Há muito tempo não se sentia tão confortável em estar em casa, com Ginny. Ambos estavam sentados no sofá assistindo um filme trouxa.

Lily estava no outro sofá, com Hugo quase dormindo ao seu lado.

O filme era romântico, o que de fato não agradaria o garoto, que era muito parecido com Ron para apreciar algo daquele tipo. Harry também não era muito fã do gênero, mas gostava de filmes trouxas.

Lily tinha muito apreço por coisas trouxas, muito mais que qualquer um dos irmãos e primos, coisa que aprendera com o avô. Ela era a mais próxima de todos ao velho Arthur e praticamente o idolatrava.

Albus gostava bastante da culinária trouxa, e James era quase tão ignorante em relação á trouxas quanto...

Harry suspirou. Não queria, e não devia pensar nele.

Concentrou-se no calor de Ginny, que tinha a cabeça encostada em seu ombro, enquanto um dos braços de Harry a rodeava.

Olhou para a filha e para o sobrinho novamente, e agradeceu silenciosamente o fato deles não serem muito inclinados a fazerem demonstrações públicas de carinho.

James e Scarlett Mclaggen costumavam demonstrar carinho demais na frente dos outros. Não que Harry se importasse. Ao contrário do pai da moça.

Harry não era demasiadamente ciumento e protetor em relação á Lily, mas também não gostaria de vê-la se esfregando com algum garoto por aí. Muito menos em sua frente.

Ron nunca tivera que passar pela experiência de ver a filha namorando alguém, e Harry achava que isso era saudável. Para Ron, claro. Não para a menina.

Rose parecia um tanto inclinada a pensar somente nos estudos. Pelo que Albus dissera, os meninos sequer tinham coragem de se aproximar.

Hugo bocejou e esforçou-se para manter os olhos abertos.

- Hugo, se quiser pode ir fazer outra coisa. – Lily resmungou com impaciência, sem tirar os olhos da Tv.

Hugo hesitou um instante, e depois de olhar rapidamente para a namorada, levantou-se, e saiu para o jardim. Talvez fosse treinar alguns lances de quadribol.

Harry riu.

- Ela está mudada, não? Até pouco tempo era tão meiga... – Ginny também riu, cochichando.

- Talvez tenha aprendido como deixar um homem aos seus pés... – Harry disse em voz baixa – Já sabemos quem é que vai servir de escravo se por acaso daí sair casamento.

- É lógico que Hugo vai ser meu escravo... – Lily tirou os olhos da Tv pela primeira vez e olhou para os pais – Todo mundo sabe o quanto ele me ama! – sorriu de forma marota, e os olhos brilharam rapidamente com carinho, antes de ela virar-se novamente para a Tv.

- Como se você não gostasse dele... – Ginny resmungou para a filha, que fingiu não ter ouvido – Harry, se quiser, pode sair também... – sorriu – Eu sei que você também não gosta... Bem, não que eu também aprecie muito filmes românticos, mas eu quero saber o final desse...

Harry gostaria de ficar mais tempo perto de Ginny, mas o filme estava chato. Deu um selinho na esposa e também saiu para o jardim.

Hugo estava em sua vassoura, procurando o pomo de ouro. Era apanhador do time da Lufa-Lufa.

- Ali! – Harry exclamou, e Hugo mergulhou perto do chão, agarrando o pomo rapidamente.

- Obrigado, tio... – aproximou-se de Harry e sorriu.

- O time da Lufa-Lufa ganhou a taça esse ano, não foi? – Harry perguntou, lembrando-se do ódio mal disfarçado de Albus.

- Foi sim... – o sorriso de Hugo aumentou – Ganhou da Sonserina. Albus ficou realmente irritado! – riu e balançou a cabeça – Foi estranho porque até aquele albino, o Malfoy, me cumprimentou pela vitória.

Harry fechou os olhos rapidamente, sentindo o estômago afundar.

Não queria ouvir nada relacionado á ele. Nada. Nem mesmo sobre o filho dele.

- Albus nunca foi um bom perdedor... – murmurou com a voz ligeiramente fraca.

- Pois é... – Hugo murmurou dando de ombros – Ele ficou com tanta raiva que disse algo sobre Lily terminar comigo ou algo assim... – disse mais sério.

- E você ficou preocupado? – zombou.

- Não! – Hugo respondeu com indignação – Porque eu deveria me preocupar? Ela não está pensando em terminar comigo, está? – ele fingiu despreocupação.

- Não sei... - Harry resmungou.

- Nada pode nos separar, creio eu... E já faz um tempo, Albus não está mais com raiva de mim...

Harry balançou a cabeça e pensou que Albus poderia ficar com raiva de alguém até a morte, sem demonstrar isso.

Era muito difícil fazê-lo esquecer de algo, principalmente se fora algo de ruim feito contra ele.

Ele deveria estar festejando ainda. Assim como James, Albus não voltara para casa na noite depois da formatura.

