Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens, o que é uma pena realmente XD

Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.

Capítulo 3

Camus POV

– Você fez o que? – guinchou ele, incrédulo levantando-se da poltrona com os cabelos loiros prateados ondeando a sua volta.

– Shhh! - fiz eu, levantando-me também e tampando a boca dele com a mão para silenciá-lo. Porque àquela altura o teatro inteiro já devia estar olhando pra gente, por favor! Bom, pelo menos a parte do teatro que não tinha se levantado pra ir ao banheiro ou buscar uma bebida. E, não me entendam mal, eu adoro o Afrodite e tudo, mas às vezes ele é tão insuportavelmente escandaloso que eu realmente tenho vontade de, sei-lá, congelar ele. Só um pouquinho.

O caso é que eu tinha acabado de contar pra ele a coisa toda com a Saori e o Scorpion, sabe, e ele não parecia estar reagindo muito bem a informação. Não que eu esperasse que ele fosse reagir de outra maneira, é claro. Porque, convenhamos, a história toda é totalmente absurda. Pra dizer o mínimo. Mas será que ele não podia ser só um pouquinho mais discreto? Quer dizer, considerando-se que nós estávamos no meio de um teatro lotado e tudo.

Era Sábado à noite e nós tínhamos ido assistir O Fantasma da Ópera (que é o musical favorito do Dite de todos os tempos) pela 12o vez, já que não havia estreado nada novo aquela semana. E aproveitando que estávamos a sós no camarote durante o intervalo eu resolvi contar tudo pro Dite. E tudo bem, eu sei que aquele não era exatamente o melhor momento pra se contar algo assim pra alguém. Mas, quando se cria coragem pra fazer uma coisa deve-se fazê-la imediatamente, não é? Pra não correr o risco de voltar atrás e mudar de idéia e tudo. Bom, pelo menos é isso que as pessoas vivem dizendo. Então voilà. Eu resolvi contar logo.

E tá, eu também sei que eu tinha dito que não queria que ele soubesse de nada, porque ela ia querer ficar me consolando e essas coisas. Mas ele ia acabar descobrindo mesmo, não ia? Porque ele sempre descobre, sabe. Além disso, ele é o meu melhor amigo, afinal. E se o seu melhor amigo é corneado pela noiva e depois rejeitado pelo ator mais badalado do momento (só que eu não fui rejeitado, a minha proposta é que foi. Mas dá na mesma), você espera que ele ao menos conte isso pra você, não espera? Então mesmo que eu não fosse muito bom nisso. Nesse lance de contar as coisas, eu digo. Eu meio que devia isso a ele. Já que, em tese, nós temos que contar esse tipo de coisa para os nossos amigos, não é? Mesmo quando esses amigos são terrivelmente escandalosos e têm a irritante mania de ficar nos consolando.

Então ali estava ele, piscando pra mim aqueles olhos azul piscina dele, incrivelmente surpreso.

– Você tá brincando comigo, não tá? – sussurrou ele por entre meus dedos, voltando a ocupar sua poltrona em frente ao balcão.

Eu fiz que não com a cabeça. Quer dizer, que eu não estava brincando. Enquanto tirava minha mão da boca dele e voltava a me sentar também.

Ele ficou me olhando por um tempo emudecido (eu devia me vangloriar disso. Conseguir emudecer o Dite é realmente um feito), totalmente esquecido da série de impropérios que vinha desfiando contra a Saori até então, quer dizer, desde que soubera da traição dela alguns minutos atrás (só que ele nunca gostou muito dela mesmo, então desconsiderem). E finalmente seu rosto se fechou em uma expressão zangada.

– Sabe Camus, eu não sei se eu estou mais ofendido por estar sabendo disso agora ou por você sequer ter cogitado em pedir os meus conselhos de sedução. – ele disse indignado, levantando (ainda mais) o nariz. – Ou será que você não me considera sensual o bastante para o serviço? – completou, estreitando os olhos.

– Incrivelmente sensual, Di! – acrescentei depressa, sabendo bem o que era macular a vaidade daquele Sueco. E o Dite é sensual mesmo afinal de contas. – É só que, sem querer ofender nem nada, mas minha intenção é aprender a seduzir mulheres. Além disso, eu tenho amor a vida, sabe. – completei, dando de ombros, sabendo que ele entenderia.

