Forks

Demetri estava sentado de forma relaxada na poltrona de primeira classe do avião. A aeromoça já havia passado três vezes na sua frente, insistindo com um sorriso forçado que o vampiro experimentasse alguma bebida do carrinho. Demetri sempre negava educadamente – odiava quando os humanos ficavam facilmente hipnotizados com a sua espécie. E para dizer a verdade, a única coisa que fazia com que o vampiro se interessasse pela mulher, era o seu sangue correndo por debaixo da pele morena. Se a aeromoça desse de bom grado sua vida em troca da sede do vampiro, ele aceitaria.

Claro que isso nunca iria acontecer.

A mulher saiu de perto e Demetri revirou os olhos, gesto que passou despercebido por causa dos óculos escuros. Não queria dar desculpas por causa da cor dos seus olhos. Inventar anomalias genéticas e histórias estranhas para os humanos sempre lhe deixava impaciente. Felizmente não havia mais ninguém ao lado dele para que isso acontecesse.

Os segundos se arrastavam e o vampiro apenas esperou, pensando seriamente na missão que Aro havia designado a ele. Claro que Demetri nunca negaria algo a seu mestre, mas Aro mandá-lo para um fim de mundo a fim de torná-lo um segurança particular de uma humana sem potencial era algo absurdo.

Ele pensou na nômade que teria que matar logo quando chegasse ao seu destino e se animou. A missão não seria tão tediosa, mas claro que sua diversão acabaria no momento em que ele tirasse a vida da vampira.

Respirou fundo, sentindo os aromas adocicados dos humanos que estavam no avião. Teria que se alimentar ao pousar. Esperava que ao menos o sangue do lugar fosse bom. Será...? Definitivamente gostaria de experimentar alguém puro, e rezou para que a vítima fosse limpa. Claro que sabia distinguir uma presa boa de uma presa usuária de drogas ou álcool.

A voz da aeromoça soou estridente pela caixa de som. Demetri se ajeitou na poltrona de forma perfeita, fazendo o teatro e colocando o cinto. Sabia que mesmo se o avião caísse, ele sobreviveria. Estava apenas seguindo as regras de sua espécie.

Um solavanco indicou que o avião acabara de pousar na pista, e ele contabilizou vinte minutos para que todos saíssem. Detestava pequenos aglomerados de humanos se empurrando, principalmente quando os mesmos não tinham classe suficiente para sair de um maldito avião.

Ele desceu calmamente a escada e respirou fundo, sentindo o ar diferente do lugar que ficaria nos próximos anos. Talvez menos de trinta, com alguma sorte. Demetri entrou no aeroporto e seus olhos vermelhos correram livremente pelo ambiente por detrás dos óculos escuros.

Pegou sua mala facilmente e caminhou em direção à saída. Mas o que sentiu chamou a sua atenção. Demetri era o melhor rastreador do mundo, talvez um dos únicos, e nunca esquecia o teor da mente de alguém. E o teor que estava entrando em seus sentidos era conhecido demais para se passar despercebido.

Ele caminhou em direção ao fluxo de pensamentos sem pestanejar, e não se surpreendeu quando viu Alice Cullen ao lado de seu marido em uma banca de jornal, fingindo ler uma revista com um interesse anormal. O Volturi se aproximou.

- O que vocês querem?

Perguntou sem rodeios de forma educada e ao mesmo tempo seca, em um tom que apenas vampiros poderiam ouvir. Alice fechou a revista, entregando-a a Jasper e se virando para Demetri. Os olhos dourados estavam focados nos vermelhos quando ela abriu a boca.

- Eu vim para lhe dar um aviso.

As sobrancelhas de Demetri se arquearam levemente e ele apenas esperou, perguntando-se mentalmente o que seria tão importante para que a vampira minúscula aparecesse no meio de um aeroporto a fim de procurá-lo.

- Creio que será de sua utilidade se você souber que não somos as únicas criaturas sobrenaturais em Forks.

A informação pegou Demetri de surpresa. Não sabia como reagir a isso, então franziu o cenho e esperou que a vampira continuasse a falar; o que ela não fez. Ele respirou fundo.

- Como?

Perguntou para que ela prosseguisse. Alice olhou para Jasper rapidamente, sabia que o marido não concordava com sua atitude. Para ele, Demetri não precisaria saber da existência dos Quileutes.

