Suzuran não conseguia conter a exclamação de contentamento ao avistar o complexo de Orio-ya emoldurado pelo azul turquesa do mar. Era uma pousada majestosa, não tão grande como o seu amado Tenjin-ya, mas se espalhava horizontalmente por muitos metros com toda a elegância que um resort à beira mar deveria ter.
Ela já viajara muito em sua carreira, conhecia quase todos Hachiyos, mas não tivera oportunidade de ir ao sul. Ouvira sobre a fama das praias, de um azul transparente à águas mornas; da deliciosa comida dos restaurantes à beira mar, os momentos únicos e românticos das amigas que diziam que o amor florescia no litoral… Ouvia sempre notícias do maravilhoso festival de verão, mas seu líder nunca se interessara em convidar serviços de gueixas para apresentar-se durante os vários dias em que todos os olhos do Reino Oculto se dirigiam para o sul.
Devido a este alarde em torno da seriedade de Ranmaru e seu desinteresse pelo entretenimento e arte das gueixas, não foi sem surpresa que há cerca de um mês, Suzuran recebeu um convite formal do Hachiyo do Sul para ser uma das atrações do festival daquele ano.
No momento do convite, ela ainda estava no Tenjin-ya, refletindo sobre seu futuro, quando ao acordar três dias depois do casamento de Aoi e Odanna, recebeu junto ao café da manhã a carta com a elegante e masculina caligrafia daquele homem um tanto reservado.
O festival duraria dez dias, e ele a pagaria por quinze, para chegar um pouco antes e participar das reuniões de organização, e se quisesse, para utilizar as instalações de lazer do hotel após o encerramento do festival para seu descanso. Suzur achou muito generosa a oferta de pagamento e de hospitalidade, sentiu seu coração se aquecer por sua arte ter causado tão boa impressão a ponto de mudar a opinião de Ranmaru sobre as performances das gueixas.
De acordo com a proposta descrita na carta, ela apresentaria-se todos os dias, para grupos seletos, ora dança, ora tocando shamizen. Participaria também de algumas cerimônias de chá (haviam muitas reservas de casais que aproveitavam o festival para ficar noivos e as cerimônias de chá eram muito demandadas por esse motivo), além de apresentações para todo público no primeiro e no último dia do festival.
Se ela decidisse ir, estaria muito ocupada, preparando-se, paramentando-se, ensaiando e se apresentando. Este convite veio em boa hora para Suzuran, que ainda trazia o coração pesado de dúvida, ficaria no Tenjin até sua partida para Orio-ya e depois decidiria seu destino.
Quando terminou de ler a carta, perdeu-se em pensamentos, segurando-a ao peito. Aquele homem era mesmo uma caixa de surpresas! Ao lembrar-se do ayakashi de lindos olhos azuis, Suzuran sentiu seu coração mudar o ritmo… Estava ansiosa, não poderia falhar, sabia que ele era extremamente exigente, daria o seu melhor para o festival ser um sucesso. Parecia uma adolescente de novo, cheia de entusiasmo com a nova empreitada.
Ao se levantar, compartilhou com Aoi a notícia que foi convidada para o festival de Orio-ya, e estava muito feliz. Aoi sorriu e disse misteriosa:
- É, você realmente causou um impacto em Ranmaru.
Suzuran fingiu não perceber o tom de duplo sentido na voz de sua querida "irmãzinha", e respondeu cheia de inocência:
- Sabendo que ele não interessava-se pela arte das gueixas, fico muito feliz por ser a primeira a representar nossa tradição nas terras do sul.
Aoi falou brincalhona:
- É uma terra muito bonita, com ayakashis trabalhadores e amáveis. Mas, tenha cuidado, não vá ficar encantada com a "paisagem" de Orio-ya, pode ser que você decida ficar lá por um tempo indeterminado.
Aoi disse dando uma piscadela. Suzuran sentiu seu rosto ruborizar completamente, "por que isso está acontecendo com tanta frequência ultimamente?" A moça então respondeu desconcertada:
- Não há chances disso acontecer Aoi, você sabe que tenho uma dívida com seu avô, meu propósito é retornar ao Reino Humano em breve.
Aoi agora parecia ter o semblante mais preocupado:
- Suzuran, você não deve nada ao meu avô, ele só queria que você fosse feliz, assim como eu… Perceba, até para mim ele fez arranjos para ficar no Reino Oculto, por que acha que ele desejaria que você ficasse no Reino Humano, que é tão hostil para os ayakashis? Vovô gostaria de ver você seguir a vida, encontrar um amor, casar-se… E algo me diz que um certo Inugami interessou-se em muitos mais coisas do que suas habilidades como gueixa.
