Jared encarou o filho pelas grades sem dizer nada. Mark apenas suspirou já esperando algum tipo de discurso ensaiado, cheio de moral e falando do quanto seu castigo seria eterno e cruel. O oficial da polícia ao lado de Jared não se mexeu. Nick, na cela ao lado apenas observava curioso.
- Pai, eu posso...
- Eu não sei nem por onde começar. – Jared esbravejou com o filho o interrompendo. – Eu ainda estou pensando. E você vai ficar aí até eu descobrir. – Jared concluiu sem tirar os olhos do filho, que suspirou frustrado.
- Eu não devia ter brigado, eu sei.
- VOCÊ NÃO DEVERIA NEM TER SAÍDO DE CASA! – Jared gritou sem se importar com o lugar onde estava. Mark baixou os olhos, não tinha um bom argumento muito menos uma boa explicação.
- Você tem razão, ok? – Ele respondeu escolhendo as palavras. – Não vai mais acontecer, pai, me desculpa. Podemos ir pra casa?
- Se eu não achasse tão antiético, eu mesmo ia te dar uma surra, moleque. – Jared dizia com os dentes cerrados. – Você por acaso sabe qual é a porra da sensação de se estar trabalhando e alguém ligar dizendo que seu filho está na delegacia e você tem que ir buscá-lo?
- Pai...
- Não! – Jared novamente não deixou o garoto falar. – Você não sabe, seu pirralho, porque você não tem filho! – Jared se aproximou mais da grade da cela de Mark. – E se você não fosse um completo irresponsável, eu te mandaria ter um pra você saber como é!
- Eu entendi, pai! Ok? – Mark falava agora um pouco mais alto. – Podemos, por favor, falar sobre isso em casa? – Era óbvio que o garoto estava sem graça por tomar esporro na frente dos outros.
- É. – Jared ainda dizia furioso. – Pode apostar nisso.
Ele disse e se afastou da porta da cela dando espaço para o policial abrir, deixando Mark passar.
- Senhor Padalecki? – O delegado apareceu à porta do corredor de saída chamando pelo moreno.
- Sim. – Ele respondeu tentando controlar o tom de voz.
- Senhor Ackles infelizmente está no meio de uma cirurgia. – O delegado se aproximou deles. – Vou fazer a gentileza de deixar Nicholas sair sob sua custódia, espero que não seja um problema para o senhor.
- Não, tudo bem. – Jared respondeu olhando um Nick nada surpreso. Seu pai trabalhando, que novidade. – Pode me explicar onde é sua casa e eu te levo. – Ele concluiu olhando o loiro que saía pela porta da cela aberta pelo policial.
- Sim, senhor. – Foi a resposta do colega de Mark.
Todos seguiram para fora da delegacia depois de assinarem alguns papéis. Os garotos não foram fichados, o delegado quis mesmo que eles aprendessem a ter um pouco de responsabilidade do jeito mais difícil.
O Corvette de Jared estava estacionado diante da delegacia e logo Mark pulou no banco da frente e Nick no de trás. Era tarde, madrugada, por volta já das duas da manhã.
- Belo carro, senhor Padalecki. – Nick disse e Jared apenas acenou com a cabeça em agradecimento enquanto dava partida no carro.
- Não é o seu Jaguar, mas... – Mark comentou olhando o colega pelo retrovisor.
- Seu pai te deu um Jaguar? – Jared mal acreditava no que tinha ouvido.
- É. – Nick respondeu um pouco sem graça já que havia percebido o tom de reprovação de Jared. – Quando tirei a licença...
- Um Jaguar? – Jared olhou de relance pelo retrovisor.
- Sim. – Nick respondeu tímido. – É um bom carro.
- É, pode apostar. – Jared riu ligeiramente irônico.
- Onde você o deixou? – Mark perguntou. – Digo, você foi a festa com ele, certo?
- Steve pegou pra guardar pra mim. – O loiro respondeu lembrando-se do que seu amigo lhe disse enquanto ele e Mark eram levados pela polícia. – Espero que ele não tenha bebido demais...