Porque nunca mesmo que eu ia me arriscar a provocar ainda mais o ciúme daquele namorado mafioso dele. Que, só pra constar, odeia a minha relação com o Dite. O que é totalmente absurdo, claro. Porque, vocês sabem, por mais bonito que o Dite seja e, ainda que eu gostasse de homens, o que não é o caso, seria totalmente impossível que eu tivesse qualquer coisa com ele. Porque beijar o Dite seria como beijar, sei lá, o Hyoga (credo!).

E ele entendeu mesmo, o Dite, eu digo, porque logo a careta de zanga dele se desfez e ele caiu na gargalhada. Voltando depois pra mim um sorriso radiante, os olhos azul piscina brilhando de curiosidade, indagando.

– Mas e então, como foi? Ou melhor, como ele é?

– Heim? Quem? – eu respondi meio atordoado com a súbita mudança de humor dele (como se eu já não devesse estar acostumado!).

– O Scorpion, oras! – ele bufou exasperado – Como ele é? É tão gostoso quanto nos filmes?

E eu fiquei olhando pra ele meio sem saber muito bem o que responder. Porque o que eu ia dizer, afinal? Que o homem era absurdamente bonito? Que parecia exalar sexo? Que tinha um olhar totalmente perturbador? Que parecia despir as pessoas com os olhos mesmo quando obviamente não tinha qualquer interesse nelas? Bem, talvez eu devesse simplesmente dizer que, a despeito de tudo isso, ele era tão horrivelmente arrogante quanto se espera que um atorzinho na posição dele seja. Porque, de verdade, foi exatamente isso que eu senti. Naquela terrível uma hora, quinze minutos e trinta e cinco segundos em que fiquei dentro daquela sala com ele, eu digo.

Quer dizer, primeiro o cara me olha como se eu fosse uma aberração. E tá bom que eu sou meio esquisito e tudo, e que não sou o tipo de 'modelo incrivelmente lindo' com que ele está acostumado a lidar, mas também não precisava me olhar daquele jeito, precisava? Porque não é muito educado medir uma pessoa de cima à baixo daquela maneira, sabe? E eu tinha marcado horário, não tinha? Então aquela expressão surpresa dele era totalmente despropositada, pra não dizer deselegante.

Depois ele fica me encarando daquela forma totalmente constrangedora, meio como se tivesse me despindo com os olhos. Só que é claro que ele não estava. Porque alguém como ele não precisaria fazer isso, não é? Quer dizer, o cara pode ter quem ele quiser, por favor! Então, pra ser justo, eu tenho que admitir que talvez não seja realmente culpa dele essa última parte. De me olhar desse jeito estranho, eu digo. E só que ele deve olhar assim pra todo mundo mesmo. Não é a toa que o cara é está na lista dos 10 mais sexy, afinal. Mesmo assim isso meio que causa uma sensação estranha nas pessoas. Um pouco que constrangedor e excitante ao mesmo tempo, sabe.

E então eu descubro que ele não está prestando atenção a uma palavra do que eu digo. É claro que não! Porque aparentemente alguém tão comum quanto eu não seria digno de uma hora sequer da atenção dele. Ainda que essa hora fosse pra tratar do tão sonhado patrocínio dele. Patrocínio aliás que ele recusou. Isso mesmo. Recusou. Não sem antes ter feito com que eu me humilhasse bastante contando a ele todo o motivo que tinha me levado até lá, é claro. Que era, vocês sabem, o fato da Saori ter me traído com outro cara e tudo. Só que eu não disse o nome dela. Porque eu não ia querer que ele soubesse que o cara era ele, não é? Quer dizer, humilhação também tem limite, por favor!

E tudo bem que a minha proposta era um tanto insólita, e que seria até esperado que ele pudesse recusá-la. Mas ele tinha que fazer isso daquela maneira? Quer dizer, ele precisava mesmo me olhar daquele jeito? Ele tinha que me fazer contar todas aquelas coisas constrangedoras, quando sabia muito bem qual seria sua resposta final? Porque eu tenho certeza de que ele já sabia que resposta ia me dar desde o primeiro momento em que eu pisei naquela sala. Bom, desde o momento em que eu disse o que eu queria em troca do patrocínio, pelo menos. Porque aparentemente a idéia de ensinar uma pessoa como eu a ser mais sensual era demasiado repugnante pra ele. O suficiente pra fazê-lo recusar um excelente patrocínio pro filme dele, diga-se de passagem. Ou talvez ele só me achasse um caso perdido, mesmo. Não que eu me importasse com a opinião dele. Não mesmo. Afinal eu nem ia ver mais o cara de qualquer jeito, não é?

