Olá, gente! Como foi o carnaval de todas? Espero que tenham se divertido. Divirtam-se também com mais um capítulo dessa romântica história!
...
Haruno Sakura abriu a porta de sua casa, ouvindo o chato ranger desta.
- Já estou aqui! – sua voz soou como um eco, na manhã de sábado, depois de Sasuke ter lhe deixado em sua porta. Não havia ninguém e Sakura não achou estranho, pois só viviam lá ela e sua mãe, a quem somente via no final da tarde depois do trabalho.
Sakura entrou, tirou o casaco, deixando-o no encosto de uma cadeira na sala de jantar e foi para seu quarto. Ela desabou na cama e ligou a TV só para ter um pouco de barulho na casa. O silêncio não era algo que ela particularmente gostava. Tirou o celular do bolso da calça, deixando-o no criado-mudo e olhou-o por alguns instantes como se estivesse esperando por algo.
Desde a saída abrupta da casa de Sasuke e por todo o caminho, o diálogo com ele se tornou tão seco e distante, como se houvesse uma barreira de gelo entre eles. Barreira que os separava intangível, embora ele a segurasse pela mão.
E, no entanto, o toque da sua mão também se afastou.
Talvez ele tivesse problemas como havia argumentado o seu irmão Itachi. Problemas que não implicasse ela.
Sasuke estava tomando as tempestades e catástrofes da vida como uma luta individual. E ela apenas permanecia para ficar lá, se ele precisasse levantar os pedaços desmembrados resultantes de suas batalhas. E isso era algo que ela gostaria, só para lhe dar a chance.
Um ano e meio e ainda havia dois semestres na escola...e uma vida juntos.
Essa idéia a fez sentir um caloroso arrepio em todos os poros de sua pele como quando recebeu seu primeiro beijo. Embora surpresa ao constatar que eles já estavam perto de cumprir dois anos de namoro, Sakura (pelo menos ela) ainda tinha aquele sentimento idiota de borboletas no estômago e a tímida gagueira de qualquer estudante. No entanto, uma sensação dentro dela, sentiu que "algo especial" estava começando a vazar lentamente como o gás de um refrigerante.
Para a rosada era quase normal e cotidiana a telegráfica comunicação de Sasuke, mas ela podia sentir que ele se tornara mais inexpressivo. Suas últimas saídas consistiram em pequenas pausas para um café, longe da área central de Konoha, ou em casa. E cinco vezes, de repente saiu de casa, indo apressar o passo para quem sabe onde.
Bendita intuição feminina, embora não tenha sido tão abençoado o momento em que chegou! Ainda que fizesse seis meses desde que certo fato desagradável ocorreu, não dava para esquecer. Como todas as lembranças negativas que são as mais difíceis de apagar.
Foi num dia em que saíram mais cedo da aula; Sasuke a acompanhou até sua casa, como de costume. Depois de se despedir, ela se lembrou de ter deixado um de seus cadernos de anotações na mochila do namorado. Um costume que, desde então, Sakura passou a evitar. Sasuke parou, e sem lhe dar tempo de descer a mochila do ombro, Sakura abriu a bolsa e encontrou o livro tão logo deslizou o zíper. Havia no meio dois livros revestidos de forma desajeitada, meio maço de cigarros sem filtro consumido e o que parecia ser uma camisa, dobrada de qualquer jeito e amarrotada. Ela pegou o livro e a camisa. Estendeu-a sem que Sasuke percebesse e encontrou algumas manchas vermelhas perto da gola. "Batom", ela estranhou, pois nunca tinha usado um tom vermelho. A recordação daquela tarde voltou a se repetir em sua mente agora.
Sasuke estava saindo com mais alguém?
Ela balançou a cabeça, tentando afastar as nuvens da tempestade que ameaçava torturá-la naquela manhã. Não valia a pena. Ela nunca faria isso com Sasuke, então por que ele faria semelhante sacanagem com ela?
