A janela aberta

Todo o passado me visita

- Bem melhor que num sonho!

Ryokan

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- Parabéns Kurosaki Ichigo! A sua mizuage foi fechada por um valor altíssimo. Não é ótimo?

As palavras de Youruichi reverberaram nos ouvidos de Ichigo num efeito devastador.

- Ficou tão emocionado que não tem nem palavras, não é Ichigo? – Urahara deu uma risadinha por trás de seu leque. Ele mais do que ninguém estava satisfeito com o dinheiro arrematado.

O peito de Ichigo parecia que ia explodir pela raiva e indignação. Mizuage para ele era sinônimo de humilhação; se entregar para um desconhecido em troca de uma quantia em dinheiro, como se fosse carne à venda.

- Nem pense em sair explodindo por aí, Ichigo. Lembre-se do que eu te falei . Um passo em falso, e seu rumo já estará tomado. – Youruichi falou seriamente com o rapaz, enquanto liberava a gata de estimação de seus braços.

Ichigo então respirou fundo, e juntando todo restante de auto controle que ainda tinha interpelou os donos da casa de chá:

- O nome... Quero ao menos saber o nome do cliente que comprou minha mizuage.

- Não podemos falar, Ichigo san. Foi exigência do cliente de manter sigilo até a noite da cerimônia.

-Isso é ridículo, Urahara! Eu tenho o direito ao menos de saber o nome desse infeliz! - Ichigo socou com força o piso de madeira.

- Mas veja só! Age como se fosse o primeiro na hierarquia, cheio de exigências. – Riu Youruichi se divertindo diante da indignação do jovem - Chegue ao mesmo nível de Ulquiorra e aí você poderá recusar o cliente que quiser, está bem assim?

- Não vá arrumar mais encrenca, porque sua mizuage será amanhã à noite. Você tem que estar impecável para os olhos do seu cliente. Já pode ir! - Urahara dispensou Ichigo com um abanar do leque.

Furioso, o ruivo se retirou pisando duro. Urahara deu uma piscadela para sua companheira.

- Isso está ficando cada vez mais divertido, não é Youruichi san?

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Ichigo andava de um lado para o outro como um animal enjaulado em seu pequeno aposento do alojamento dos aprendizes. Não ia descer e se aprontar e nem acompanhar Kira aquela noite. O rapaz continuava indignado, revoltado com a situação. Nem mesmo o nome do cliente ele sabia!

- Eu devia era preparar uma surpresinha pra eles... – falava o jovem consigo mesmo, socando a palma da mão. – Garanto que não vai haver mizuage se eu estiver com o rosto machucado...

Um sorriso maldoso perpassou por seus lábios. Iria mesmo se deixar machucar em alguma briga que arrumasse, tudo para não se entregar de mão beijada. Jamais iria implorar, jamais iria fraquejar. Fechou os olhos e se lembrou novamente do primeiro encontro que teve com Grimmjow. As imagens continuavam frescas em sua memória, assim como todas as palavras ácidas proferidas por aquela voz pungente:

"Pára de chorar! Acha que chorando vai resolver alguma coisa? Por isso que odeio pirralhos! Ainda mais chorões..."

Aquelas palavras ecoaram fundo em sua mente, durante anos. Os insultos tiveram um efeito transformador em sua vida, fazendo-o mudar de atitude perante os que rodeavam. Queria ser forte e destemido como ele. Quando o reencontrasse, o agradeceria. E também lhe mostraria o quanto ele havia mudado. Dessa vez, não iria se deixar levar pela surpresa.

- Não se esqueça de que pirralhos crescem e não choram mais, Grimmjow.

Enquanto divagava sozinho, a porta de correr se abre de repente. Ao ouvir o ruído, Ichigo se vira para saber quem estava entrando. E a visita não era nada agradável.

- Ichigo... Até que enfim vai acontecer sua estréia...

- Szayel...

- Não vai me convidar para entrar? – falou Szayel com um sorriso nos lábios. Sua voz era modulada e doce, com um leve quê de afetação.

