Capítulo 2- As lembranças que levaram aos erros
Uma batida na porta.
___ Relena...? Está dormindo meu bem?
A garota estava deitada em sua cama, mas não estava dormindo. Também não estava com vontade de levantar-se para abrir a porta, mas não teve coragem de ignorar seu irmão.
___ Espere um pouco..._ ela se levantou, acendeu o abajour e foi até a porta abrí-la, acendendo agora a luz do quarto.
Zechs estava com uma roupa descontraída, apenas um moleton cinza e uma blusa branca de algodão, calçando apenas um chinelo tipo Raider. A garota estava de camisola cor-de-rosa e pantufas da mesma cor, porém, não se habituara ainda a vê-lo assim, simples...
Ele sorriu, acariciando o rosto de sua irmã.
___ Tudo bem com você? Quase não te vi hoje.
Relena sorriu também, porém não tão vivamente.
___ Tudo bem comigo, Milliardo. Por que? Não parece?
___ Não. Você não costuma dormir tão cedo.
___ Eu nem estava dormindo. Só descansando.
___ Ah..._ ele sorriu novamente, dando um leve apertão em sua bochecha. Ela sorriu, fechando os olhos , abrindo-os em seguida._ Se precisar de alguma coisa, mande me chamr, tá?
___ Tá..._ ela pôs a mão sobre a de Zechs, e ele segurou-a e deu um beijo nas costas da mão da menina.
___ Boa noite, meu anjo.
___ Boa noite, Milliardo, durma com Deus.
___ Você também.
Zechs saiu. Relena fechou e trancou sua porta novamente. Voltou para cama mas não se deitou. Apenas sentou-se na beirada da mesma. De alguma forma, a presença de seu irmão a deixara mais terna. Ela adorava seu irmão. Demais, talvez não gostasse de mais ninguém como gostava de seu irmão. E sentia que a recíproca era verdadeira, e isso a deixava feliz. Contudo, sentia uma certa barreira entre eles. Não tinham a intimidade que gostaria, mas ainda assim sentia toda a segurança que ele lhe passava.
Estava tão triste... queria imensamente poder chorar no ombro de alguém. Zechs... mas coragem lhe faltava. Por isso mesmo impediu a diretora do Instituto de ligar para sua casa. Se ele a visse assim não teria como negar, ou não conseguiria. E ele ficaria furioso. Não pensaria duas vezes antes de agir em prol de sua irmã protegida, e só Deus sabe o que poderia acontecer.
A vingança? Claro que haveria vingança, mas não dessa forma. Primeiro que quem faria a vingança seria ela, ninguém mais. Segundo que Zechs atingiria a pessoa errada, e não era isso que inha de acontecer. E se acontecesse acabaria de vez com sua vida.
Relena pôs os pés na cama e se cobriu até o colo, ainda sentada e encostada na cabiceira. Começou a brincar com o lençol.
Aquilo que tinha visto jamais lhe sairia da memória. Nunca ficara tão horrorizada como quando presenciou aquela cena... tão chocada que o choro só lhe veio quase uma hora depois, quando sua mente conseguiu assimilar todos os pensamentos que se atropelavam diante da visão. Por isso chorara tanto no colégio.
(mini flashback) "Como todos os dias que chegava no Instituto, foi cumprimentada por algumas amigas, que a acompanharam na longa distância até sua sala de aula.
Segunda-feira. Ela estava feliz, e acima de tudo ansiosa. Não vira seu amor durante todo o fim-de-semana. A saudade já lhe corroía o coração. Um dia bastava para lhe encher de angústia, quanto mais dois! Mas agora iria revê- lo... ou... bom, seu material estava ali, como sempre, na última carteira da última fileira da esquerda para direita, perto da enorme janela de vitraux. E do lado, a carteira de Duo, com seu respectivo material. Eles estavam no colégio, mas aonde? Olhou para o relógio, e faltavam pouco mais de cinco minutos para o sinal da primeira aula. Ela saiu apressada da sala. O pior é que não sabia onde procurá-lo naquele tamanho lugar. Três andares... e agora...
Correndo contra o relógio, Relena começou a procurar. No terceiro andar, nada. Desceu ligeiramente as escadas. Nada no segundo andar também. Primeiro andar, quase não deu pra procurar, havia muita gente e faltavam dois minutos. Voou para o térreo. Um minuto. Nem olhou direito, achou melhor voltar para a sala. Subiu rapidamente para o primeiro andar, quase correndo passou pelas salas.
