visita. Vestido um sobretudo negro, apropriado para o frio invernal da Região Metropolitana de Paris, ele tinha um ar meio doentio: pele pálida, belos cabelos negros e olhos castanhos vivos, que miravam atentamente a entrada dos corredores prisionais. Sorriu quando um guarda, que parecia mau-humorado por estar em uma prisão gelada, saiu de trás da porta, estendendo um maço de documentos para o visitante. Assim que este o pegou, ele disse:

Pode entrar, Monsieur Riddle, que outro guarda o acompanhará até a cela do prisioneiro Charriére.

Obrigado. – agradeceu o homem, enquanto entrava nos corredores; outro guarda fazia um sinal para que o acompanhasse. Logo, os dois estavam andando pelos corredores lotados da prisão; Riddle observou muitos rostos que o encaravam das portas. Sorrindo, pensou na pessoa que visitaria: estava andando pelas ruas de Lyon havia quase um mês quando ouviu falar do julgamento dele, e das misteriosas mortes dos jurados. Quando ouvira a descrição do ocorrido, tivera que segurar um amplo sorriso que tentava aparecer no rosto pálido: era exatamente de uma pessoa assim que ele necessitava. Agora, ele jazia em uma cela imunda de Fresnes; porém, depois que ele recebesse o devido treinamento e o servisse lealmente, receberia as maiores honras possíveis.

Era somente uma questão de como tirá-lo da cadeia.

Quando eles chegaram à cela 1254, a mais afastada e escura de todas, o guarda bateu três vezes na porta e anunciou:

Visita para você, Charrieré!

Não quero ver ninguém! Suma daqui! – exclamou o prisioneiro, a voz irritada levemente abafada pela porta. Com um sorrisinho torto, o guarda virou-se para Riddle e disse:

Aguarde só um pouco, por favor.

Pois não. – respondeu Riddle, com um brilho nos olhos; já imaginava o que viria a seguir. E estava certo: assim que ouviu a resposta, o guarda entrou na cela. Menos de dez segundos depois, o homem ouviu o barulho de um chute em algo sólido, seguido de um gemido abafado. E a voz do guarda, sussurrando ameaçadoramente:

Ou você recebe o homem direitinho, ou te levo agora mesmo para a sala do capitão Deveraux. Sabes muito bem que ele adora quando te vê. – concluiu, sarcástico. Atrás da porta, Riddle sorriu, satisfeito: notara que, em pensamento, o prisioneiro mandou o guarda tomar naquele lugar. Logo a seguir, o guarda reabriu a porta e disse:

Pode entrar, Monsieur Riddle. Ficarei por perto para o caso de ele tentar alguma coisa.

Obrigado, mas acho que isso não será necessário: eu sei me defender. – respondeu Riddle enquanto entrava na cela imunda. Assim que o guarda fechou a porta, ele direcionou o seu olhar para o prisioneiro.

Vestindo camisa e calça brancas (Originalmente; agora, os uniformes apresentavam uma cor que misturava o verde escuro e o marrom), com a barba por fazer e cabelos negros emaranhados, o prisioneiro fitou Riddle com olhos azuis brilhantes: a única parte do seu corpo que não parecia estar sem vida. Intrigado, ele perguntou:

Quem é você e o que quer comigo?

Ah, estava esperando por isso, meu caro Mathias Charriére. – comentou o visitante, fazendo Charriére arregalar os olhos de espanto. Boquiaberto, ele perguntou:

Quem é você e como sabe o meu nome? Ninguém sabe!

Com um sorriso indulgente, Riddle se agachou até ficar cara a cara com o prisioneiro; segurando-o pelo queixo, olhou nos olhos dele e disse:

Todos sabiam apenas o seu apelido, não é mesmo? Fantome. Muito original para um ladrão, se você quer saber. Mas, voltando ao assunto, Charriére, meu nome é Tom Servolo Riddle, e vim da Inglaterra.

E veio fazer o quê nesse fim de mundo que é Fresnes? – perguntou Charriére, ainda sem compreender. Riddle ampliou ainda mais o sorriso:

Eu saí do meu país há alguns anos, e passei a viajar pelo mundo, em busca de algo que muitos não desejam por serem tolos demais para aceitá-lo. Foi quando eu passei por Lyon, há quase um mês, quando eu ouvi falar de você. Eu ouvi tudo sobre o julgamento e, principalmente, sobre as mortes dos jurados que o condenaram. Foi por isso que eu me interessei. Me interessei tanto que decidi vir aqui, nesse fim de mundo, só para saber mais sobre você.

E o que você quer saber de mim, Tom Riddle? – perguntou Charriére, não tentando ocultar seu desprezo; devia ser apenas mais um desses escritores que coletam histórias para transformá-las em livros.

Quero saber como foi que você matou o corpo de jurados. Se não for com um graveto de madeira com cabo de madrepérola que você esconde nas cuecas, então eu gostaria de saber como. – concluiu o inglês, fazendo o prisioneiro arregalar ainda mais os olhos.

Como... como você sabe disso? – perguntou, embasbacado, ao mesmo tempo em que retirava o objeto de dentro das roupas e o estendia para Riddle, que apanhou-o e analisou-o. Continuando a sorrir, o inglês respondeu com outra pergunta:

Você sabe o que é isso, Mathias Charriére?

Não. Nem me preocupei em saber. Mas sei que um raio verde pode sair daí.

