De manhã cedo todos se dirigiram para o local de treinamento designado por Athena. Aos poucos todos os cavaleiros de ouro além das amazonas de prata chegavam ao local, não demorando muito para também chegar os semideuses Féres, Eros e Abáris. Eros cumprimentou todos com um tímido oi sendo respondido pela maioria, já os outros dois nem se deram ao trabalho de olhar para os que ali estavam, seguindo para um canto. Ainda faltavam três pessoas: Milo, Lavínia e Ana.
– Vamos, Milo, já estamos mais que atrasados. – falou Lavínia tentando apressar o cavaleiro de escorpião que tinha perdido a hora.
– Se continuar me apressando aí mesmo que vou demorar.
– Então vou indo na frente.
– Vai que eu te alcanço. Não vou demorar.
A amazona de prata saiu em seguida da casa de escorpião dando um certo alívio para o namorado, que odiava ser apressado.
– Droga, não sei pra quê esse treino tão cedo, mal amanheceu e ainda por cima tá frio. - Milo terminava de colocar sua roupa de treinamento quando se lembrou do objeto em sua gaveta. Pegou o colar e segurou em suas mãos. Podia sentir o perfume daquela mulher nele. Não era um aroma doce como da maioria dos perfumes femininos, era diferente e quase inebriante. – Como vou dar isso a ela? – falava consigo mesmo lembrando dos outros semideuses que ficariam em volta dela dificultando as coisas. Resolveu então guardar de novo o tal objeto, saindo em seguida.
Na décima terceira Casa, Ana ainda estava à procura do seu colar, pois ele era um importante veículo de comunicação entre ela e o submundo. A mulher procurou por toda a parte por onde havia passado na noite anterior, mas foi em vão. Já estava atrasada e precisa ir. A filha de Hades foi descendo casa por casa em passos apressados, mas sem correr enquanto via o quanto estava atrasada por não encontrar mais ninguém no local. Quando se aproximava da oitava casa zodiacal, percebeu um cosmo, fazendo-a então diminuir a velocidade. Não demorou para avistar Milo. Ela parou em sua frente e ele não pôde ignorar a presença dela. Mesmo a alguns metros de distância podia-se quase ouvir a respiração dos dois. O vento soprava gelado naquele momento, gerando uma sensação interessante no cavaleiro que sentia seu corpo queimar por dentro, contrastando com aquele frio que cortava naquele momento. Seus olhos permaneciam fixos naquela imagem e um silêncio tomava conta do lugar. Era algo inusitado para ele ficar calado e apenas observando, isso parecia mais coisa do seu amigo Camus e não dele, propriamente. Os cabelos negros dela dançavam com o vento, cobrindo a sua face, mas nunca deixando aqueles olhos profundos e misteriosos sem estar à mostra. O vento parecia brincar com seus sentidos, pois agora levava o cheiro único do perfume dela até ele. Ana por sua vez, sentia o coração pulsar de maneira atordoante. O quê teria demais aquele cavaleiro de Athena? Sentiu-se irritada por um segundo, a fazendo desviar o olhar dele. Voltou a caminhar, precisava seguir para seu compromisso. Ana ia em direção a ele que permanecia em transe com sua figura, a seguindo com o olhar enquanto esta se aproximava dele.
– Estamos atrasados, cavaleiro. – falou Ana com sua voz um pouco rouca, passando por ele sem o encarar.
Aquelas simples palavras deram uma onda de calor nele, fazendo alterar o seu cosmo, sendo percebido por ela. Ana esboçou um sorriso enquanto continuava a descida. Milo pensou em ir atrás dela, mas por acaso do infeliz destino, percebera ter esquecido a chave.
– Droga, onde eu botei minhas chaves? – dizia para si mesmo. Depois de um tempo as achou na porta e se sentiu um tanto frustrado. Rapidamente as pegou e desceu com a esperança de encontrá-la ainda por perto, mas ela já estava longe a essa altura.
No campo de treinamento
– Oi, pessoal. – disse Lavínia ao se aproximar dos dourados.
– Tá atrasada.
– Bom dia pra você também Máscara.
– Lavínia, onde está o escorpião? Pensei que estivessem juntos. – falou Aiolia.
– Ele deve estar para chegar, estava quase pronto quando saí.
