O outro capítulo foi curtinho, então tem mais um para a alegria de vocês. E para minha alegria eu quero review.
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Bella POV
Charlie pousou a xícara sobre a mesa e soltou um suspiro, o terceiro daquela noite desde que chegamos em casa. O caminho de volta do hospital foi silencioso em um nível torturante, mas eu não tinha nada a dizer a ele enquanto as perguntas não fossem feitas porque eu sabia que sua cabeça estava rodando com tantas dúvidas que nasceram em poucas horas.
- Me deixa ver se entendi bem. - ele falou se ajeitando na cadeira. - Sua mãe se separou de mim e resolveu fazer uma tatuagem.
- Uma borboleta horrorosa na panturrilha. - me recordei do desenho e senti uma angústia horrível no meu estômago. Desde que eu me entendo por gente odeio borboletas.
- E ela pegou AIDS porque o processo foi feito de modo clandestino, não foi?
- Você conhecia René, sabe como ela tinha uma tendência a não pensar muito antes de fazer. O estúdio deveria ser o mais imundo e ilegal possível, mas sim, ela contraiu o vírus por causa da tatuagem.
- E você...
- Me contaminei quando nós tivemos um acidente de carro. Eu tinha três anos e me machuquei bastante, mas nada muito grave. Só que René não sabia que era soro positivo e o contato de seu sangue me contaminou.
- Isso é... inacreditável.
- Inacreditável, horrível... São tantas palavras para descrever isso. Mas não há nada a ser feito, não é mesmo? - comentei soltando aquele riso sarcástico carregado de ódio.
- Como você vive? - ele perguntou me encarando pela primeira vez desde que chegamos em casa e eu senti o desespero em seu olhar. Droga, eu não queria aquilo!
- Vivendo, ué? Uns dias melhores que os outros, mas eu vivo porque ainda tô viva. Porque a doença ainda não me levou. Porque ainda não é minha hora, sei lá. Eu simplesmente vivo, pai. Não existe nenhum mistério nisso.
- Eu quis dizer, como você vive assim?
- Como qualquer soro positivo vive. - respondi suspirando e rolando os olhos discretamente. - Com medo, preocupado com todos ao redor para ninguém descobrir e encher meu saco mais ainda. Não é fácil, mas eu tento ao máximo não atrapalhar a vida de ninguém com isso.
- Você poderia ter me contado quando sua mãe morreu...
- E você teria feito o quê?
- Te ajudado, Bella. Você não pode se fechar e sofrer sozinha dessa forma...
- Sabe qual é a primeira coisa que as pessoas pensam quando descobrem que uma garota de 17 anos tem AIDS?
- Não... - ele respondeu hesitando.
- "Nossa, essa menina deve ser uma vagabunda" porque ninguém quer acreditar que eu fui contaminada de outra forma que não seja transando com um monte de caras por aí. Ou então usando drogas injetáveis. É justamente por isso que eu não quero sair por ai contando que sou uma doente porque já basta de julgamento em minha vida.
É, eu tinha pegado pesado com ele, mas tentar me proteger com aquela barreira que eu criava entre as pessoas e eu era a única forma de não sair mais machucada dessa vida. Porque as feridas em minha alma eram piores que as feridas que contaminavam. Ser julgada, excluída, ter dedos apontando para você com frases malvadas te faz refletir se você merece realmente estar viva ou se finalizar o sofrimento da forma mais brusca não seria a melhor opção.
- Eu estou com um pouco de dor nos pontos. - comentei levantando e levando minha xícara para a pia. - Vou para meu quarto.
- Certo. Pode... hum, ir.
- Boa noite. - falei pegando um copo com água e deixando a cozinha.
Minha mão ainda não estava doendo tanto, mas eu tinha experiência com pontos para saber que precisava logo tomar o analgésico que o Dr. Cullen me deu para não passar a noite em claro com dor. Deixei o copo d'água sobre minha escrivaninha e tirei o frasquinho do bolso de meu casaco junto com o cartão que ele me deu no hospital.
"Caso você sinta alguma dor estranha com os pontos ou precisar de qualquer tipo de ajuda, pode me ligar".