Talvez estivesse com alguma garota, apesar de não saber de nenhuma depois da filha do Zabini e da Parkinson.

- Lily gosta de mim e não há motivo para ela terminar comigo... – Hugo continuou, agitando as mãos nervosamente.

Era impressão sua ou Hugo estava começando a ficar ligeiramente histérico?

Harry não confirmara o fato de não haver nada que pudesse separar a filha do sobrinho, e ultimamente, Lily vinha sendo meio seca com o namorado. Talvez isso estivesse deixando-o inseguro.

Harry sabia que não havia nada que pudesse deixar alguém apaixonado mais inseguro do que um tratamento frio por parte do companheiro.

Censurou-se por pensar novamente no que já deveria ser passado.

- É claro que ela gosta de você. Não há motivo para se preocupar... – Harry disse em tom gentil e Hugo corou.

- Eu não estou preocupado... – deu de ombros – Nunca estive. – pegou o pomo de ouro e estendeu-o para Harry – Quer jogar?

Já fazia três meses que estava separado de Draco, e apesar de ainda sentir falta do loiro, sentia-se mais leve. O modo como se sentia quando ainda estava com ele era horrível. Estava em constante culpa. Não conseguia mais ficar com Ginny, e não conseguia deixar de ficar com Malfoy. Ás vezes tinha vontade de machucar-se fisicamente, como algum tipo de suicida depressivo, que procurava transferir a dor da alma para o corpo.

Como se isso fosse possível.

Sentia-se aliviado. E faria de tudo para suplantar a falta daquilo que tivera com Draco.

O desgraçado com certeza poderia dizer que foi sexo. Bem, e foi.

O que eles fizeram nesses vinte anos? Sexo.

Mas como Draco diria, Harry e sua alma grifinória não conseguiram separar sexo e sentimento.

E aquilo o estava matando, porque o outro conseguira. E a solução fora se afastar.

Ouvira dizer algo sobre o filho dele, Scorpius. O garoto pretendia ir para a América do Sul para aprofundar seus conhecimentos em naturalismo. Se não se enganava, fora James que comentara. Harry ficara impressionado pelo fato do filho de alguém como Draco pensar em ser naturalista. E também ficara impressionado em como o filho ficara abalado com a notícia. Albus empalidecera e afundara no sofá, abatido.

A amizade dos dois só ficara mais forte a partir do sexto ano, quando Harry o conhecera pessoalmente. Até então só o tinha visto de longe.

Mas não conhecia o garoto realmente. Talvez só fosse parecido com o pai na aparência. Albus parecia adorá-lo desde que se conheceram, aos onze anos. Não que o filho demonstrasse claramente, muito ao contrário, Albus era mestre em esconder seus sentimentos, mas Harry conhecia o filho quase tão bem quanto a si mesmo, e conseguia lê-lo pelas entrelinhas.

E também sabia o quão carismático um Malfoy poderia ser mesmo sem a intenção de sê-lo. Não que Harry tivesse sido imediatamente cativado por Draco. Mas lembrava-se do modo como os Sonserinos o respeitavam e de como os olhos de Parkinson (e de outras meninas também) brilhavam ao vê-lo. Sempre pensou que eles se casariam, ficara surpreso quando ela se casou com Zabini.

Estava no beco diagonal acompanhando Lily em sua busca pelo presente perfeito para Hugo. O garoto faria aniversário em uma semana. Pelo menos ele pararia de se preocupar depois de receber um presente da namorada. Depois da conversa que tiveram sobre Lily há alguns dias atrás o rapaz estava agindo de maneira patética, só faltava lamber o chão que Lily pisava. Torcia para que sua insegurança passasse logo.

- Oh, papai, isso é perfeito! – Lily exclamou e Harry fez uma careta.

Arrependia-se profundamente de ter aceitado acompanhá-la. Odiava fazer compras. Ao contrário da filha, que enquanto procurava um presente para o namorado, comprava uns dez para si mesma em cada loja que passava. Sabia que ela chamava-o para ir com ela não exatamente para ter sua companhia e sim pelo fato dele ser mão aberta, simplesmente não conseguia dizer não á sua garotinha.

- Olhe só, você acha que ele vai gostar?

- É uma vassoura bonita, mas é apenas uma vassoura, compre algo mais original... – Harry resmungou entediado.

- Ora, papai – Lily revirou os olhos, impaciente – Eu vou mandar fazer uma inscrição na vassoura, como uma declaração de amor para Hugo, eu não sei exatamente o que vou escrever, mas quero que seja algo que o faça chorar de emoção! É claro que se isso ocorrer vai ser no quarto dele longe de mim e de qualquer criatura que tenha olhos... – ela disse em tom banal para em seguida lançar-lhe um sorriso brilhante – O que você acha?