- Vocês estavam bebendo? – Jared perguntou olhando para Mark por alguns segundos e em seguida voltando a olhar a estrada.
- Muito obrigado, Ackles. – Mark disse virando-se para trás para olhar Nick. – Quando nossa situação não pode piorar...
- Era só cerveja, senhor Padalecki. – Nick respondeu tímido.
Jared suspirou. Em sua mente, ia trancar Mark em casa e nunca mais deixa-lo sair, até ele criar juízo. Não respondeu, não iria de nenhuma maneira recriminar o filho dos outros, isso não era trabalho dele e ele não tinha sequer esse direito. Nick tinha um pai também, que se resolvesse com ele, Mark já lhe dava trabalho o suficiente.
Conversaram durante o caminho, nada muito tenso, mas Jared tomou a liberdade de dar alguns conselhos a Nick, que obviamente se estendiam a Mark, mas o garoto já estava cansado de ouvir aquilo e demonstrava isso apenas suspirando e revirando os olhos.
Depois de alguns minutos andando pelo centro e vários outros bairros de Nova York, Nick explicou o caminho até seu endereço para Jared. Queens não era exatamente um bairro onde Jared ia muito, mas sabia onde ficava e o tipo de pessoa que morava lá.
Algumas quadras à frente da rua em que estavam e Nick mostrou sua casa. Branca, enorme, com duas garagens e dois andares.
Jared parou o Corvette em frente à casa e Nicholas saltou.
- Obrigado senhor Padalecki. – O loiro respondeu educadamente, enterrando as mãos nos bolsos do jeans.
- De nada. – Jared respondeu tranquilo. – E... Nick, você tem uma vida incrível... Não estrague tudo, certo? – Jared tentou parecer mais um amigo do que o pai do amigo.
- Tudo bem. – O garoto respondeu encolhendo um pouco os ombros. – Te vejo na escola, Mark?
- É. – O moreno alto respondeu um pouco mal humorado. – Acho que não temos muita escolha quanto a isso. – Ele terminou a frase sem olhar Nick, que apenas sorriu de canto.
- Boa noite. – Jared disse enquanto o garoto se afastava.
- Até.
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O silêncio reinou no carro durante todo trajeto até chegar em casa. Mark não disse uma palavra e nem Jared. Eles entraram em casa e, assim que Jared trancou a porta, Mark estava pronto para ir ao seu quarto.
- Onde pensa que vai? – Jared jogou as chaves do carro em cima da cômoda ao lado da televisão.
- Pro meu quarto? Pra sempre? – Mark ironizou.
- Olha aqui, Mark Louis Padalecki, já chega. – Jared tinha perdido o último resquício de paciência que lhe restava aquela noite. – Você não tem motivos pra ser um adolescente rebelde total e completamente sem causa! O que é que está te faltando? Um Jaguar? – Jared foi sarcástico. – De que mais você precisa? Eu passo todas as noites naquele maldito bar pra poder te dar uma vida decente e é assim que você retribui? Me desobedecendo e me fazendo te buscar em delegacia? Que porra está acontecendo com você?
- Nada! – Mark falou alto, irritado. – Pare de me tratar feito criança, pai!
- Então pare de agir como uma!
- Eu vou morar com a mamãe!
- É, claro que vai. – Jared riu irônico. – Como se isso fosse acontecer.
- Vai fazer o que? Me trancar aqui pra sempre?
- Eu tenho a sua guarda!
- Eu tenho dezesseis anos, pai!
- POIS ESTÁ PARECENDO QUE TEM DOZE! – Jared gritou dessa vez. – Desde quando você me afronta dessa forma? E qual seu problema com aquele garoto? Ele me pareceu uma ótima pessoa.
- Ah me desculpe se não sou seu Nick Ackles! – Mark realmente ficou furioso agora. – O garoto perfeito que todas as meninas querem e a escola toda idolatra! Porque dirige a porra de um Jaguar e tem um pai que é médico.
Jared massageou as têmporas, tentado se acalmar. Havia meses que Mark estava mais rebelde que o normal e ele definitivamente se perdia cada vez mais que tentava entender. O garoto passou as mãos pelos cabelos e tirou a jaqueta de couro.
