CAPITULO TRÊS

A carga de trabalho daquele dia quase tomou conta de toda a atenção de Rin. Era quase meio-dia quando a notícia sobre a promoção de uma colega chegou-lhe aos ouvidos. Por sinal, muito merecida. Sue era um exemplo de extrema dedicação e atenção em cada caso sob seus cuidados.

O e-mail de Sue ainda incluía um convite: "Comemoração com direito a champanhe por minha conta hoje à noite, tudo bem?"

Para Rin, era um prazer pensar numa comemoração noturna somente com mulheres. Seria muito divertido. Rapidamente, respondeu ao e-mail parabenizando a amiga e aceitando com entusiasmo o convite. Por fim, Sue mandou outro e-mail, indicando hora e lugar.

Rin passou a tarde de terça-feira fazendo anotações de vários livros de direito. Pouco a pouco, com feroz persistência, estava juntando informações suficientes para apresentar um caso importante.

Precisaria estar muito bem preparada para toda e qualquer adversidade que pudesse surgir da parte do promotor público, pois sabia que poderia escorregar num inesperado mas importante detalhe.

Foi um alívio entrar no carro e enfrentar um trânsito enorme no percurso para casa.

Depois de uma hora, chegou ao chalé, onde tomou uma ducha rápida e vestiu-se. Colocou um vestido preto e arrumou os cabelos num coque informal. Maquiou-se, calçou suas sandálias de salto alto, pegou a bolsa, as chaves, fechou a porta da frente e, em seguida, sentou-se à direção do carro.

Ficou satisfeita com o tráfego para a cidade, que fluía bem. Chegando ao luxuoso hotel onde Sue havia combinado, entregou a chave do carro ao manobrista e tomou o elevador até o saguão.

Três colegas já estavam confortavelmente acomodadas com seus drinques nas mãos. E enquanto Rin as cumprimentava, chegou a última convidada que elas estavam esperando.

Foi agradável relaxar e estar longe do escritório, podendo conversar tranqüilamente, sem as constantes interrupções do trabalho.

Champanhe foi a escolha para brindar a promoção de Sue, antes que um garçom trouxesse as entradas. Comida fina, drinques deliciosos e boa companhia. Quem poderia querer mais alguma coisa?

O fato mais espantoso entre as "Cinco amigas fabulosas" , como elas mesmas se denominavam, era a amizade que compartilhavam tanto dentro quanto fora do escritório. Não havia inveja, ciúme ou o desejo por companhia masculina... apenas cinco mulheres que se bastavam.

— Oh, meu Deus, olhem quem acaba de entrar!

Rin deduziu que deveria ser alguém do tribunal quando discretamente virou a cabeça e sentiu o estomago torcer à vista de Kagura, em companhia dos pais.

Vestida para arrasar, numa saia vermelha bem curta e uma blusa decotada demais, que quase exibia a totalidade dos seios, Kagura parecia uma modelo desfilando na passarela... confiante, indiferente e estonteante.

— Uau! — exclamou Sue. — A "divina dama" sem companhia masculina?

— Talvez ele se junte a eles mais tarde.

— A questão é... quem?

Um ar especulativo e pouco discreto tomou conta da mesa em que estavam as cinco amigas, pois não era segredo que Kagura tinha uma explícita queda por Sesshoumaru Winstone. Mais que uma queda, pensou Rin. Kagura estava querendo aquele homem e não se importava quem soubesse disso!

— Ela acabou de pegar o celular — cochichou uma das amigas.

— E está sorrindo — disse outra.

— Essa mulher é uma sem-vergonha dentro e fora do tribunal.

— Só contaram para você — sorriu Amelie. — Que raciocínio rápido!

— Vocês são todas umas malvadas! — retrucou Sue.

— Mas até que somos engraçadas.

— Vamos lá, garotas, deixemos isso de lado — disse Sue, erguendo sua taça de champanhe.

Uma verdadeira noite feminina, pensou Rin, com muito bom humor. Era memorável estarem ali, uma vez que, no trabalho, todas lidavam com assuntos sérios dentro dos parâmetros da lei. Onde a má intenção superava a boa e a justiça precisava ser feita, de qualquer modo, nem sempre com sucesso.