___ Duo...
A garota parou. 'Eu ouvi alguma coisa...'
O sinal soou bem alto. Já não havia mais ninguém fora das classes naquele andar, e provavelmente em nenhum outro. Fez menção de correr mas não conseguiu. 'Eu ouvi algo sim.' Continuou parada.
___ Duo, pare... o, o sinal... Duo!
Ela reconheceu a voz de Heero. 'Mas...' Franziu as sombrancelhas, virou-se e tentou ouvir mais algo.
___ Duo, você não ouviu o sinal!?
Relena sabia de onde vinha a voz dele. Havia uma sala de aula à sua frente, com a porta quase fechada. Por algum motivo sentiu medo. Muito medo de se aproximar. Mas se ela não descobrisse agora, não descobriria nunca mais o que Heero fazia ali, e além disso precisava subir. Só que ela não imaginava o que iria encontrar.
Ainda hesitante ela se aproximou. A fresta da porta estava na direção contrária à sua, não dava pra ver nada ainda. Até que ela chegou no batente da porta. E olhou, discretamente.
___ Duo, pára!_ Heero empurrou o outro garoto 'grudado' nele.
___ Ah, é assim que você me trata?!_ Duo indaga num tom melodramático assim como sua expressão, virando-se de costas, fazendo birra, mas sorrindo cinicamente sem ele ver, apenas esperando sua reação, que logo veio.
Heero se aproximou dele por trás, puxando-o pela cintura e com a outra mão, afastou a trança de Duo e, após ele ficar com o pescoço bem àmostra, o beija. Duo arrepiou-se, e seu sorriso se alargou ainda mais, o beijo de Heero foi até o pé de seu ouvido, o que o excitou muito.
___ É que você é totalmente inconseqüente, Duo. Ou nós subimos agora, ou vão começar a nos procurar.
Duo se virou, e seus lábios quase se tocaram.
___ Ai, tá bom, Hee-chan, vamos._ Heero fez menção de sair, mas o americano o impediu e completou, quase sussurrando_ Mas não antes do último beijo.
Tão sensual fora o pedido que Heero não pôde resistir. Acabou beijando sua boca carnuda, com tanto desejo que até esquecera por um momento da pressa.
E do lado de fora, Relena via tudo" (fim do mini flashback)
O lençol ela agora usava para limpar os olhos tomados por lágrimas. O choque que tivera não era nem pelo fato de ela ter visto dois meninos... juntos, daquele jeito. Mas um deles era Heero...
Como absorver isso? Justo ele, o soldado perfeito... isso seria um escândalo de escala incomensurável, caso se tornasse público o fato. Seria uma vingança digna, mas não a que ela queria. Atingiria aos dois pilotos. Mas Relena não queria ver seu soldado sofrer. Seria humilhação demais, e seria terrível demais. Seu soldado ia acabar cedendo às pressões e podia tomar atitudes que para ele não eram nada difíceis.
Em compensação...
Alguém com certeza iria sofrer tudo isso. E apesar de não ter ainda um plano, sua vontade era tão grande que não ia demorar muito para que sua vongança viesse à tona.
*************
Um silêncio enorme já tomava a mansão.
Isso incomodava. Até o deixava com medo. Mas era um medo diferente, medo da solidão. Sempre que ficava sozinho, aquela angústia vinha lhe atacar.
Naquele quarto enorme, naquela cama enorme. King-size. A cama onde tudo havia acontecido. A cama do apartamento secreto.
Todos estranharam quando foi entregue na mansão. Com toda a razão; sua atual cama não tinha problema algum, não havia motivos para substituí-la. Mal sabiam eles que isso era apenas o início do "problema" já comentado de Zechs.
E mais uma vez ele se perguntava se não havia sido melhor deixar essa cama onde estava. Longe. Talvez até destruí-la ou queimá-la! Não era do seu feitio ficar se arrependendo de suas atitudes, mas isso era o que mais vinha acontecendo.
Quantas lembranças o invadiam.
Deitado e com as mãos sustentando a cabeça no travesseiro. Mirando o teto alto, e fazendo deste um telão, onde seus pensamentos eram refletidos, e aos seus olhos permitindo assistí-los. Concentrado. Ele não queria, mas era quase incontrolável lembrar. Era incontrolável, na verdade. Mas ele sempre acabava se desconcentrando e se condenando por ter voltado a lembrar. E logo depois lembrava de novo.