Esse raio causa a morte, como você já deve saber. – começou Riddle, com um ar professoral. E, com os olhos brilhando de forma sinistra, completou. – Ele só saíra se o dono assim ordenar...nem que seja em pensamento!

Charriére sentiu um arrepio: no julgamento, quando puxara o objeto das roupas, ele realmente havia desejado a morte dos jurados. E, só Deus sabia como, aquele raio verde saíra, matando todos. Ou melhor, ele sabia; só não sabia o que significavam aquelas palavras que haviam aparecido na sua mente àquele momento.

Riddle esperava; sabia que, em poucos momentos, o prisioneiro faria a pergunta que ele mais esperava. E, se ele aceitasse a oferta que pretendia fazer, estaria satisfetíssimo. Quando Charriére saiu do seu torpor, perguntou:

Riddle... o que significa Avada Kedavra?

Sem conseguir ocultar o seu prazer, Riddle começou:

Essa era a pergunta que eu tanto esperava, meu caro Mathias. Mas devo começar respondendo à pergunta que lhe fiz antes. Isso – ele ergueu o objeto, segurando-o pelo cabo – é uma varinha. E, se você foi capaz de matar doze jurados com a varinha, então devo lhe anunciar que você é um bruxo.

O prisioneiro arregalou os olhos de espanto e choque; não conseguia acreditar, aquilo deveria ser uma cilada do maldito diretor Deveraux, que tentava apanhá-lo em alguma coisa. Com a voz rosnada, disse:

Não sabia que tinha habilidade para mentir, Riddle.

E eu não estou mentindo. Olhe só. – Apontando a varinha para as barras da janela, ordenou. – Reducto!

Charriére arregalou ainda mais as orbes: as barras explodiram diante de si, espalhando seus restos pela cela. Voltando o olhar para Riddle, perguntou:

Como... como fez isso?

Magia. – respondeu Riddle simplesmente. – Eu notei que você deveria ter poderes mágicos quando eu ouvi a história do julgamento. Mas tinha que vir aqui para saber se era verdade. Agora, eu sei que é.

E o que você pretende com isso?

Mathias Charriére, você gostaria de ganhar a liberdade? – perguntou Riddle, com um brilho ávido nos olhos.


Diretor, socorro! O prisioneiro Charriére se rebelou e está matando, junto com o visitante, todos os guardas! – exclamou o policial, assim que entrou no escritório de Julian Deveraux: estava com o rosto pálido, como se tivesse visto assombração.

E como vocês ainda não os detiveram? – perguntou Deveraux, irritado, sacando a arma do coldre escondido por sobre o paletó.

Eles simplesmente derreteram as balas com dois gravetos! – respondeu o homem, assombrado; antes que o diretor replicasse, as vozes do visitante e do prisioneiro exclamaram:

– Bombarda!– a porta explodiu, espalhando poeira por todo o local. Antes que o guarda tentasse esboçar alguma reação, Charriére se adiantou, erguendo o que parecia ser um graveto, embora ostentasse um belo cabo de madrepérola, e perguntou para o visitante:

Milorde, posso matar o Deveraux? Ele tem muitas contas a acertar comigo.

Claro que sim. Eu cuido desse trouxa inútil. – respondeu o visitante, também erguendo um graveto como o de Charriére e apontando-o para o guarda. Com um sorriso maníaco, ele ordenou. – Avada Kedavra!

Um raio verde saiu do graveto e atingiu o guarda, matando-o na hora. Deveraux, que tentava manter o sangue-frio até aquele momento, decidiu agir: atirou três vezes em Charriére. Mas, antes que as balas atingissem o prisioneiro, o visitante apontou o graveto para ele e gritou:

Incêndio!

Não somente as balas derreteram, mas o revólver também; de quebra, Deveraux sentiu queimaduras surgirem instantaneamente na mão direita. Soltando um urro de dor, largou o revólver e desabou na poltrona, soprando a mão ferida e cheia de bolhas. Aproximando-se do diretor, ainda mantendo a varinha erguida e apontando-a para o velho desafeto, Charriére sussurrou:

Como a vingança é doce...

O... o que vocês querem?

Eu quero um servo, meu caro diretor. – replicou o visitante, enquanto se sentava em cima da mesa. – E o nosso amigo aqui, vingança. Sabe o que fazer, Charriére?

Claro, milorde. Sempre aprendi rápido as coisas. – completou, antes de exclamar uma palavra incompreensível para Deveraux. – Crucio!

Foi como se centenas de milhares de punhais finíssimos penetrassem no seu corpo, provocando uma dor mais do que insuportável. Sem notar, Deveraux começou a gritar feito um desvairado, suplicando que aquilo fosse apenas um maldito pesadelo. Fora da sala do diretor, os prisioneiros mais próximos, embora não compreendessem aquilo tudo, aplaudiam, assoviavam e gritavam sem parar.

Aquilo era um espetáculo para eles.

Quando Charriére finalmente baixou o graveto, Deveraux estava arquejante: jamais sofrera tanto quanto naquele momento. Aproximando seus lábios do ouvido do diretor, Charriére falou baixinho:

Sabe, meu caro amigo... se pudesse, teria mais tempo para torturá-lo. Mas meu mestre exige que saiamos daqui logo, para que eu posso começar meu treinamento. Por isso, encerro a sua vida com estas palavras. AVADA KEDAVRA!

Deveraux não teve tempo de responder. Nunca mais teria tempo para nada nesse mundo.