Ichigo permaneceu quieto. Entendendo isso como um sim, Szayel entrou lépido pelo cômodo apertado de Ichigo, arrastando pelo chão a barra do magnífico quimono de seda púrpura que usava. Aproximou-se do ruivo, rodeou-o e por fim pegou em sua mão, numa carícia branda.

- Luppi me falou da novidade. Assim que soube, vim correndo parabenizá-lo...

O pequeno moreno apareceu a porta, com seu sorriso irritante, balançando alegremente as longas mangas de seu quimono azul.

- Eu estava passando e por acaso escutei sua conversa com os donos. Você não ia contar nada pra gente, Ichigo?

- Luppi! Por favor, você está sendo indiscreto desse jeito. É claro que Ichigo iria comunicar esse acontecimento tão especial ...

Ichigo sentia uma veia saltar em sua testa, no entanto permanecia calado. Szayel era o segundo kagema mais popular da casa, depois de Ulquiorra. Belo e elegante, era também dono de uma inteligência incomum e sabia muito bem como seduzir os incautos clientes para as malhas de sua intricada teia de maquinações.

Desde o começo, Ichigo era recomendado por Kira para não se meter no caminho de Szayel. Sua fama de víbora entre os outros kagemas e os servos era bem conhecida. Ele não suportava ter rivais e ai da pobre criatura que Szayel considerasse como tal. E caso alguém tentasse algo contra ele, a vingança seria certa. Urahara ainda o mantinha na casa de chá unicamente por ser muito lucrativo, e algumas intrigas que Szayel fizesse não seriam motivo suficiente para a sua expulsão da kagemajaya. Portanto, não restava muita saída a não ser evitá-lo a todo custo.

- Eu posso te dar alguns conselhos se quiser, Ichigo...- riu malicioso, escondendo os lábios na manga do quimono.- Quem é seu patrono de mizuage? Talvez eu até conheça...

- Não sei. - Ichigo respondeu secamente, olhando para as tábuas do piso.

O mais velho fingiu espanto ao ouvir aquilo. Lançou um olhar cúmplice para Luppi que já estava ao seu lado, e novamente voltou-se para o ruivo.

- Mas eles não contaram quem era?

- Foi exigência do cliente!

O ruivo já ia pedir que os dois se retirassem dali, porém o gesto do kagema de cabelos rosados chamou sua atenção. Com o dedo no queixo e um olhar incisivo, Szayel falou:

- Eu suspeito que o seu cliente é um velhote... Geralmente, eles guardam sigilo sobre sua identidade porque não querem que os kagemas se aflijam. Sim, eles fazem isso na intenção de que os garotinhos imaginem que seus patronos são jovens e vigorosos... E quando se vêem frente a frente, não há mais como escapar.

Ao notar que havia abalado Ichigo, Szayel sorriu triunfante. Encorajado pela presença de seu nii san, Luppi resolveu emendar a estória, aumentando a crueldade:

-Ugh!Um velhote! Não gosto de velhotes. São tão maçantes... E tem um cheiro esquisito. Fora que ficam o tempo todo em cima de você, se esfregando. Ah! E tem mais um porém ...

Luppi se aproximou um pouco mais, e falou baixinho, como quem confidencia um segredo:

- Você não faz idéia de como é horrível a primeira vez. É uma dor praticamente insuportável! Parece ate que vão te rasgar ao meio. – Luppi fazia questão de exagerar a expressão dorida ao falar sobre esse assunto.

- Luppi, você está começando a assustar o Ichigo! Pare com isso. Senão é capaz do ruivinho cometer uma bobagem em sua estréia.

Szayel repreendia Luppi de um jeito artificial, balançado o dedo indicador, mas sempre com um sorriso provocativo estampado no rosto. Meneou a cabeça graciosamente e voltou-se para o rapaz ruivo:

- Não ligue para que o Luppi diz, Ichigo. Quando chegar o momento crucial, feche os olhos, e quando perceber, já terminou tudo!

Ichigo já estava em seu limite. Prestes a expulsar os dois dali, viu Izuru adentrar no cômodo. Szayel abriu mais ainda o sorriso de víbora ao ver o louro. Pegou nas mãos de Izuru de uma maneira gentil e amistosa.

- Vim parabenizar seu irmãozinho, Izuru –chan! Deve estar orgulhoso pelo preço arrematado, não?