Isso teve se repetido por semanas. E ele já se perguntava, novamente, se não seria melhor voltar á OZ. Poderia assim distrair a mente. Seria bom. Seria útil. O ajudaria, inclusive. É isso, claro! Tudo seria mais fácil como Primeiro Comandante! Até para revê-lo... e outra pergunta: seria mesmo melhor revê-lo?
Tantas eram as perguntas sem resposta! Tantos eram os arrependimentos! Talvez isso fosse fruto de uma mente desocupada, que sem ter o que pensar, pensava demais.
Definitivamente ele precisava voltar à ativa.
A esperança veio com a tal decisão. Insistente. Zechs quis impedir sua volta mas não conseguiu. Droga! Corria sério risco de se enganar outra vez! Mas como impedir um sentimento tão forte e cheio de vida... tudo bem, ele já se enganara uma vez, outra mais outra menos já não importava. O amor não permite tristezas. Apenas as traz, mas não as deixa ficar. Bem paradoxamente. Mas é isso que o amor é: um paradoxo, uma antítese... uma mistura explosiva. E que sempre explodia! E sempre machucava...
O dia da "explosão" ele lembrava claramente.
(mini flashback) "Que reunião mais conveniente. Relena parecia ter lido seus pensamentos. A única coisa estranha era o motivo da tal. Mas talvez Relena também teria estranhado quando ele concordou tão facilmente em deixá-la fazer a festinha, com tanta gente que viria. Porém ela jamais desconfiaria de suas verdadeiras intenções. Mas talvez também ela mesma não estaria falando a verdade quando disse que tudo aquilo seria apenas uma reunião de amigos. Ele sempre soube das suas intenções para/com Heero, e as outras pessoas seriam apenas para disfarçar. Mas enfim... seria até bom...
Apesar de não querer ficar naquela 'confraternização', Zechs se mostrou presente quando os cinco pilotos chegaram. O salão de festas estava muito bem arrumado. Mas Relena fizera questão de deixar tudo o mais "simples" possível, afinal aquilo não era uma reunião de negócios.
Sua irmã logo que os recebeu levou-os para onde estavam todos os outros convidados. Zechs não estava ali naquele momento, mas logo apareceu. E não se conteve em admirar Duo, bem discretamente. Era muito engraçado o jeito como ele ficava reparando em tudo, mexendo em tudo, até quase derrubou um vaso de porcelana indiana. Ele ria, conversava, comia doces e mais doces, às vezes ia para a sacada ohar a bela noite, depois voltava. Até agora não dera bandeira em nada. Nem com ele, e nem com Heero, estranhamente. Não era isso que ele esperava. Achou que os dois ficariam grudados a festa inteira. Quer dizer, até o ponto onde não desconfiassem, claro.
Num momento da festa ele ficou estranho. Inquieto. Sempre olhando à sua volta, não parando um minuto sequer num lugar só, mas não como sempre: ele parecia procurar alguma coisa.
Zechs foi até um dos garçons e pegou uma taça de champagne. Depois foi até a enorme mesa onde estavam servidos aperitivos e tira-gostos de todos os tipos. Enquanto escolhia um, sentiu uma energia extremamente positiva ao seu lado. Era Duo. Não pôde deixar de sorrir ao notar que ele o estava procurando, por isso ficou tão inquieto.
___ Aquele vaso que você quase quebrou é valiosíssimo sabia?_ disse ele em tom de zombaria, fingindo uma bronca.
Duo o olhou sorrindo, com um dos salgados que tinha pêgo na mão.
___ Você estava aqui o tempo todo me olhando..._ disse ele 'descobrindo a América'
___ Ah, quando eu disse ontem que você era convencido eu estava totalmente certo... o que te leva a crer que eu estava te olhando?
___ Eu sei que estava. Vai negar?
Zechs fica sem-graça e sorri. Duo também sorri, triunfante. O loiro agora era quem estava inquieto por não saber como dizer o que tinha vontade.
___ O que foi?_ o americano perguntou percebendo a agitação.
___ É..._ ele ficou hesitante_ na verdade, eu estava pensando em te perguntar se... se você, assim... sentiu... sentiu saudades de ontem.
Duo ficou felicíssimo ao ouvir isso, mas não demonstrou.
___ Você sentiu?
Zechs o olhou encabulado. Corou.
___ ... é... sim, senti.
___ Eu também._ Duo disse sem emoção nenhuma, o que fez Zechs duvidar. Mas não contestou.
O clima pesou, e ambos ficaram sem ação. Neste espaço de tempo, Duo, observando as pessoas, notou que Heero o olhava fulminantemente. Ficou nervoso, e Zechs logo percebeu isso, e o por quê disso.
