Capítulo 3: Letitia não é quem aparenta
Enquanto isso, Grissom chegava perto de Greg para ouvir sua conversa com a ruiva. Ao percebê-lo, o CSI apresentou o chefe a Jennifer Saint-James, a ruiva.
- Quais eram as suas relações com Letitia Shawn? – Perguntou Grissom, sem rodeios.
- Não era segredo pra ninguém, que nós não nos dávamos bem, Sr. Grissom.
- A ponto de querer matá-la?
Jennifer sustentou o olhar do forense.
- Não, tinha raiva dela, mas não tanta assim! Ela me deu motivos, mas não é da minha índole. Mas não serei hipócrita: fico bem melhor sem ela, na minha frente.
- Quando a viu por último?
A ruiva pareceu pensar um pouco antes de responder.
- Creio que foi em seu camarim, depois do balé. Vi Troy saindo de lá e não me contive: era muita provocação. Troy era meu namorado; ela o roubou de mim! Tantas fez, que conseguiu, Ela era assim sabe, cheia de caprichos!
Grissom começou a achar, que aquele mundinho tranquilo do balé, era apenas impressão superficial, no fundo havia uma grossa rede de intrigas, como em toda relação humana.
- Ela me falou, em tom de deboche, o que Troy falava nas minhas costas.
- Aí, você brigou com ela.
- Sim, como sabe? – A ruiva arregalou os olhos.
Grissom disse, que fora um "palpite", apenas. Jennifer continuou:
- Bem, eu lhe dei alguns tabefes e ela não revidou, o que pensando bem, era muito estranho. O máximo que fez, foi puxar o meu cabelo! Cambaleou e caiu. Parecia meio grogue, mas estava consciente, quando saí.
Grissom notou a falta de uma unha falsa em sua mão direita, mas mesmo assim, pediu seu DNA. A ruiva não se recusou.
Greg viu um sujeitinho, meio saltitante, conversando com o elenco. Soube que aquele homenzinho gesticulador era o diretor do espetáculo: Martin Campbell. Foi falar com ele.
- Sou Greg Sanders, do Laboratório de Criminalística. Posso lhe fazer umas perguntas?
- Sim. Aparentemente, esqueceram-se de mim.
- Como?
O homenzinho parecia irritado.
- Há horas, aquele homem (apontou para Brass), nos colocou, naquele canto e falou que seríamos logo entrevistados e liberados.
- Desculpe, senhor, mas é que têm muita gente para entrevistar.
- Até que o Giselle, não têm um elenco dos maiores!
Quando Warrick lhe dissera que iam verificar uma ocorrência num balé, Greg havia imaginado algo leve, tranquilo; não aquela loucura, que ele via.
O homenzinho sorriu e Greg fez uma rápida avaliação dele: entre 40 e 50 anos, não muito baixo, mas muito magro, cabelos escuros, que se percebia de longe que eram tingidos, dentes amarelados de nicotina e, um horroroso terno verde-limão.
Meio sem jeito, Greg lhe perguntou sobre suas relações com Letitia. Para seu espanto, o homenzinho se pôs a chorar, deixando o CSI, completamente, sem ação.
- Ela era minha amiga. Ríamos e chorávamos juntos. Éramos confidentes. Vou sentir muita falta dela – disse o diretor, com os olhos vermelhos.
- E quando a viu com vida, pela última vez?– perguntava Greg, fazendo anotações, numa caderneta.
- Antes do espetáculo começar. Tomamos uma taça de champanhe, para comemorar a 100ª apresentação do Giselle.
- E agora, com ela morta, como fica o balé?
O homenzinho tinha mesmo reações exageradas. Agora, assoava o nariz, ruidosamente, num lenço que tirara do bolso. Encarou Greg, como se ele viesse de outro planeta.
- A companhia segue uma hierarquia, "o show não pode parar", meu amigo! A segunda bailarina assume neste caso, Jennifer Saint-James!
"A ruiva! Claro quem mais?", foi o pensamento precipitado de Greg, para quem, Jennifer parecia ter muita culpa, no cartório. Dispensou Martin e foi entrevistar o restante do elenco.
Warrick estava cansado, depois de falar com todos os membros da orquestra. Bem, quase todos, pois ele deixara Dick Shawn, por último. Tinha certa curiosidade a respeito do moço de cabelos castanhos, olhos verdes e mãos bonitas.
Antes de mais nada, prestou-lhe sentimentos pela sua recente perda,depois perguntou o que havia realmente acontecido.