- Há lobisomens em Forks.

Demetri não conseguiu disfarçar sua surpresa. A última vez que havia visto um metamorfo em sua vida imortal já fazia duzentos anos. Aro gostaria de saber que ainda existia mais daquela espécie perambulando livremente pelo mundo.

- Acho que posso conviver com isso.

Ele sorriu para Alice e a vampira apenas arqueou as sobrancelhas, assentindo e se virando para o marido. Demetri se virou também e caminhou em direção à porta que dava acesso ao ponto de táxi. Alice esperou que o vampiro estivesse bastante afastado para não correr o risco de ele escutar.

- Petulante esse Volturi, não?

Perguntou a Jasper no mesmo momento em que pegava a mão do marido. Uma pequena onda de calma a envolveu e ela o olhou, agradecendo em uma forma de sorriso. Jasper apertou levemente a mão pequena dela.

- Eu disse para você não contar sobre os Quileutes.

- Jasper, os lobos vão sentir um novo cheiro de vampiro. Isso não vai ser bom.

Jasper apenas revirou os olhos, sorrindo e conseguindo um leve tapa no braço.

- Pare de fazer isso!

- Os Volturi possuem um exército de vampiros, Alice. Não é um problema para eles se algo der errado. De qualquer forma, Aro não gosta muito de saber que há uma nova ameaça à sua espécie.

Alice assentiu e começou a andar, sendo seguido por Jasper.

- Pode me responder uma coisa?

O vampiro lhe perguntou e Alice apenas sorriu. Sabia o que Jasper perguntaria.

- Por que não estamos indo para Forks? Seria melhor acompanharmos tudo de perto...

- De jeito nenhum.

Jasper arqueou a sobrancelha.

- Posso saber por quê?

- Porque eu não quero interferir na visão que eu tive naquele dia.

Alice falou seriamente e Jasper pensou um pouco sobre o assunto, concordando mentalmente com ela. Seria melhor que acompanhassem de longe a situação, mas sempre ficando atentos a mudanças. Jasper sabia que as visões de Alice mudavam constantemente, mas aquela em particular ainda não havia dado os primeiros sinais de que seguiria outro curso. E ele não sabia se ficava aliviado ou preocupado.


Demetri entrou em seu novo apartamento, jogando a mala em um canto da sala e fechando os olhos. Olhou brevemente sua nova moradia e aprovou tudo o que havia ali. Aro sempre proporcionava o melhor para os vampiros da guarda Volturi, e Demetri não tinha do que reclamar.

Ele apenas precisava de um banho. Não que os humanos pudessem sentir o cheiro do sangue que subia pela sua garganta e impregnava o seu queixo, mas ele não gostava de vestígios da última caçada em sua pele. Caminhou para o quarto, desabotoando a roupa com rapidez e retirando-a de seu corpo.

Entrou no banheiro, olhando para a banheira e para a ducha larga que havia ali dentro. Demetri nunca tinha paciência o suficiente para esperar a banheira encher, então optou pelo chuveiro, entrando com calma no box e abrindo a torneira.

A água escorreu pela pele pálida, retirando os últimos vestígios de sangue que ele havia limpado displicentemente pelo rosto. Tinha muito tempo que não se sujava com uma caçada, mas Demetri estava com sede e o sangue puro e feminino tinha um poder sobre ele, fazia com que ele sempre deixasse um pouco do seu monstro se sobressair.

Adorava as mulheres puras. As mulheres que nunca haviam colocado uma gota de álcool na boca, ou usado qualquer tipo de droga. E Demetri amava beber o sangue de uma mulher virgem. Isso implicava matar humanas quase adolescentes. Não que ele desse muita importância a isso, mas sempre quando caçava presas assim, elas estavam inconvenientemente acompanhadas, e ele sempre acabava matando mais. Não que ele também desse importância a isso, mas odiava se sentir empanturrado.

Ele fechou a torneira do chuveiro e pegou a toalha ao lado do box, passando pelo corpo. Ao sair do banheiro nu, viu o visor do celular ligado e franziu o cenho, pegando o aparelho e lendo a mensagem que haviam mandado. Os números que ele deveria ligar a fim de facilitar sua vida.