Fora assim que Charriére se ligara a Tom Riddle – que, mais tarde, assumiria o título de Lord Voldemort – e iniciara a sua carreira como o primeiro Comensal da Morte não-britânico.

Nos primeiros anos, o francês até tinha suas dúvidas se Voldemort iria longe nos seus planos de criar uma nova sociedade bruxa, não só na Grã-Bretanha, mas em toda a Europa e, a longo prazo, no resto do mundo.

No entanto, todas as vezes que sentia que seu servo tinha suas reticências, Voldemort dizia para ele ter paciência. "Logo, logo, Mathias, as peças serão movidas no tabuleiro de xadrez. A Torre ou a Dama não podem ser movidos na primeira jogada, temos que esperar o momento certo para acionar essas peças".

E, de fato, tudo estava acontecendo conforme o planejamento do Lorde das Trevas. Depois de anos de planejamento, os Comensais haviam iniciado suas ações – primeiro trouxas, como um recado a Albus Dumbledore, depois bruxos, para mostrar à atual sociedade e ao Ministério da Magia quem estava realmente no comando.

Até que Voldemort ordenara que ele fosse espionar em Hogwarts, por um ano, como professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. No castelo, sob o comando de uma Comensal muito dedicada ao serviço, Charriére havia recrutado parte da nata que, com o passar dos anos, havia criado medo e terror na simples pronúncia em seus nomes.

No entanto, o contato com um rapaz de 17 anos, da Grifinória, despertou nele um alarme: jamais havia visto tanto poder concentrado em um bruxo daquela idade. James Potter.

Ao ouvir o relato de um dos seus mais antigos serviçais, Voldemort arquitetara um plano audacioso que, se desse certo, seria apenas o primeiro passo para a criação de um exército invencível.

Com o passar dos meses, após a execução da Operação Valentino, as coisas começaram a dar errado. Primeiro, pelo fato de que a primeira e única cobaia, além de muito poderosa, era extremamente incontrolável; segundo, ela simplesmente não aceitava trabalhar com outros Comensais, a não ser quando era uma ordem explícita do Lorde das Trevas. Terceiro, ela era simplesmente obcecada em destruir seu genitor. E, quarto, quando ela se rebelou, ativou, em pleno Vesúvio, o poder de controlar os fluxos de lava.

O que quase causou uma tragédia, obrigando os Comensais a trabalharem em conjunto com a Ordem da Fênix: se ela conseguisse provocar a erupção que pretendia, provocaria uma série de erupções mundo afora, praticamente aniquilando o planeta.

E Voldemort não desejava isso em hipótese alguma.

Só que, no momento em que a cobaia foi destruída, a Guerra recomeçou.

E Charriére acabou sendo capturado, nocauteado por um Petrificus Totalus lançado por um ex-aluno - Sirius Black. Como ele havia sido capturado na Itália, e também era procurado pelo Ministério da Magia italiano por crimes cometidos a mando de Voldemort, o francês foi condenado ao isolamento na Ilha Tiberina, onde passou a viver e trabalhar como um trouxa, no setor administrativo do Hospital Fatebenefratelli.

Além de ter sua varinha confiscada, Charriére não podia deixar a Ilha, graças a uma poderosa barreira mágica erguida que o mataria caso ele tentasse entrar em qualquer outro ponto de Roma. E nenhum bruxo podia entrar no local sem um feitiço de proteção - o que implicava que ele teria que ter uma autorização do chefe do Departamento de Justiça do Ministério italiano, o equivalente ao Departamento de Execução das Leis da Magia na Inglaterra.

Para não morrer de fome, ele recebia do Ministério italiano um salário em mantimentos - sem contar o ordenado pelo seu trabalho como trouxa, que ele doava integralmente para as obras de caridade do Fatebenefratelli -, além de um apartamento criado e ampliado por magia dentro do Hospital.

No entanto, quinze anos depois de ter que aguentar aquele isolamento, o que Mathias mais desejava era sair daquela maldita Ilha. Sem contato com os antigos colegas Comensais, ele já não tinha mais esperanças de voltar aos tempos de glória - para ele, o mestre poderia não ter morrido, mas, se ele não dava nenhum sinal de vida, ele já devia ter perdido os poderes em definitivo.

Tudo o que ele queria era poder viver sua vida como um bruxo comum - no entanto, o Ministério italiano era irredutível em relação ao cumprimento da sentença. E, como ele havia recebido uma pena de prisão perpétua, ele imaginava que morreria ali mesmo, na Ilha Tiberina.

Suspirou. O jeito era voltar para o apartamento e descansar um pouco, já que o dia seguinte seria de mais trabalho.

Após atravessar os corredores e cumprimentar alguns colegas que começariam o turno da madrugada, Charriére dirigiu-se para um armário, onde eram guardados os produtos de limpeza - era lá que estava escondida a porta de entrada do apartamento.

Assim que fechou a passagem, o francês esticou a mão para acender a luz. Antes que pudesse completar o gesto, no entanto, sentiu seu corpo enrijecer violentamente, e caiu no chão, com o braço esticado e os olhos brilhando de surpresa - aquele era o feitiço do Corpo Preso, o mesmo que resultara em sua prisão, e a primeira magia que ele via em quinze anos, sem contar a barreira da Ilha Tiberina.

Ele não estava sozinho.