Enquanto a garota falava, percebeu Eros a fitar. Ele era digno de ser filho da deusa da beleza. Aquele semideus era perfeito e diferente dos outros dois. Parecia ser doce e educado, não tinha em sua postura aquele ar arrogante como o resto.
– Bonito mocinha. Se o Milo sonhar que está de olho no loirinho...
– Afrodite, pare de ser fofoqueiro, não estou de olho em ninguém.
– Imagina... Não é culpa sua, ele é de uma beleza admirável mesmo, não chega a ser eu, mas é de fato muito belo. Contudo, vê se não dá muita bandeira tá? Seu namoradinho é um tanto estourado e devemos evitar problemas.
– Muito obrigada pelo conselho, Dite, mesmo vendo coisas onde não há o que se ver.
– Disponha linda.
Em meio à discussão, chega Ana para ir se juntar ao trio.
– Até que essa filha de Hades é bem gos... bonita. – disse Kanon vendo seu irmão com uma expressão de reprovação. – Não vai me dizer que não acha.
– Acho, mas quero distância. Você deveria fazer o mesmo. – falou Saga.
– Quem disse que eu vou tentar me aproximar?
– Kanon, meu irmão, eu o conheço e sei que quando vê uma mulher como ela não hesita em investir.
– Nisso você tem razão. – respondeu dando uma secada nela.
– Só espero que não se esqueça de quem ela é filha.
– Não vejo mal nenhum nisso, pra mim ela é apenas uma mulher muito boa, se ela é filha de um deus do submundo, não é problema meu.
Abáris vê Ana se aproximar e não pode esconder seu descontentamento com o atraso dela.
–Por que demorou?
– Desde quando te devo satisfações? – respondeu arqueando uma sobrancelha.
– Eu só não quero pensar o porquê você está atrasada e aquele cavaleiro também. – respondeu Abáris puxando a morena para um lugar mais reservado.
– Não respondeu minha pergunta. Desde quando te devo satisfações?
– Ana, não brinque comigo. Você é minha e se eu desconfiar que está envolvida com aquele idiota ou qualquer outro ...
– O que fará? – respondeu o encarando irritada.
– Não me provoque! – disse Abáris segurando-a pelo braço.
– Abáris, não vou discutir com você aqui. – falou se soltando. – Mas saiba que nunca me terá de novo, não importa a decisão dos nossos pais.
– Você se casará comigo, minha cara e a terei de novo. Então será muito bom se comportar desde agora.
Nesse momento o escorpião chegou.
– Está atrasado!- recepcionou Máscara da Morte.
– Não enche! – respondeu cruzando os braços.
– Acho que podemos começar. – falou Saga chamando a atenção de todos. – Athena nos dividiu em quatro grupos e vou dizer quais serão. – disse pegando um papel. – O primeiro grupo terá Eros, Shaka, Mu, Afrodite e Lavínia;
Lavínia no mesmo instante não conseguiu segurar a olhada no seu companheiro de grupo. Athena havia abolido o uso de máscaras no Santuário, as amazonas apenas precisavam usá-las em batalhas, então suas expressões passariam a serem vistas.
– Não dê bandeira, gatinha. – sussurrou o pisciano no ouvido da amazona de prata.
– Já foi hoje? – falou a loira dando de ombros.
o segundo será Abáris, Kanon, Shura, Aiolia e Shina;
Dito o grupo alguns se olharam, pois os que tinham temperamento mais fortes ficariam juntos.
o terceiro Féres, Aldebaran, Máscara da Morte, Aiolos e Marin
– Boa sorte Deba.- falou Milo batendo no ombro do touro que retribuiu o consolo com um sorriso amarelo.
e por fim o quarto será Ana, Saga, Milo, Camus e Dohko.
Quando Saga disse o último Milo e Ana se olharam. O escorpião sorriu para ela, a deixando incomodada e ao mesmo tempo agitada e apesar do que sentia, não demonstrou nada, apenas o fitou.
– Agora podemos começar a treinar. – falou Saga.
Todos se agruparam como decidido pela deusa e iniciaram os treinos.
No grupo do Eros
– Esse é o grupo mais bonito. – comentou o pisciano.
– Vamos começar? – cortou Shaka.