Não era o melhor homem do mundo, nem mesmo tentava ser, porém, ela o amava.
Por outro lado, talvez Itachi pudesse lhe falar sobre isso. Esse tipo de sensações estranhas e idéias que lhe vinham à mente eram adequadas para se conversar com alguém. Contudo, não com qualquer pessoa como Ino porque esta era muito exagerada por vezes, e com um humor que poderia causar uma tempestade num copo d' água. Quanto a Hinata, bem, ela só poderia lhe aconselhar algo como "falar com ele."
Não. O melhor seria falar com Itachi, ele iria lhe dizer. Ela sentia que poderia sempre falar com ele. De certo modo, ele era como Sasuke, não era dado a extensos comentários, mas ao contrário de seu irmão mais novo, sempre ouvia. De ouvir a "simplesmente escutar" havia uma diferença enorme. E de alguma forma, sentia-se confiante na sua companhia.
"Quem dera que Sasuke fosse um pouco mais sensato ... como Itachi-kun", pensou vagamente e sem querer suspirou com um sorriso quase invisível em seus lábios.
Ela reprimiu um bocejo e olhou para o celular, mudo e imóvel em sua mesa de cabeceira. Esperando talvez alguma chamada de Sasuke.
Enterrou a cabeça em seu travesseiro. O telefone não tocou no resto do dia.
-0 -
Itachi tamborilava os dedos distraidamente sobre o colchão, olhando para o relógio na mesa de vez em quando, com uma repetição, que parecia ter se tornado uma marca nos últimos quarenta minutos. Rígido como um cadáver deitado, olhava para algum ponto no teto.
A hora da meia-noite e meia estava marcada na tela do relógio.
Aquilo que Shisui sugeriu como "esticar as pernas", não foi mais além do escândalo armado por ele no "Ichiraku", onde só passaram uma hora e, eventualmente, foi Itachi quem conduziu, uma vez que Shisui alegou ter outra de suas "enxaquecas mortais."
Depois de deixar em segurança um Shisui trêmulo, Itachi voltou para casa, tomou um banho rápido e trocou de roupa para usar outra um pouco mais formal: blazer azul marinho e calça social. Ele chegou dez minutos antes do horário no aeroporto para buscar os pais e enfrentou um monte de perguntas repetitivas do seu pai sobre o paradeiro de Sasuke, respondendo do seu modo monossilábico. Quando chegaram em casa, encontraram o moço deitado confortável e casual no sofá da sala.
Até ali tudo bem.
O jantar tão anunciado não ficou aquém de qualquer coisa que pudesse ser considerado como o mais importante evento do ano. Itachi já sabia que a sensação de exagero não tinha limites nem para o seu pai durante essa conversa. Simples trivialidades entre Uchihas como a aquisição de novas ações no mercado financeiro, a expansão das agências de Madara e fofocas assim. Tudo ia bem até o momento em que Madara-sama, com aquela expressão de orgulho, anunciou sua aposentadoria no futuro, afirmando que já estava com quase cinqüenta anos e tinha feito tudo o possível e o impossível pelo nome Uchiha da empresa. Não era uma notícia exasperante pelo simples fato de Madara deixar a direção geral para Fugaku preencher a vaga e, conseqüentemente, a sentença de que Itachi coordenaria totalmente a administração geral.
Mais obrigações. Mais esforços. Mais preocupações. E menos tempo para ele.
Talvez isso não fosse tão ruim, não é? Com poucas chances de estar em casa, seriam raras as ocasiões em que veria Sakura e cada vez mais reduzidas possivelmente para nada. E isso seria benéfico completamente para ele tirá-la da cabeça.
Não é isso que ele queria?
Uma hora da manhã.
E o som que o perturbava. A poucos metros do corredor, fora do seu quarto, ele ouvia a voz de seu irmão. E palavras quebradas foram ditas com sua apatia habitual.