Kira olhou primeiro para Ichigo e depois para Szayel. Deveria dispensar aqueles dois o mais depressa possível, antes que Ichigo o fizesse, na base dos pontapés.

- Agradeço humildemente por sua atenção, Szayel san, mas não deveria ter o incômodo de sair de seus aposentos para ir ter com meu irmão mais novo.

- Mas pra mim não é incômodo nenhum, Izuru chan! Eu estava aqui dando alguns conselhos para ele, já que tenho um pouquinho mais de experiência.

- Novamente agradeço. Mas acredito que isso é de minha inteira responsabilidade. Não precisa se preocupar com assuntos menores como a mizuage do Ichigo.- Izuru respondia polidamente a Szayel, evitando confrontar-se diretamente com ele.

- Mas Ichigo é sinônimo de preocupação, Izuru san! Acho que ele é capaz de quebrar a cabeça do velhinho que comprou a mizuage dele. Vai ser uma verdadeira tragédia! Você acha mesmo que não devemos nos preocupar? - Luppi tomou a palavra dessa vez, sempre se confiando em Szayel.

- Agora chega! Fora daqui vocês dois!

Ichigo pegou um potinho contendo pó de arroz e atirou em direção a Luppi. O moreno conseguiu se desviar, e o pequeno pote veio a se quebrar na porta, espalhando o fino pó branco pelo chão e quase sujando os pés de Ulquiorra, que tinha acabado de chegar.

Ulquiorra volveu o olhar para o chão sujo de pó de arroz, em seguida direcionou os grandes e incisivos olhos verdes para os que estavam no quarto. Sem alterar qualquer traço em sua fisionomia, entrou tranqüila e altivamente. Um perfume refinado e marcante se irradiou pelo recinto. Szayel levantou o queixo e olhou o outro de alto a baixo, analisando o fino quimono verde escuro com detalhes bordados.

- Ulquiorra san. Mas que lindo quimono o que está usando. Esse eu nunca tinha visto...

- Presente de meu Danna, Szayel san. – Ulquiorra respondeu em poucas palavras, sem olhar para Szayel, que sorriu com simpatia fingida.

- Ah! Sim, claro... Tinha mesmo que imaginar que foi o seu danna, Ulquiorra san. Devo dizer que ele sempre teve muito bom gosto. E tem verdadeiro prazer em enfeitar suas bonequinhas. Bem, adoraria ficar por mais tempo, mas devo me apressar para a exibição da noite. Com sua licença... – Abaixou-se num cumprimento e retirou-se, sendo seguido por Luppi, que ao contrário do mais velho, mantinha o olhar amedrontado pela presença de Ulquiorra.

A tensão ainda permanecia no lugar. Por muito pouco, o potinho de pó de arroz não atingiu Ulquiorra. Ichigo não sabia nem como agir diante da presença impressionante do pálido kagema a sua frente. Ele era tão bonito, tão diáfano, parecia nem ser desse mundo. Mesmo sendo mais velho que os outros dois, sua aparência não dava mostras de sê-lo. Até mesmo um rebelde como Ichigo ficava desarmado diante de tal visão. Kira fez menção de falar alguma coisa, mas Ulquiorra o deteve, levantando a mão em um gesto lento e delicado.

- Não precisa se ocupar em defender seu irmão mais novo, Kira san.- Voltou sua atenção para o ruivo, que mantinha os olhos no chão.

- Vim para felicitá-lo pela celebração de sua mizuage, Kurosaki Ichigo. – Falou isso sem no entanto demonstrar qualquer tipo de emoção em sua voz. O rapaz de cabelos negros curvou-se um pouco como saudação, e Ichigo retribuiu o cumprimento ainda constrangido.

- Arigatou, Ulquiorra san.

- Farei as honras da cerimônia, como é do costume da casa. Espero que não cometa nenhum desatino, como tem feito nos últimos tempos.

-Agradecemos a preocupação, Ulquiorra san. Tudo irá acontecer na mais perfeita ordem. – Kira se adiantou novamente, curvando-se respeitosamente ao número um da Ohana no Kikku.