Claro que eu o ligaria, tipo... nunca! Não gostava de depender de ninguém, de ser digna de pena ou ajuda. Não! Eu aprendi sozinha que nessa vida você nasce, acha que tem pessoas especiais que gostam de você, mas no seu leito de morte existirá apenas o médico declarando sua morte e ninguém mais. Laços afetivos não eram bem vindos para quem não sabia se estava vivo no dia seguinte ou se uma gripe o mataria.
Mas quando eu abri minha gaveta para guardar o cartão e vi meu case de remédios vazios lembrei que precisava me reabastecer com o coquetel. Minha última dose tinha sido há dois dias e eu nunca tinha ficado tanto tempo sem os remédios desde que me contaminei. Talvez eu só fosse precisar da ajudar do Dr. Cullen até conseguir sozinha meus remédios no único hospital daquela maldita cidade fofoqueira.
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EPOV
Logo após o treino de futebol da tarde eu corri para o hospital porque meu pai tinha se esquecido de me entregar os remédios do coquetel aquela manhã. Eu ainda tinha comprimidos para duas doses, mas não gostava de ficar um dia sem tomá-los porque poderiam sem querer derrubarem meu case de remédios ou jogarem no lixo, então era melhor não arriscar. Carlisle era um pouco esquecido em relação a isso, mas eu não o culpava porque entendia que ele coordenava o hospital sozinho e tinha problemas piores para resolver.
Como eu já era conhecido no hospital por ser filho do médico mais importante dali entrei na emergência cumprimentando o segurança e seguindo para a farmácia que ficava no segundo andar. A enfermeira que cuidava das entregas dos remédios já me conhecia e sabia o que eu iria buscar quase todos os meses quando meu pai esquecia.
- Olá, Heide. - a cumprimentei com um sorriso.
- Olá, pequeno Cullen. - ela sorriu e me chamou pelo apelido que todos me deram ali.
- Meu pai deixou alguma coisa para mim?
- Claro. - respondeu me entregando o saco de papel com a logomarca do hospital e cuidadosamente grampeado. - Aqui estão seus remédios misteriosos.
- Obrigado.
- Ainda vou descobrir o que você tanto toma.
- Eu sou um atleta, Heide. Preciso me manter em forma e com a saúde em dia. - comentei rindo de sua curiosidade. - Até qualquer dia desses.
- Mês que vem, não é?
- Isso ai.
Eu não culpava ninguém por querer saber o que tanto eu tomava de remédio e qual era o segredo por trás disso, mas como estrela do time da escola e promessa no futebol americano eles poderiam pensar que era algum tipo de vitamina especial ou complemento que os atletas usavam então a curiosidade cessava até o mês seguinte quando eu voltasse para pegar outra encomenda. Não criar um grande alarde e levar na brincadeira ajudava a deixar a nóia deles de lado.
Meu pai sairia do plantão às 21h naquela noite e nós jantávamos tarde em casa por esse motivo, mas ainda assim eu dei uma passada no escritório dele para saber que horas ele sairia e para dizer que já tinha pegado os comprimidos. Só que eu não imaginei que ele estivesse ocupado e fui metendo a mão para abrir a porta, o encontrando cuidando de uma garota de minha idade.
Eu a conhecia da escola, sabia que tinha sido transferido depois que a mãe morreu e ela voltou a morar com o pai que era o chefe de polícia de Forks. Mas esses eram os únicos fatos que todo mundo sabia sobre Isabella Swan porque ela não conversava com ninguém, sentava sozinha no almoço e sempre era a primeira a deixar a escola depois da aula. Uma estranha e hostil garota que não convivia com ninguém e se escondia atrás de um livro que sempre estava lendo.
A encontrei sentada na maca com a mão cortada sangrando muito e eu senti aquela sensação estranha por ver uma ferida e sangue. Cresci sabendo que não poderia me machucar e se por acaso isso acontecesse ninguém poderia tocar em mim, por isso eu não sabia muito bem lidar com ferimentos e essas coisas envolvendo sangue. Vê-la cortada em minha frente foi motivo suficiente para que eu saísse dali rápido.