Na escuridão, ele ouviu passos de uma pessoa que se aproximava, embora não pudesse distinguir quem era. Segundos depois, ele ouviu uma voz que o deixou estupefato - a última vez que a ouvira havia sido ainda em Nápoles, durante a batalha com os bruxos da Ordem da Fênix:

- Ora, ora, ora, vejo que você andou aprendendo com o Lucius sobre como usar máscaras, Mathias. - sussurrou a voz de Lord Voldemort, no mesmo tom suave e viperino que ele sempre usava com os Comensais da Morte. - Mas não é desse jeito que você poderá me receber como deve. Finite. - ordenou o bruxo, liberando Charriére do feitiço.

Sentindo o corpo tremer de ansiedade e felicidade, ele perguntou, enquanto se levantava:

- Milorde, como... como é possível que você tenha retornado?

- Ah, meu caro amigo... essa é uma história tão longa. Pena que você soube com tanto atraso, cheguei a pensar que você tinha me abandonado, como todos os seus colegas.

Mathias não respondeu de imediato - ele refez o gesto de acender a luz, e pôde conferir que seu mestre, realmente, estava de volta - com a pele branca, olhos vermelhos, uma fenda no lugar onde seria o nariz e um ligeiro sorriso na boca sem lábios, Voldemort segurava a sua varinha entre os dedos longos e finos.

Tomando fôlego, ele explicou:

- Milorde, eu não tinha como sair da Ilha... essa barreira me mataria se eu atravessasse ela a pé, e a idéia de tentar desaparatar não deu certo. O único contato que eu tive com a nossa sociedade nos últimos quinze anos foi seis meses depois da minha prisão, quando recebi um exemplar do Profeta Diário falando sobre o incidente com os Potter em Godric's Hollow.

- Sim, Mathias, eu sei disso. E é por isso que eu não farei com você o mesmo que eu fiz com os nossos amigos, muito pelo contrário. Eu vou levá-lo dessa Ilha direto para a nossa casa, onde Lucius nos espera.

- Mas... meu senhor, como sairemos daqui? Aliás, como você atravessou a barreira? - perguntou, ao sentir que a mesma continuava intacta no entorno da Ilha Tiberina. Ampliando o sorriso, Voldemort respondeu simplesmente:

- Todos nós temos os nossos truques, amigo. Agora, vou cuidar dessa barreira. - completou, apontando a varinha para a janela aberta do apartamento. Imediatamente, um raio branco saiu da varinha, atingindo a barreira, que adquiriu uma coloração branca, ligeiramente opaca.

Segundos depois, a barreira começou a queimar e se desfazer, ganhando a consistência de papel incinerado. Logo em seguida, já não havia mais sinal da mesma, o que fez Charriére abrir um sorriso.

Ele estava livre.

- Muito bem, agora que a Ilha Tiberina já não é mais a sua casa, creio que seja hora de lhe entregar algo que achei no caminho até aqui. - murmurou Voldemort, atraindo a atenção do francês no exato momento em que ele colocava a mão no bolso das vestes.

De lá, saiu uma varinha de 26cm, de cipreste e corda de coração de dragão, com um belo cabo de madrepérola. A mesma varinha encontrada por Charriére há mais de 30 anos.

- Milorde, eu... Muito obrigado, meu senhor, merci. - agradeceu o francês, ajoelhando-se aos pés do Lorde das Trevas.

- Que a sua fidelidade a mim seja idêntica aos anos anteriores.

- Milorde, enquanto estiver a seu serviço, serei fiel a você, nem que tenha que morrer para isso.

Sorrindo, Voldemort viu quando Charriére ergueu-se e dobriu as mangas da camisa do braço esquerdo, mostrando uma espécie de tatuagem envolta no antebraço, pouco antes de outra tatuagem - uma caveira com uma cobra saindo da boca e fazendo as vezes de língua. A Marca Negra.

Imediatamentem o francês ergueu a varinha e apontou para o antebraço, murmurando seu primeiro feitiço em 15 anos:

- Finite Incantatem.

A tatuagem - um círculo dourado que dava uma volta completa no antebraço - começou a se soltar, como se fosse parte da pele. Em questão de segundos, no lugar da tatuagem havia uma pele ligeiramente avermelhada, como se ainda não estivesse madura.

Charriére experimentou uma sensação prazerosamente, como se seu sangue voltasse a percorrer as veias. Ele sabia o quanto era bom poder contar com seus poderes na íntegra.

Ainda com um sorriso no rosto de cobra, Voldemort observou Charriére erguer a mão esquerda na direção do céu estrelado, enquanto a íris azul do francês começava a liberar o seu dom, aprisionado durante aqueles anos. Pouco depois, o céu de Roma estava coberto de nuvens.

- Estou pronto, meu senhor. - disse Charriére subitamente, enquanto seus olhos voltaram ao normal. Voldemort assentiu com a cabeça e, no segundo seguinte, dois sonoros craques foram ouvidos, ao mesmo tempo em que duas colunas de fumaça negra se afastavam da Ilha Tiberina.

Naquela noite, para espanto e desespero das autoridades trouxas, caiu uma nevasca sobre Roma durante nada menos que trinta horas consecutivas, resultando na morte de mais de sessenta pessoas e na maior camada de neve sobre a cidade em três séculos.

Já o Ministério da Magia italiano perdeu seu ministro por incompetência, depois que foi descoberta a fuga de Mathias Charriére, o criminoso de guerra mais perigoso do país.