- Depois do balé, ela foi até o camarim e nunca mais que voltava, então fui até lá, ver o que estava acontecendo!
- E o que estava acontecendo, Sr. Shawn?
- Ela estava caída no chão, desacordada. Vi sobre a bancada um tubo de remédio para dor de cabeça, "Ácido Mefenânimo", vi que estava quase cheio, então chamei o 911.
- Ácido Mefenânimo? Nunca ouvi falar – respondeu Warrick.
- É um remédio que o médico dela receitou. Devia ser época de seu período, pois ela tinha dores de cabeça horríveis, quando era época de sua menstruação.
- Quem sabia que ela tomava esse remédio?
Dick pensou um pouco e respondeu:
- Acho que todo mundo!
- Onde ficava esse remédio?
- Em sua bolsa... Ei, mas por que tantas perguntas? E por que vocês foram chamados, se é um caso de ataque cardíaco?
- Ataque cardíaco, numa bailarina de 26 anos, que devia estar gozando de perfeita saúde?
- É, agora que você falou, de fato, soa estranho.
- O que sentia em relação a Letitia?
- Ela podia não ser perfeita, mas eu a amava!
- É porisso que não se separou dela, judicialmente?
Os olhos dele ficaram ainda mais tristes e se fixaram no vazio, ao responder:
- Pode me achar um idiota, ou um tolo romântico, mas não me divorciando dela, era como se a qualquer momento ela voltasse pra mim. Bom, agora ela será a Sra. Shawn, para sempre, não é?
- Suponho que sim – arrematou Warrick.
O CSI estava quase se retirando, quando pareceu lembrar-se de algo. Deu meia-volta, e perguntou a Dick:
- Ela usava drogas?
- Não! E o que mais vão inventar para caluniá-la?
- Não foi minha intenção, Sr. Shawn. É que alguns drogados morrem jovens, de ataque cardíaco. Foi uma idéia, que me veio...
- Uma péssima idéia, por sinal! Letitia prezava muito sua carreira, ela cuidava muito do corpo; não o estragaria com drogas!
Warrick não retrucou, mas entrevistando o pessoal da orquestra, fez seu próprio retrato de Letitia, e ele não era assim tão maravilhoso quanto gostaria seu ardoroso defensor e marido: Dick Shawn.
Na verdade, nenhum deles colheu impressões muito amistosas, a respeito de Letitia Shawn. Não estavam mais admirados do seu ataque cardíaco aos 26 anos e sim, como ela chegou até essa idade, sem ter levado um tiro!
Warrick e Greg pegaram sua SUV, enquanto Grissom e Sara preparavam-se para ir também. Ficaram trocando impressões e também, conversaram com Brass.
- E então Gil, que lhe parece?
- Sinceramente, não sei, meu amigo. Parece que muita gente tem motivos para matá-la, mas ela morreu antes.
- De ataque cardíaco? Aos 26 anos? – Perguntou incrédulo o capitão.
- É. – Grissom balançou a cabeça, de uma forma engraçada. – Não é comum, mas acontece!
- Ela não foi levada ao hospital?- Indagou Sara.
- Morreu antes de chegar lá. Na ambulância, com os paramédicos - Reportou Brass.
- Só saberemos com certeza, depois da autópsia. – Concluiu Grissom.
- Bom, pelo adiantado das horas, acho que A, já deve ter terminado. – Disse Brass, olhando seu relógio de pulso.
- Al, nosso Al?
- Sim, Gil! Não sabia bem o que fazer, então a mandei para lá. Fiz mal?
- Não, certamente que não, Jim! – Apertou forte a mão de Brass que sorria divertido, com a afoiteza de Grissom. - Vamos Sara, pode ser que Al ainda não tenha terminado a autópsia.
- Calma, Gil! Ela com certeza, não vai a lugar nenhum.
Grissom não respondeu e abriu a porta da SUV. Sara despediu-se de Brass apressada, pois tinha receio de ser esquecida no teatro, que àquela altura, estava quase vazio.
No carro, Grissom queria contar a Sara a história do Giselle. Ela bem que gostaria de prestar total atenção, mas estava distraída, com o pensamento voltado em outra coisa e só ouviu trechos do que ele falava.
Sorria, de vez em quando, para ele pensar que ela estava prestando atenção, olhava para ele e sacudia a cabeça ou dizia: "interessante", mas na verdade, pensava na carta que havia recebido e que estava lendo antes de irem trabalhar.
