Capítulo 3

- O que foi, querida? – Perguntou Herbert, preocupado.

Era interessante ver como enchiam a paciência, um do outro a também se preocupavam um com o outro. Após trinta anos de convivência, conheciam-se muito bem, para saber quando uma preocupação era genuína.

- O índio. Acabou de entrar... – Respondeu ela.

- Calma, querida! Pode ser que ele nem nos veja! – Herbert tratou de acalmar a esposa.

De fato, Lucas seguiu na direção oposta à mesa deles e nem olhou, para aquele lado.

-Maisie não gostou dele, desde o princípio! - Explicou Herbert aos demais.

Todos dirigiram sua atenção ao índio. Aírton ajeitou-se novamente em seu lugar.

- Bobagem! Ele é meio sisudo, mas é boa pessoa!

Enrico que estava de costas, para a entrada, virou-se, a fim de ver de quem estavam falando. Quando viu o índio, virou-se de novo para a mesa.

- É só deixá-lo em paz, que ele é inofensivo!

´- Conhece-o? – Espantou-se Grissom.

Sara levantou os olhos do seu mingau, e todos os olhos voltaram-se para o suíço, que começou a falar com voz cansada:

- Venho aqui há dez anos. Descobri esse paraíso e venho aqui todos os anos, nas minhas férias. Há cinco anos, Lucas chegou aqui e Franz deve ter chegado pouco depois, porque estava aqui, quando eu cheguei no ano se estranharam desde sempre. E o destino quis brincar com eles, colocando-os em cabanas próximas: 5 e 7. Sei disso, porque estou na 9.

- Que romântico! Queria ficar numa cabana! – Disse Sara provando seu suco de graviola.

- Não poderia, nem que quisesse, porque nas cabanas só ficam solteirões, como eu, ou viúvos, ou quem vem em excursão. Elas tem 1, 2 e 3 lugares, mas sempre camas de solteiro; os casais ficam no edifício Tucano, onde vocês estão.

Grissom não estava interessado em cabanas e sim, na história do índio:

- Por favor, professor, continue seu relato!

Enrico limpou a garganta com suco de acerola, e continuou:

- Lucas é o oitavo filho de uma família de 5 homens e 3 mulheres, além de tudo, temporão. Ele é dos Mura-Pirarrã, descendente dos antigos Muras, famosos em todo o Amazonas, cuja raça foi quase toda exterminada. Guardam toda a altivez que lhes fez famosos por não se sujeitar ao jugo dos brancos. Lucas foi criado por um pai velho, muito rígido e, por irmãos muito mais velhos, que incutiram no pequeno Lucas, essa ojeriza, esse desprezo, que ele nutre pelos brancos, qualquer um; para ele são ladrões, trapaceiros que não merecem qualquer confiança. Lucas foi o único a seguir com os estudos em sua família. Ninguém diz, mas ele é médico. É funcionário da FUNAI, fala inglês e espanhol. É muito culto. Se daria muito bem, com você Grissom!

Sem graça, com o comentário, Grissom se remexeu na cadeira, e fez outra pergunta, para tirar a atenção de si:

- E quanto a Franz?

- Bem, Franz Steiner não é flor que se cheire! Pense em negócios escusos, confusos e complicados. Muito possivelmente, Franz já esteve envolvido! O homenzinho não teve um emprego honesto, em todo o tempo que eu o conheço! Ouso dizer, que em toda a sua vida! Franz não deve nem suspeitar o que seja honestidade. Se envolveu com bebida alcoólica, com tráfico de animais e agora tem um sócio na Colômbia, onde têm um negócio ilícito de madeiras...

- E ainda não foi preso? - Interrompeu Herbert, com a boca cheia de tapioca.

- Nesse país? Nesse fim de mundo? - Encarou-o o suíço.

Ante o olhar aparvalhado de Buchannan, Aírton enfiou-se na conversa e explicou que em seu país, era relativamente fácil subornar o pessoal da FUNAI e do IBAMA, para fazer vista grossa para coisas ilegais. Ele disse que nessas instituições tinha muita gente boa, abnegada, mas tinha, como sempre, as ovelhas negras. Herbert começou a falar:

-Se estivéssemos na América...

- Ora, lá também tem corrupção, Herbert! - Cortou Grissom impaciente.

- Sim, mas...

- HERB! Nada de discussões à mesa!