Quando a notícia chegou à Inglaterra, foi adotada a mesma explicação em relação à fuga de dez Comensais, meses antes, em Azkaban: que a fuga havia sido planejada e executada por Sirius Black.

Um mês depois, essa explicação não existia mais.


Hogwarts, junho de 1977

Era uma sensação estranha.

Afinal, ele jamais havia estudado em Hogwarts - no entanto, lá estava Mathias Charriére, andando pelos centenários corredores do castelo, em busca da sala do Diretor.

Mesmo sem um diploma oficial de uma escola de magia, o francês havia concorrido ao cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, seguindo as ordens do Lorde das Trevas -pais uma vez, o cargo estava vago, o que já gerava um boato de que o cargo havia sido amaldiçoado.

Charriére sorriu - de fato, o boato era verdadeiro, já que ele sabia da malfadada entrevista de Voldemort com Dumbledore, alguns anos atrás.

Afinal, ele estivera hospedado no Cabeça de Javali naquela ocasião, embora os percevejos que infestavam o local não lhe trouxessem exatamente boas lembranças.

Agora, pelo menos, ele havia conseguido se hospedar no Três Vassouras, onde a qualidade dos quartos era bem melhor - graças a Gareth Rosmerta, um viúvo que, trazendo a filha ainda criança, havia comprado o estabelecimento e realizado uma ampla reforma.

Enquanto continuava a andar, parou ao ouvir um barulho - voltando-se para trás, viu a estátua da bruxa de um olho só, pela qual havia passado segundos antes, se movimentando.

Curioso, voltou até a estátua, onde começou a ouvir, graças a sua audição apurada, vozes de garotos que sussurravam em tom nervoso:

- Eu disse que era melhor esperar, Padfoot!

- Mas eu achava que ele nem ia se incomodar com o ruído, Wormtail!

- Fiquem quietos os dois, ele está se aproximando!

Charriére reprimiu um sorriso, pois ele sabia que só havia duas possibilidades para os donos das vozes estarem invisíveis: ou um feitiço da desilusão, ou uma capa da invisibilidade. Mas achou melhor ficar quieto, até para atiçar a ansiedade daqueles garotos.

Começou a "examinar" a estátua da bruxa de um olho só, enquanto ele esperava alguma outra manifestação deles. Por alguns minutos, nenhum som foi ouvido, até que um dos garotos, com um quê de impaciência na voz, resmungou:

- Será que ele não vai embora, não?

- Só se vocês se revelarem... - respondeu Charriére; para sua satisfação, ele ouviu o som de três gargantas engolindo a saliva e, em seguida, um ruído de soco.

- AI! Essa doeu, Prongs!

- Quem mandou você abrir a boca, Padfoot? - perguntou um rapaz de cabelos negros revoltos e olhos castanhos, escondidos atrás de óculos, enquanto retirava uma capa da invisibilidade de cima dele e dos dois amigos que os acompanhava.

Um deles era um rapaz baixinho e ligeiramente gordinho, com uma expressão ratinheira no rosto emoldurado pelo cabelo castanho; o outro, por sua vez, era um rapaz bonito, com cabelos negros e olhos da mesma cor, que esfregava o ombro - pelo visto, havia sido ali que ele recebera o soco.

- Muito bem... - começou Charriére, em um tom divertido. - Agora que vocês já fizeram o favor de aparecerem, creio que devemos iniciar as apresentações. Eu sou Mathias Charriére, candidato à vaga de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas e seu humilde criado. - completou, fazendo uma reverência irônica para os garotos. - Agora, vocês.

- Eu sou James Potter, e esses são meus amigos Sirius Black e Peter Pettigrew, somos alunos do sexto ano da Grifinória.

- E o que vocês estavam fazendo com essa capa da invisibilidade? Até onde eu sei, o toque de recolher já está em vigor há umas quatro horas.

Os três se entreolharam, em silêncio, e Sirius deu uma olhada para a o céu encoberto, que escondia a Lua Cheia. Eles haviam voltado da Casa dos Gritos, onde tinham passado as últimas horas na companhia de seus amigo Remus Lupin, enquanto ele passava por mais uma transformação.

Rapidamente, James tomou conta da situação:

- Bem, se o senhor já fosse um professor, nós até poderíamos dizer o que houve... Mas, como o senhor ainda não é, creio que não estamos obrigados a explicar a situação.

Sirius deu um sorrisinho de concordância para James, enquanto Peter se encolheu, como se esperasse uma bronca ou, pior, uma detenção.

Charriére deu uma boa gargalhada. Realmente, o garoto Potter tinha um senso de humor e de oportunidade que o agradava. Assim que parou de rir, comentou:

- De fato, Potter, você conseguiu me deixar sem respostas. Só espero que você não torne a repetir isso a partir de setembro, já que existe uma boa possibilidade de que eu venha a ser seu professor.

James deu um sorrisinho cínico para o francês, enquanto Peter o olhou nos olhos azuis e engoliu em seco - era possível ver um brilho indecifrável, mas com um quê de sinistro. Tentando disfarçar o nervosismo, ele perguntou para os amigos:

- Vamos? Que eu ainda quero passar na cozinha antes de voltar para a Sala Comunal. - inventou; na verdade, o que Peter queria era distância daqueles olhos azuis que o estavam aterrorizando.