– Como faremos?- falou Lavínia
– Podemos nos subdividir. Eu, Shaka e Afrodite e você e Eros. Depois trocaríamos. – propôs Mu tendo a aceitação de todos.
Os três já tinham iniciado o treino enquanto Eros e Lavínia estavam ainda parados.
– Lavínia, é esse o seu nome, não é?
– É sim. – respondeu corando. " Por Athena, estou sentindo meu rosto queimar. Será que ele percebeu? Eu não posso acreditar, ele é muito gato." – pensava a garota.
– Você está bem? – perguntou Eros
– Hã, eu? Claro que estou. – respondeu a garota desconcertada.
– Então, vamos começar?
– Vamos.
Nesse momento Dite falou pelo cosmo: "Quer um babador? Posso providenciar um se quiser."
"Vai se ferrar!" – respondeu ela fuzilando de longe o pisciano.
Os outros grupos treinavam de forma intensa
Lavínia apesar de ter se tornado amazona há pouco tempo, era muito ágil. Os golpes aplicados por Eros eram parte desviados por ela. Em um dos ataques dela a ele, o semideus se defendeu e a imobilizou a segurando por trás. A garota sentiu as pernas estremecerem com aquele contato, ficando sem reação. Ele a soltou por pensar em tê-la machucado.
– Acho que forcei demais. Me desculpe.
– Não forçou nada, estava ótimo, quer dizer, está tudo bem. – falou abaixando a cabeça. " Ai como eu sou idiota" pensou.
– Quer dar uma parada?
– Não, Eros, podemos continuar.
Os outros grupos treinavam de forma bem intensa, especialmente o liderado por Kanon e Abáris. Para evitar conflitos, Shura se dispôs a praticar com o semideus enquanto os outros três treinavam entre eles. O filho de Apolo dava duros golpes no dourado que começava a se irritar.
– Isso é apenas um treinamento Abáris não é preciso forçar tanto.
– Não sei como é o treinamento de vocês, cavaleiros, mas o meu é sempre assim. – disse dando mais um golpe, jogando o capricorniano no chão.
Kanon observou aquela cena e esboçou uma reação, mas se conteve quando o amigo se levantou e golpeou em cheio o semideus que bateu com força no chão, fazendo um filete de sangue escorrer pela boca. Abáris o olhou furioso, mas resolveu não reagir. Levantou-se limpando o sangue que escorria.
– Está melhor para você assim? – perguntou Shura ainda irritado.
– Hum, nada mal. É um pouco mais forte do que esperava. – respondeu com uma expressão debochada.
– Vamos continuar, prepare-se!
Os dois continuaram a lutar intensamente, ainda com provocações, mas sem maiores mal- estares.
No grupo onde estava Féres, Máscara da Morte fez questão de ser ele a treinar com o semideus, tendo a idéia repreendida por Aldebaran que previa confusão. Féres era do tipo agressivo e Máscara não ficava atrás. O taurino conseguiu que o canceriano fosse treinar com Marin e ele com Féres.
– Deba, hoje você treinará com o filho de chocadeira, mas não vai me impedir da próxima de tirar o riso da cara desse idiota.
Dito isso o canceriano se afastou recebendo uma expressão de desprezo por parte do semideus, Máscara reagiu dando o dedo do meio e cuspindo no chão. Todos viram aquela cena receosos e temiam pelo temperamento dos dois que mais cedo ou tarde poderia gerar problemas.
Já no grupo onde se encontravam Milo e Ana, tudo corria bem sem provocações. Camus propôs deles também se dividirem como os outros, para facilitar o treinamento. De imediato e sem pensar, o escorpião se prontificou em lutar com a se entreolharam notando certo interesse do escorpião. Os outros três se afastaram e iniciaram os treinos. Abáris não podia esconder seu descontentamento vendo Ana treinar com Milo. Ela havia notado a expressão de raiva do semideus, mas resolveu ignorá-lo, iniciando uma seqüência de movimentos de luta com o cavaleiro de Athena. Milo estava impressionado com as técnicas usadas por ela, era bem forte e usava táticas perfeitas de ataque e defesa, lutavam no mesmo nível. Apesar de estarem concentrados no que faziam, seus olhares freqüentemente se encontravam de uma forma magnética, parecendo inevitável o encontro deles, os levando a se desconcentrarem nos movimentos e fazendo-os cair em uma das seqüências. Ana caiu primeiro e Milo logo em seguida, com o corpo por cima do dela. Os rostos deles ficaram colados, a boca muito próxima e os olhos fixos um no outro. A respiração deles pareceu cessar por um instante e tudo em volta parecia ter ficado quieto, quando de repente Milo foi puxado de cima dela levando um soco na cara em seguida. Abáris estava furioso com a cena e estava disposto a acabar com o cavaleiro.