Fazer isso funcionar era um desafio. Examinar precedentes legais a fim de retrucar qualquer pergunta capciosa que o promotor pudesse fazer e, acima de tudo, tentar o melhor possível para o cliente... seja ele culpado ou inocente. Essa era a função do advogado.

— O que vocês pensam do caso Marshall? — perguntou Rin.

Houve um suspiro coletivo.

— Assunto em território proibido, minha cara. Nada que se refira a trabalho vai escapar de nossos lábios esta noite.

Houve uma pausa quando o garçom trouxe os pratos principais e Sue esperou que ele se fosse para dizer:

— Tudo bem, então vamos atualizar o assunto homem em nossas vidas.

O tema era familiar, refletiu Rin. Falta de dedicação no relacionamento, pouco ou nenhum compromisso e ênfase no sexo. Duas mulheres no grupo delas estavam satisfeitas com a atual situação de solteiras, enquanto uma parecia determinada a querer aliança, casamento e família.

— Rin? Sua vez.

— Passo!

— Nada disso. Responda à pergunta. — A zombaria provocante de Sue fez com que as demais rissem e Rin entrasse no espírito do jogo.

— Desculpe-me, promotora. Informação confidencial.

— Que coisa!

— Não olhem, mas um sujeito extremamente charmoso e elegante está sendo conduzido à mesa de Kagura.

Rin controlou o desejo de conferir a informação, mas o bom senso assegurou-lhe que não poderia ser Sesshy. Mas por alguns segundos a possibilidade não parecia tão absurda. Os Winstone e os Fabrisi tinham uma relação social e profissional, e eram freqüentemente vistos juntos em eventos e restaurantes.

Certamente Sesshy teria contado a ela se realmente pretendesse juntar-se a Kagura e aos pais dela esta noite... ou não?

Kagura fazia da manipulação uma forma de arte e possuía poucos, se é que possuía algum, escrúpulos no que dizia respeito a Sesshy.

— Adivinhe quem é ele? — perguntou uma delas.

— Amigo da família? — arriscou Sue. — Os Fabrisi estão cumprimentando-o como se fosse um membro da família!

O garçom retirou os pratos e anotou o pedido para as sobremesas, todas escolhidas de modo pecaminoso em nome da comemoração e garantindo um bom tempo na academia para queimar todas as calorias adquiridas.

Em seguida, o café foi servido, cuidaram da conta apresentada e dirigiram-se ao toalete.

Rin foi a última a entrar e quando abriu a porta colidiu violentamente com a pessoa que menos gostaria de ver. Resolveu ser o mais breve possível.

— Kagura.

— Ele é meu primo, queridinha. — As palavras foram ditas sem nenhum preâmbulo e o sorriso gélido da sem-vergonha combinava com o brilho frio de seus olhos. — Está fazendo uma breve visita aos meus pais.

— Que bom para você. — Ela deu uns passos para deixar o toalete, mas foi bloqueada por Kagura.

— Dá para acreditar que com aqueles olhos doces ele presta serviços como assistente social?

Rin enfrentou o olhar da mulher e, com sucesso, disfarçou sua inquietação.

— Minhas amigas estão esperando por mim.

— Um minuto, ou dois, não fará diferença. — Kagura passou uma das mãos sobre o quadril delgado e esticou um dedo com uma unha carmim a poucos centímetros do rosto de Rin.

— Escreva uma coisa: Sesshy é meu.

Um duelo terrível estava para acontecer e, decididamente, Rin não havia ido lá aquela noite para isso.

— Se isso é verdade — disse Rin com voz modulada —, por que ele está comigo?

Os olhos de Kagura pareciam duas pedras de gelo.

— Você precisa saber que Sesshy nunca se casará com você.

Rin precisava de uma saída triunfal, rápida.

— Nunca lhe ocorreu que podemos estar satisfeitos com nosso relacionamento? — Ela fez uma pausa deliberada e acrescentou, calmamente: — Do jeito que está?

— Não por muito tempo. — O triunfo da mulher foi comemorado com uma satisfação maléfica. — Muito em breve uma aliança com o nome dele estará no meu dedo.