"Este idiota e seu telefone celular estúpido", ele disse a si mesmo, reconhecendo a atitude peculiar de Sasuke no bate-papo com quem fosse que estivesse do outro lado da linha.
- Já disse que não ... – resmungava o irmão dele no quarto ao lado. Houve um silêncio forçado, seguido por dois "não". Outro silêncio e logo o que estava esperando ouvir, o estalido final – Esquece isso! É a minha vida e o que eu faço ou deixo de fazer não te interessa! Pare de me incomodar!
Outro silêncio. Itachi supôs que Sasuke foi quem cortou a chamada e, provavelmente, à sua maneira "delicada".
Deixaria isso de lado. Já tinha dilemas demais na cabeça para se preocupar com a bagunça que era a vida de Sasuke.
-0 -
Sasuke.
Sakura limpou a lágrima solitária que escorria pelo rosto. O sentimento ainda da dor a apertava por dentro, mas procurava controlá-lo. Ela já tinha passado a noite toda chorando e soluçando.
Seu telefone ficou em silêncio durante todo o dia anterior e estava preocupada; havia dado quase dez horas da noite e então ela ligou para ele. A linha caiu na caixa postal, o que a mortificou mais. E se alguma coisa tivesse acontecido?
Esse foi o estopim para continuar ligando sem cessar, não se importando com o adiantado da noite. Finalmente, a voz seca e monótona de Sasuke atendeu. Perguntas feitas por ela. Respostas monossilábicas dele até que se impacientou e gritou-lhe.
Nunca lhe havia gritado assim. E foi nesse momento, inconscientemente pelo pouco diálogo que Sasuke impunha, que ela fez a pergunta que tanto tempo havia temido fazer. Estaria ele brincando? E o batom no colarinho da camisa? Disse tudo ... e Sasuke respondeu. Foi isso que causou a tempestade. Não o tom de voz ... mas a resposta em si.
"É a minha vida e o que eu faço ou deixo de fazer não te interessa!"
Uma lágrima a mais quis rolar para fora do seu olho direito. Não deixou que saísse.
- Você vai tomar café da manhã ou quer que eu pendure seu prato e sua xícara na parede do seu quarto ? – ironizou sua mãe, olhando-a pensativamente – Está tudo bem?
Sakura levantou os olhos da xícara quase cheia de cereal. Desenhou na face um sorriso falso.
- Eu não estou com fome – disse.
Haruno Hanako viu sua filha com uma expressão que transparecia preocupação e perplexidade. "Adolescentes, sempre dramatizando as coisas", pensou.
- Você sabe, é domingo – disse Hanako – E a gente não passou muito tempo juntas. Que tal se você comprar um pacote de sementes para o cultivo e me ajudar com o jardim? Está um deserto lá fora.
Sakura assentiu com a cabeça. O que ela precisava agora era sair. Um pouco de ar fresco sempre melhorava tudo, ajudava curar as feridas e pensar com clareza.
Seria bom, mas interiormente protestou que significava ir até a loja e ouvir os comentários insípidos de Yamanaka Ino, sem dúvida.
No entanto, concordou.
-0 -
- Bem, bem ... Então agora você quem vai ditar as regras na empresa, né? – Shisui deu um tapinha nas costas com tanta força que Itachi quase cospe os pulmões sobre a mesa – Caraca, que sorte a sua!
- Ah, cala a boca! – Itachi praguejou, olhando para ele com uma expressão assassina no rosto – Não estou de bom humor.
- Que novidade! Você nunca está mesmo – riu Shisui cínico. Ele bebeu o último gole de refrigerante que lhe tinham servido – Ânimo, homem. Para a próxima semana, se você se levantar com o pé esquerdo pode tranquilo despedir um monte de inúteis da empresa indo da esquerda pra direita, se quiser.
- Sim, começando com você - murmurou Itachi bebendo o que restava de seu refrigerante.
