Apenas um acordo?
By Ravena
Capítulo 3
Saori sentiu-se incomodada com o olhar insinuante de Seiya. Pegou uma colher de prata e tamborilou na mesa, aguardando.
- Certo, certo. É confuso, mas tentarei explicar. Apenas lembre-se dos noventa e cinco anos do meu avô.
- Combinado.
- Três meses atrás, vovô me deu um ultimato. Ou eu encontrava uma esposa ou ele votaria a favor de abrir o capital de nossa empresa na próxima reunião anual, que acontecerá em um mês. Temo que os acionistas concordem com ele.
- Vocês têm acionistas, mas a companhia não tem ações na bolsa? Como assim?
- Todos os acionistas são membros da família Ogawara, além de alguns funcionários antigos que foram recompensados com ações na aposentadoria, e vários diretores com opção de ações como partes dos seus contratos.
- Entendo.
- Vovô desconfia de um de nossos primos, que ganhará direito de voto para suas próprias ações, para as de sua irmã gêmea e para as da mãe, em seu aniversário de trinta e um anos.
- A mãe e a irmã dele não podem votar suas próprias ações?
Seiya meneou a cabeça.
- Está no estatuto social da empresa.
Saori suspirou.
- Parece-me que a JetCorp precisa renovar o estatuto.
- Concordo, mas não acontecerá com vovô como presidente das empresas. Ele vem mantendo rédeas curtas nas ações da família da Jabu e vota em nome de todos eles. Vovô acredita que Jabu, uma vez que obtenha o direito de votar, tentará assumir o comando.
- E ele irá tentar?
- Não! É a última coisa que meu primo pretende. A irmã de Jabu quer tanto quanto eu manter a companhia na família, mas vovô não crer nisso. Ele prefere ver as ações na bolsa de valores, a deixar Jabu no controle. – Deu de ombros. – E ele pode ter razão, mas não é esse o problema.
- Como o fato de você ficar noivo muda alguma coisa?
- Não muda, exceto aos olhos de vovô. Ele acha que pareceria mais estável a outros membros do quadro que podiam estar persuadidos a votar pela abertura de capital. – Bebeu o conhaque, estudando-a por cima da borda da xícara. – Também consta no estatuto que, se não houver um herdeiro Ogawara adequado ou disposto a fazer o trabalho, o presidente tem o dever de abrir a companhia.
Saori franziu o cenho.
- Isso seria tão ruim?
- Para mim não. Eu daria tudo para sair disso. Mas fiz uma promessa que tenho que cumprir. Tudo que necessito é que meu avô me esqueça um pouco até que a próxima reunião geral acabe.
- E depois?
- Se parecer que vou me casar e produzir um herdeiro, vovô esquecerá as preocupações sobre Jabu e a suposta tomada de posse.
- Pode funcionar para este ano, mas haverá uma outra reunião daqui doze meses. O que fará então?
- Espero que isso não seja mais problema até lá.
Ela o encarou, incrédula.
- Está dizendo que espera que seu avô morra?
- De modo algum!- Seiya deslizou os dedos pelos cabelos. – O que espero é que, quando Jabu fizer trinta e um anos, se torne seguro para nós fazermos o que queremos fazer.
- Com "nós" sendo...
A hesitação dele a fez pressioná-lo.
- Seiya, se quer minha cooperação, terá de conquistá-la. Não entro as cegas nas coisas.
"Não mais..."
Ele a fitou, muito sério. Depois bebeu o resto do conhaque e continuou a analisá-la.
- Saori, não posso continuar a lhe fazer revelações a menos que me prometa que isso ficará apenas entre nós, mesmo se, após me escutar, você decidir não me ajudar.
Ela se concentrou a enrolar a ponta do guardanapo antes de tornar a olhar para ele.
- Terá de confiar em minha integridade profissional, Seiya. Não tenho como lhe provar minha honestidade, mas sim, o que quer que me diga, não sairá daqui. Você tem minha palavra.
- É tudo de que preciso. – Entretanto, ele não continuou. Em vez disso, afastou a cadeira e estendeu a mão para ela. – Vamos conversar fora daqui?
Seiya a conduziu até a saída.
Enquanto o elevador os levava para o térreo, permaneceram em silêncio, mas ele não soltou-lhe a mão. Saori gostou daquele toque quente e firme.