A baixinha Maisie, lambuzada de manga, abortara uma discussão estéril, em seu nascedouro, pensava Enrico. O guia pensava no passeio de lancha à tarde. Maisie chegava à conclusão que adorava mangas, enquanto o marido encolhia-se na cadeira e obedecia a esposa, engolindo as palavras. Grissom olhava para Sara e pensava que de certo modo, ela e o índio se pareciam: eram orgulhosos, calados, generosos e donos de um enorme coração, que bem pouca gente conhecia. Sara perguntou ao suíço:

- E a família dele, por onde anda?

- Do índio?- Esperou ela confirmar com a cabeça e continuou – O pai morreu; a mãe e as irmãs vivem aqui, numa reserva indígena. Os irmãos foram para o Acre, que é outro estado do norte, em busca de trabalho e se estabeleceram por lá.

Nesse instante, um barulho de prato quebrado e vozes alteradas atravessaram o salão. Não apenas os olhares deles, como os do restaurante inteiro, convergiram, para aquela mesa.

Lucas tinha derrubado o prato de Steiner.

- Você fez da propósito! – Berrava o alemão muito vermelho.

- Ora, não demonstre em público o idiota que você é! Nem tudo gira ao seu redor, sabia?

- Sua selvagem! Não conseguir ainda aprender boas maneirrrras!

- E você não aprendeu a falar ainda!

- Peça desculpas, vamos! - Falou com arrogância o alemão.

- Agora é que não peço mesmo. Vocês gringos, são engraçados: vêm aqui, nos roubam descaradamente, e ainda querem receber tratamento de gran-senhores!

- Está me chamando de ladron?

- Estou. É o que você é não?

- Ora sua...- e o alemão partiu pra cima do índio.

- Acabo com você, desgraçado!

O professor traduzia como podia o diálogo entre os dois. Eles se engalfinharam e a coisa só não ficou mais feia, porque dois funcionários, da pousada, vieram separá-los. Herbert parecia quase eufórico, ao chacotear, o suíço:

- Inofensivo, hein?

Aírton perguntou se eles iriam no passeio da tarde. Os dois casais responderam com entusiasmo que iriam. O guia explicou que iriam passear de lancha, no lago Canaçari, onde estava a ilha e depois seguiriam o rio Negro. E ainda entrariam nos igapós...

- Meu Deus, o que vem a ser isso?- Perguntou Maisie.

- Nenhum bicho, Sra. Buchannan! Trata-se do transbordamento dos rios, que ficam represados na floresta fechada.

- Por que não falou logo em língua de gente: vamos passar numas poças!

O guia ficou desconcertado, e respondeu, à terrível mulherzinha, que era mais ou menos isso. Nunca pensara num igapó, como poça. Um igapó era... um igapó, ora! Continuou:

- Vocês verão as casinhas rústicas dos "caboclos", e algumas palafitas, também.

- Palafitas? ´- Perguntou Sara, curiosa.

- Na verdade, só temos duas estações aqui: a das chuvas e a das secas. Quando chove muito, os rios sobem, e nesse caso, as palafitas são mais seguras.

- Ah, a sabedoria, do povo da floresta... – sorriu Grissom.

- Justamente... E se vocês tiverem sorte, poderão ver algumas espécies da fauna. Ah, e um casal belga, ia conosco! - Disse Aírton. - Vocês irão à noite, na focagem de jacarés?

- Eu não vou! Mas Grissom irá, sem dúvida... – declarou Sara.

- Por quê? – Perguntou o guia.

- Não gosto de ver bichinhos sofrendo- respondeu ela

- Não vai ter nenhum "bichinho sofrendo", Sara! E de qualquer forma, não se trata aqui, de bichinhos de estimação! –Rebateu o guia, desacorçoado, com seu grupo.

- Eu vou! - Disse Maisie, sem que ninguém lhe tivesse perguntado.

"Claro que vai! Alguém tinha alguma dúvida, quanto a isso?", pensou Sara, mas limitou-se a dar um sorrisinho.

Airton continuava falando de jacarés. Dizia aos homens, que quando tivesse no restaurante, não deixassem de comer carne de jacaré, que era uma delícia, só em lembrar, salivava.

Sara sentiu uma imensa repulsa e o estômago virar de ponta cabeça. Pôs a mão tapando a boca, e saiu correndo, para o banheiro do restaurante. Adeus, mingau de banana!Adeus suco de graviola!

