Capítulo 2

Era impressionante. Eram os olhos verdes mais lindos que ele já tinha visto na vida. Ele os encarou demoradamente, sem nenhum resquício de reação. Por um momento, se sentiu como nunca na vida. Era como admirar um anjo que lhe fora enviado para retirá-lo do inferno. Não conseguia se mover; era como se tivesse magnetismo naquele olhar assustado, do qual ele não conseguia escapar.

- Por favor, não diga que estou aqui! - ela suplicou.

Ele não respondeu. Ainda a fitava, como que perdendo a respiração. Como, por deus, aquela criatura frágil, quase uma boneca de porcelana, era procurada pela polícia? Só podia ser um engano. Não podia acreditar que aquele ser angelical tinha a mesma alma escura que a dele.

- Tudo isso é pra você? – ele disse enfim.

- É.

- Você está metida numa encrenca das boas.

- Eu sei. Você... você não vai dizer a eles, vai?

- Eu não moro aqui. Não me importo.

- Obrigada.

Não podia se sentir assim. De uma hora para outra, ele queria abraçá-la e tomá-la nos braços, numa vontade incontrolável. Era um transe. Mas isto não era ele. Era demais admitir para si mesmo que ele estava sentindo compaixão pela garota.

- Obrigada por quê?

- Ora... por não me delatar.

- Não fiz nada demais, garota. Agora saia do meu carro.

Ela o fitou daquele jeito de novo, com súplica nos olhos, e ele não pode mais encará-los. Olhou para a movimentação do lado de fora. Ela seria pega facilmente se saísse dali. Mas isso não era mais da conta dele.

- Vamos garota, eu não quero encrencas pra mim. Já bastam as que eu arrumei.

- Mas... por favor, pelo menos me tire do parque. Eu prometo que saio do carro quando os guardas não estiverem mais a vista.

Ele se virou lentamente no banco para encará-la de frente. Era mais bonita de perto do que imaginara ser. Ela tinha longos cabelos negros cacheados, uma boca pequena e delicada, nariz altivo. Tinha várias sardas pelo rosto. Era uma menina, apenas uma menina.

- O que eu ganho com isso? – ele pode ver o desapontamento no olhar dela.

- Bem, eu acho que ainda tenho alguns trocados.

- Alguns trocados?

- É... por favor, me tire daqui. Por favor.

- Tudo bem. Mas vou querer mais do que alguns trocados.

- Eu darei o que você quiser, mas me tire daqui!

- Assim que se fala.

Ele tornou a se virar no banco do carro, e virou a chave de ignição. Engatou a marcha ré para manobrar o carro e sair do estacionamento. Foi andando com o carro lentamente, até que um policial o deteve.

- Hey rapaz... você viu a garota que estamos procurando?

- Garota? Eu pensei que era um homem.

- Não, é uma garota. Cabelo encaracolado, olhos verdes, veste uma jaqueta preta. A viu por aí?

- Creio que não, meu chapa. Agora se me dá licença...

- Ainda não. Este carro a gente ainda não revistou. Você se importaria?

- Amigo, se eu não a vi, como ela poderia estar no meu carro?

- Ela pode estar escondida.

- Não, não está. Eu mesmo dei uma checada no carro quando entrei.

- Mesmo assim...

- Se não se importa, eu tenho mais o que fazer. – ele podia ver que o guarda estava desconfiado. Sentia que todos os músculos estavam rígidos de tensão.

- Os documentos do carro, por favor.

- Documentos? Para quê??

- Os documentos, por favor!

Ele sentiu uma gota de suor frio brotar na testa. Estava metido em duas encrencas, a do carro e da garota. Ele sabia que tinha que ter mandado ela embora antes que fosse tarde demais. Sua mente era um turbilhão de pensamentos; tentava calcular o que poderia fazer, mas só tinha uma saída, e mesmo assim era uma saída muito arriscada.

- Olhe a garota!

- Onde?

- Lá, nas árvores! Estão todos indo para lá!