— É mesmo? — Como ela poderia parecer tão calma quando por dentro seus nervos estavam em frangalhos? Ela enfrentou o olhar de Kagura quando deu um passo determinado para a frente, obrigando a mulher a dar passagem.

Por um instante, pareceu que Kagura não iria mover-se, então Rin arqueou uma sobrancelha num gesto de desdém e saiu rapidamente.

— Estávamos prestes a iniciar uma missão de resgate — declarou Sue quando a amiga juntou-se ao grupo. — Você está bem?

— Muito bem. — Ela deu um sorriso caloroso. — Vamos embora?

Não foi difícil manter um semblante feliz enquanto elas pegavam o elevador para o estacionamento. Ela conservou aquele sorriso até sentar-se à direção do carro.

Os escárnios de Kagura ecoavam na cabeça dela, que quase desejou ter dito à mulher uma porção de impropérios, todavia seu bom senso a alertou a tempo para as possíveis repercussões profissionais.

Kagura Fabrisi era poderosa como advogada e uma conversa aqui, outra ali, com direto a comentários levianos, poderiam resultar numa atenção especulativa da parte de seus pares.

No dia seguinte, após o trabalho, passou num supermercado e pensou que uma ausência de três semanas em Sidney seria apropriada para respirar e desanuviar um pouco as idéias. Havia os preparativos finais para as bodas da irmã, a própria cerimônia de casamento e tempo suficiente para ir à praia, visitar os shoppings e, simplesmente, relaxar.

Rin pegou as sacolas com as compras no banco traseiro do carro e carregou-as para dentro de casa.

O menu que havia planejado para o jantar daquele dia era relativamente simples.

Um jantar marcado para as 19h dava-lhe tempo de cozinhar, tomar banho e pôr a mesa.

A campainha da porta tocou enquanto colocava a torta de frango no forno para assar.

A figura familiar de Sesshy fez com que seu coração disparasse.

— Oi.

Ele trocara o terno clássico profissional por calça preta, uma camisa sem gola de cambraia branca e uma jaqueta de couro marrom.

Estava estonteante!

— Entre — disse ela, pondo-se de lado para que ele pudesse entrar no chalé.

Com considerável naturalidade, ele colocou uma sacola de viagem no quarto dela, tirou a jaqueta e, então, tomou-a nos braços e a beijou com ardor.

Ele trouxe um vinho e, enquanto abria a garrafa na cozinha, admirava os toques finais que ela realizara.

— Você me acompanha num cálice de vinho? — perguntou ele, voltando-se para ela.

— Obrigada, beberei no jantar — respondeu ela, checando a torta no forno e indagando sobre o dia dele.

— Nada de especial. Uma conferência e uma nova e intrigante causa que ainda não decidi se aceito. E você?

— Também nada fora do comum.

Na noite anterior, ela havia deixado a mala pronta para sua ida até Sidney. Como madrinha da noiva, tinha de programar jogos e brindes para a festa de despedida de solteira de Sango.

Tudo o que precisaria fazer na parte da manhã era deixar a casa em ordem antes que Sesshy a levasse ao aeroporto.

A torta de frango, acompanhada de uma salada mista, foi um sucesso, e ela sentiu prazer no elogio de Sesshy.

Ela estava longe de ser um exemplo de dona-de-casa, mas gostava de deixar seu lar mais atraente, cozinhando alguns pratos requintados.

Ela caprichou na sobremesa: havia salada de frutas regada com vinho, acompanhada de creme de chantilly. Por fim, os dois tomaram café na sala de estar.

Era confortável tê-lo ali no território dela, em plena intimidade.

Ela iria sentir falta daquilo, especialmente dele. Estar com ele, dormir com ele, enfim, fazer amor com aquele homem.

Para ela, aquilo era amor, não simplesmente sexo e nada mais. Será que Sesshy poderia imaginar o que aquilo significava para ela? De certa maneira, ela esperava que não, pois isso somente aumentaria seu nível de vulnerabilidade.

Aquela noite era especial. Em breve, ele tomaria a mão dela e a conduziria para o quarto.

Era lá que eles ativavam todos os sentidos e faziam amor até tarde da noite.

Sua imaginação criou asas, mentalizando imagens que incendiavam seu sangue e faziam seu coração bater descompassado, até que aquela espera transformava-se em necessidade.