Ulquiorra fez um aceno com a cabeça e foi em direção a entrada do aposento. Porém antes de se retirar, apontou para os pedaços partidos do pote e o pó de arroz espalhado e falou calmamente:

- Limpe isso...

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- O que você queria me mostrar que é tão importante, Kira nii-san?

- Voce já vai ver Ichigo... – respondeu o louro enquanto puxava Ichigo pela mão.

Entraram nos aposentos de Izuru . Próximo a pequena mesa laqueada estava um suporte com um quimono de mangas longas belíssimo, de cor vermelha brilhante, com delicadas flores de ameixeira bordadas. O mais velho então pediu que Ichigo se aproximasse.

- Esse furisode é seu, Ichigo. Você precisa vestir algo apropriado para uma cerimônia como a mizuage.

-Ah, Kira nii-san, é muito bonito mesmo, mas... Não vejo razão para usá-lo nisso.

Izuru ficou sério diante da recusa. Encarou Ichigo bem nos olhos e após essa pequena pausa, falou:

- Ichigo, eu compreendo que não deve estar sendo fácil pra você. Pra mim também não foi. Mas você tem que saber que por mais humilhante que seja, mizuage é um momento muito importante.

- Mas Kira ...

- Quando você arremata um bom preço em sua mizuage, boa parte do dinheiro vai para pagar sua dívida. Além disso, quanto maior a quantia, maior vai ser o preço de seus serviços. Isso implica dizer que as chances de encontrar bons clientes são maiores. Entende o que quero dizer? O que seu patrono fez foi uma generosidade...

Ichigo não tinha palavras. Mesmo que não concordasse com tudo, aquele raciocínio fazia todo sentido. Ele nunca havia pensado sobre isso.

- E além do mais, Ichigo, pra quem já enfrentou coisas piores nessa vida... Um mizuage não significa quase nada.

Os lindos olhos de Kira se anuviaram um pouco depois de ter falado aquilo. Ichigo também foi tomado de melancolia ao relembrar toda a tortuosa sucessão de fatos que passou até chegar aquele lugar. Depois daquele breve momento, foi o louro que quebrou o silêncio, com a voz mais amena, tentando dissipar a tristeza.

- Você vai ficar lindo nele, Ichigo. Vermelho combina muito com a cor de seu cabelo. Não é todo mundo que fica bem com essa cor.

-Izuru nii san... Como foi a sua mizuage?

A pergunta feita pelo mais novo deixou o louro da cor de um tomate, o que fez com que Ichigo tivesse se arrependido pela pergunta. Aquilo era embaraçoso para o ruivo também, mas ele precisava saber sobre isso da boca de alguém em quem realmente confiasse, para ao menos tentar se acostumar melhor com a idéia.

- Bem... Tudo o que posso falar é que foi... diferente de tudo o que eu já passei antes. – Um sorriso apareceu levemente em seus lábios rosados. - Meu patrono, Ichimaru san, foi muito paciente e gentil comigo.

Ouvir aquele nome fez Ichigo ainda mais envergonhado. Lembrou-se da situação em que viu os dois juntos no jardim horas antes. Ainda podia sentir a aura daquela serpente sedutora circundando Izuru. Evitou olhar diretamente para ele, com medo que algum sinal em seu rosto o denunciasse. Sentiu a mão longa e suave de Kira a tocar a sua.

- O que tem a fazer é apenas esperar e deixar que ele te conduza. Tenho certeza de que nem Yoruichi sama e nem Urahara sama te dariam algum mau- caráter como patrono.

O jovem suspirou, enquanto ouvia a alegre música dos acordes de um shamisen. Enquanto isso, no jardim, as primeiras folhas avermelhadas do ácer começavam a cair, suscitando a quem olhava inspirações poéticas e românticas.

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As noite da mizuage finalmente havia chegado. Não era necessário dizer que havia uma tensa expectativa no ar. Todos ali queriam saber o que aconteceria com o garoto problema da casa de chá.

Ichigo banhou-se, em seguida vestiu a combinação de seda. Teve os longos cabelos acobreados penteados, perfumados e arrumados. A maquiagem rubra resplandecia em seus lábios e olhos. Camareiras ajudaram-no com o quimono presenteado por Kira. O laço de seu obi foi atado na frente pela primeira vez.