___ Vai, antes que ele venha te puxar pelos cabelos._ o loiro disse com raiva na voz, com raiva... de Heero.
Duo ia responder, mas não encontrou palavras e achou melhor sair sem dizer nada.
Zechs ficou triste, se virou para pegar outro tira-gosto, e logo ao voltar à sua posição original, não viu mais os dois pilotos. Imediatamente saiu para procurá-los. Foi até a sacada e observou o enorme terreno da mansão. A sacada ficava logo acima da porta de entrada da casa, e, olhando para baixo, ele viu os dois saindo por ela. Ia descer também, mas antes esperou para ver até onde eles iriam, e assim que os viu indo à lateral da casa, onde não havia ninguém, desceu.
Muito rapidamente ele chegou no jardim de seu casarão. Dirigiu-se sorrateiramente até onde viu os pilotos se esconderem. Chegou até a esquina da casa, que era cercada por arbustos coníferos, e ouviu as vozes. Por entre um desses arbustos, ele ficou observando-os.
___ Eu não posso virar as costas pra você, não é mesmo, Duo Maxwell.
___ Você tem é uma imaginação fértil, isso sim.
___ Ah, claro. O pior de tudo é com quem você estava se engraçando...
___... me engraçando??! Você está maluco?! Eu me engraçando com Zechs Merquise?? Primeiro: eu não sou de ficar me engraçando com ninguém. Segundo: Zechs Merquise??!_ pausa_ Só você mesmo, Heero._ nega ele indignado.
___ Que garantia eu tenho?... Você não vai me convencer com isso.
___ Ah é..._ um sorriso malicioso lhe surge_ ... e com o que eu lhe convenceria...?
Heero responde apenas com um olhar sugestivo. Duo então se aproxima, leva uma mão à nuca do outro piloto, e a outra mão ocupou-se de explorar o corpo dele.
___ Será que serve um beijo?
___ Um beijo?_ Heero sorri levemente.
Duo o aproximou pela nuca e o beijou profundamente. Logo o outro piloto se entregou ao beijo e às carícias de seu amado.
Zechs que assistia a tudo não agüentou mais ver nada. Totalmente perturbado ele voltou para dentro da casa, passou como um furacão raivoso por todos, entrou em seu quarto batendo a porta e se jogou na cama. Explodiu." (fim do mini flashback)
Engraçado... amor... ele estava até agora pensando na palavra amor?
Então ele finalmente havia admitido? Finalmente!!! Pelo menos agora seria muito mais fácil lidar com todo o problema, já que ele admitiu que amava aquela garoto. Forte isso, né? Estranho de se ouvir dizer. Mas a verade às vezes é assim, meio dura. Ele amava. Amava...
... amava, e como isso era ruim. Lembram-se, de quando tudo aconteceu naquele dia, há um mês e meio atrás, quando ele foi para aquela discoteca, onde logo depois Duo chegou? Então vocês devem se lembrar de quais eram suas intenções: compromisso jamais, ele queria sexo de uma noite, apenas isso. Que ironia... seria cômico, muito cômico, se não fosse trágico, muito trágico. E ele acabou querendo compromisso... bem, não era bem isso, compromisso em si. Mas ele queria poder ter o que Heero tinha: a cumplicidade de Duo. E principalmente, o que mais pesava, o que mais machucava: ele tinha o amor de Duo. Isso ficou muito claro quando viu o americano tentando convencer o outro de que não o estava traindo. E aquele beijo... Que ódio lhe subia ao lembrar daquele beijo.
Certeza ele não tinha. Mas vontade lhe sobrava no coração. Cometeria um pecado dos grandes, mas valia tudo para ter aquele garoto para si. Claro que não era tão simples assim. Duo sofreria um bocado também com o castigo daquele que ama, o qual ele não tinha ainda definido, mas pelo menos ele não teria concorrência.
Ótimo. Não via a hora de agir.
Comentários da autora: Acho q vou ter q pagar direitos autorais á Globo pelos mini-flashbacks... 0^^ Mas enfim, esse capítulo foi feito para justamente explicar o que os levou a pensar em vingança. E as vinganças, eu me refiro à elas como os 'erros', entenderam? Ah, e além disso, fiz muitos comentários á respeito de quando Zechs e Duo 'ficaram' (a-hem ¬¬"), e isto, pra quem não sabe, é da fic "As Mesmas Vontades", ok? Qualquer coisa, leiam- na ^__^! Bom, só isso por enquanto! Bye!