O cheiro do jantar sendo preparado foi logo sentido quando eu estacionei meu Volvo na garagem e entrei pela porta que dava acesso a cozinha. Esme estava mexendo algo na panela e eu beijei seu rosto antes de abrir a geladeira atrás de um Gatorade ou algo refrescante para beber.
Ela e meu pai se casaram logo após meu aniversário de 12 anos e eu a considerava uma mãe apesar de não chamá-la de mãe, mas tinha amor e respeito como um filho deve ter por uma. Ela também era viúva, perdeu o marido em um acidente de carro logo após ter Alice, sua filha dois anos mais nova que eu. Elas se tornaram minha família quando a união aconteceu; eu sentia ciúmes de Alice como um irmão mais velho e nós dois brigávamos como irmãos de sangue faziam, além delas serem umas das únicas pessoas que sabiam sobre minha doença e me respeitavam por isso.
- Que horas o jantar vai sair? - perguntei jogando minha mochila sobre a bancada e ela me lançou um olhar de reprovação. - Foi mal, vou deixar na lavanderia. Já sei.
- Muito bem.
- Tive no hospital para pegar meus remédios e meu pai disse que sairia mais cedo hoje.
- O jantar está quase pronto. Você poderia chamar a Alice? É a vez de ela arrumar a mesa para o jantar.
- Pode deixar, chefia.
Subi a escada pulando de dois em dois degraus e virei à esquerda para o corredor onde haviam os quartos da casa. Bati na porta que tinha uma placa escrita "Princesa Alice" para avisar que estava entrando e abri a porta para encontrá-la sentada na cama com o laptop rosa no colo.
- Ei nanica, Esme mandou te chamar porque é sua vez de arrumar a mesa de jantar.
- Daqui a pouco... - ela murmurou digitando rápido e com os olhos na tela.
- Não estou vendo você se mexer. - resmunguei para irritá-la.
- Eu já estou indo, Edward.
- Ok, estressadinha.
Deixei que ela se resolvesse com a mãe pelo atraso na tarefa doméstica e fui para meu quarto tomar banho antes do jantar já que eu tinha passado a tarde rolando na grama e suando como um condenado no treino. Ser capitão do time e zagueiro tinha a desvantagem de ser o mais cobrado também e a pressão que o treinador Aros colocava sobre mim era foda às vezes, mas eu nunca desapontava o time nem a escola. Era comprometido com o futebol assim como em todas as coisas de minha vida.
Pude escutar a voz de meu pai na cozinha desde o primeiro degrau da escada e baguncei o cabelo de Alice quando passei por ela colocando os pratos na mesa. Eu sabia que mexer com o precioso cabelo dela era comprar briga, mas também sabia que Alice não podia mais me bater na frente de meu pai e de sua mãe já que era passaporte carimbado para ficar sem computador por uma semana. Ela não arriscaria ficar longe do Twitter e me fuzilou com os olhos quando eu fiz aquilo.
Esme tirava algo do forno e meu pai lhe contava algum caso chato do hospital enquanto bebia uma Coca-cola. Esse era o vício de Carlisle: Coca-cola. Ele poderia repreender quem bebesse demais, fumasse ou usasse qualquer substancia ilícita, mas ninguém tinha o direito de mexer com sua Coca-cola sagrada.
- E aí? - perguntei sentando na bancada. - O plantão terminou cedo hoje...
- Pouco movimento. Isso é bom porque significa que a população de Forks está cada dia mais saudável.
- Seu pai estava me contando sobre a garota Swan que apareceu no hospital hoje.
- É, eu vi. Corte bem feio...
- Se cortou fazendo o jantar para o pai. - ele comentou dando uma risada baixa. - Coitada. A última coisa que precisa é de um corte daquele na situação que está.
Eu não sabia qual a situação que Carlisle estava comentando e também não achava que era meu direito saber disso. Meu pai jamais contava sobre seus pacientes, pois, morando em uma cidade com menos de quatro mil habitantes, você acaba conhecendo todo mundo e alguns casos são vergonhosos ou delicados demais para serem comentados no jantar por exemplo. Por isso eu achei estranho quando ele me perguntou assim que Esme deixou a cozinha:
- O que você sabe sobre Isabella Swan?