- Vá pro seu quarto. – Jared disse resignado. – E só saia de lá pra ir à escola.
- Ótimo. – o moreno alto saiu da sala e bateu a porta do quarto após entrar. Bom, estava aí outra coisa que estava deixando Jared irritado: as frequentes batidas de porta.
Jared suspirou exausto. Tinha até mesmo esquecido o violão no carro, mas agora não tinha a menor vontade de descer pra buscar. Ele sentou-se no sofá não muito confortável da sala e passou as mãos pelo rosto e cabelos. Pensou que Mark certamente iria trocar de roupa e dormir, ia passar o final de semana em casa nem que ele tivesse que colocar um cadeado na porta do quarto do garoto. Mas ele nunca poderia sentir nem metade do que Jared sentia. Com certeza ter que fazer isso doía mais nele do que em Mark.
Ligou a televisão e ficou vendo um filme até o sono chegar. Não que ele tivesse prestando muita atenção na história, estava mais preocupado com o filho. Lembrou-se de seu próprio pai dizendo milhares de vezes que filhos mudam suas vidas. Ele realmente não acreditava muito naquilo até seu garoto nascer. E quem diria que aquela pequena pessoa que uma vez era ninada em seus braços, agora de repente tornara-se um adolescente problemático.
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- NICHOLAS... – Jensen tinha chegado em casa e, pelo tom de voz, não importava que já se passava das quatro da manhã. – JACOB... – Ele jogou as chaves do carro em cima da mesa de centro da sala e subia as escadas até o quarto do filho. – ACKLES!
Impossível não acordar com seu nome completo dando eco dentro da casa. O loiro acordou de um sono não muito profundo de qualquer forma. Tinha tomado um banho e estava apenas de samba-canção branca sentando-se na cama, esperando o furacão Ackles entrar pela sua porta.
- Delegacia? Eu vou é te encher de porrada! – Jensen tinha um olhar de quem definitivamente seria capaz de cumprir sua ameaça. – Ficou louco? – O loiro enfurecido bateu a porta do quarto do filho com força.
- Foi mal, pai. – O garoto falou baixo, ainda sonolento.
- "Foi mal, pai"? VOCÊ ESTÁ DE BRINCADEIRA COM A MINHA CARA, seu irresponsável? – Jensen gritou se aproximando da cama. – Primeiro, você estava completamente proibido de deixar esta casa! Como foi parar numa festa? – Ele cruzou os braços esperando uma explicação.
- Fiquei entediado em casa, ok? – A resposta não foi muito sincera quanto menos uma explicação convincente.
- Você ficou... – Jensen mal acreditava no que ouvia. Passou as mãos pelo rosto. – Você quer me enlouquecer, garoto? Sabe o que é você sair da sala de operações e alguém lhe dizer que seu filho foi preso?
- A gente não foi 'preso', pai...
- Ah não? E foram fazer o que? TURISMO NA CADEIA? – Jensen gritou e Nick revirou os olhos achando tudo um drama desnecessário.
- Ok, pai, eu errei, certo? Não deveria ter ido à festa e principalmente não deveria ter brigado com Mark. – Nicholas admitiu agora um pouco mais desperto. – E tudo bem se quiser me castigar em dobro.
- Quer saber? Isso é minha culpa. – Jensen dizia a clássica frase de todos os pais e mães do mundo. – O que te falta? Eu te dou tudo que você quer! – Ele parou de falar, como se pensasse por um segundo. – E talvez seja exatamente esse o problema...
- Pai...
- Não, nada de 'pai'... – Jensen fez uma pausa e pareceu ter uma grande ideia. – Cadê seu Jaguar?
- Está com Steve. – Nick fez cara de poucos amigos.
- Certo, amanhã você vai buscá-lo e entregará as chaves pra mim. – Jensen disse decidido. – Vai ficar sem carro até eu achar que você o merece de volta.
- E como vou pra escola? – Nicholas perguntou como se fosse um grande problema.
- Igual aos outros garotos que não tem carro. – Jensen nem precisou pensar muito na resposta.