Para alívio dele, nem James nem Sirius perceberam o pedido implícito naquela pergunta; com um sorriso, Sirius debochou do amigo:

- E quando é que você não pensa em comer, Wormtail? Imagino que você deve pensar nisso até nos seus sonhos.

- Você que pensa isso, Sirius. Eu também quero me formar! - disse ele, embora não soasse convincente. Antes que o amigo respondesse, outra voz se fez ouvir no corredor:

- Tudo bem, Pete, vamos pra cozinha agora mesmo, os elfos adoram quando alguém vai pegar comida. - disse James, voltando o olhar para o caçula dos Marauders. Em seguida, olhando para Charriére, disse. - Imagino que só nos veremos daqui a três meses, então.

- Com certeza, Potter, imagino que sim. Black, Pettigrew, também espero encontrá-los daqui a três meses, no Salão Principal de Hogwarts.

- Pensei que você iria no Expresso de Hogwarts, Charriére. - resmungou Sirius, arrancando um sorrisinho cínico do francês. Peter, por sua vez, evitava a todo custo olhar para o homem.

- Não, eu tenho que ver algumas coisas, em especial o visto de residência trouxa.

- Mas o senhor não vai morar em Hogwarts?

- Sim, Black, mas também vou manter um apartamento na Londres trouxa, como um escritório. Então, para poder comprar esse imóvel, preciso de um visto de residência na Inglaterra, já que eu nasci na França. - concluiu. Em seguida, voltando o olhar separadamente para cada um dos três rapazes, se despediu e seguiu seu caminho para a sala de Albus Dumbledore.

Soltando um suspiro aliviado, Peter foi o primeiro a falar:

- Graças a Merlin que ele foi embora.

- Ué, Pete, que houve? - questionou James, olhando atenciosamente para o amigo.

- Não sei, Prongs, mas ele... - engoliu em seco. - Eu não me senti à vontade com ele, cara, e vou ser honesto: estou rezando para ele não conseguir essa vaga de professor, senão vou pensar seriamente em desistir de Defesa Contra as Artes das Trevas.

- Mas Wormy, é o último ano! - exclamou Sirius, espantado. Mesmo que Peter não fosse tão corajoso como os amigos, Sirius o conhecie bem para saber que ele não era covarde a ponto de pensar em abandonar as aulas só por causa de um professor. E foi exatamente isso que ele disse.

- Honestamente, Pads, talvez eu até continue se ele virar professor. Só vou fazer de tudo para não olhar nos olhos deles.

- Então, cara, acho melhor nos sentarmos nas carteiras do fundo. - disse James, sem um traço de deboche na voz. - Pelo menos, o risco de vocês se encararem olhos nos olhos é bem menor.

Peter concordou, com uma expressão aliviada no rosto. Em seguida, os três amigos voltaram a se cobrirem com a capa da invisibilidade, enquanto retomavam seu caminho - primeiro, iriam até a cozinha, pegar um pouco de comida com elfos, já que quase não haviam jantado. Em seguida, voltariam para a Torre da Grifinória, rezando para que as nuvens não abandonassem a lua cheia pelo restante da noite.

Era a oportunidade para que seu amigo Remus Lupin finalmente pudesse ter uma noite pacífica como um ser humano - algo meio difícil quando se é um lobisomem, e a poção que poderia reduzir o sofrimento dessas criaturas ainda estava em fase de pesquisas.

Enquanto isso, Charriére estava em frente à gárgula que guardava a sala de Dumbledore. Laconicamente, disse a palavra que havia ouvido doze horas antes, através de um patrono enviado pelo próprio diretor:

- Bolo de menta.

A gárgula, ao ouvir a senha correta, começou a girar, revelando uma escadaria que subia na direção da torre mais alta de Hogwarts.

Automaticamente, o francês subiu no penúltimo degrau. Enquanto as escadas o levavam para a presença de Dumbledore, ele pensou nos três rapazes que havia encontrado no meio do caminho.

Pettigrew, por trás daquela expressão assustada, tinha um quê de imprevisibilidade. Era como se, de repente, tudo o que se sabia sobre ele pudesse se revelar uma mentira.

Já Black... bem, com as histórias que ele havia ouvido dos parentes do rapaz, ele não esperava uma determinação tão grande. Sabia que ele podia ser teimoso - a tapeçaria em Grimmauld's Place não deixava dúvidas quanto a isso - mas ele havia notado que Sirius Black seria capaz de se matar, se fosse necessário, para proteger as pessoas que amava.

Agora, quanto a James Potter... o que realmente chamara a atenção de Mathias Charriére havia sido a intensa aura de poder que emanava de Potter. Era bem possível, pelas suas experiências anteriores desde que entrara para o serviço de Lord Voldemort, que ele não conhecia a extensão de sua magia. Mas, talvez, se aquele poder fosse liberado com um pouco mais de intensidade, o que aconteceria deixaria, com toda a certeza, o Lorde das Trevas maravilhado.

Sorriu. Talvez houvesse algum sentido, afinal, nas ordens de assumir o cargo de professor.


Mansão Malfoy, junho de 1996

Se houvesse uma palavra para descrever a atmosfera na mansão em estilo vitoriano, de propriedade da família Malfoy, essa palavra era "Medo".

Medo que dá medo do medo que dá.

Afinal de contas, era bem possível entender os motivos que levaram esse sentimento aos moradores daquele lugar.