Shisui lhe socou no braço em resposta a esse comentário tão lisonjeiro. Era quase onze horas da manhã de domingo, mas parecia mais tarde por causa do calor. E Itachi pretendia ficar durante todo o dia vegetando na cama e tentando concentrar seu pensamento na pequena mancha do teto do seu quarto; queria pensar em qualquer coisa que não fossem os dias de tensão que se aproximavam por conta do cargo a que fora promovido ... ou que não fosse ela.
Até que a campainha tocou na entrada e apareceu Shisui para uma visita inesperada. Estava curioso sobre o jantar exclusivo da noite passada.
- E imagino que Sasuke voltou a se esquivar de responsabilidades, não é?
-Hump – Itachi assentiu – Me lembre de alguma vez em que ele não fez isso.
E Shisui foi cuidadoso para não perguntar mais. Ele sabia bem, a julgar pelos comentários mal-humorados de seu primo, que o relacionamento entre irmãos não era dos melhores.
- Bem, já tá na hora de ir – disse Shisui após um silêncio constrangedor – É quase meio-dia e eu acho que você vai querer descansar pra o início de uma nova jornada que começa amanhã às seis horas da manhã. Meus sinceros pêsames, primo.
O moreno encolheu os ombros. Shisui se despediu de sua tia Mikoto. E Itachi o acompanhou apenas com o pretexto de sair.
-0 -
- Ainda falta meia hora para as doze – Itachi murmurou enquanto caminhavam a passos lentos entre a rua movimentada – Desde quando você tem coisas pra fazer que não seja ficar bêbado?
Shisui sorriu orgulhoso.
- Tenho um compromisso com Ayame-chan – expressou com ar superior
- A garçonete do Ichiraku's?
- Tá aí, você vê, nem todos da empresa somos antisociais. Ela é uma mulher muito bonita quando não fala muito, é claro - Shisui jogou as mãos nos bolsos - E cá entre nós, não tem como negar como ela fica sexy com o avental do uniforme tão apertado na cintura.
- Humpf.
O rosto de Shisui se abriu numa expressão de zombaria.
- Sabe do que você precisa, priminho? De mulher. Precisa encontrar uma namorada e dedicar algum tempo pra ela. Tenho certeza que deve haver mais de uma dúzia de meninas que aceitariam sair com você sem pensar duas vezes – Shisui voltou seu olhar para o chão e começou a sussurrar - Já se passaram quatro anos desde que você e a Hana terminaram, eu acho que tá na hora de superar.
Mulheres, justo o que não queria falar, Itachi pensou sarcástico.
-Não é a Hana – ele exalou quase sem perceber.
Shisui levantou uma sobrancelha.
- Então?
- Nada.
A conversa foi cortada, no momento em que pararam diante da casa de Uchiha Shisui.
- Ok, você é quem sabe – disse Shisui abrindo a porta e olhou de soslaio para o primo – Mas tenho certeza que uma companhia feminina te faria muito bem.
- Humpf, ter uma namorada não vai me mudar em nada - garantiu Itachi - Até amanhã.
Ele se virou indo pela mesma rua, ladeira acima. Refutou a idéia de retornar à sua casa.
A atmosfera ficaria muito carregada devido a seu pai que agora estaria sobre seus ombros.
Não, não queria voltar pelo menos por umas duas horas.
Ele andou com marcha lenta e hesitante. As pessoas ao redor dele vinham e iam cada um com sua própria vida, problemas e alegrias pessoais.
Um casal feliz de mãos dadas passou ao seu lado. A moça mostrava uma expressão serena enquanto caminhava com seu companheiro numa atmosfera leve e equilibrada entre eles.
Por um instante, breve e fugaz, Itachi os invejou. E se lembrou do último comentário de Shisui sobre ele ter alguém. No fundo, talvez estivesse certo.
Uma companheira.