- Não tem chance de eu pegar o ônibus. – Nick riu sarcástico.
- Então você vai a pé. – Mais uma vez, o médico não precisou pensar.
Jensen deu as costas e preparava-se para sair do quarto.
- PAI! – Nick estava pronto para reclamar e protestar mais uma vez.
- Uma reclamação a mais e diga adeus ao seu notebook também. – Jensen esperou alguns segundos para ver se o garoto respondia, mas Nick não disse nada. Apenas voltou a deitar-se na cama após um longo suspiro. – É, foi o que eu pensei.
Jensen fechou a porta do quarto do filho e desceu as escadas, arrasado. Não gostava de ter que privar o filho das coisas que ele gostava por mais que fossem superficialidades. Mas dessa vez o garoto ultrapassara todos os limites e, definitivamente, ele estava muito mais magoado pelo filho o ter desobedecido e saído de casa, do que ter ido parar numa delegacia.
Bem, isso o fez lembrar que teria que ligar pro tal Padalecki para agradecer por ter deixado seu filho em casa. O que não era igualmente boa coisa, já que tinha algo naquele homem que o incomodava. O incomodava o fato de sentir isso sobre uma pessoa que mal conhecia e provavelmente só estava descontando o problema que era somente de seus filhos.
Mas pais eram pais. Filhos vêm primeiro. Pais geralmente não tem vida social e nem vida própria antes que seus filhos tenham as deles.
Jensen tirou os sapatos brancos, abriu alguns botões da camisa e tirou o cinto. Ele andou até o frigobar que tinha na sala e serviu-se de um pouco de whisky. O controle remoto do som estava em cima do balcão e ele apertou o botão que ligava o aparelho. Fechou os olhos e respirou fundo enquanto "With a little help from my friends", dos Beatles, começava a tocar baixinho. Já começava até a se sentir melhor com a melodia de sua banda preferida e com a bebida que esquentava seu peito.
A sala estava à meia-luz, apenas com um abajur ligado perto do sofá de três lugares, ao lado, deixava uma iluminação bonita do quadro de Danneel Harris. A ruiva com um sorriso aberto parecia extremamente feliz na foto.
- Também sinto sua falta. – Jensen sussurrou olhando pra foto. – Você não faz ideia. – Ele saiu de onde estava após servir-se de mais whisky, e sentou-se no sofá ao lado da foto. – Sabe o que seu filho fez hoje? É, provavelmente sabe... – Não era incomum pra ele 'conversar' com a imagem da esposa. – Delegacia, acredita? É, nem eu... – Ele tomou mais um gole da bebida. – Eu sei, eu sei que a culpa não é do Jaguar... – Ele deixou o copo de lado e passou as mãos pelo rosto. – Queria mesmo que você estivesse aqui, tenho certeza que seria bem mais fácil, Dan...
Não demorou muito para que Jensen pegasse no sono ali mesmo no sofá. Tivera um dia cheio, estressante e era mais do que natural que seu corpo clamasse por descanso.
Do alto da escada do segundo andar, Nick observava seu pai adormecer de cansaço. Ficou realmente triste ao perceber que ele realmente sentia falta da esposa. Deu meia volta e voltou ao seu quarto fechando a porta com cuidado. Talvez seu pai estivesse sozinho demais, seria bom se encontrasse alguém. Mas como ele iria encontrar? Vivia trabalhando e, aparentemente, seu filho era um péssimo filho.
Lembrou-se de Mark. Talvez ele e o garoto tivessem mais em comum do que ele pensava. Ambos criados por pais solteiros, ambos pareciam estar dando bastante trabalho, ambos gostavam de futebol e eram bons naquilo. E agora eram quase colegas de cela. Nick esboçou um sorriso ao lembrar-se da expressão marrenta do colega, do cenho franzido. De repente, se deu conta de que ele fazia aquela cara constantemente.
Mas por que mesmo que ele estava pensando naquilo?
Dormir. Certo.
Ele virou pro lado e logo pegou no sono, afinal, já passava das quatro e meia da manhã.