O rapaz no entanto mantinha-se inalterado, frio. Talvez fosse por conta do nervosismo, pensaram. Seguiu para o corredor junto com Kira e vieram ter com os donos da casa.

- Ah, Ichigo, está deslumbrante... O cliente vai ter uma enorme satisfação de te ver assim tão bonito. – a dona realmente estava encantada ao ver Ichigo naquele quimono.

- Com toda certeza, ele vai ter Youruichi san! Ele já está esperando nos aposentos de Ulquiorra san! Oh, oh! E está impaciente. Imaginem só o que ele não vai fazer quando estiverem sozinhos! – Urahara olhava com um brilho malicioso, sendo o rosto parcialmente coberto eplo leque.

- Não vá fazer nenhuma gracinha Ichigo. Caso contrário, arranco seu couro numa surra! – Youruichi falava descontraída, sorrindo, mas sempre com um tom ameaçador. Era isso que a tornava mais terrível aos olhos dos garotos.

O ruivo crispou os lábios. Sentiu a mão de Izuru apertar a sua. Levantou o rosto e o mais velho lhe sorriu.

- Vai ficar tudo bem.

Chegaram aos aposentos de Ulquiorra. Abriram a porta de correr e Ichigo entrou. O rapaz sentiu o coração parar ao descobrir a identidade de seu patrono.

- Já não era sem tempo, Kurosaki Ichigo... - Grimmjow alargou o sorriso cheio de dentes, um sorriso malicioso, mas ao mesmo tempo sincero.

- Não vai cumprimentá-lo, Ichigo?- Youruichi deu um leve toque no ombro do rapaz que continuava parado, de pé, olhando para o samurai sentado ao lado de Ulquiorra.

Rapidamente, Ichigo se recompôs e fez o cumprimento, ajoelhando-se e inclinando o corpo, com os braços esticados e as mãos juntas, apenas a ponta dos dedos tocando o aquele rapazinho esquentado e rebelde, lindamente vestido se curvar em agradecimento fez com que os olhos azuis de Grimmjow brilhassem de desejo luxurioso.

Ao levantar o rosto, Ichigo percebeu aquele brilho nos olhos de seu patrono e sentiu o rosto em brasa. Nunca sequer passou-lhe pela cabeça que justamente ele poderia ser seu patrono de mizuage. Achou que o interesse de Grimmjow era apenas uma brincadeira, uma troça. Tramou vários planos no intuito de procurá-lo e de repente, o samurai estava ali, na sua frente.

Ulquiorra então ergueu o braço num modo elegante, apontando para a almofada revestida de seda e disposta na extremidade da mesinha laqueada.

- Sente-se , Kurosaki Ichigo. A cerimônia irá começar.

Ichigo respirou fundo e sentou-se. Grimmjow fez o mesmo na outra extremidade. Estava orgulhoso e muito cheio de si. Os outros acompanhantes da cerimônia tomaram seus lugares. Uma jovem criada pôs uma bandeja com várias taças de sakê na mesa. O ruivo pegou uma e tomou três goles da bebida, e em seguida, passou para o samurai. Os dedos de ambos tocaram-se levemente. Grimmjow sorriu com o canto da boca ao ver o rosto de Ichigo corado. Pegou a taça a também tomou três goles. Repetiram o mesmo gesto três vezes, usando as outras taças.

Agora os dois estavam ligados formalmente. Após o término da cerimônia, a criada ajoelhou-se e abriu a porta de correr. Todos se levantaram e saíram. Ichigo procurou Izuru com o olhar e o louro deu um sorriso doce e confiante para seu irmão mais novo. Ele mesmo também estava surpreso com o fato de Grimmjow ser o patrono misterioso de Ichigo.

O ruivo seguiu em frente, para o quarto que já sabia previamente onde se daria a consumação de sua mizuage, e o samurai o seguiu. O silêncio era tão grande que era possível ouvir o arrastar do pesado quimono de seda vermelho no piso e o leve tilintar dos enfeites no cabelo acobreado do kagema. O mais novo se sentiu tentado várias vezes a olhar para trás, mas manter a formalidade do momento era o mais seguro a se fazer. Poderia passar por tolo na frente do samurai.