Três dias antes, Voldemort havia confiado ao patriarca da família, Lucius Malfoy, a liderança em uma perigosa missão - que consistia em invadir o departamento de Mistérios do Ministério da Magia e montar uma armadilha para Harry Potter, para que o Lorde das Trevas pudesse decifrar a profecia que o havia guiado em suas ações durante os últimos dezesseis anos.

Isso seria possível graças à estranha conexão entre as mentes do garoto e do Lorde. Sabendo dessa ligação, Voldemort montara um cenário onde Sirius Black, padrinho do moleque Potter, havia sido capturado pelos Comensais da Morte, e estaria sendo torturado na sala das profecias.

Só que tudo havia saído desastrosamente errado.

Primeiro, Potter não havia ido sozinho, e levara mais cinco moleques com ele.

Segundo, na confusão que havia se seguido, a Ordem da Fênix havia chegado no local e ajudado os garotos a prender onze dos doze comensais destacados para a missão.

Terceiro, a profecia havia sido destruída, sem que Lord Voldemort pudesse saber, na íntegra, as palavras da maldita vidente.

Mesmo com algumas baixas entre os inimigos - sendo a mais notável a morte de Sirius Black - , o Lorde das Trevas estava furioso.

E Mathias Charriére sabia que seu mestre estava certo.

Para alívio dele, ele tivera que cumprir uma missão relativa ao aliciamento de mais aliados para a causa - ainda procurado na Itália, Charriére havia sido destacado para uma missão mais diplomática pelo fato de que o Lorde das Trevas não queria arriscar a captura de um de seus servos mais dedicados.

Pelo menos, enquanto o francês ainda pudesse ser útil a ele.

Afinal, ele não queria sofrer o destino de alguns outros comensais - em especial, o de Regulus Black, cujo desaparecimento, semanas antes da morte de James e Lily Potter, gerara um sem-número de boatos, no Ministério da Magia, na Ordem da Fênix e entre os Comensais da Morte.

O consenso geral das três facções era que o caçula dos Black havia desistido de continuar com os Comensais, e que Voldemort ordenara sua morte.

Só que ninguém era idiota de perguntar ao Lorde das Trevas o que realmente havia acontecido.

E, de qualquer forma, Bellatrix Lestrange estava aguentando havia quatro dias a hospitalidade que somente o Lorde das Trevas sabia oferecer. Tanto é que sua irmã Narcissa já preparava algumas poções curativas para acudir a mais velha das filhas de Cygnus Black quando Voldemort finalmente liberasse a sua Comensal predileta.

Mathias sorriu ao pensar nisso. Se ele faz isso com a Comensal preferida dele, não quero nem imaginar o que o Lorde faria com um novato recém-ingressado na causa, pensou, sarcástico.

Como ele estava na Holanda cumprindo a missão que o Lorde lhe ordenara, Charriére não havia passado pelo mesmo tratamento recebido por Bellatrix. No entanto, ele não iria procurar o Lorde - o conhecia bem demais para saber que, em situações como essa, o melhor era esperar ser chamado.

Alguns minutos depois, aconteceu o que ele previra - seu ex-aluno, Peter Pettigrew, estava indo em sua direção, com a mesma expressão assustadiça de quase vinte anos atrás.

Mathias olhou para Wormtail com um desprezo incomensurável. Por mais que estivesse envolvido com a causa dos Comensais da Morte, ele admirava, de coração, as pessoas que, a despeito dos problemas, se mantinham fiéis às pessoas de quem gostavam.

E, no caso de Pettigrew, a história dele fazia Mathias sentir nojo.

Traíra seus amigos e sua família por medo.

Tudo bem que ele passara a vida inteira representando e cometendo todos os tipos de atrocidades quando não representava. Mas seu coração sempre fora fiel à causa de buscar o que ele desejava.

Jamais havia traído essa determinação.

- O que você quer, Pettigrew? - perguntou, quando o ex-Marauder chegou perto dele.

- O... o Lo-lorde das Trevas deseja vê-lo. - murmurou Wormtail, não olhando nos olhos de Charriére, que bufou. Ele não conseguia entender como Voldemort mantinha um servo desses, que mais atrapalhava do que ajudava.

No entanto, se essa era a escolha do Lorde, ele não o questionaria.

- Estou indo agora mesmo. - disse, levantando-se de chofre e atravessando a Mansão Malfoy até encontrar o escritório de Lucius. Como seu dono, no momento, ocupava uma cela em Azkaban, Charriére sabia quem estaria ocupando esse cômodo. Abriu a porta.

- Ah, Mathias. Que bom que você atendeu ao meu chamado. - disse Voldemort, enquanto ocupava sua mão esquerda com a sua varinha. Ajoelhando-se sobre o joelho direito, o francês murmurou:

- Vim o mais rápido que pude, meu senhor.

- Ótimo, pois o que eu tenho a falar para você é extremamente sigiloso, e deve ficar somente entre nós dois.

Imediatamente, o bruxo começou a fazer movimentos com a varinha, enquanto Mathias sentia a magia do feitiço Abaffiato tomando conta de cada centímetro daquelas paredes.

Se levantando devagar, o francês dirigiu-se para a cadeira apontada por Voldemort, enquanto o próprio permanecia em pé.

- Mathias, agora que todos já sabem que eu voltei, nós vamos agir exatamente de onde paramos, em outubro de 1981. Só que, agora, nós precisamos conquistar o poder o mais depressa possível, para evitar que essa disputa possa render mais aliados para a Ordem da Fênix.