No entanto, seus desejos ou intenções de ter alguém ao seu lado tinham desaparecido depois do incidente com Hana. Doeu, ele não podia negar, embora seu caráter não se houvesse manifestado. Ele havia sido enganado, ferido e o machucado ainda sangrava por dentro.
E se o tempo cura tudo, não foi o suficiente para terminar de cauterizar a ferida que havia e que deixou um rasgo enorme. Difícil de esquecer, a não ser por ...
Não. Não Haruno Sakura.
Não podia ser, simplesmente porque ia contra a moral, seu código de honra e lógica; não poderiam serem postos de lados em uma batalha emocional. Moralmente, ele não podia porque a jovem era a namorada de seu irmão; não importava o quanto orgulhoso, irreverente e idiota fosse Sasuke, era seu irmão. Afinal, o sangue sempre falava mais alto do que qualquer outra coisa. Além disso, Itachi acreditava que Sakura não poderia ver nada demais nele.
Ela estava apaixonada por Sasuke e namoravam há quase dois anos. Que oportunidades ele teria contra isso?
"Eu preciso esquecer", pensou distraidamente olhando para as vitrines. Ele parou em um ponto da calçada esperando para atravessar a rua enquanto o semáforo indicava a luz verde dando passagem para os veículos. Havia outros pedestres como ele aguardando.
- Itachi-kun.
O homem de cabelos negros e amarrados se virou para a direita. O som vinha de trás. A voz se destacou do burburinho das pessoas. Suave, melodiosa. Seu olhar desinteressado vagava entre a multidão, e encontrou-a a poucos metros de onde ele estava.
Haruno Sakura o observava da porta de um estabelecimento comercial. Ela carregava uma sacola de compras e usava uma camisa vermelha de mangas curtas e calça jeans desbotada. O sol batia em seu rosto destacando a cor creme de sua pele.
Adorável.
Seu primeiro impulso foi ignorá-la. Fazer como se não tivesse lhe ouvido e seguir em frente. O sinal mudou de verde para vermelho e as pessoas ao redor se deslocaram, mas ele ficou quieto. Estupidamente ainda, como se seus pés tivessem sido colados ao pavimento.
- Sakura-san – respondeu ele, sentindo-se um pouco mais calmo. Era raro chamá-la pelo sufixo "san", uma vez que refletia uma relação marcada e uma certa propriedade.
Usando esse termo, denotava uma ligeira barreira contra uma possível relação de maior intimidade entre eles que talvez impedisse uma aproximação desembaraçada por parte dela, pois ele já sentia um nervosismo desnecessário. E embora seu rosto não expressasse qualquer coisa, ele sentiu que estava começando a fazer mais calor do que deveria.
Sakura foi direto até ele. Itachi é quem deveria tomar a iniciativa de fazê-lo, naturalmente, porém, suas pernas pareciam ter se rebelado contra ele.
- Olá! – sua voz parou de tremer e ele fingiu uma neutralidade que não existia
O rosto suave e macio da jovem mostrou de modo sutil uma expressão angustiada que Itachi sentiu de imediato.
- Olá – ela sussurrou. Houve também uma pausa em sua voz. Abaixou o rosto, como se o contato visual fosse imprudente. Respirou fundo tentando abafar um soluço – Você está indo pra casa?
- Humpf – ele afirmou disse - Por quê?
Não houve resposta. E então, o nervosismo do moreno sumiu e reagiu por reflexo de um modo que surpreendeu a ele próprio: diminuiu o espaço pessoal entre eles e com sua mão agarrou suavemente o queixo de Sakura. Levantou o rosto dela para fitá-lo, observando seus olhos piscando mais do que o habitual, sob a película transparente de umas lágrimas quase a caírem.
- Sakura, aconteceu alguma coisa? - ele a inquiriu, disfarçando sua preocupação num tom quase neutro.
Ela não disse nada. Sua voz tinha congelado, mas seus olhos diziam tudo o que ele precisava saber.