O beijo dele possuía calor e ela inclinou-se em sua direção e devolveu-lhe o beijo com uma paixão desenfreada.

Era visível a avidez de Sesshy enquanto caminhavam em direção à cama, tirando roupas ao longo do trajeto.

Nu, ele agarrou-lhe o traseiro e ergueu-a alto contra seu corpo. Então, baixou a cabeça e pegou com a boca um de seus mamilos, mordiscando o biquinho intumescido até que ela sentiu um misto de selvageria entre prazer e dor.

Rin deu uma mordida amorosa no pescoço viril de Sesshy e pôde sentir aquele corpo másculo ficar tenso, então ele mudou a atenção para a boca feminina, numa posse que atingia todas as células nervosas do corpo dela.

Exatamente no instante em que ela sentiu necessidade de comunicar-lhe que estava com falta de ar, ele posicionou-a de tal modo que aceitasse sua masculinidade rija, enquanto enterrava sua língua ávida por entre os lábios entreabertos de Rin.

Naquele instante, ela fazia parte dele, então começou a mover-se, vagarosamente a princípio, depois com pressa ávida, até que se transformou quase em algo selvagem.

Ainda não era o suficiente, pois tombaram na cama e entre gemidos e risadas amaram-se repetidas vezes pela noite toda, até que a exaustão sobrepujou a paixão e eles acabaram dormindo um nos braços do outro.

O despertador tocou alto e Rin gemeu, desligando-o. Olhou para o quarto escuro e enterrou a cabeça por baixo do travesseiro.

Impossível já ser 5h da manhã.

— Você tem uma hora para fazer o check-in no aeroporto, sabia? — disse Sesshy enquanto acendia o abajur da cabeceira. — Tome um banho, vista-se, tome seu café e depois pegamos a estrada.

Quanto tempo ela teria dormido? Não o suficiente, sentenciou Rin enquanto ia levantando-se.

— Está bem, está bem — murmurou. — Já estou fora da cama.

O banho ajudou muito a acordá-la e a presença de Sesshy sob os jatos d'água asseguraram-lhe que não deveria demorar muito... ou seria difícil de resistir à tentação de saborear aquele corpo musculoso.

Apesar do tempo restrito, foi como se Sesshy adivinhasse a tentação dela e então deu-lhe um breve beijo na boca e soltou-a em seguida.

— Vá — disse ele —, ou você não alcançará o vôo.

Ela levou apenas alguns minutos para enxugar-se, depois colocou um roupão e dirigiu-se para a cozinha, onde o aroma de café a esperava.

Ela encheu duas canecas, acrescentou açúcar e leite e bebeu todo o conteúdo.

Fizeram uma viagem tranqüila até o aeroporto e Rin despachou a mala enquanto uma voz no alto-falante anunciava a última chamada para o embarque de seu vôo.

Era melhor dessa maneira, pensou ela enquanto Sesshy a puxava para junto de seu peito para um beijo rápido. Ela passou pelo controle de segurança, voltando-se rapidamente para dar um último aceno para ele, antes de desaparecer no corredor que a levava ao portão de embarque.

Três semanas eram um tempo longo. Longo demais, pensou ela, indecisa entre querer ficar e precisar partir, apesar de que o veria na semana seguinte, quando ele chegasse para o casamento de Sango.

Não houve nenhum contratempo nas quase duas horas de vôo, exceto a sensação de volta às origens quando avistou o porto de Sidney, a famosa ponte e o majestoso teatro lírico, mais comumente chamado de Casa da Ópera.

Desembarcou com tranqüilidade e lá, esperando no saguão de desembarque, estavam Sango e seu noivo.

Abraços, risadas e mais abraços enquanto cumprimentavam um ao outro antes de dirigirem-se para o carrossel de bagagem.

Havia tanto a dizer, tanta excitação, que Rin e Sango quase perderam a respiração durante o percurso de carro para o subúrbio de Manly, zona norte da cidade.

A luz do dia ainda brilhava, o que significava que havia uma hora de diferença no fuso horário entre Sidney e Brisbane.

— Todas as minhas amigas estarão aqui por volta das 14h para o chá-de-panela.

Ela não tinha checado durante o vôo a lista que Sango tinha enviado por e-mail detalhando o roteiro pré-nupcial?