Só que exatamente quando eu pensava nisso, enquanto resumia pra um entusiasmado Afrodite como tinha sido minha reunião com o tal ator, e minhas impressões sobre ele (obviamente que omitindo certas coisas como o 'absurdamente bonito', o 'exalar sexo', e o 'olhar totalmente perturbador'), eu senti que alguém no camarote em frente me olhava insistentemente. E qual não foi minha surpresa ao virar o rosto e me deparar com o próprio. Exatamente. O tópico principal da conversa, Milo Scorpion, me olhava fixamente do camarote em frente!

Tudo bem, agora a história estava ficando realmente inacreditável. Porque, o que um cara como o Scorpion estaria fazendo em um camarote do Fantasma da Ópera, na Times Square, no Sábado a noite, em meio a um bando de turistas? Quer dizer, isso era no mínimo irreal demais, fala sério!

E será que ele tinha qualquer noção do que aconteceria se alguma daquelas adolescentes alucinadas, que se diziam fãs dele, o reconhecessem e resolvessem avisar o resto da excursão? Porque elas sempre viajam em excursão, sabe, e essas excursões sempre incluem pelo menos um show da Broadway no pacote. Realmente, ele tinha muita sorte mesmo de os roteiros de viagem estarem optando por Mamma Mia nos últimos tempos.

Mas o caso é que fosse como fosse ali estava ele. Ao lado de uma senhora, que pela semelhança dos traços eu podia adivinhar ser a mãe dele, um par de gêmeos belíssimos, que tanto podiam ser seus irmãos, quanto modelos de alguma revista qualquer, e mais dois homens também aloirados e bastante bonitos. E ele olhava diretamente pra mim. Eu podia perceber isso mesmo na penumbra do teatro.

Só que se a intenção dele era me constranger com aquele olhar pra me humilhar mais um pouco, agora na frente de outras pessoas, eu sinto informar que ele não ia conseguir. Não mesmo. Bom, pelo menos eu não ia demonstrar nada. Então eu simplesmente o encarei de volta e sustentei o olhar dele com a maior firmeza que eu pude reunir. Porque se alguém devia se sentir constrangido ali, esse alguém não era eu. Afinal, não fui eu que olhei pra outra pessoa como se ela fosse uma aberração (mesmo essa pessoa sendo um pouco esquisita mesmo), que fui grosseiro a ponto de sequer prestar atenção ao que tal pessoa dizia, e que depois ainda fiz com que ela me contasse um monte de coisas pessoais dela, só pra no fim rejeitar completamente a coitada. É, não fui eu que fiz isso. Não fui eu que o ofendi. Então não tinha porque eu me sentir incomodado com o olhar dele, tinha?

Só que talvez tivesse. Porque enquanto eu o encarava as palavras do Dite ao meu lado meio que iam entrando inconscientemente na minha cabeça, sabe. E o que ele dizia entre risos (na verdade, gargalhando tanto que nem percebia que eu não estava mais olhando pra ele), era que o Scorpion devia ter achado que eu estava tentando comprar ele. Quer dizer, que eu... que eu... Mon Dieu! Que eu queria levar ele pra cama em troca do patrocínio!

É, eu sei, é terrível. Só que se vocês forem parar pra pensar aquilo podia muito bem ser verdade. Que o Scorpion tivesse pensado mesmo isso, eu digo. Porque se eu fosse um ator totalmente lindo, sexy e mundialmente desejado, e um nerd esquisito aparecesse na minha casa, do nada, me propondo essa coisa de 'lições de sedução' em troca de um patrocínio milionário, é bem provável que eu também pensasse a mesma coisa. Quer dizer, que o cara era só mais um fanático fracassado tentando oferecer dinheiro em troca de sexo, como muitos outros já deviam ter tentado.

De forma que era totalmente plausível que ele tivesse pensado isso, sabe. E, pra minha infelicidade, analisando as coisas sob essa perspectiva, ficava muito claro que eu tinha ofendido ele sim. E muito. Porque, na visão dele, eu o tratara como um prostituto, por favor! Então ele foi até bem educado de simplesmente ignorar o que eu estava dizendo e recusar minha proposta, ao invés de, sei lá, socar a minha cara. Que seria o que a maioria dos caras no lugar dele fariam, na verdade.