Uma batida na porta.
___ Relena...? Está dormindo meu bem?
A garota estava deitada em sua cama, mas não estava dormindo. Também não estava com vontade de levantar-se para abrir a porta, mas não teve coragem de ignorar seu irmão.
___ Espere um pouco..._ ela se levantou, acendeu o abajour e foi até a porta abrí-la, acendendo agora a luz do quarto.
Zechs estava com uma roupa descontraída, apenas um moleton cinza e uma blusa branca de algodão, calçando apenas um chinelo tipo Raider. A garota estava de camisola cor-de-rosa e pantufas da mesma cor, porém, não se habituara ainda a vê-lo assim, simples...
Ele sorriu, acariciando o rosto de sua irmã.
___ Tudo bem com você? Quase não te vi hoje.
Relena sorriu também, porém não tão vivamente.
___ Tudo bem comigo, Milliardo. Por que? Não parece?
___ Não. Você não costuma dormir tão cedo.
___ Eu nem estava dormindo. Só descansando.
___ Ah..._ ele sorriu novamente, dando um leve apertão em sua bochecha. Ela sorriu, fechando os olhos , abrindo-os em seguida._ Se precisar de alguma coisa, mande me chamr, tá?
___ Tá..._ ela pôs a mão sobre a de Zechs, e ele segurou-a e deu um beijo nas costas da mão da menina.
___ Boa noite, meu anjo.
___ Boa noite, Milliardo, durma com Deus.
___ Você também.
Zechs saiu. Relena fechou e trancou sua porta novamente. Voltou para cama mas não se deitou. Apenas sentou-se na beirada da mesma. De alguma forma, a presença de seu irmão a deixara mais terna. Ela adorava seu irmão. Demais, talvez não gostasse de mais ninguém como gostava de seu irmão. E sentia que a recíproca era verdadeira, e isso a deixava feliz. Contudo, sentia uma certa barreira entre eles. Não tinham a intimidade que gostaria, mas ainda assim sentia toda a segurança que ele lhe passava.
Estava tão triste... queria imensamente poder chorar no ombro de alguém. Zechs... mas coragem lhe faltava. Por isso mesmo impediu a diretora do Instituto de ligar para sua casa. Se ele a visse assim não teria como negar, ou não conseguiria. E ele ficaria furioso. Não pensaria duas vezes antes de agir em prol de sua irmã protegida, e só Deus sabe o que poderia acontecer.
A vingança? Claro que haveria vingança, mas não dessa forma. Primeiro que quem faria a vingança seria ela, ninguém mais. Segundo que Zechs atingiria a pessoa errada, e não era isso que inha de acontecer. E se acontecesse acabaria de vez com sua vida.
Relena pôs os pés na cama e se cobriu até o colo, ainda sentada e encostada na cabiceira. Começou a brincar com o lençol.
Aquilo que tinha visto jamais lhe sairia da memória. Nunca ficara tão horrorizada como quando presenciou aquela cena... tão chocada que o choro só lhe veio quase uma hora depois, quando sua mente conseguiu assimilar todos os pensamentos que se atropelavam diante da visão. Por isso chorara tanto no colégio.
(mini flashback) "Como todos os dias que chegava no Instituto, foi cumprimentada por algumas amigas, que a acompanharam na longa distância até sua sala de aula.
Segunda-feira. Ela estava feliz, e acima de tudo ansiosa. Não vira seu amor durante todo o fim-de-semana. A saudade já lhe corroía o coração. Um dia bastava para lhe encher de angústia, quanto mais dois! Mas agora iria revê- lo... ou... bom, seu material estava ali, como sempre, na última carteira da última fileira da esquerda para direita, perto da enorme janela de vitraux. E do lado, a carteira de Duo, com seu respectivo material. Eles estavam no colégio, mas aonde? Olhou para o relógio, e faltavam pouco mais de cinco minutos para o sinal da primeira aula. Ela saiu apressada da sala. O pior é que não sabia onde procurá-lo naquele tamanho lugar. Três andares... e agora...
Correndo contra o relógio, Relena começou a procurar. No terceiro andar, nada. Desceu ligeiramente as escadas. Nada no segundo andar também. Primeiro andar, quase não deu pra procurar, havia muita gente e faltavam dois minutos. Voou para o térreo. Um minuto. Nem olhou direito, achou melhor voltar para a sala. Subiu rapidamente para o primeiro andar, quase correndo passou pelas salas.
___ Duo...
A garota parou. 'Eu ouvi alguma coisa...'