Charriére assentiu com a cabeça. De fato, em 1981 a Guerra havia chegado a um tremendo impasse: enquanto os Comensais promoviam assassinatos diários entre bruxos e trouxas, a Ordem da Fênix conseguia retaliar com capturas e prisões. Já o Ministério da Magia, que tinha Barty Crouch como ministro-não oficial e chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, praticava uma política de "Ataque primeiro, pergunte depois". Os poucos que escapavam da Avada Kedavra iam sem escalas nem julgamento para Azkaban.

- Então, o que o senhor pretende é uma blitzkrieg?

- Exato, meu caro amigo. Quero ter o controle completo sobre o Ministério da Magia em, no máximo, doze meses. E é para isso que eu lhe chamei aqui.

- Como assim, milorde?

- Mathias, quero que você seja o chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia.

O francês empalideceu. O que o Lorde das Trevas desejava, então, era colocá-lo em um cargo que não só dava o poder de polícia a ele, mas também o de legislador - todo o Direito Bruxo passava, sem restrições, por esse Departamento.

Não era preciso ser um gênio para saber o que Voldemort queria - um Comensal da Morte que, com poder de polícia e de legislatura, pudesse implementar de forma oficial toda a ideologia praticada pelo Lorde das Trevas e seus seguidores.

Hitler se orgulharia do seu pupilo feiticeiro, pensou ele, terrivelmente ácido. Para sua sorte, o Lorde estava com os pensamentos estacionados em seus planos para o futuro da sociedade bruxa.

Além disso, Charriére sabia que, se Voldemort soubesse quem era Adolf Hitler, talvez seria o único trouxa pelo qual ele tivesse algum respeito.

- Sim, milorde, eu fico honrado pelo convite e o aceito. O que devo fazer?

- A princípio, quero que comece a planejar leis que possam colocar nossos pensamentos em relação aos sangues-ruins de forma oficial. Algo com o qual possamos purificar o nosso povo.

- Certo.

- Outra coisa, Mathias: temos que fechar todas as brechas que possibilitam leis patéticas como as do maldito Weasley, que tornam impossível as nossas diversões com os trouxas.

O francês fez uma expressão indecifrável.

Por mais que ele fosse um Comensal da Morte, ele havia vivido 15 anos como trouxa. Por mais que compartilhasse a ideologia de seu mestre em relação aos bruxos nascidos trouxas, ele acreditava que os trouxas não-bruxos deveriam ser deixados em paz, desde que não se intrometessem na sociedade bruxa.

Infelizmente, ele fazia parte de uma minoria entre os Comensais - eram poucos os que compartilhavam sua opinião.

- Farei o que estiver ao meu alcance, meu senhor.

- Certo, Mathias, pode ir. - disse Voldemort, dispensando o servo. Antes que Charriére pudesse tocar na maçaneta da porta, o Lorde voltou a falar. - Ah, e peça a Wormtail que traga a nossa querida Bella aqui. Ainda temos muito o que conversar.

Voltando seu olhar para o bruxo, o francês acenou positivamente com a cabeça. Em seguida, fechou a porta e tratou de procurar Wormtail, enquanto pensava na ordem recebida.

Chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia. Julian Deveraux, com certeza, iria adorar saber dessa notícia, pensou, irônico.

Agora, ele estava com um problema em mãos: o que fazer em relação aos trouxas?

Não aceitava que bruxos nascidos trouxas pudessem sequer existir, mas ele discordava veementemente das "diversões" praticadas pelos Comensais. Afinal, se os bruxos eram superiores aos trouxas, eles não provariam isso com chacinas.

Tanto que ele só era destacado para missões cujos alvos fossem membros do Ministério da Magia, da Ordem da Fênix, ou mesmo bruxos nos quais Voldemort estivesse interessado - o Lorde das Trevas sabia que ele impediria que os Comensais pudessem relaxar um pouco com os trouxas.

No entanto, ele havia recebido a ordem de facilitar a caça aos trouxas.

De repente, Mathias Charriére sorriu.

Ele já sabia o que fazer para colocar suas convicções e, ao mesmo tempo, satisfazer os desejos mais doentios e perversos de Lord Voldemort e seus Comensais da Morte.


N.A.: Capítulo longo esse, hein? Pois podem se acostumar, a tendência é que eles sejam desse tamanho mesmo - e a história também é longa, pois cobre duas épocas distintas.

Aliás, só uma coisa. Os acontecimentos de Harry Potter e o Enigma do Príncipe ocuparão cerca de dez capítulos, pois ele continua essa fase introdutória iniciada no capítulo 1, quando Dumbledore visitou a família de los Reyes em San Francisco.

O grosso da fic, por sua vez, estará centrado em Harry Potter e as Relíquias da Morte, o que vocês já devem ter percebido com a carta de Tristán no capítulo 1.

No próximo capítulo, Emily, Tristán e seus filhos voltam para a Inglaterra pela primeira vez desde 1981. E será a partir desse momento que o espanhol colocará em prática, com a concordância da esposa, o plano do diretor de Hogwarts;

Agora, posso pedir um favor? Está vendo esse botão azul, logo abaixo? Clique nele e escreva sua opinião sobre esse capítulo, por favor.

Parafraseando as operadoras de telemarketing, "Sua opinião é muito importante para nós".

Por isso, quero agradecer aos reviews de Isabelle Delacour, ika chan e James Proust.

Até o próximo capítulo!