Então o que mais eu poderia fazer além de desviar meu olhar do dele e afastar discretamente a minha poltrona de forma a ficar meio que escondido atrás da cortina do camarote? Porque o cara com certeza devia estar achando que eu era algum tipo de lunático pervertido que andava perseguindo-o por aí. Fala sério!

Só que aparentemente aquele meu pequeno esconderijo improvisado não o impediu de continuar me encarando (ele devia me odiar muito mesmo). E eu sei disso porque o Dite, que a essa hora já tinha se cansado de rir da minha desventurada visita ao ator e tinha empunhado seu famigerado binóculo (daqueles que as mulheres usavam antigamente nas óperas, sabe? Pois é, ele encontrou um em um brechó e desde então o arrasta pra todo espetáculo que vai. Pode ter coisa mais vexatória?) para vasculhar a multidão em busca de rostos conhecidos, deu um gritinho:

– Oh, meu Deus, Camie! Você não vai acreditar em quem eu estou vendo! – falou ele sem desgrudar os olhos do binóculo. Só que é claro que eu ia. Acreditar, eu digo. Porque eu sabia exatamente quem ele devia estar mirando naquele momento com aquela coisa ridícula.

– Milo Scorpion, em pessoa! É muita coincidência! – ele continuou sem se incomodar em esperar uma resposta. Só que, bom, ele nunca se incomodava mesmo, não é? – Nossa, ele consegue ser ainda melhor ao vivo! Meu Deus! E não tira os olhos de você! – completou empolgado.

E foi assim que eu fiquei sabendo. Quero dizer, que o tal Milo aparentemente me odiava o suficiente pra continuar me acuando com os olhos mesmo quando eu tão obviamente já tinha cedido àquela batalha e covardemente me escondido atrás da cortina. O que é algo horrível de se fazer, diga-se de passagem. Só que eu não tinha muita alternativa, tinha? Então eu meio que não pude me impedir de dizer, resignado:

– Eu sabia. Ele me odeia! - Não que eu realmente me importasse com isso, é claro. É só que não é muito legal você saber que é odiado por alguém, sabe. Ainda que esse alguém seja um cara completamente desconhecido e que não te diga nada.

– Odeia? – ecoou o Dite abaixando finalmente o binóculo e olhando pra mim com um sorriso de incredulidade no rosto. – Camus, Camus... - ele continuou, levantando outra vez o objeto e continuando sua análise do ator no camarote da frente (e eu sabia que ele só não ia correndo até lá olhar de perto em consideração a minha humilde pessoa). – quando um homem olha desse jeito pra mim 'ódio' não é exatamente a palavra que me vem à mente, sabe?

– Como? – eu estava um pouco confuso, admito.

– Credo, Camie! - exasperou-se ele voltando o olhar pra mim mais uma vez. - Você pode até ser um gênio intelectual, com um raciocínio lógico invejável, e sei lá o que mais, mas no campo amoroso, meu amigo, eu tenho que lhe dizer que você deixa muito a desejar. Vai me dizer que você ainda não percebeu?

Eu não tinha percebido, de forma que apenas continuei encarando ele, com as sobrancelhas erguidas, muito sério.

– Oras, Camus! O cara está obviamente afim de você! – ele despejou.

Eu realmente não sei como o Dite chega a essas conclusões. Juro. E eu já ia explicar a ele que aquilo era impossível. Considerando-se o fato de que o Scorpion me achava um lunático pervertido, e que já havia deixado bem claro o quão repugnante era pra ele a idéia de me dar 'lições de sedução'. Quando a porta do camarote se abriu e o Máscara, que tinha ido buscar algumas bebidas, entrou com a Budweiser dele em uma mão e a Coca Diet do Dite na outra, dizendo:

– Quem está afim de quem?

– O Milo Scorpion, do Camus. – o Dite respondeu da forma mais natural do mundo, sorrindo para o namorado enquanto ele lhe entregava a Coca e se acomodava na poltrona ao seu lado. – Você demorou. –comentou.

– Você não faz idéia da fila que eu tive que enfrentar por essa Coca. – respondeu o outro, bufando mal humorado. –Mas que história é essa do Scorpion e do Camus?