Itachi olhou para o pequeno parque que estava do outro lado da rua onde eles se encontravam. Com sua outra mão pegou a sacola que ela carregava. A mão que tocava o rosto dela desceu rapidamente em direção aos dedos da jovem, segurando sua mão com firmeza, mas sem pressão e foi caminhando junto com ela. Sakura nada disse. Apreciou o contato daquela mão forte, apertando-a como um naufrago que se afoga e agarra-se desesperado num salva-vidas no meio do nada. Voltou sua atenção para o chão sob seus pés.
O ambiente estava calmo e uma grande sombra cobria quase toda a área. Sakura sentou-se no canto de um banco. O rosto estava escondido entre as mechas de seu cabelo liso. Sua mão não se soltou e ele também não queria isso.
- O que está acontecendo? - perguntou em voz baixa se sentando ao lado dela. Embora a questionasse, ele fazia alguma idéia da causa. Sem dúvida, o nome de seu irmão estava impresso sobre a questão.
Sakura olhou para cima, observando seu rosto refletido na escuridão dos olhos atentos de Itachi.
- Sasuke... – ela começou a dizer e usou a parte traseira de sua outra mão para secar uma lágrima, fingindo que piscava. Exalou ar tentando limpar a garganta – Ele e eu discutimos...ontem. Não é a primeira vez, mas...
Mas ... tudo começa sempre com um "mas", pensou ele. E se lembrou da noite anterior quando ouviu seu irmão discutindo com alguém ao telefone. Agora sabia quem era a pessoa.
- Ah ... meu irmão é um idiota, você sabe – Itachi falou sem emoção – Ainda mais quando está de mau humor. Você não é a única pra quem ele grita desse jeito.
Ele fez uma pausa, sentindo que tinha dito mais do que deveria. Sakura não notou, sua mente estava fixa apenas na última frase: ... "a única pra quem ele grita ..."
As nuvens de tempestade tinham retornado. Haviam se dissipado quando a rosada esteve com Ino que se gabava de seu encontro anterior com Sai. A farsa que Sakura sustentava sobre seu namoro vacilou quando veio a típica pergunta "Como estão as coisas entre você e o Sasuke-kun?" Sakura apenas disse "bem", e o teatro continuou ... até aquele momento.
Sentiu vontade de chorar um rio inteiro, mas só duas lágrimas solitárias escaparam de seus olhos. Ela queria gritar a plenos pulmões e explodir, mas não pelo que aconteceu.
Não. Essa simples discussão não era a primeira nem seria a última. O problema era outro, era algo que vinha lhe martelando na mente nos últimos meses que ela estava tentando ignorar e temia que fosse realidade.
A única pra quem ele grita. Claro que não. Aquilo lhe destroçava por dentro.
- Não se importa comigo – disse num fio de voz – Se ele se importasse ... Sasuke ... nunca faria isso ...
- O quê?
Queira gritar se pudesse. Não tão forte, mas o suficiente que expressasse sua dor e angústia: o incidente do batom, as mensagens sem resposta para o seu telefone, as saídas frustradas, o descaso dele. Tudo resumido em uma pergunta:
- Tem mais alguém além de mim, não é?
Itachi sentiu um aperto em sua garganta. O que ele diria agora? Que o seu irmão era um cretino que tanto fazia pra ele uma ou outra moça? Que nunca se importou com nenhuma garota que namorou? Que a única razão pela qual ele namorava Sakura era porque ele estava cansado da família lhe reprovar a falta de responsabilidade? Deveria dizer tais coisas à rosada?
- Não, pelo menos que eu saiba não ... mas você sabe perfeitamente bem que Sasuke faz o que lhe dá na telha – fora sucinto e verdadeiro. Não pretendia causar uma confusão entre a rosada e seu irmão, no entanto, tampouco queria mentir para a jovem nem deveria – Mas já se passou mais de um ano que vocês estão juntos então não acho que ele está com você só porque ele não tem nada melhor pra fazer.
