Com esses pensamentos e essas lembranças, seguimos eu e Ray sem trocar palavras para o Colégio que ficava uns quatro quarteirões da casa dele.

Chegamos atrasados - como sempre. Entramos pela secretaria e fomos esperar a segunda aula em uma das escadas que levava ao pátio.

Sempre chegávamos atrasados; passávamos as madrugadas em claro, jogando, vendo séries policiais, tocando, ouvindo música. Gostávamos de curtir a madrugada; era um tempo e um espaço só nosso. Ah, você acha que as drogas têm algo a ver com isso? De certa maneira, sim; mas era uma coisa muito mais profunda. Era natural, não incitado.

Estávamos conversando quando reparei em um garoto que nunca tinha visto antes. "Tá", ele estava escondido sob o capuz, mas as curvas de seu corpo eram desconhecidas. Estava curioso, então chamei Ray para falarmos com ele.

Fomos até o garoto, sentei-me a seu lado e, quando me aproximei, observei as curvas de sua blusa ondularem. Quase que instintivamente, aproximei minha boca de sua orelha, sussurrando uma saudação:

- Olá. – disse, quando Ray ergueu a cabeça para ver a reação do outro. Demorou, mas, após alguns minutos, o menor respondeu:

- Oi. – sorri ao ouvi-lo.

- Nós somos Gerard e Ray. Eu sou o Gerard e ele é o Ray. – disse-lhe, apontando para Ray, que sorriu. O pequeno não tirava o capuz.

- Anthony, Anthony Iero. - disse ele, finalmente tirando a "merda" do capuz. Olhei-o com uma mescla de incredulidade e interesse quase que repentino.

- Então, Anth...

- Você pode me chamar de Frank!

- Então, Fran, eu sou o Gerard, mas pode me chama de Gee. Qualquer dúvida, eu tenho as respostas! – disse-lhe, sorrindo que nem um palhaço; mais parecia uma criança que tentava impressionar um adulto. Enfim, eu era ridículo.

- Ah, ok, Gerard. – mordi meus lábios e ele fez uma pausa. – Ok, Gee.

Conversamos; eu, Ray e Frank até bater o sinal. Subimos sem trocar palavras ou expressões faciais. Frank era um garoto reservado tímido. Seus cabelos eram quase tão grandes quanto aos meus, a única diferença é que ele tinha uma franja "jogada" por cima de um de seus olhos, sua boca não era grande e nem exatamente pequena, era uma boca ideal, seu nariz era longo, mas sem inclinações na ponta, suas bochechas eram fofas e seu corpo tinha poucas curvas, para alguém que usava calça colada, mas tinha os ombros largos, em seu rosto seu queixo era marcante de uma maneira delicada, e seus olhos transmitiam firmeza nas coisas que fazia. Mas o quê mais me chamava à atenção em Frank era um sentimento particular que seus olhos transmitiam-me, uma coisa que meu coração também sentia: tristeza.

Entramos todos na mesma classe. A zona que era estudar em escola pública era habitual, sentei me nas últimas carteiras junto de Ray, e Frank sentou-se conosco, pois era novo na escola, e eu e Ray tínhamos mudado de turno, estudávamos a noite, agora era de manhã, então éramos praticamente novos também:

- Ray! – chamei Ray, jogando uma bolinha de papel em seu vasto cabelo, ele fez um sinal com a cabeça, avisando que estava ouvindo-me, colocando a sobre os braços, com os olhos semicerrados.

- Que foi, Gee?

- Temos um compromisso, Bella Donna. – disse, grudando o meu rosto no tampo da mesa.

- Temos? – indagou-me distraído olhando o professor de física entrar na sala.

- Sim, nós temos. Você estava dormindo – fiz uma pausa, respirei fundo e acrescentei rapidamente. – de madrugada. Sabe aquele delegado, do caso do meu pai?

- O quê tem ele?

- Nós teremos que depor!