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Seiya a guiou através de um pátio arejado, entre canteiros de flores perfumadas de verão. De uma linda fonte jorrava água, refrescando o lugar.
Quando chegaram a um canto mais isolado, um banco a sombra de um plátano, um extenso gramado diante deles, Seiya gesticulou para que Saori se sentasse e se acomodou ao seu lado.
Ela assistiu uma pequena folhar cair da árvore sobre os cabelos dele. E resistiu ao impulso de retirá-la. Por que aqueles cabelos cor de chocolate a fascinavam tanto?
A atenção de Seiya estava toda nela.
- Está com frio?- Sem esperar resposta, ele tirou o paletó e passou-lhe pelos ombros, segurando a lapela sobre o peito dela.
Ver os suspensórios dele a fez sorrir.
- O que foi? Não gosta de suspensórios?
- Sim, claro que gosto. Estão tão na moda não é?
Seiya achou graça da brincadeira.
- Você iria me dizer algo que irá me convencer a seguir seu plano.
- Assim espero. Bem, primeiro tenho que lhe dar um pouco mais de história, se você puder suportar.
- Lógico. Eu não estava mentindo quando disse a seu avô que a história do clã Ogawara me fascina.
- Certo. Meu irmão, Shiryu, tinha apenas vinte e dois anos quando nosso pai teve o primeiro infarto e precisou diminuir o ritmo de trabalho. Foi então que vovô assumiu a presidência da empresa. Mas ele sabia que precisava de alguém que tivesse idéias mais modernas e coragem para implantá-las. Acho que tanto vovô quanto papai achavam que Shiryu era muito inexperiente, embora viesse trabalhando e treinando em cada departamento durante a faculdade, e até mesmo durante o colégio. Porém, havia se formado em administração de empresas fazia pouco.
- Um homem de vinte e dois anos é novo demais para assumir o controle.
- Talvez sim, mas Shiryu conhecia os negócios da trás para frente e logo se deu conta de que precisava de alguém com ele em quem pudesse confiar sem restrições. Alguém que trabalhasse muito, cuja personalidade completaria a sua, alguém brilhante e talentoso para ser seu braço direito. Por seis anos, meu irmão tentou homens diferentes na posição, mas nenhum o satisfez. Seu avô Mitsumasa tinha a reputação de ser a pessoa certa quando uma companhia estava em busca de um executivo qualificado, e Shiryu foi a ele. Mitsumasa recomendou uma mulher chamada Shunrei Yanama.
- Desde o começo, a Parceiros Prefeitos é especializada em empregar mulheres. Por que Shiryu iria até meu avô?
- Porque achou que uma mulher seria a assistente pessoal perfeita para ele.
- Assistente pessoal? Vovô nunca teria colocado uma mulher num tipo de posição que poderia melhor ser descrita como secretária. Não é o que nós fazemos.
- Eu sei, e Shiryu sabia também. Ele não estava procurando uma secretária executiva.
- E sua família machista o deixou contratar essa Shunrei Yanama?
- Eles não tinham escolha. Shiryu era o chefe. Insistiu e obteve autonomia total para escolher a própria equipe. Shunrei já estava no quadro dos Ogawara. Mitsumasa a encontrou no escritório da JetCorp em Londres.
- Se Shunrei era funcionária dos Ogawara, por que se registrou na Parceiros Perfeitos?
- Porque já atingira o teto profissional na nossa empresa de Londres e queria que seu tio a ajudasse a galgar postos mais elevados, na certa em outra empresa. Mitsumasa sabia do que Shiryu necessitava e tinha certeza de que ela era a pessoa pela qual procurava. Por sorte, Shiryu confiou nele e em seu julgamento. E shunrei foi tudo o que Mitsumasa previu, uma parceira irrepreensível. Ela e Shiryu formaram um time eficiente. Sob a gerência de ambos, a companhia teria ido longe.
- Mas seu irmão morreu.
- Sim...
- Então agora, você e Shunrei são o time.
- Não. Shunrei é quem toma as decisões, é a força motora por trás da JetCorp. Só que meu pai e meu avô se recusam a lhe dar o reconhecimento que merece, só porque é mulher.
- Que antiquados! Mas de certo ela provou a que veio e continua lá. Assim qual é o problema?