Sábado à tarde, o chá-de-panela. Domingo, churrasco com os pais de Miroku. Segunda-feira, provas do vestido de noiva e escolha do repertório musical para o coro da igreja. Terça-feira, compras de última hora. Quarta-feira, despedida de solteira. Quinta-feira, ensaio na igreja. Sexta-feira, checagem final de todo o processo do casamento. E sábado, por fim, o grande dia. Era um roteiro e tanto!

Como irmã da noiva e única madrinha, Rin estava encarregada de garantir que tudo corresse da melhor maneira possível.

Uma prioridade era desfazer a mala e trocar de roupa. Depois, almoçaria e checaria se havia comida e bebida suficiente para a festa à tarde.

Miroku foi embora minutos antes de a primeira convidada chegar, e a festa transformou-se numa grande diversão com cerca de 20 garotas mais a mãe de Miroku presentes.

Houve alguma provocação e muita risada quando Sango recebeu alguns utensílios muito práticos para cozinha, e a futura sogra empenhou-se em ajudar na limpeza depois que a última convidada partiu.

— Kohaku está muito ansioso em vê-la novamente — confidenciou Kaede. — Ele está um pouco perdido desde que você foi para Brisbane.

Ela deu à futura sogra de Sango um abraço caloroso.

— Será maravilhoso rever vocês todos. Como vai Totousai?

— Ele está bem, querida. Espero que você e Kohaku passem algum tempo juntos.

Rin sentiu uma ponta de tensão começar a fazer-se notar. Kohaku era o filho caçula e talvez o filho favorito da mãe... e que deveria ter se casado com Li-sane.

— Tenho um companheiro — disse ela gentilmente, ciente de que Kaede sabia da existência de Sesshy em sua vida. — Você o conhecerá quando ele vier para o casamento.

— Sim, mas você não está comprometida com ele, está?

Não havia nenhuma intenção maléfica naquelas palavras, mas serviram para lembrá-la que nem Kaede nem o filho tinham aceitado que ela havia se mudado para Brisbane.

— Desculpe — falou Sango antes de Kaede ir embora —, eu tentei preveni-la.

— Tudo bem.

O jantar foi uma refeição festiva. Depois, elas passaram o tempo revendo a lista de convidados, os lugares à mesa no local da recepção e, então, ficaram discutindo os detalhes que Sango queria que a irmã checasse, de modo que era tarde quando decidiram ir para a cama.

— Amanhã — declarou Sango com um sorriso malicioso — falaremos sobre você. Quero ouvir de primeira mão tudo sobre esse homem em sua vida.

Enquanto tomava o café-da-manhã, Rin se perguntava o que falaria sobre Sesshy à irmã, que a indagava a respeito dele.

— Ele é especial, você não pode imaginar.

— Você o ama. — Era uma afirmação e não uma pergunta que ela pudesse negar. — Ele a ama? — perguntou Sango, servindo-se de chá com um pouco de leite.

Amaria? Ela não estava certa disso. Afeição e paixão louca, sem dúvida. Ou seria mera luxúria?

— Assim espero.

— Ele pediu-lhe que mudasse para a casa dele? Dormirem juntos não era a mesma coisa que viverem juntos. Ela se mudaria se ele pedisse?

— Preferimos nossa independência.

— Querida, sou Sango, sua irmã, lembra-se? Não temos segredos uma para a outra.

— Ele não pediu — respondeu ela. Mas, se pedisse, a resposta seria sim.

O telefone tocou e Sango atendeu, o que felizmente fez mudar o rumo da conversa.

— Kaede — informou Sango — sugeriu nós irmos até sua casa antes que os convidados cheguem, para termos um tempo familiar. Aparentemente, ela planejou uma surpresa.

E que tipo de surpresa seria?

Debaixo da sacada da casa dos pais de Miroku, havia uma faixa que dizia: "Bem-vinda ao lar, Rin."

Houve abraços e beijos, um bolo comemorativo... e Kohaku.

Rin não sabia se ria ou se chorava, e de algum modo lidou com os dois... mas não pelas razões que Kaede, Totousai ou Kohaku imaginavam.