- Aoi! Você está imaginando coisas, o convite foi estritamente profissional e formal, Ranmaru não está em busca de outros serviços. Na capital, todas conhecem sua fama de não se interessar e envolver-se com ninguém. Não crie histórias impossíveis na cabeça! Sobre o Reino Humano, vou pensar no que você falou, mas não prometo nada!
A humana ficou pensativa um minuto, e falou, ainda séria:
- A vida de Ranmaru mudou muito com o sucesso da cerimônia, Suzuran, e mesmo antes, quando estava sob todo stress que aquela responsabilidade lhe causava, mesmo sendo ríspido e sério, eu te digo, ele sempre teve um bom coração! Eu tive a pior das primeiras impressões dele, mas nos momentos que eu mais necessitei, ele foi de grande apoio. Acho que após toda a crise que passou por cem anos, ele está se abrindo. Certamente o clima em Orio-ya estará muito mais agradável do que em minha estada. Aproveite, e se tiver oportunidade de conhecê-lo melhor, permita-se, ele é alguém que vale a pena conhecer…
Suzuran ainda estava perdida em lembranças, quando sua condução se aproximava da área de desembarque em Orio-ya. Para sua surpresa, o Grande Chefe da pousada a esperava pessoalmente com seus cabelos ruivos esvoaçando com a brisa marítima, mais acobreados do que nunca sob o sol do dia. Sentiu o coração acelerado, não esperava ser recebida por ele pessoalmente, seu rosto queimava, estava desconcertada. Precisava se recompor antes de desembarcar.
Quando a embarcação finalmente atracou, dirigiu-se à escada, e foi descendo de forma delicada e elegante. O Hachiyo a esperava, concentrado. Ao aproximar-se, ele falou sério, fazendo uma referência e oferecendo a mão para ajudá-la a descer o último degrau:
- Seja bem vinda a Orio-ya, Suzuran!
Terminando o desembarque e recompondo a postura, fez uma referência e respondeu sorrindo:
- Muito obrigada Ranmaru-sama, seu hotel é belíssimo! Fico encantada pela oportunidade de finalmente conhecer as terras do sul. Prometo fazer o meu melhor para que o festival seja um sucesso!
Ele mantinha o semblante sério, mas amigável, a convidou para acompanhá-lo e a levou à recepção do hotel onde recomendou que lhe tratassem com os melhores serviços, pois era uma artista importante para o festival.
Nene e Hideyoshi desdobraram-se em cuidados com a mulher que não tinha dificuldade em despertar a simpatia de todos. Hatori, galante como sempre, sorria e conversava perguntando como estavam todos no Tenjin-ya, seu tom de voz e sorriso sempre com um toque de flerte que não passou despercebido por Ranmaru. O Inugami preparava-se para se retirar, mas lançou-lhe um um olhar pouco amigável. Antes de retirar-se, o Grande Chefe disse à gueixa:
- Sinta-se à vontade em nosso hotel Suzuran, meus empregados te mostrarão seu quarto. Descanse um pouco, coma alguma coisa, assim que resolver alguns assuntos urgentes, te apresentarei as instalações.
A mulher sorriu de maneira muito encantadora, roubando todos olhares para si e disse com delicadeza:
- Vocês são todos muito hospitaleiros, tenho certeza que terei uma estadia muito feliz! Aguardarei por Ranmaru-sama para conhecer as instalações e receber as orientações para o festival. Vamos dar nosso melhor!
A mulher lançou um olhar afetuoso para o Inugami, em seguida foi levada para seu quarto por Nene. Ranmaru seguiu para seu escritório juntamente com Hatori e Hideyoshi, existiam muitos detalhes para fechar para a abertura do festival que aconteceria em dois dias com várias atrações. O Tengu tinha um sorriso de quem estava planejando algo enquanto acompanhava seu chefe, o que não lhe passou despercebido:
- O que foi Tengu, que sorrisinho estranho é esse?
- Ranmaru, estava com ciúmes da gueixa, não estava? Tenho certeza que se pudesse, me mataria na hora.
- Não preciso esperar para te matar caso continue com essas insinuações nada profissionais! Suzuran é uma artista que convidei para contribuir com o sucesso de nosso festival!
Sabendo do temperamento de seu chefe, Hatori resolveu não testar mais a sorte… No fim, sussurrou para si mesmo:
- Claro, ignore o destino que está se revelando bem diante de seus olhos.
O Tengu gargalhava divertido, pensando que seu chefe não tinha mesmo a menor ideia de que fora fisgado pelo charme da bela gueixa.
