Capítulo 2
É... Tão difícil!...
Não muda. Não melhora. É sempre fodidamente igual! ...Todo o meu corpo treme, gelado de pânico, cada maldita vez que sequer ouso pensar sobre isso e é-... tão forte... Tão, tão forte, que... Argh... Não sai!-... Tão infernalmente forte, que mal consigo falar...
Isso tudo me perturba de um jeito-...
Eu ainda era pequeno demais Di. Inexperiente demais... Eu não-,... não sei... Ah, é tão, tão, tão fodido, cara-!... Que nem sei como falar disso! Soa tão errado... Tão sujo... E eu sei que não faz sentido, não é mesmo? Porque não faz! Eu já me vendi até! E dá na mesma, não dá? No fim das contas?
'Viver na rua, dando pra quem pagasse', não foi isso que você disse? Se vendendo barato demais, aprendendo a não sentir nada e a ser usado como 'um objeto', só um 'pedaço de carne' a ser comido? ...Mas nunca tive nojo de verdade como você, Di, porque simplesmente eu não sentia mais nada mesmo... Não existia mais dignidade a ser humilhada, não existia raiva ou inocência qualquer a ser corrompida. Só a dor, porque essa... Hah... Essa nunca passou, realmente.
E isso... essas lembranças... Elas... elas machucam mais do que tudo, sabe?
Eu nunca posso realmente fechar os olhos, entende? As imagens nunca me deixam em paz de verdade, sempre vêm, umas sobre as outras, se repetindo e repetindo dentro da minha cabeça!... E as sensações-, Meu Deus-... As sensações e os cheiros, Di!... Às vezes... eu sinto tudo, sonho, lembro... De um jeito tão sadisticamente real que me causa ânsia!
... O tecido grosso do jeans, o algodão, a pele, a dor, o suor... Aquelas... mãos... tocando. E a pressão... e mais, mais dor... O choro preso, o desespero e o cheiro dele impregnado em tudo... e aquele maldito, maldito sorrisinho incontido!... E os-, os gemidos estrangulados... E a minha mãe, logo ali ao lado, sem poder fazer nada sobre isso!... Sem saber de nada!
E eu...
"Não conte a ninguém."...
Ele... aquele desgraçado... Naquele dia, sentou na minha cama, estendendo os braços pra que eu sentasse sobre seu colo... E... E depois daquele dia... Nos posteriores; Todos eles... Depois disso, eu nunca, nunca mais consegui ver essa porra como algo inocente!
Um gesto tão simples não é?... Algo que devia trazer conforto e segurança.
'Pedir colo', 'Receber colo'...
"Você é um menininho esperto, não é mesmo Milo?"
... Não consigo esquecer de como a voz dele saiu meio estrangulada quando disse isso, comigo sentado sobre seu colo. Aquele... calombo, me incomodando... Sem que eu pudesse sair do lugar, com os dedos dele enganchados na minha cintura, fazendo-... fazendo força pra me manter ali!... E eu quase consigo sentir o halito quente perto de mim de novo e eu não quero-, não quero isso; Eu não-...
Não sei se consigo. E-eu não sei...! Ahhhh!... Ele me disse isso, eu sei que disse, mas não sei-, não sei qual foi a minha resposta. Simplesmente não sei!
Quem sabe eu o tenha apenas olhado assustado?... Ou talvez tenha concordado silenciosamente com a cabeça... Ah, isso com certeza justificaria, não é? A forma depravada com que aquele maldito sorriso se alargou antes dele-... descer a mão... sobre a braguilha das próprias calças, desaboto-... desabotoando, como se não fizesse nada de mais... Deus-...!
"Sabe, Mi, mamãe tá trabalhando muito pra fazer você um menininho feliz. Não acha que devia fazer alguma coisa pra mamãe? Pra ela ficar feliz também?"
Hah... Me sinto tão patético de pensar. Pensar que eu não entendi o ponto na época... Mas como eu poderia?! Eu não era-... Não era! Nunca fui, não antes, Di!... Eu não era a pessoa que você conheceu na rua! Pelo menos não até então...
É até difícil de acreditar, mas eu já fui inocente.
Tão, tão inocente...
E a inocência machuca...
"Eu desenho um coração grandãozão pra ela ficá feliz." – sei que respondi isso tolamente e que ele riu aquela risada tão profundamente divertida dele, como se eu tivesse dito algo realmente, adoravelmente, estúpido.
E realmente deve ter sido exatamente isso que ele achou...
"E se o titio te ensinar um jeito de ajudá mamãe?"
"Ajuda pra ela ser feliz?" – sei que perguntei pensando naquilo antes de olhar para a cara dele. Não faço ideia de quaisquer outras palavras que possa ter dito, mas dessas eu tenho. Talvez pela ironia da coisa, uma vez que ele assentiu com a cabeça, concordando.