– Você é louco? – disse Milo se defendendo de outro golpe.
– Fique longe dela mortal de merda!
Todos pararam de treinar e se voltaram para a cena. Camus prontamente foi ajudar o amigo.
– Abáris, o que significa isso? Perdeu a cabeça? – gritou Ana dando um empurrão nele.
– Pensa que eu sou idiota, é? – falou o semideus segurando a morena pelos braços.
– Larga ela seu idiota! – falou o escorpião de forma imperativa e ainda sendo segurado pelo amigo.
– Não se meta nisso, Milo. – falou o aquariano tendo dificuldade em contê-lo.
– O quê está acontecendo aqui?- disse Lavínia chegando para completar a confusão.
Eros chegou em seguida acalmando Abáris e o fazendo soltar a Ana.
– Vê se mantém seu namorado longe dela, senão terei que dar uma lição nele. Vamos Ana, precisamos conversar.
– Não tenho nada a conversar com você, agora se me der licença. – A semideusa se afastou deixando todos para trás, Abáris fez menção de segui-la, mas foi impedido por Eros. Todos tentaram voltar a treinar, mesmo com o clima péssimo.
– Agora pode me explicar o que foi aquilo, Milo. – falou Lavínia com as mãos na cintura.
– Não foi nada, não vê que o cara é um psicopata. – defendeu-se o escorpião.
– Tá bom. – disse a garota batendo os pés.
– O que foi? Eu apanho de um maluco e ainda levo bronca?
– Estou tentando acreditar em você, escorpiãozinho, sei muito bem da sua fama.
– Pare com isso, vamos. – falou puxando a garota pela cintura. – Vamos fazer o seguinte: quando acabarmos essa chatice a gente podia tomar um gostoso banho juntos e relaxar, topa?
– Vou pensar.
– Ainda vai pensar?
– Se insistir vai ser não.
– Ô Milo, vai ficar de namoro ou vai treinar? – perguntou Dohko.
– Pensa com carinho, lindinha, não vai se arrepender.
– Vai, volta logo a treinar e eu vou fazer o mesmo.
– Até mais tarde.
A garota não respondeu, apenas deu um sorriso e se afastou. Milo por sua vez voltou para o grupo, recebendo várias caras de interrogação.
– Que foi?
– Nós é que te perguntamos.- falou Saga.
– Até vocês?
– Só te dou um conselho, amigo: fique longe da filha de Hades se não quer ter problemas. – falou Camus.
– Mas me diga uma coisa, o que fiz de mais? Ei, me fala.
– Vamos voltar a treinar? – disse Dohko cortando o escorpião.
Apesar dos atritos o treino terminou bem. Todos voltaram para suas respectivas casas. Milo consegui convencer Lavínia a ir com ele para casa, onde tomaram um banho bem quente, fazendo a garota apagar na cama do escorpião. Ele estava inquieto e ora ou outra, tinha os pensamentos voltados para a semideusa. Lembrava daquele momento onde ficaram tão próximos. Milo se levantou da cama, tirando a amazona com cuidado de cima dele e indo até a gaveta onde estava o colar. O pegou e ficou o olhando, tendo seus pensamentos tomado pela dona do objeto.
– Devo estar ficando doido mesmo. – disse o cavaleiro voltando a si e guardando o colar novamente.
Deitada em sua cama, Ana pensou no que havia acontecido. Aquele homem mexia de uma maneira perigosa com ela, mas o pior era Abáris. Ele a conhecia muito bem, não dava para enganá-lo. Com certeza ele já havia percebido algum interesse da parte dela e do cavaleiro Deverá ter mais cuidado quando estiver perto dele e além do mais, não deveria se desviar da sua missão. Nada poderia a fazer perder o foco. A perda do colar a estava dificultando de manter contato com seu pai, deveria achá-lo logo.