Aceite isso com espírito esportivo, pensou ela, juntando-se à fuzarca com um divertimento espontâneo. Kohaku, contudo, era algo mais.

Ele era um amigo, um verdadeiro amigo, de longo tempo. Mas isso era tudo. Pela tarde inteira, ela empenhou-se em deixar bem claro isso, mas ele preferiu não perceber.

Onde quer que ela fosse, ele ia. Tinha tocado o braço dela, posto um braço vago sobre seus ombros. Checava a todo instante se havia o suficiente para ela beber e comer.

Para os demais, isso parecia ser uma simples amizade, mas Rin sabia que, por dizer respeito a Kohaku, havia muito mais naquela cortesia toda. E não havia muito o que fazer sobre isso. Pelo menos, não ali, não agora.

Houve um momento embaraçoso quando o celular tocou e ela atendeu a uma chamada de Sesshy, afastando-se para ter mais privacidade.

O som da voz de Sesshy tomou conta do corpo dela e fez seu sangue ferver nas veias.

— Trabalhando muito? — perguntou ela, ciente de que ele estava afundado até o pescoço nos preparativos para um julgamento que deveria começar no dia seguinte.

— Fazendo uma pausa. E você?

— Comparecendo a um churrasco oferecido pelos pais de Miroku.

— Divirta-se.

— Farei o possível para me divertir, apesar de você não estar aqui. Mandarei um e-mail para você amanhã.

— Durma bem — Sesshy despediu-se e desligou o telefone.

Como poderei dormir bem sem você?, pensou ela, ansiando pelo toque de suas mãos e de seus lábios.

Quando ela reapareceu, Kohaku pegou-lhe a mão e beijou-lhe levemente a testa.

— Por favor... — protestou ela, tranqüila.

— Tenho sentido tanto sua falta!

— Nada mudou, Kohaku. Não faça isso.

— Deixe-me levá-la para jantar amanhã à noite.

— Sinto muito. Não será possível. — Ela gentilmente desembaraçou-se da mão dele e juntou-se aos demais convidados. Ajudou Kaede a servir o café e depois foi para a cozinha lavar a louça.

Já passavam das 23h quando Sango e Miroku manifestaram a necessidade de irem embora e Rin deu um suspiro silencioso de alívio pela noite ter terminado.

Os dias seguintes foram agitados, com visitas ao estilista para provas do vestido de noiva, troca de idéias com a floricultura, decoração do bolo nupcial, e Sango quis assegurar-se de que haveria amêndoas açucaradas suficientes. Houve um momento de pânico quando a noiva descobriu que ocorrera um imprevisto na confecção de sua aliança de casamento, especialmente desenhada para ela, e o ourives teria de correr para terminá-la a tempo.

Rin acalmou a irmã e falou firmemente com o joalheiro. Mas todo o pânico voltou um dia depois quando o encarregado do serviço de bufê informou que a firma fornecedora dos guardanapos que Sango havia escolhido não seria capaz de suprir o número exato encomendado.

Na noite de quarta-feira, aconteceu a festa de despedida de solteira, para a qual Rin escolheu um tema e convidou diversas amigas de Sango para participar da diversão e dos jogos... todos envolvendo os últimos dias de Sango como solteira.

— Se você organizou um strip-tease masculino eu juro que a matarei — avisou Sango.

— Não se preocupe, é algo infinitamente mais saboroso.

A surpresa era Miroku, disfarçado de pirata para raptar Sango. No entanto, primeiro ele tinha uma parte a representar... a qual fez muito bem, e foi somente quando Sango começou a gritar pedindo ajuda que ele revelou sua identidade. Depois disso, ele pegou a futura esposa nos braços e carregou-a para fora, onde uma limusine os esperava.

Miroku havia escolhido Kohaku para ser seu padrinho na cerimônia, o que significava que Rin, como madrinha da noiva, seria sua parceira pelo dia inteiro e parte da noite.

No dia seguinte, a família toda compareceu à igreja para o ensaio da cerimônia de casamento, com toda pompa e circunstância que o enlace exigia.

Duas noites depois, Sango e Miroku estariam casados e a festa de casamento estaria a todo vapor... E o melhor: com Sesshy ao lado de Rin.

Ela estava, praticamente, contando as horas!