E no fundo, Itachi percebeu que havia alguma verdade nisso.
- Você acha mesmo? – ela insistia
Ele balançou a cabeça com certa relutância da mesma maneira que alguém é obrigado a dizer que a noite é o dia e o dia é noite.
O rosto da jovem se desanuviou. Ela tirou do bolso um lenço com que enxugou as lágrimas. Itachi teve o ímpeto e desejo de ter feito isso para ela, porém, o tempo e a realidade não lhe permitiam isso. Sua mão estava ocupada, sentindo o toque quente da mão de Sakura, e olhando de tempos em tempos como os seus dedos se entrelaçavam.
- Eu amo ele demais. Não suportaria que me magoasse dessa maneira – suspirou Sakura
Itachi não disse nada. A frase fez com que ele voltasse ao mundo real.
Existem pessoas melhores – suspirou pensativo. O toque delicado da mão dela se soltou dos dedos dele. Sakura o olhou com um sorriso limpo e autêntico.
- Obrigada, Itachi-kun.
Ele estava pronto a assentir com neutralidade. No entanto, ele sentiu o corpo dela se aproximar do seu. Seus braços finos e frágeis rodearam o tronco dele enquanto sua cabeça se encostava ao ombro dele. Ela o abraçou num gesto puramente fraternal. Itachi se sobressaltou um pouco ... talvez até corou. Estava feliz que Sakura não olhasse para ele porque sentia que naquele momento seu rosto revelava mais do que queria que ela visse.
- De nada – exalou deixando um pouco de ar sair dos lábios.
Ar que era apenas o resíduo das palavras que ele queria expressar... e não podia.
-0 -
Suas despedida foram superficiais. Sakura não se importou, afinal, estava esperando algo mais?
Não poderia responder a essa pergunta, porém, não tinha parado de pensar nisso.
Curiosamente, desde que chegou em casa e, no caminho para o jardim com a tigela cheia de sementes, ficou pensando naquele momento de comunicação quase perfeito.
Tentou se lembrar se havia passado algum momento assim com Sasuke. Não, não havia registros encontrados nos arquivos da sua memória.
Uma manhã quase perfeita. Os pedaços de seu ser já estavam reparados e organizados; após a tempestade, o céu tornou a ficar azul para ela.
Não havia necessidade de sair de casa e tomar ar fresco para a reconstituição do desastre interno. Ser ouvida e compreendida. Algo que Sasuke iria demorar muito para aprender e ...
(Itachi-kun.)
Desejava muito que Sasuke agisse dessa forma. Sim, ele.
Contudo, nesta manhã, foi ouvida e abrigada em braços acolhedores. O calor de um corpo forte e aconchegante, uma barreira que a protegia de tudo. E ela se sentia segura.
Devia pensar sobre aquilo com certo carinho ... mas talvez não muito de uma vez. As coisas tendem a parecer maiores do que são.
Itachi ...
- Ei, princesa sonhadora! – a voz de sua mãe a chamou do outro lado do jardim – Desça do seu castelo nas nuvens e preste atenção no que você faz! Esse pobre gerânio vai se afogar.
Sakura abaixou a cabeça, percebendo que tinha derramado toda água do jarro na inocente planta que tinha acabado de colocar no vaso e já havia aplicado a pena de morte com apenas um litro de água.
Apressou-se para esvaziar o líquido do vaso e secar o mais rápido possível a planta quase morta.
- Desculpe, mamãe – esboçou um sorriso culpado para sua mãe.
Hanako simplesmente balançou a cabeça.
- Você não tem jeito, menina – ela sorriu com um olhar de cumplicidade.
Pelo menos isso fez Hanako saber que sua filha parecia melhor. Muito melhor do que ela aparentava durante a manhã.
Era só questão de tempo para que tudo permanecesse assim.
...
Bem, as coisas estão começando a surgir entre esses dois, mas ainda vai demorar pra se renderem a esse sentimento. Mandem reviews!