- Hum, muito pouco. - respondi buscando informações na memória. - Ela é filha do Chefe de Polícia Swan, veio morar com ele porque a mãe morreu há alguns meses eu acho, não é a pessoa mais sociável da escola... E ela é minha colega em Inglês Avançado. Por quê?
- Eu geralmente não trago meus casos do hospital para casa, mas no caso dela eu não poderia fechar os olhos e deixá-la nessa situação.
- Ela está doente?
- Ela é soro positivo, Edward.
- Sério? - perguntei surpreso, mas não chocado. Eu sabia que eu não era o único adolescente do mundo com AIDS, só que não imaginava que havia alguém na mesma situação tão perto.
- O corte não causou dano algum a sua saúde, mas ela não está mais tomando o coquetel há alguns dias e está completamente perdida na cidade nova sem ter com quem contar.
- Pai, por que você está me contando isso? - comecei a desconfiar quando vi o olhar de piedade que ele me lançou.
- Eu queria que você a ajudasse de alguma forma, sabe? A entender que não é o fim do mundo ter AIDS nessa idade.
- Acho que você não ouviu muito bem quando eu comentei que ela não era muito sociável.
- Você é o garoto mais simpático que tem naquela escola, Edward. Poderia ir se tornando amigo dela e ganhando sua confiança aos poucos.
- Olha, eu não posso simplesmente chegar e dizer "Oi, tudo bem? Eu também tenho AIDS, vamos ser amigos?".
- Edward... - ele me repreendeu sem grosseria.
- Desculpe. - murmurei sabendo que eu tinha passado dos limites com minha impaciência.
- Eu sei que você não quer ser o embaixador disso e eu nunca te forcei a nada, mas se ponha no lugar dela um pouco. Perder a mãe com a mesma doença que ela tem, ser obrigada a morar com o pai que mal conhece em uma cidade pequena cheia de pessoas curiosas sobre sua vida, não é nada fácil.
- Eu vou tentar, ok? Não prometo um grande progresso, mas vou fazer o meu melhor.
- Obrigado. - ele me abraçou forte e eu dei dois tapinhas em suas costas. - Sabia que podia contar com você.
- Não é justo utilizar de sua persuasão paterna para conseguir as coisas, sabia?
- Eu sei, mas ser pai também é ser chantagista.
Eu não conseguia ficar com raiva dele por me usar para ajudar algum paciente, na verdade não conseguia ficar com raiva dele por nada. Minha relação com meu pai era a mais perfeita possível, pois ele entendia quando eu tinha alguma crise de identidade por conta das limitações que ser soro positivo trazia, mas também era o único apoio que eu tive durante os anos de adaptação e conhecimento. Ele foi minha mãe quando eu precisei e seria meu pai em todos os momentos, sabendo reconhecer meus esforços e ser grato a isso.
- Jantar na mesa! - Esme gritou da sala. - E tragam os copos que a cabeça oca da Alice esqueceu.
- Como sempre, né? - gritei de volta para perturbar Alice.
- Vai se ferrar, Edward. - Alice gritou de volta e eu escutei um tapa estalado. - Mãe!
- Já te disse que não quero ouvir esse tipo de linguajar vindo de você.
- Mas...
- Mas nada, Alice. Agora vá pegar a Coca-cola e o suco que eu fiz.
Passei por ela segurando os copos e ela aproveitou que nossos pais estavam conversando para me acotovelar nas costelas, mas aquilo não causou muito além de cócegas. Alice era apenas uma adolescente mirrada de 15 anos enquanto eu tinha 1,87m e massa muscular de um atleta em treinamento desde os 14 anos. Covardia. E seria fácil vencer em nossas brigas se eu não fosse um coração mole que a deixava ganhar mesmo que depois ficasse a escutando se vangloriando pelos quatro cantos da casa por dias. Irmãos fazem isso pela irmã mais nova, não é? Mesmo que não estivesse no livro de regras dos irmãos, eu faria por ela e pelos outros dois habitantes daquela casa que eram tudo que eu tinha nessa vida.
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