- Quero Shunrei na diretoria geral no meu lugar. Não apenas porque pode fazer o trabalho melhor do que eu, mas também porque tem direito. Ela é minha prima e chama-se Shunrei Ogawara.
Saori arregalou os olhos.
- Espera. Como uma mulher chamada Shunrei Ogawara passa por todas as entrevistas de requerimento, tem as credenciais checadas e é contratada como Shunrei Yanama? Quer que eu acredite que a Parceiros Perfeitos fez parte dessa fraude?
Seiya acariciou os cabelos dela. Um gesto íntimo e muito perturbador. Saori permaneceu imóvel, não querendo dar-lhe a satisfação de ver seu deleite.
- Não houve nada de errado no que Shunrei fez, Saori. Legalmente uma pessoa pode optar por um de seus sobrenomes. E, no caso dela, o nome completo é Shunrei Yanama Ogawara.
- Fico feliz em ouvir isso. E tenho certeza que meu avô também ficaria.
- Ele não teve nada a ver com a mudança de identidade de Shunrei. Isso aconteceu muito antes dela ir trabalhar com Shiryu, e foi meu pai que a forçou agir assim, com sua intransigência. Mesmo com um currículo impressionante como o dela meu pai lhe ofereceu uma vaga de digitadora, por acreditarem que mulheres não têm lugar em posição de destaque. Só ofereceram o cargo por ser uma parente, mesmo que distante.
- E quando A Parceiros Perfeitos entrou em cena?
- Muito tempo depois que a Shunrei abandonou o Ogawara do seu nome. Fez isso após meu pai dispensá-la.
- Por quê?
- Em parte porque é teimosa e determinada. E queria ser parte da corporação da família. Shunrei tem um Q.I fenomenal. Formou-se em administração. Ficou ofendida pela "generosa" oferta que meu pai lhe fez como digitadora. Contudo não é do tipo que desiste fácil. Quando não pôde entrar pela porta da frente, decidiu invadir pelos fundos. E o fez. Para isso só precisou mudar de nome.
Saori riu. Admirava a ousadia nas pessoas.
- E ninguém a reconheceu?
- Não. Quando os pais de Shunrei se divorciaram, ela e o seu irmão gêmeo tinham apenas nove anos. Shunrei foi viver com o pai, e Jabu ficou com a mãe. Com isso nossas famílias permaneceram bem separadas, e não havia ninguém que pudesse reconhecê-la.
- E o cargo não foi oferecido ao irmão de Shunrei?
- Sem chance! Se lhe fosse oferecido ele não teria aceitado. Jabu é preguiçoso. Além disso, não precisa trabalhar. Suas ações na JetCorp rendem o bastante para sustentar seu estilo de vida.
- Então Jabu colhe o que você e irmã dele plantam?
- Acho que se pode dizer isso. Quando papai fez a oferta absurda resolveu não se zangar, mas se vingar.
Saori gostava cada vez mais de Shunrei Yanama.
- Com os seis idiomas que fala e qualificações indiscutíveis, Shunrei não teve nenhuma dificuldade em obter uma posição em uma de nossas filiais no exterior. Suprimiu o Ogawara do nome por segurança, trabalhou duro e subiu rápido. Se minha família fosse capaz de enxergar a capacidade dela, eu não teria de lidar com o ultimato do meu avô.
- Talvez se você desse um ultimato sua família recuasse. E se aceitasse assumir a diretoria geral até Netsu se aposentar e depois indicasse Shunrei para assumir a função?
- Isso está fora de questão. A posição tem de ser preenchida por um Ogawara.
- Mas ela é uma Ogawara. Pretende fazê-la identificar-se a família antes ou depois dessa reunião geral tão importante?
- Depois, claro. No dia do aniversário dela vou solicitar uma reunião extraordinária durante a qual me demitirei. Assim, vovô deverá exigir que seja aberto o capital da JetCorp. Quando ele o fizer, Jabu e eu, com a ajuda das ações de Shunrei e da mãe deles, iremos votar contra. Combinados, temos peso suficiente para fazê-lo. Alguns dos outros acionistas podem se juntar a nós.
- Isso não é um pouco injusto?
- O que é injusto é a total incapacidade da minha família de reconhecer um talento só porque usa saia. Acho que você, como mulher, entende que estamos sendo levados a tomar tais atitudes.
Saori franziu o cenho.
- Suponho que sim.