Esperou o guarda olhar mais de um segundo para o lado que apontou e arrancou com o carro. Fez uma manobra complicada, virando o carro com tudo e fazendo um barulho enorme com os pneus. Engatou outra marcha e saiu em disparada do parque. Ele podia sentir a adrenalina correr rápido por todo seu corpo, acelerando seu coração, contraindo os músculos e intensificando a respiração. Ele adorava. Sentia-se vivo e onipotente, era mais que os outros. Adorava sentir o doce e arriscado sabor do perigo.

Não demorou muito para duas viaturas começarem a seguir o carro. Ele já calculara isso; era óbvio que ele passaria de um cidadão comum para um suspeito no momento em que fugisse com o carro. Mantinha-se firme na direção, atento a qualquer rua que pudesse entrar para despistá-los. Não havia nenhuma. Estava em um tipo de estradinha, extremamente reta. Não haveria escapatória ali se eles o alcançassem. O mero pensamento de ser apanhado ativou nele uma raiva insana que o fez acelerar ainda mais o carro. Ela segurou-se o mais que pode no banco traseiro, temendo ser vista. Ela também tinha o coração na boca, sentia um medo aterrador, que parecia trancar suas vias aéreas a impedindo de respirar perfeitamente. A cabeça latejava e ela sentia cãibras por todo o corpo, mas fazia um esforço sobre-humano para se manter abaixada no carro. Ela deitou embaixo dos bancos a frente e segurava como podia no banco traseiro. De repente se sentiu arremessada para direita bruscamente, e depois para trás. Bateu violentamente com a cabeça em algo que não pode identificar. Ela quis levantar e ver como as coisas estavam indo, mas sabia que se fosse vista, complicaria mais ainda a vida dele.

Ele fez outra curva brusca, desta vez para a esquerda. Finalmente tinham alcançado o centro da cidade, onde podiam despistar a polícia mais facilmente. Ele percebeu que a sirene estava cada vez mais distante. Estava quase conseguindo. Avistou um beco a uns 50m de distância. Olhou pelo retrovisor: não estavam à vista. Virou com tudo o carro, estacionou no beco, desligou o motor. Respirou um pouco. Já estava saindo do carro quando lembrou da garota. Voltou correndo, levantou o banco do motorista, e a fitou. Ela não se mexia. Abaixou e a tocou; estava extremamente quente. Tentou mexer mais nela, para ver se se dava conta da situação. Ela ainda não se movia. Ela a virou lentamente, e pode observar sua face coberta de sangue. Ele gelou. Procurou chama-la, mas ainda nem sabia seu nome. Começou a levantar e a deixar onde estava, mas não conseguiu. Em qualquer outra ocasião ele teria deixado sem pensar duas vezes, mas aquela não era uma ocasião comum.

Tentou procurar desesperado algo que a fizesse acordar. Lembrou que sempre levava uma pequena garrafa de vodka consigo. Tirou-a do bolso e a abriu, passando lentamente pelas narinas dela. O cheiro forte a fez despertar.

- Você está bem?

- Eu... eu não sei. – ela levou a mão à cabeça que latejava e percebeu que sangrava.- Oh meu Deus!

- Calma, eu cuido disso.

Retirou um lenço do bolso, o embebeu com a vodka e começou a passar no ferimento. Ela recuou a cabeça, com dor. Ele levou a mão direita para segurar-lhe a testa, gentilmente, e com a mão esquerda passava o pano. O sangramento começava a parar. Ela o fitou, pela terceira vez daquela mesma maneira desconcertante. Por que a estava ajudando tanto? Qualquer um no lugar dele já a teria abandonado. Mas ele não parecia ser qualquer um. Ele a fitou de volta, e ficaram alguns segundos perdidos um no olhar do outro.

- Temos que sair daqui, rápido. – ele disse.

- Sim, mas pra onde?

Sem responder, ele a içou do assoalho do carro, passou o braço esquerdo por sua cintura, e começou a andar; eles mal se conheciam, e já eram cúmplices.