Nunca escondi que nos últimos 15 anos nenhuma mulher, ninguém, nunca me chamou atenção como Maura chamava diariamente, tínhamos um acordo silencioso de que nosso timing não tinha sido o adequado e que nosso amor por nossos filhos era maior do que quaisquer desavenças que um dia tivemos, também nunca escondi dela minha admiração pela sua beleza, seu corpo, seus olhos e boca, e por muitas vezes segurava o impulso de trazê-la pra perto, como fazia durante aqueles quase 8 anos de casamento.
Maura Isles era minha ex-mulher e melhor amiga, com que eu flertava descaradamente as vezes, trocava longos olhares e abraços sem segundas intenções, ou assim eu mentia.
Voltando de onde meus pensamentos me levaram, levantei-me rapidamente e coloquei o paletó novamente.
-"Alguma coisa nova?" Frost empertigou-se entusiasmado.
-"Não, preciso falar com Maura... ehr... problemas domésticos." Sorri e saí pelo lounge entrando rapidamente no elevador que já se fechava.
-"Aham... sei" – meu amigo sorriu e retornou a sua digitação frenética.
Maura's Office,
Desci os andares como todos os dias eu fazia, tanto pela manhã quanto pela tarde sempre tinha algum assunto a tratar com ela, ou arrumava uma desculpa pra vê-la, quando estava com os meninos vinha contar como havia sido, quando ela estava com eles eu vinha perguntar como havia sido, nem precisava ser muito criativa.
Se existia uma coisa que eu era capaz de fazer com ela era destruir toda sua concentração, eu chegava sorrateiramente e ficava minutos observando, os movimentos, as cores, as curvas, por muitas e muitas vezes fui pega fazendo isso, sem sentir nenhum tipo de constrangimento.
- "Bom dia Maur!" – Depois de minutos observando entrei ligeiramente pela sala, fazendo-a se assustar levemente.
- "Oi Jane!" – Ela me olhou com um grande sorriso tirando os olhos do papel onde escrevia. – "Tudo bem?" – Ela escreveu durante mais algumas palavras e fechou sua agenda voltando a atenção toda pra mim. – "Tudo tranquilo pela manhã?" - ela me perguntou sorrindo e alcançando o celular a sua frente.
- "Você sabia que SUA filha tem uma queda por jogadores de futebol?" – dei ênfase na palavra e apontei pra ela que riu baixo.
- "Não faça um drama sobre, ela está crescendo" – arregalei os olhos e coloquei as mão sobre o peito como se tivesse levado um tiro. - "Não faça isso, não dificulte pra ela, você tem ideia de quantas mudanças hormonais uma adolescente passa nessa idade, relacionadas a todos os campos do desenvolvimento?"
- "Tenho certeza que você vai me falar..." – Fechei os olhos e soltei meu corpo pesadamente na poltrona caríssima que ela mantinha de enfeite.
- "Não... não vou falar, apenas seja a mãe compreensiva que eu sei que você é capaz de ser." Escutei sua voz se aproximando e quando abri os olhos ela estava em pé ao meu lado, indo consultar a vasta coleção de livros que existia nas prateleiras do seu escritório, meu impulso era sempre tocá-la, me contive.
- "Mas ela é um bebê ainda Maur, ela não pode entrar nem no cinema se eu não for autorizar, como ela pode querer saber de rapazes?"– ela sorriu e inclinou a cabeça como quem sentia quase pena, vendo isso fiz questão de forçar ainda mais meu corpo contra a poltrona, como protesto.
- "Dramática, muito dramática, ela não quer saber de rapazes, ela gosta do Connor, um garotinho inofensivo de 13 anos, que aparentemente gosta dela também." - Maura tinha o dom de tentar me acalmar, era visível na mudança do tom de voz, ele começava natural e de repente se derretia suavemente e ficava baixo e rouco.
- "E porque você sabe disso tudo e eu não?" - ela sorriu e negou com a cabeça como se o que eu falasse não fizesse sentido.
-"Porque você está fazendo um espetáculo grego sobre... por enquanto ela ainda está aprendendo a lidar com os sentimentos dela." - Fechei a cara e me endireitei na poltrona indignada.
- "Eu disse que conversaríamos sobre garotos e ela riu!" – Maura sorriu abertamente deixando o leve som de uma pequena gargalhada saltar, ela me encarou.
- "Talvez seja melhor você esperar a hora do Nick... e conversar com ele sobre mulheres... Que nós duas sabemos que você tem todos os quesitos necessários para a abordagem, Jane Rizzoli." - Senti o peso da resposta no estomago ou um pouco mais embaixo, ela sorriu de forma sedutora e indicou a saída da sala. – "Preciso terminar meus relatórios, , mais tarde falamos, almoço?" - Pisquei e beijei seu rosto maliciosamente, ao sair a deixei sorrindo.
O restante da semana arrastou, não de uma forma ruim, com as crianças na casa de Maura, meus dias se resumiam a trabalho e minhas noites a cerveja, baseball, Dirt Robber e dormir. O pouco movimento na BPD deixava minha rotina lenta e cheia de brechas pra coisas que eu normalmente haveria de abandonar, voltei a correr, ia à academia do prédio e uma vez ou outra durante a semana tomava uma cerveja com os meninos.