Mas não apenas supunha. Saori reconhecia as justificativas das atitudes de Seiya Ogawara. Se ele não sentisse que sua prima Shunrei era qualificada para a posição, não estaria fazendo aquilo. Embora o próprio não quisesse a tarefa de dirigir a companhia, importava-se o bastante em manter aquele patrimônio em família.
Para os filhos dele?
Fazia sentido. Exceto por um detalhe.
- Shunrei não ficaria numa posição constrangedora, sabendo que seu avô e seu pai não a querem na diretoria geral? Eles não transformariam a vida dela num inferno? E para você, Seiya? Eles não veriam como um traidor? Quer perder a confiança do seu avô?
- Não.
- Mas está disposto a arriscar. Por quê?
Porque a muito mais em jogo do que Shunrei assumir a diretoria. Uma vez que ela tenha a aprovação de todos, achamos que papai e vovô a perdoarão... E a mim. Shunrei tem uma carta na manga. Na verdade duas. Seus filhos gêmeos de sete anos, Doko e Shion.
Saori assobiou.
- É claro, herdeiros! Herdeiros Ogawara. Portanto, você e Shunrei querem manter a companhia na família e os filhos dela poderão assumir um dia. Sim, eu chamaria isso de uma bela carta. -Mordiscou o lábio, pensativa. – No entanto, por que ela não contou até agora?
- Shunrei quer ser reconhecida por seu próprios méritos.
Seiya se levantou de repente, deu vários passos e virou-se para encará-la.
- Ainda exista a chance de meu pai e meu avô insistirem que ela é incapaz por ser mulher e continuarem a me forçarem dentro de um molde que serviu tão bem para o meu irmão, mas que nunca servirá para mim. Quero sair disso agora, Saori, enquanto ainda posso.
- Eu entendo sua posição e a dela.
- Olhe, ainda há uma coisinha... Doko e Shion ainda teriam o nome Ogawara se ela houvesse se casado com o pai deles, que era meu irmão, Shiryu.
Atônita, Saori o fitou.
- Seiya, essas crianças são netos de seu pai! Bisnetos de seu Netsu. Os herdeiros que eles julgam tão importantes para a JetCorp. Eles têm o direito não apenas de saber sobre a existência dessas crianças como também de conhecê-las. São parte da família.
- Sim, mas Shunrei é mãe deles, e a decisão é dela. Meu pai, em seu sofrimento, foi... menos do que amável com ela após a morte de Shiryu, acusando-a de ser uma caça-dotes, de seduzir meu irmão. Acho que meu pai e meu avô a teriam demitido se ela não tivesse um contrato muito bem redigido, mais uma vez, graças ao seu avô.
- Fico feliz que meu avô tenha feito isso por Shunrei.
- Eu também. – Seiya aproximou-se do banco e estendeu-lhe a mão.
Saori aceitou, erguendo-se.
- E quanto ao seu irmão eles também o forçaram a dirigir a companhia?
- Não. Shiryu adorava o que fazia. Vivia e respirava negócios. Mas foi condicionado para isso. Era o herdeiro e ponto.
- Então Shiryu morreu e você teve que assumir o lugar dele.
- Certo. Mas se eu puder sair com segurança, deixando Shunrei na direção, minhja família terá que reconhecer não apenas a dedicação dela ao futuro da família, mas também sua habilidade em dirigir a JetCorp tão bem quanto qualquer homem. Tão bem quanto Shiryu. Meu irmão era noivo de uma moça chamada Shina quando percebeu que estava apaixonado por Shunrei.
Seiya tocou o ombro de Saori e a virou em direção ao caminho que os levaria a frente do hotel
- Shina era filha de velhos amigos da família Ogawara. Todos tinham assumido desde que os dois eram crianças, que um dia se casariam. Quando ele rompeu o noivado foi uma confusão. Ameaçaram tirá-lo da firma e me colocar em seu lugar. Me senti ameaçado.
- Imagino...
- Tentei convencer Shiryu a continuar com Shina. Foi quando me revelou que estava apaixonado por outra pessoa e que ia se casar. Não me revelou quem era, apenas me pediu que os levasse para Kyoto em meu avião, eu era piloto de avião comercial. Lógico, suspeitei de uma fuga.
- Você fez como ele pediu, houve um acidente e...