Já Grimmjow parecia tranqüilo, embevecido com a situação. Estava pensando em como tudo tinha sido relativamente fácil de se resolver. Tinha até se divertido no final das contas. Quando havia chegado na tarde do dia anterior à casa de chá e adentrado no escritório de seu proprietário, a mizuage de Ichigo já estava em fase de fechamento. A julgar pelas roupas deveria ser algum comerciante, e este já tinha alguns anos nas costas.

Grimmjow entrou sem cerimônia e falou do que veio tratar. Urahara então se desculpou com o samurai, pois a negociação já havia sido fechada. Isso não o fez de rogado. Sentou-se ao lado do homem, tirou a espada ainda embainhada e a bateu com a ponta virada para o chão, fazendo com que as tábuas do piso estremecessem. Olhou em seguida para o pobre homem que se intimidou com o tamanho e com o gesto do samurai. Num sorriso ameaçador, o jovem então falou—lhe que já fazia muito tempo que queria ser o patrono de Ichigo, e que ninguém poderia lhe tirar esse direito. O homem ficou apavorado e pegou a quantia de dinheiro de volta. Desculpou-se com ambos e retirou-se rápido. Urahara ainda fez menção de lamentar, mas o samurai jogou-lhe um saco de tecido fino na mesa desorganizada. O proprietário pegou e ao ver a quantia absurda que continha, ficou com o rosto iluminado. O valor era três vezes maior do que a última oferta. Derreteu-se então em agradecimentos para Grimmjow.

Ser samurai naquela época era mesmo um privilégio. Deu uma risada baixa e então passou a se concentrar no andar elegante do rapazinho de quimono rubro a sua frente.

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Tudo já estava previamente preparado para a ocasião. Havia uma bandeja com sakê e o chá estava disposto em um pequeno braseiro. A lanterna de papel acesa em um suporte dava uma atmosfera especial àquele lugar. O vermelho da seda que recobria o futon era evidenciado ainda mais pela luz amarelada, assim como o quimono e os cabelos de Ichigo. Imediatamente veio a mente do samurai a idéia do calor do fogo, chamas a aquecerem seu corpo, envolvendo-o em uma sedutora aura de luxúria. A cada minuto que passava, o samurai se sentia mais curioso e atraído por aquele garoto. E não era é só a beleza física dele. Ichigo tinha algo no olhar que ao mesmo tempo irritava e encantava Grimmjow, uma petulante superioridade se estampava naqueles olhos castanhos. Queria domar toda aquela insolência, e naquela noite iria alcançar seu intento.

Estavam sentados um de frente para o outro. Apesar da seriedade na expressão, os olhos castanhos de Ichigo brilhavam. O compasso de seu coração batia cada vez mais forte. O corpo mantinha-se tenso, como sempre acontece nesses momentos de grande importância . E o momento com que ele tanto sonhava havia chegado, da maneira mais inesperada possível, mas nem por isso menos desejado. Tomou fôlego e falou ao samurai:

- Talvez você nem se lembre mais de mim, mas eu... Nunca me esqueci de você. Nem pelo o que fez por mim. – Ichigo mantinha as mãos escondidas pelo laço do obi, apertadas, evitando que tremessem pela ansiedade.

- Tch! Isso é algum tipo de galanteio por conta de eu ter comprado sua mizuage? – Grimmjow mantinha sempre um sorriso impertinente.

- Não... Falo do que aconteceu seis anos atrás, aqui em Yoshi-cho. – O sorriso de Grimmjow se desfez, e como num facho de luz, acontecimentos esquecidos começavam a se formar em sua mente, ainda embaçados. Tudo veio ficar nítido quando Ichigo tirou da carteira de seda que trazia dentro de seu quimono um crucifixo de prata, com um nome gravado em letras estrangeiras em seu verso, cujo significado o rapaz nunca soube decifrar.

- Acredito que seja seu... Deixou cair quando foi embora. – Pôs o crucifixo preso pela corrente no tatame. Grimmjow arregalou os olhos para o objeto e em seguida para Ichigo.

-Não acredito. Então, aquele pirralho era mesmo você?