E pra minha completa infelicidade o Dite começou a contar, muito contente, toda a minha 'história' com o Milo e a Saori. E tudo bem, eu sei que eles estão juntos, e que supostamente uma pessoa não deve guardar segredos do seu parceiro e tudo. Mas será que isso tem que incluir também os segredos dos seus amigos? Não que aquilo fosse realmente um segredo, de qualquer forma. Mas mesmo assim. Porque, de verdade, a última coisa que eu precisava naquele momento era ter minha vida amorosa discutida entre o Dite e o namorado dele. Mas o que eu podia fazer, também? Voar em cima dos dois e calar a boca deles a força? Bem, sempre era uma possibilidade a se considerar.

E foi então que o Dite finalmente encerrou o discurso dele com um:

– ...E agora o Scorpion tá caidinho por ele!

O que obviamente me fez lembrar da necessidade de explicar a ele sobre a impossibilidade daquilo acontecer. Então eu disse:

– Dite, isso não é verdade. Ele...

Mas eu não consegui terminar porque fui mais uma vez interrompido pelo Máscara (aquilo já estava começando a me irritar)

– Hum, é bem possível... – ele disse com aquela voz grossa dele, concordando com o Dite e dando mais um gole na Bud dele.

O que realmente me surpreendeu. O fato de ele concordar com o Dite, eu digo. Porque eu sempre pensei que a última coisa que aquele cara faria seria sugerir que eu pudesse ser remotamente atraente pra alguém. Considerando-se que ele não vai muito com a minha cara por causa daquele ciúme insano que ele tem do Dite e tudo. Então aquilo também me deixou um pouco envaidecido, sabe. Quer dizer, o fato de ele acreditar que alguém como o Milo Scorpion poderia realmente estar atraído por mim. Mesmo que não fosse verdade.

Só que então ele completou:

– Vocês sabem, o cara é um cachorro, ele trepa com tudo o que se mexe! - E eu imediatamente deixei de me sentir envaidecido.

Pra minha sorte, naquele exato momento o sinal que indicava o início do segundo ato tocou e as luzes se apagaram impedindo-os de continuar o assunto. Um pouco depois o Hyoga e alguns amigos que ele tinha trazido com ele (o japonesinho que está na classe dele de economia - que é uma graça de garoto - e o irmão mais velho dele – nem tão gracioso assim) entraram no camarote. O que também foi uma sorte, se vocês forem parar pra pensar. Quer dizer, que eles tivessem chegado só naquela hora e não antes. Porque, bom, já era suficiente que minha vida amorosa fosse discutida entre o Dite e o namorado dele, sabe. Eu realmente não precisava que aquilo se estendesse também ao Hyoga e aos amigos de faculdade dele.

Então eu esperei até que todos estivessem de volta aos seus lugares e aproveitei pra ir até o banheiro. Porque eu realmente não posso suportar aquele amontoado de gente que se reúne lá durante o intervalo. Além disso, eu não me importava muito de perder uma parte do 'Baile dos Mascarados'. Porque afinal eu já tinha visto a Cristine e o Raul encenando aquela dança 12 vezes, já tinha decorado 'Mascarade', e já sabia tudo o que ia acontecer na peça, na verdade.

Só que quando eu ia empurrar a porta pra entrar no banheiro masculino, depois de ter parado no bar pra comprar uma água, ela se abriu pelo lado oposto e eu dei de frente adivinhem com quem? Exatamente. O próprio. Milo Scorpion. Mon Dieu, de todas as pessoas do mundo por que eu tinha que dar de cara logo com ele? Sério, aquilo já estava ficando ridículo. Agora era capaz dele ainda achar que eu tinha seguido ele até ali pra... pra... bom, era melhor nem pensar naquilo.

Então pra evitar mais constrangimentos eu dei meia volta e já ia saindo quando ele me pediu pra esperar e segurou meu pulso. E quando ele fez isso foi como se correntes elétricas tivessem passando pelo meu corpo, a partir do ponto onde ele tocou até a raiz dos meus cabelos. Uma coisa totalmente esquisita.