- Não. Recusei-me a levá-los. Dessa forma egoísta, desejei que fosse apenas uma paixão passageira e que Shiryu voltasse com Shina. Se assim fosse, Shiryu seria de novo o garoto de ouro e não haveria pressão para eu assumir o lugar dele.
Fechou os olhos por um momento.
- Quando me recusei a levá-los Shiryu pegou sem meu conhecimento meu avião e partiu com Shunrei. Eles caíram perto do aeroporto de Kyoto. Shunrei sobreviveu, mas Shiryu viveu por um dia e meio. Meu pai me culpa tanto quanto culpa Shunrei pela morte de Shiryu.
- E desde então você sofre com isso.
Ele olhou para o céu, como se pudesse encontrar resposta ali.
- Se eu tivesse feito o que meu irmão me pediu, ele ainda estaria vivo, haveria dois herdeiros legítimos e nada disso seria necessário. – Seiya fez uma pausa e engoliu em seco. – Nos últimos momentos de vida Shiryu, fiz-lhe uma promessa: eu manteria a companhia unida até que Shunrei pudesse assumir seu lugar de direito, ou seja, até o aniversário dela de trinta e um anos. Isso me pôs em uma posição que não gostei, mas como poderia negar-lhe algo?
- Sinto muito, Seiya.
- Eu também. Espero que, ao contar a todos quem é Shunrei e quem é pai dos garotos, isso ajude a recompensar minha família pela perda.
- Não quer se casar, Seiya? Ter filhos?
- Sim. E não me importaria se fossem filhos ou filhas, apenas que fossem meus. Mas também queria tê-lo com a mulher que eu amasse. Foi uma das razões de meu casamento fracassar. Eu não era apenas errado para Shina, mas ela era errada para mim.
- Shina? A mesma com quem seu irmão ia se casar?
- Pois é... Pareceu uma boa idéia na época, e todos apoiaram.
- Você não me parece do tipo que mesmo pressionado, se casaria com quem não quisesse.
Ele deu de ombros.
- Eu era muito jovem e tolo.
E carregava aquela imensa culpa, pensou Saori, com tristeza.
- Nós tínhamos algumas diferenças básicas. Shina não queria ter filhos, embora só tenha deixado isso claro depois do casamento.
- Sendo assim sua família deveria se sentir feliz por você não estar mais casado com ela.
- Eles não sabem disso. Se eu lhes tivesse contado, Shina teria negado. Desse modo, tudo pareceu sem sentido para mim, e eu só queria sair daquela união. Da próxima vez, se houver uma próxima, pretendo ser mais cuidadoso. Vou querer uma esposa que deseje o mesmo que eu. Que sonhe com um lar de verdade, filhos, cachorros, uma casa no campo.
- E o que mais?
- Nada. Só quero o que é certo para Shunrei, para as crianças, para todos.
"Menos para você?" Saori não verbalizou as palavras, mas tinha certeza de que acertara. Perguntou-se o que teria causado aquele olhar longínquo na expressão de Seiya, o que ele queria mesmo da vida.
- Você vai voltar a ser piloto de avião.
- Não. Essa parte da minha vida passou.
- O que pretende fazer?
- Suponho que continuarei na firma.
- Há alguma coisa que você preferiria?
- Nada prático. Mas apreciaria uma folga da pressão. Isso seria... liberdade.
- Portanto, se tudo der certo, Shunrei conseguirá o cargo que quer e o reconhecimento que merece, e os filhos dela terão a chance de dar continuidade a um império que a família Ogawara iniciou a muito tempo.
- Em resumo é isso. Shunrei adora o que faz e quer manter a JetCorp para a segurança de seus filhos.
Seiya parou ao lado de um sedã azul-escuro e abriu a porta do passageiro pra ela.
- Ficarei feliz quando tudo isso terminar, quando Doko e Shion puderem assumir seus lugares de direito entre nós. Meus pais ficarão mais que encantados com os netos.
- Sim. Será um alivio para todos quando tudo for solucionado.
Ele tornou a segurar a mão dela.
- E então, Saori?
Mordiscando o lábio, ela assentiu:
- Sim, Seiya. Por um mês, vou fingir ser sua noiva.
- Maravilha!
Saori esperou que ele fosse lhe apertar a mão com efusividade, mas em vez disso tomou-a nos braços e a beijou com ardor.