O sinal soou bem alto. Já não havia mais ninguém fora das classes naquele andar, e provavelmente em nenhum outro. Fez menção de correr mas não conseguiu. 'Eu ouvi algo sim.' Continuou parada.
___ Duo, pare... o, o sinal... Duo!
Ela reconheceu a voz de Heero. 'Mas...' Franziu as sombrancelhas, virou-se e tentou ouvir mais algo.
___ Duo, você não ouviu o sinal!?
Relena sabia de onde vinha a voz dele. Havia uma sala de aula à sua frente, com a porta quase fechada. Por algum motivo sentiu medo. Muito medo de se aproximar. Mas se ela não descobrisse agora, não descobriria nunca mais o que Heero fazia ali, e além disso precisava subir. Só que ela não imaginava o que iria encontrar.
Ainda hesitante ela se aproximou. A fresta da porta estava na direção contrária à sua, não dava pra ver nada ainda. Até que ela chegou no batente da porta. E olhou, discretamente.
___ Duo, pára!_ Heero empurrou o outro garoto 'grudado' nele.
___ Ah, é assim que você me trata?!_ Duo indaga num tom melodramático assim como sua expressão, virando-se de costas, fazendo birra, mas sorrindo cinicamente sem ele ver, apenas esperando sua reação, que logo veio.
Heero se aproximou dele por trás, puxando-o pela cintura e com a outra mão, afastou a trança de Duo e, após ele ficar com o pescoço bem àmostra, o beija. Duo arrepiou-se, e seu sorriso se alargou ainda mais, o beijo de Heero foi até o pé de seu ouvido, o que o excitou muito.
___ É que você é totalmente inconseqüente, Duo. Ou nós subimos agora, ou vão começar a nos procurar.
Duo se virou, e seus lábios quase se tocaram.
___ Ai, tá bom, Hee-chan, vamos._ Heero fez menção de sair, mas o americano o impediu e completou, quase sussurrando_ Mas não antes do último beijo.
Tão sensual fora o pedido que Heero não pôde resistir. Acabou beijando sua boca carnuda, com tanto desejo que até esquecera por um momento da pressa.
E do lado de fora, Relena via tudo" (fim do mini flashback)
O lençol ela agora usava para limpar os olhos tomados por lágrimas. O choque que tivera não era nem pelo fato de ela ter visto dois meninos... juntos, daquele jeito. Mas um deles era Heero...
Como absorver isso? Justo ele, o soldado perfeito... isso seria um escândalo de escala incomensurável, caso se tornasse público o fato. Seria uma vingança digna, mas não a que ela queria. Atingiria aos dois pilotos. Mas Relena não queria ver seu soldado sofrer. Seria humilhação demais, e seria terrível demais. Seu soldado ia acabar cedendo às pressões e podia tomar atitudes que para ele não eram nada difíceis.
Em compensação...
Alguém com certeza iria sofrer tudo isso. E apesar de não ter ainda um plano, sua vontade era tão grande que não ia demorar muito para que sua vongança viesse à tona.
*************
Um silêncio enorme já tomava a mansão.
Isso incomodava. Até o deixava com medo. Mas era um medo diferente, medo da solidão. Sempre que ficava sozinho, aquela angústia vinha lhe atacar.
Naquele quarto enorme, naquela cama enorme. King-size. A cama onde tudo havia acontecido. A cama do apartamento secreto.
Todos estranharam quando foi entregue na mansão. Com toda a razão; sua atual cama não tinha problema algum, não havia motivos para substituí-la. Mal sabiam eles que isso era apenas o início do "problema" já comentado de Zechs.
E mais uma vez ele se perguntava se não havia sido melhor deixar essa cama onde estava. Longe. Talvez até destruí-la ou queimá-la! Não era do seu feitio ficar se arrependendo de suas atitudes, mas isso era o que mais vinha acontecendo.
Quantas lembranças o invadiam.
Deitado e com as mãos sustentando a cabeça no travesseiro. Mirando o teto alto, e fazendo deste um telão, onde seus pensamentos eram refletidos, e aos seus olhos permitindo assistí-los. Concentrado. Ele não queria, mas era quase incontrolável lembrar. Era incontrolável, na verdade. Mas ele sempre acabava se desconcentrando e se condenando por ter voltado a lembrar. E logo depois lembrava de novo.