Ele também pareceu sentir isso, porque mal colocou a mão em mim, retirou-na imediatamente como se tivesse levado um choque ou coisa assim. E talvez tivesse mesmo. Levado um choque, eu digo. Porque era bem provável que aquilo fosse eletricidade estática, sabe? Quer dizer, que um de nós estivesse com acúmulo de energia estática (o que normalmente é causado pelo atrito de materiais isolantes), e, portanto, propenso a estes choques elétricos quando em contato com outros corpos. O que é bem comum, na verdade. Eu acho até que todo mundo já levou um choque assim. Só que normalmente as duas pessoas sentem o choque, sabe. E você só leva o choque e pronto. Não fica sentindo a corrente elétrica percorrer seu corpo daquele jeito. Bem, pelo menos eu nunca tinha sentido. Só que certamente era aquilo mesmo que tinha acontecido, não? Porque, que outra explicação tinha?

Bom, mas o caso era que fosse como fosse ele queria falar alguma coisa comigo. Então eu entrei no banheiro, deixando que a porta se fechasse atrás de mim, e fiquei olhando pra ele, que estava lindo em um jeans escuro e uma blusa de gola role de lã preta (e lã é uma das coisas que pode gerar eletricidade estática), esperando que ele dissesse alguma coisa.

– Eu ia mesmo procurar você. – ele começou finalmente, parecendo meio hesitante. O que me surpreendeu bastante, é claro. Primeiro pelo fato dele ter pensado em me procurar, apesar de eu ser hipoteticamente um maníaco pervertido, que o perseguia pela cidade em busca de sexo. Segundo porque aquele Scorpion hesitante não combinava em nada com a imagem de ator arrogante que eu tinha dele. Então eu só levantei uma sobrancelha e fiquei esperando o que viria.

– Eu queria saber se... se aquela sua proposta ainda está em pé. – ele concluiu, agora me olhando muito firme, com aqueles incríveis olhos de gato que ele tinha, cheios de resolução.

Certo, então nós íamos tratar de negócios, afinal. Ali. No banheiro de um musical da Broadway, num Sábado a noite? Bem, que fosse. O negócio em questão também não era dos mais convencionais mesmo. Então eu disse.

– Por que? Acaso o Sr. estaria pensando em voltar atrás na sua resposta, Sr. Scorpion?

– Panagopoulos.

– O quê?

– Meu nome. É Panagopoulos. Milo Panagopoulos. Scorpion é só meu nome artístico. E se nós vamos mesmo fechar algum tipo de contrato, ou coisa assim, é melhor que isso seja feito com meu nome civil, não?

–Ah... certo. Então, Sr. Pa... Pan... hum... – Nossa, será que não dava pra ele ter um nomezinho mais fácil, não?

– Milo. Pode me chamar de Milo. – ele me interrompeu. E eu percebi que ele mordia os lábios pra não rir da minha dificuldade em pronunciar o nome dele. Que ótimo! Agora eu também tinha me tornado entretenimento pro cara.

– Muito bem então, Milo, - eu continuei já um tanto irritado (impressionante o dom que aquela criatura tinha de me tirar do sério) – o Sr. pretende reconsiderar sua decisão?

– É... na verdade eu pretendo sim. Se o negócio ainda te interessar, é claro. – ele respondeu.

Só que ele meio que parecia hesitar. Bem de leve, sabe. Então eu fiquei ali olhando pra ele desconfiado. Meio que tentando ler no semblante dele o que poderia tê-lo levado àquela súbita mudança de opinião (talvez ele tivesse simplesmente percebido que eu não era um maníaco, afinal. Mesmo porque se ele ainda pensasse assim, ele não teria aceitado a proposta, não é?), e porque havia todas aquelas dúvidas em seus olhos. Porque elas estavam lá, disso eu estava certo. E não só elas. Havia também algum receio,uma certa preocupação e uma boa dose de excitação naqueles orbes azuis, eu era capaz de jurar. Porque o Dite pode até falar que eu sou uma negação nessa coisa de relações sociais e tudo. E talvez eu seja mesmo. Considerando-se que eu sempre fui nerd e essas coisas. Mas quando o assunto são negócios, eu certamente sei ler meu oponente. Quer dizer, eu fui praticamente criado pra isso, por favor! E aquele cara estava escondendo bem mais do que ele dizia, eu podia apostar. Então eu resolvi arriscar:

– Como você sabia que eu ia estar aqui hoje? – eu lancei. Porque era uma possibilidade, não era? Que ele soubesse e tivesse me seguido até ali de propósito, eu digo. Tá, não era. Mas, bom, talvez eu pudesse descobrir alguma outra coisa por aquele caminho, sabe. Porque, que era estranho uma cara como ele estar num lugar daqueles num Sábado à noite vocês vão ter de concordar comigo que era sim. E muito.