-"Você está acordada?' – meu celular apitou quanto abri a porta do apartamento, no meio da semana isso significava que o remédio, a roupa ou o brinquedo predileto precisava de carona. Na tela o nome dela com um etzinho ao lado, ela morria de ódio quando via.
-"Tô! J " – respondi prontamente e nem tirei os sapatos, deixei a chave sobre a mesa e comecei olhar envolta.
-"Quero te pedir um favor? Claro se não for difícil pra você." – tive ainda mais certeza, os meninos quando esqueciam coisas na minha casa nunca me ligavam pedindo, sempre mandavam Maura pedir e eu raramente negava.
-"Qualquer coisa Maur, pode falar." Respondi abandonando o corpo no sofá, meus pés automaticamente foram parar na mesa de centro.
-"Você poderia pegar os meninos na sexta, ao invés de segunda? Se quiser eles ficam a próxima semana comigo, é que vou ter um compromisso no próximo final de semana." – estranhei e fiz careta para a pequena tela.
-"algum problema?" – Comecei avaliar quais as possibilidades para que ela precisasse viajar em um final de semana, nenhuma delas me agradava.
-"Não, vou fazer uma pequena viagem com algumas amigas..." – minhas sobrancelhas subiram e achei curioso, Maura não era de finais de semana com amigas. -Amigas? – provoquei e sorri sozinha ao perguntar.
-"Isso. Tudo bem pra você? – Direta e sem detalhes, essa era Maura.
-"okay, combinamos melhor amanhã."– respondi sem muita consideração, ela tinha planos e estava me falando através de mensagens, não gostei.
-"acho que não encontraremos, é apenas isso, no domingo a noite pego eles se preferir." – de acordo com a tela brilhar mais preguiça eu sentia e me afundava no sofá.
-"Não tudo bem, vamos manter rotina, na próxima semana eles ficam aqui e na outra normalizamos. – de qualquer forma segunda seria meu dia, não tinha razão para joga-los pra lá e pra cá.
-"Jane?" –coloquei o celular de lado e levantei-me, meu dia e meu corpo pediam uma cerveja.
-"hum?" – respondia andando e indo em direção a cozinha, na minha cabeça um milhão de possibilidades.
-"Tem certeza que é tudo bem? Não gostaria de atrapalhar algum plano que você possa ter feito." – sorri com preguiça e neguei tristemente.
-"Não tenho planos Maur, vou aproveitar o tempo com eles. Amanha nos falamos, boa noite, :*" – aquela conversa toda me desanimara e eu só queria deitar, fomos para o quarta eu minha cerveja e o celular.
Sexta feira amanheceu e anoiteceu, como ela previu não a vi, ela havia saído cedo e não gastou mais do que poucos minutos na BPD conforme pesquisei no seu laboratório, era um misto de frustração, curiosidade e algo que eu jamais admitiria em voz alta, ciúme.
Meu dia foi tranquilo, nada de emocionante passava por ali e minha cabeça borbulhava.
Com a falta de novos casos a tendência era sempre desenterrar algum clássico que não havia sido solucionado, eram dias lendo e relendo processos até encontrar uma nova informação.
Esperei o dia passar e no final da tarde sai para buscar os meninos.
Estacionei na porta do colégio como era de costume e Nickolas veio correndo enquanto Alice se arrastava atrás.
-"Nickolas?" – ele estava jogado no banco de trás enquanto Alice começava seus trabalhos no som.
-"Você sabe onde sua mãe vai esse final de semana?"– Era sempre mais seguro com pra ele, aproveitei da distração de Alice e perguntei como que não quer nada, ela era sempre muito dura quando o assunto era meu relacionamento com Maura, sempre tomava as dores da mãe, por se lembrar do que passamos, as vezes eu sentia que ela tinha ressentimento em ralação a mim.
-"ela tem um encontro." – displicente ele falou sem sair do lugar, enquanto procurava o mini game na mochila.
-"Sua mãe viu que você levou isso pra escola? Eeeh Nickolas! Com quem?"– o moleque era m inferno com aquele negócio barulhento e Maura o monitorava o tempo todo, aproveitei a deixa e continuei.
-"Com a Sarah, aquela medica bonitona que vive lá em casa agora" – começou a musiquinha e a irritação que ela me causava aumentou com a resposta dele.
-"O que?!"– quando vi já era, Alice me olhou com olhos julgadores e Nick fingiu que não era com ele.
-"Não seja fofoqueiro Nick, mamãe ficaria triste." – Alice olhou pra trás e empurrou a perna dele que estava entre os bancos.
-"Ele não está sendo fofoqueiro filha, eu perguntei, só achei estranho... só isso." – Olhei pra ela que deu de ombros, totalmente indiferente ou satisfeita com o meu desespero.
-"A Sarah é legal, elas vão com umas amigas para uma casa de campo do vovô." – ela falou mexendo no celular e ignorando minha curiosidade.
-"Huuuuum, entendi." – Direcionei minha atenção para o transito e fiz questão de não voltar mais ao assunto.
O final de semana durou o que parecia um ano, por mais que fizemos nossas atividades, passeios, almoços e jantares o tempos se recusava a passar, na minha cabeça só a figura de Maura, tudo bem que eu não tinha direito nenhum sobre o seu dia a dia, nem mesmo deveria me incomodar o fato dela fazer novas amizades, mas mesmo assim incomodava.