Havia um número de uma empresa que alugava carros. Demetri poderia facilmente correr até Forks. A distância da cidade pequena até Seattle não era tão grande e provavelmente ele iria chegar mais rápido, mas o vampiro não arriscaria ser visto, mesmo que Demetri sentisse o teor da mente das pessoas, não estava nem um pouco com vontade de ficar totalmente alerta enquanto corresse.

Alugaria um carro. Ponto final.


Demetri já se amaldiçoava à medida que entrava na cidade. Poderia ter ido facilmente até Forks correndo. A cidade não tinha nenhuma alma viva andando pela rua. Estava chovendo muito, e mesmo que os olhos do vampiro fossem poderosos, as gotas batendo constantemente no vidro do carro já estavam deixando-o irritado.

Ele parou o automóvel em uma rua erma e saiu. A chuva ensopou a sua roupa imediatamente, mas ele preferia isso a ficar confinado dentro de um carro. Demetri correu rapidamente para a floresta, adentrando a mata densa. Ele finalmente fechou os olhos, se concentrando pela primeira vez no que ele foi enviado para fazer.

No mesmo momento em que abriu sua mente, ele sentiu inúmeros pensamentos girarem em torno do seu corpo. Fluxos diversos indicavam que alguns humanos estavam dormindo, era um fluxo quase nulo... leve. Alguns fluxos indicavam que outros humanos estavam das mais diversas formas: alegres, preocupados, sentimentais, angustiados. Demetri separou os teores das mentes das pessoas que estava captando como se fossem linhas invisíveis, formando uma teia de aranha que se chamava Forks.

Ele fechou os olhos, concentrando-se em buscar um teor diferente dos demais, um teor peculiar. E o que Demetri sentiu o surpreendeu em demasia. Fora fácil demais achá-la, a mente que agora verificava estava quebrada em pedaços, como se a dona dela estivesse confusa em relação a tudo. Alguém que teria sido abandonada pelo namorado sem explicações plausíveis? Ele franziu o cenho e correu em direção ao fluxo de pensamentos sem pestanejar.

Demetri parou em frente a uma casa simples, de dois andares. Havia dois humanos ali dentro, um estava dormindo e parecia roncar igual um urso, o outro estava acordado. Ele poderia ter concluído isso facilmente, havia uma única luz acesa, e pertencia ao quarto que ficava de frente para uma árvore. Mas Demetri sabia o estado de ambos por causa da respiração.

O Volturi sorriu ao perceber que Bella Swan não era imune ao seu dom, e que ele poderia rastreá-la a hora que quisesse. O fluxo confuso de pensamentos pertencia a ela. Ele não conseguia discernir o que a humana estava sentindo realmente, ou como ela estava vivendo tudo aquilo. Demetri odiou isso, mas sabia que nunca mais poderia esquecer o teor da mente dela – mesmo que alguns pensamentos mudassem ao longo do tempo, a ideia central sempre permanecia. Isso o ajudaria na sua missão.

O Volturi pensou um pouco na possibilidade de subir. Gostaria de saber a fisionomia da garota, seria mais fácil saber realmente quem era ela se ele tivesse que segui-la sempre. Ele andou dois passos em direção à casa, mas estacou, aguçando sua atenção e respirando fundo.

O cheiro fétido de cachorro molhado invadiu seus sentidos, alertando-o de que ele não estava só. O que a Cullen havia falado para ele era verdade, ele podia sentir diversos cheiros diferentes, como se os malditos lobisomens andassem em bando. Demetri sabia que andavam. Mas ele não conseguia sentir o teor da mente de nenhum, e concluiu que os cães tinham uma espécie de escudo contra sua espécie.

Revirou os olhos, olhando pela última vez a casa dos Swan, antes de correr por entre a mata a fim de pegar o carro novamente. Não queria ser visto, nem perseguido.

Demetri calculou quando poderia voltar e finalmente ver quem era Bella Swan, a humana que conseguiu mobilizar mais vampiros do que era saudável.


Nota da Autora I: O dom de Demetri é pouco explorado, como tudo que não é Edward e Bella na saga é, espero que eu tenha conseguido explicar melhor como o dom dele funciona. Reli o capítulo várias vezes, modificando-o para que isso acontecesse.

Nota da Autora II: Eu sei que o dom de Demetri não funciona em Bella, isso fica claro em Amanhecer. Mas aqui ele vai funcionar, porque senão a história não faria sentido!