– Eu não sabia. – ele respondeu então com um sorriso totalmente encantador. Não aquele sexy que ele sempre exibe nas capas de revistas e nos filmes, sabe. Um outro. Meio ingênuo e travesso ao mesmo tempo, e que fazia com que uma pequena covinha se insinuasse do lado esquerdo do lábio dele.

– É que a minha mãe está de visita na cidade, sabe. – ele continuou no mesmo tom. – e ela quis porque quis vir assistir esse negócio. Então agente meio que não teve outra saída senão trazê-la. Eu e os meus irmãos, eu digo. – (então eram mesmo os irmãos dele. Os caras no camarote com ele, eu quero dizer. Não resta dúvida de que beleza é realmente genético.) - Foi coincidência mesmo eu te encontrar aqui, juro. Se bem que eu confesso que te segui até o banheiro. - ele completou com outro daqueles sorrisos.

– Como assim? – Eu estava um pouco confuso. Porque eu não tinha chegado no banheiro depois dele?

– Ah, você sabe, eu tava no fundo do meu camarote brincando com isso aqui, - ele retirou do bolso um objeto indefinível e o chacoalhou em baixo do meu nariz- então vi quando você saiu e resolvi te seguir. Daí vi que você tinha parado no bar pra comprar alguma coisa e resolvi arriscar te esperar aqui. Porque era bem provável que você desse uma passadinha no banheiro antes de voltar, não era? E, bom, você passou mesmo! – ele respondeu com um sorriso triunfante ainda mais lindo que o primeiro, se possível.

Eu estava surpreso, é claro. Só que aquilo também era um pouco que reconfortante. O fato de ter sido ele quem me seguiu até o banheiro, eu digo. Porque se fora ele que me seguira então eu não corria mais o risco dele estar achando que eu o tinha seguido até ali pra... bom, vocês sabem.

E foi então que eu reparei no que estava na mão dele. Quer dizer, no objeto com que ele supostamente estava 'brincando' no fundo do camarote dele, e que ele ainda balançava distraidamente na mão enquanto falava. E eu realmente não pude acreditar no que eu via. Porque o objeto em questão era uma replica exata do binóculo ridículo do Dite. Sério. Então eu simplesmente não consegui aguentar e caí na gargalhada.

E tá, eu sei que simplesmente cair na risada daquele jeito era totalmente despropositado e tudo. Sem contar que era bem mau educado, é claro. E eu nem sou o tipo que fica por aí rindo de qualquer coisa na frente das pessoas, sabe. Ao contrário, eu costumo ser bem sério e contido e tudo o mais. Eu nem mesmo lembro de quando foi a ultima vez que eu ri desse jeito na frente de alguém. Pra falar a verdade eu acho que eu nunca ri assim na frente de ninguém (descontando-se as vezes em que o Dite me faz tortura de cócegas, é claro). Só que imaginar que realmente pudessem existir duas pessoas no mundo que andassem com um negócio estúpido daquele de um lado pro outro como se fosse a coisa mais normal do mundo, era tão absurdamente insólito, ainda mais considerando a situação toda, que eu simplesmente não consegui me conter.

Então, como em um passe de mágica, em algum momento no meio daquelas risadas eu me dei conta de que entendia o Milo. Mais até do que eu poderia ousar supor. Porque de repente eu percebia exatamente que tipo de pessoa ele era. E ele era o tipo de pessoa que abre mão de uma noite de sábado pra levar a mãe ao musical que ela tanto quer ver. Que posa de sexy simbol pro mundo todo, mas guarda um sorriso lindo, travesso e ingênuo, com direito a covinha no canto da boca, escondido só pra ele. E, claro, o tipo de pessoa que anda por aí com um binóculo feminino ridículo, comprado em algum brechó de quinta pra bisbilhotar a vida das pessoas nos camarotes, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Então, sim, eu sabia exatamente que tipo de pessoa ele era. E foi por isso que eu me voltei pra ele (que me olhava com uma expressão indefinível no rosto) naquele momento e disse, estendendo-lhe a mão:

– Ok. Vamos fazer o acordo. Suas 'lições' pelo meu patrocínio.