Isso teve se repetido por semanas. E ele já se perguntava, novamente, se não seria melhor voltar á OZ. Poderia assim distrair a mente. Seria bom. Seria útil. O ajudaria, inclusive. É isso, claro! Tudo seria mais fácil como Primeiro Comandante! Até para revê-lo... e outra pergunta: seria mesmo melhor revê-lo?
Tantas eram as perguntas sem resposta! Tantos eram os arrependimentos! Talvez isso fosse fruto de uma mente desocupada, que sem ter o que pensar, pensava demais.
Definitivamente ele precisava voltar à ativa.
A esperança veio com a tal decisão. Insistente. Zechs quis impedir sua volta mas não conseguiu. Droga! Corria sério risco de se enganar outra vez! Mas como impedir um sentimento tão forte e cheio de vida... tudo bem, ele já se enganara uma vez, outra mais outra menos já não importava. O amor não permite tristezas. Apenas as traz, mas não as deixa ficar. Bem paradoxamente. Mas é isso que o amor é: um paradoxo, uma antítese... uma mistura explosiva. E que sempre explodia! E sempre machucava...
O dia da "explosão" ele lembrava claramente.
(mini flashback) "Que reunião mais conveniente. Relena parecia ter lido seus pensamentos. A única coisa estranha era o motivo da tal. Mas talvez Relena também teria estranhado quando ele concordou tão facilmente em deixá-la fazer a festinha, com tanta gente que viria. Porém ela jamais desconfiaria de suas verdadeiras intenções. Mas talvez também ela mesma não estaria falando a verdade quando disse que tudo aquilo seria apenas uma reunião de amigos. Ele sempre soube das suas intenções para/com Heero, e as outras pessoas seriam apenas para disfarçar. Mas enfim... seria até bom...
Apesar de não querer ficar naquela 'confraternização', Zechs se mostrou presente quando os cinco pilotos chegaram. O salão de festas estava muito bem arrumado. Mas Relena fizera questão de deixar tudo o mais "simples" possível, afinal aquilo não era uma reunião de negócios.
Sua irmã logo que os recebeu levou-os para onde estavam todos os outros convidados. Zechs não estava ali naquele momento, mas logo apareceu. E não se conteve em admirar Duo, bem discretamente. Era muito engraçado o jeito como ele ficava reparando em tudo, mexendo em tudo, até quase derrubou um vaso de porcelana indiana. Ele ria, conversava, comia doces e mais doces, às vezes ia para a sacada ohar a bela noite, depois voltava. Até agora não dera bandeira em nada. Nem com ele, e nem com Heero, estranhamente. Não era isso que ele esperava. Achou que os dois ficariam grudados a festa inteira. Quer dizer, até o ponto onde não desconfiassem, claro.
Num momento da festa ele ficou estranho. Inquieto. Sempre olhando à sua volta, não parando um minuto sequer num lugar só, mas não como sempre: ele parecia procurar alguma coisa.
Zechs foi até um dos garçons e pegou uma taça de champagne. Depois foi até a enorme mesa onde estavam servidos aperitivos e tira-gostos de todos os tipos. Enquanto escolhia um, sentiu uma energia extremamente positiva ao seu lado. Era Duo. Não pôde deixar de sorrir ao notar que ele o estava procurando, por isso ficou tão inquieto.
___ Aquele vaso que você quase quebrou é valiosíssimo sabia?_ disse ele em tom de zombaria, fingindo uma bronca.
Duo o olhou sorrindo, com um dos salgados que tinha pêgo na mão.
___ Você estava aqui o tempo todo me olhando..._ disse ele 'descobrindo a América'
___ Ah, quando eu disse ontem que você era convencido eu estava totalmente certo... o que te leva a crer que eu estava te olhando?
___ Eu sei que estava. Vai negar?
Zechs fica sem-graça e sorri. Duo também sorri, triunfante. O loiro agora era quem estava inquieto por não saber como dizer o que tinha vontade.
___ O que foi?_ o americano perguntou percebendo a agitação.
___ É..._ ele ficou hesitante_ na verdade, eu estava pensando em te perguntar se... se você, assim... sentiu... sentiu saudades de ontem.
Duo ficou felicíssimo ao ouvir isso, mas não demonstrou.
___ Você sentiu?
Zechs o olhou encabulado. Corou.
___ ... é... sim, senti.
___ Eu também._ Duo disse sem emoção nenhuma, o que fez Zechs duvidar. Mas não contestou.
O clima pesou, e ambos ficaram sem ação. Neste espaço de tempo, Duo, observando as pessoas, notou que Heero o olhava fulminantemente. Ficou nervoso, e Zechs logo percebeu isso, e o por quê disso.