O suíço perguntou se ela estava doente, Grissom respondeu que achava que não, mas parecia meio perdido, procurando respostas. Maisie quis ajudá-lo:

- Ela não está grávida?

- Ela diz que não- respondeu Grissom.

- Humm... Mulher casada, quando vomita desse jeito, é sinal de cegonha à vista! – Insistiu Maisie.

Grissom percebia-se que estava desconfortável. Não sabia bem se ia atrás de Sara, ou ficava ali dando explicações, aos seus novos conhecidos. Herbert quis ajudá-lo, tirando-o das garras da esposa.

-Ora, pode ser muita coisa, querida! - E se virando para Grissom afirmou - Ela não há de ter nada grave, se Deus quiser.

- Pode, mas acho que é mesmo gravidez! – E olhando Grissom de alto a baixo falou Maisie, com seus olhinhos matreiros – Já era hora, aliás, já está passando da hora, a meu ver.

Grissom sentiu seu rosto pegando fogo.


- Tem certeza que não quer mesmo ir? – Perguntou Grissom, pela décima vez.

- Tenho. E é melhor você ir, antes que se atrase!

- Você ficará bem querida?

- Sim, vou aproveitar e escrever uma longa carta para Cath!Já estou lhe devendo! – Ela falava ao mesmo tempo, que o punha porta à fora.

-Não se esqueça de mandar minhas lembranças!

- Não esqueço, pode deixar! – Disse dando-lhe um beijo, e fechando a porta.

Sozinha, ela sentou-se à mesinha em frente à cama, e sentiu- se especialmente inspirada essa noite. Começou falando da imensa saudade que sentia de todos; não sentia falta do trabalho, mas das pessoas. Deu pinceladas bem-humoradas em seus novos companheiros; descreveu com leveza a floresta e animou-se a falar das iguarias, que faziam a alegria de qualquer vegetariano. Cath sabia que naqueles rios podiam-se pescar mais de dois mil tipos de peixes? Escreveu rapidamente dos outros países onde estivera. Deteve-se mais, onde estava agora.

A caneta movia-se agitada no papel enchendo páginas e páginas, A discreta Sara, transformara-se, longe no CSI, na loquaz Sara. Queria muito conversar com outra mulher sobre suas suspeitas, mas sentiu-se tola e nem tocou no assunto: quinze dias era muito pouco tempo; caso existisse mesmo a criaturinha nem era ainda visível a olho nu, e quanto ao atraso da menstruação, não era a primeira vez, nem seria última. Sacudiu a cabeça, antes de espalhar qualquer coisa era melhor esperar um mês e ter uma consulta com sua ginecologista.

Discorreu sobre Grissom, como ele estava corado, bem disposto e falante! Contou como a pousada era aconchegante, explicou o edifício central e as charmosas cabanas espalhadas, no meio do mato. Tudo na pousada era pintado de amarelo, com acabamento rústico de madeira da região. Contou que no dia seguinte iriam a um lugar onde só veriam pássaros, araras, papagaios, etc. E um pássaro estranho e mítico, de hábitos noturnos, envolto em lendas, cantava seu lamento, numa árvore, embaixo de sua janela. Ele tinha cada lenda tão linda como tudo tinha lenda nesse paraíso.

"... mas como nada é perfeito, nem no paraíso, Cath, temos um indivíduo absurdo, que parece não ver, que estou acompanhada. É um alemão indecente, cujo olhar só me ofende e degrada. Grissom deu um" chega-pra-lá" nesse finório, que espero ser suficiente. Tenho esperanças de não precisar adotar, medidas mais drásticas..."

Sara iria se arrepender muitíssimo, deste parágrafo. Mandou lembranças a todos em seu nome e no de Grissom. Pôs aquele verdadeiro calhamaço, dentro de um envelope e desceu, para ver quanto teria de pôr de selo. Pegou a carteira e pensou que ainda não estava familiarizada, com o dinheiro do lugar. Como o seu quarto, ficasse no segundo andar, desceu as escadas, deixando o elevador de lado.

Uns degraus antes de chegar ao saguão, Sara ouviu duas vozes masculinas, discutindo entre si. Mas como não soubesse português, não entendeu nada. Espichou-se um pouco, para ver quem era. Reconhecera a voz mais áspera, como do alemão e a outra, cheia de "SS" e "RR", ela não reconheceu. De quem seria?