– Feito. – ele respondeu após um breve momento, apertando a minha mão e abrindo mais um daqueles sorrisos luminosos que ele guardava só pra ele. E mais uma vez eu senti aquela eletricidade irradiar pelo meu corpo.

E então, apesar de saber que aquela coisa toda de 'lição de Sedução', mesmo sendo uma solução bem prática pro meu problema, era uma loucura de fato, e apesar de saber também que ele obviamente ainda estava escondendo alguma coisa (quer dizer, eu não sou estúpido, por favor!), isso meio que já não tinha mais tanta importância. Porque agora eu sabia o tipo de pessoa que ele era.

– Primeira lição, Segunda feira, no meu apartamento, às 18:00h. Pode ser? – indagou ele então, com os olhos azuis brilhando felinamente.

Eu concordei com a cabeça e me virei pra sair logo dali. Porque eu havia acabado de olhar no relógio e se eu não estivesse enganado àquela altura a peça já havia chegado naquele ponto em que eles caçam o Fantasma com a ajuda da Cristine, sabe. E o Dite devia estar se debulhando em lágrimas. Já que aquele era exatamente o problema dele com aquele musical. Porque ele achava que a Cristine tinha que ficar com o Fantasma e não com o Raul. Então ele sempre assistia ao espetáculo um monte de vezes na esperança de que um dia o final de repente mudasse. O que é totalmente ilógico, é claro. Mas o que se há de fazer?

Então não ia demorar muito ele ia voltar os olhos na minha direção aos prantos como sempre, na esperança de que eu estivesse à beira das lágrimas também (até parece!) e ia descobrir que eu ainda não tinha voltado pro meu lugar desde então. E ia passar o resto da noite me enchendo de perguntas sobre o que eu tinha ficado fazendo por tanto tempo no banheiro. O que eu não estava nem um pouco com vontade de contar. Bom, pelo menos não agora. De forma que eu tratei de me apressar de volta ao camarote. Só que antes de sair dali eu me virei novamente para o ator e disse:

– Milo, é bom que você saiba que eu costumo ser bem pontual!

Ele sorriu displicente, e então quando eu já terminava de cruzar o umbral eu ouvi a voz dele de novo:

– Ruivo, não ouse me deixar esperando!

Eu olhei pra ele por sobre o ombro uma última vez e fechei a porta.


Olá a todos,

Em primeiro lugar eu queria dizer que eu to amando escrever com o Camie. Porque a coisa com ele flui tão fácil. E ele é muito hilário (ou será que sou só eu que acho?), então eu sempre me divirto muito escrevendo os chs sob o ponto de vista dele. A forma como ele tem que racionalizar tudo pra explicar pra si mesmo me mata XD

Outro personagem que eu tenho gostado muito é o Dite, e eu tava pensando seriamente em fazer um POV dele, o que vc acham? Claro que seria uma coisa mais curta e voltada à visão pessoal dele dos personagens principais e acontecimentos da história, e não à vida pessoal dele, que eu não pretendo desenvolver muito pra não me estender demais na fic. Então me digam o que acham, e eu penso na idéia, ok?

Outra coisa é sobre o Máscara. Puxa, eu queria tanto dar um nome a ele! E toda fic que eu já li em que ele aparece com um nome, chamam-no de Carlo. Então eu queria saber quem inventou isso e como eu faço pra saber se a pessoa que inventou deixa eu usar esse nome tb. Será que alguém pode me ajudar quanto a isso?

Enfim é isso aí, eu acho, eu estou morta de sono agora, então depois se eu lembrar de mais alguma outra coisa que eu queria dizer eu edito aqui, tá?

Só agradecendo as reviews então, muito, muito, muito obrigada mesmo a todas que perderam um pouquinho do seu tempo pra postar algum comentário aqui: Lune, Axly, Human Being, Maga do 4, Fernanda. Muito obrigada pelos elogios e um beijão a todas.

Bjos

PS: Eu resolvi escrever minhas duas fics ao mesmo tempo (porque eu não consegui optar por nenhuma delas), e tem sido bem legal, mas eu percebi que levo mais ou menos uma semana e pouco pra escrever um ch de WW e três dias pra Aprendendo a Seduzir o.o... por isso não se preocupem leitoras de WW o ch já está em andamento ^^