E eu lembro... de cada fala. Cada maldita palavra... do que ele me disse, mesmo que realmente não tenha mais certeza das minhas. Mas as dele... Estas ficaram marcadas à ferro em mim, me torturando junto ao resto com esse toque de realidade que-... Só... me desculpe se eu estiver soando muito irônico repetindo-as, mas não acho que conseguiria falar de qualquer outro jeito, porque no fim, tudo é uma grande ironia mesmo...
... Ele continuava me prendendo no lugar, mas eu já havia esquecido completamente o jeito desconfortável que estava sentado e... Cara, como consegui ser capaz disso?! Eu estava com medo daquela situação, Di! Do jeito que ele me encarava, como uma maldita ave de rapina! Eu realmente estava... Então, me diz, por que, por que apesar de tudo, ainda assim, eu tinha que confiar?...
"Coisa que dá pra fazê? Ou coisa de aduto? Ela num deixa eu fazê coisa de aduto." – e ele sorriu, tão irônico à isso...
"É... Brincar de luta."
Ele... Segurou nas minhas costas com uma das mãos, mexendo nos meus cabelos com a outra. E... sorriu daquele jeito de novo, quando aquela mão que amparava meu corpo escorregou, lentamente... Infiltrou-se ligeiramente pelo elástico da calça de moletom que eu usava... E... Seu rosto se aproximou de mim. Tanto-...
Não quero-, não quero entrar em detalhes.
Não dá! Não quero ter de pensar nisso!... Sentir de novo-. Isso está me dando náuseas...
Quase não consigo respirar. Não com esse nó estourando na minha garganta! E tudo o que queria agora, era poder desligar essa merda e berrar!... Porque dói ainda. Dói tanto! E eu... pensei. Pensei que fosse ser diferente! Que-...
Que não fosse ser tão difícil falar! Não depois de tanto tempo! Não pelo menos pra uma merda de um gravador! Preferi gravar a escrever Di, porque... Céus... Você sabe como fica minha letra quando fico nervoso, né?
Eu... estou. Nervoso, digo.
Tenho medo de começar aqui, e não conseguir continuar. Ou de não conseguir parar. Nem sei o que é pior! Tudo isso sempre doeu demais aqui dentro, e eu sei que sempre se ressentiu de nunca ter dividido minha dor ou meus pesadelos contigo. Mas minha vida não é, ou sequer foi um dia, interessante como a tua. Só comecei com tudo errado, desde o começo!
Só tudo começou errado. Nenhuma família bem estruturada e amorosa ou qualquer tragédia real pra mudar isso tudo, só... Minha tragédia foi minha mãe ter encontrado meu pai!
Eu nunca fui especial como você é, irmão...
... Estou fugindo do assunto de novo...
Não tenho que falar, tenho? Não necessito dizer o que houve para que fique claro que aconteceu, necessito?
Porque... Ele tirou minha inocência.
Em todos os sentidos, da forma mais vasta, profunda e nojenta possível, sem nem ao menos ter a decência de ser realmente explicitamente odiável.
Eu... tive medo o tempo todo... E, como aquilo doía! E eu chorei todo o tempo e só-, só queria que aquilo parasse... Eu queria a minha mãe! Mas mesmo assim... ainda assim-... Ele... só falava baixinho para mim, dizendo-... Dizendo que tudo ia ficar ok e que eu 'estava indo tão bem'!... Para eu não fazer barulho, porque só se eu não fizesse barulho eu conseguiria ajudar minha mãe como... Como eu queria-... Droga!...
... Que... Eu era lindo, e agora, eu era dele pra sempre.
Que aquilo era carinho.
Mas carinho não devia doer, devia? Devia machucar? Envenenar por dentro e te fazer sentir horrível como eu me senti?...
... Quando... ele acabou... ainda me pôs contra o próprio peito, mesmo que eu não quisesse mais ser tocado de jeito nenhum, e... acariciou meus cabelos com cuidado, dando um beijo na minha testaainda antes de me carregar para o banheiro!...
Dizia o tempo todo... enquanto me dava banho, que eu 'tinha ido muito bem'... Que minha mãe ficaria orgulhosa por eu ser tão mocinho. Que aquilo era uma coisa especial e que me faria muito feliz, mas que aquilo também era nosso segredo.
"Não conte a ninguém."...
Não consegui dormir aquela noite. Não conseguia ficar na minha própria cama. Eu não-. Eu não sabia o que era aquilo! O que ele tinha feito comigo; mas eu soube que era aquilo que eles faziam com a minha mãe. Todos aqueles homens...
Por isso ele tinha falado de ajudá-la.
(TBC)