- Espetacular... – Harry disse com certo desinteresse – É bom que você pare de torturar o rapaz, e mostre que gosta dele também. Se você queria uma mostra de que ele morre por você, conseguiu... – olhou-a com reprovação – Eu nunca o vi mais ridículo...

- É mesmo não é, papai? – Lily riu alto, suas bochechas coradas de prazer.

- Ora, pegue essa vassoura logo e vamos embora, não agüento mais andar por aqui...

Depois de pedir que escrevessem 'Para sempre te amarei, Lily', o que não soou particularmente emocionante para Harry, saíram da loja prontos para irem para casa. Enquanto a garota carregava no máximo 2 sacolas além da vassoura, Harry quase não conseguia ver um palmo á sua frente com tanta tralha em suas mãos.

Deu poucos passos antes de trombar com alguém e deixar várias sacolas caírem. Suspirou e abaixou-se para recolhê-las, e um par de mãos brancas puseram-se a ajudá-lo. Harry ergueu o rosto e por um segundo pensou estar diante de Draco. Mas de certeza que Scorpius era bem menos terrível.

- Olá, Sr. Potter... – o garoto murmurou e depositou várias sacolas nas mãos de Harry. – Lily – ele fez um aceno com a cabeça e ela sorriu-lhe em resposta.

- Oh, papai, eu esqueci algo, espere aí! – Lily exclamou, depositando as poucas sacolas que segurava em cima da pilha que estava nas mãos de Harry, e Scorpius fez o favor de segurar a vassoura.

- E então, como vai, Scorpius?

- Eu vou bem, obrigado. E o senhor? – o loiro perguntou e Harry teve a impressão que o garoto zombava dele.

- Vou bem.

- Que bom, mas infelizmente eu não posso dizer o mesmo do meu pai.

Harry gelou. Procurou acalmar-se e agir com indiferença.

- O que houve com ele? – questionou, engolindo em seco.

- O que eu gostaria de saber é o que houve com o senhor – Scorpius resmungou com frieza – Meu pai anda bebendo como uma esponja, nada o interessa mais, a não ser os negócios. Eu consigo me virar bem, mas minha mãe está ficando louca.

Harry estava hiperventilando. Não era possível que Scorpius soubesse de seu caso com Draco!

- Eu sei – o loiro disse, como se pudesse ler seus pensamentos –Desde meu terceiro ano em Hogwarts que eu sei.

- Sabe do quê, Scorpius? – Harry surpreendeu-se com sua própria calma. Seus ouvidos zumbiam.

- Não finja que não sabe do que eu estou falando, Sr. Potter. Eu planejava nunca revelar que sabia do envolvimento de vocês, mas eu me vi sem saída. Vocês brigaram, é claro. Mas sei que não é a primeira vez, afinal, de tempos em tempos meu pai resolvia ficar mais em casa e suas saídas repentinas cessavam um pouco. Dessa vez foi definitivo? O senhor cansou de esperar por algo que nunca viria?

- Scorpius, eu... – suspirou, sem saber o que dizer.

Harry sabia que não adiantaria negar ou fingir-se de desentendido.

- Por mais que meu pai esconda, ele sente sua falta.

- Eu já tentei de todas as maneiras, Scorpius. Eu simplesmente não consigo mais. Eu estava ficando louco, não conseguia mais sustentar aquela situação... Eu sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer pelo seu pai.

Já que nesses vinte anos Draco não fizera nada por ele, Harry pensou.

- Entendo – Scorpius resmungou, crispando os lábios com certo desprezo.

- O que eu acho estranho, é você falar disso com tanta naturalidade... É seu pai traindo sua mãe há vinte anos, com um homem...

- Meu pai ama minha mãe, e faria qualquer coisa por ela, Sr. Potter – Scorpius disse erguendo o queixo com orgulho – Sexo não significa nada, o Sr deve saber disso. – o loiro murmurou desdenhoso.

- Não fale comigo como se soubesse de tudo, moleque – Harry irritou-se com a arrogância do rapaz – Você e seu pai podem pensar assim, mas eu não. Para mim lealdade engloba tudo, inclusive sexo. Um dia quem sabe, você deixará de ser tolo e descobrirá isso. Não se deixe levar pelas idéias do seu pai, se quiser ser feliz.

Para surpresa de Harry, Scorpius riu.

- Não comente essa conversa com meu pai, por favor. Ele não faz idéia que eu sei sobre vocês. Até logo, Senhor. – entregou a vassoura na mão de Lily, que acabara de chegar, e sumiu entre a multidão.

Harry sequer tinha percebido a presença da filha.

- Eu tinha esquecido meus bolinhos, detesto ficar um dia sequer sem comê-los... – ela disse, já comendo um – Scorpius é tão estranho, não?

Tão estranho quanto o pai, Harry pensou balançando a cabeça, e esperando esquecer esse episódio patético.


Hello, people :D Sorry pela demora, tive um surto de falta de criatividade e tbm estive mto ocupada. Reviews, heiin! :D

Beijoos!