___ Vai, antes que ele venha te puxar pelos cabelos._ o loiro disse com raiva na voz, com raiva... de Heero.
Duo ia responder, mas não encontrou palavras e achou melhor sair sem dizer nada.
Zechs ficou triste, se virou para pegar outro tira-gosto, e logo ao voltar à sua posição original, não viu mais os dois pilotos. Imediatamente saiu para procurá-los. Foi até a sacada e observou o enorme terreno da mansão. A sacada ficava logo acima da porta de entrada da casa, e, olhando para baixo, ele viu os dois saindo por ela. Ia descer também, mas antes esperou para ver até onde eles iriam, e assim que os viu indo à lateral da casa, onde não havia ninguém, desceu.
Muito rapidamente ele chegou no jardim de seu casarão. Dirigiu-se sorrateiramente até onde viu os pilotos se esconderem. Chegou até a esquina da casa, que era cercada por arbustos coníferos, e ouviu as vozes. Por entre um desses arbustos, ele ficou observando-os.
___ Eu não posso virar as costas pra você, não é mesmo, Duo Maxwell.
___ Você tem é uma imaginação fértil, isso sim.
___ Ah, claro. O pior de tudo é com quem você estava se engraçando...
___... me engraçando??! Você está maluco?! Eu me engraçando com Zechs Merquise?? Primeiro: eu não sou de ficar me engraçando com ninguém. Segundo: Zechs Merquise??!_ pausa_ Só você mesmo, Heero._ nega ele indignado.
___ Que garantia eu tenho?... Você não vai me convencer com isso.
___ Ah é..._ um sorriso malicioso lhe surge_ ... e com o que eu lhe convenceria...?
Heero responde apenas com um olhar sugestivo. Duo então se aproxima, leva uma mão à nuca do outro piloto, e a outra mão ocupou-se de explorar o corpo dele.
___ Será que serve um beijo?
___ Um beijo?_ Heero sorri levemente.
Duo o aproximou pela nuca e o beijou profundamente. Logo o outro piloto se entregou ao beijo e às carícias de seu amado.
Zechs que assistia a tudo não agüentou mais ver nada. Totalmente perturbado ele voltou para dentro da casa, passou como um furacão raivoso por todos, entrou em seu quarto batendo a porta e se jogou na cama. Explodiu." (fim do mini flashback)
Engraçado... amor... ele estava até agora pensando na palavra amor?
Então ele finalmente havia admitido? Finalmente!!! Pelo menos agora seria muito mais fácil lidar com todo o problema, já que ele admitiu que amava aquela garoto. Forte isso, né? Estranho de se ouvir dizer. Mas a verade às vezes é assim, meio dura. Ele amava. Amava...
... amava, e como isso era ruim. Lembram-se, de quando tudo aconteceu naquele dia, há um mês e meio atrás, quando ele foi para aquela discoteca, onde logo depois Duo chegou? Então vocês devem se lembrar de quais eram suas intenções: compromisso jamais, ele queria sexo de uma noite, apenas isso. Que ironia... seria cômico, muito cômico, se não fosse trágico, muito trágico. E ele acabou querendo compromisso... bem, não era bem isso, compromisso em si. Mas ele queria poder ter o que Heero tinha: a cumplicidade de Duo. E principalmente, o que mais pesava, o que mais machucava: ele tinha o amor de Duo. Isso ficou muito claro quando viu o americano tentando convencer o outro de que não o estava traindo. E aquele beijo... Que ódio lhe subia ao lembrar daquele beijo.
Certeza ele não tinha. Mas vontade lhe sobrava no coração. Cometeria um pecado dos grandes, mas valia tudo para ter aquele garoto para si. Claro que não era tão simples assim. Duo sofreria um bocado também com o castigo daquele que ama, o qual ele não tinha ainda definido, mas pelo menos ele não teria concorrência.
Ótimo. Não via a hora de agir.
Comentários da autora: Acho q vou ter q pagar direitos autorais á Globo pelos mini-flashbacks... 0^^ Mas enfim, esse capítulo foi feito para justamente explicar o que os levou a pensar em vingança. E as vinganças, eu me refiro à elas como os 'erros', entenderam? Ah, e além disso, fiz muitos comentários á respeito de quando Zechs e Duo 'ficaram' (a-hem ¬¬"), e isto, pra quem não sabe, é da fic "As Mesmas Vontades", ok? Qualquer coisa, leiam- na ^__^! Bom, só isso por enquanto! Bye!
