Beckett e sua mente travavam uma silenciosa batalha interna. Faltavam apenas alguns centímetros, mas ela ficou presa em sua própria hesitação. Ao invés de se aproximar, jogou-se para trás, deitando novamente sem tempo de captar a decepção estampada no rosto de Castle.
"Bem, você está recuperada, deve estar querendo um pouco de privacidade." Castle já estava ajoelhado sobre a cama fazendo menção de ir embora quando foi interrompido abruptamente.
"Não!" – e depois, baixando o tom de voz para torná-lo menos desesperado: "Fica mais um pouco, me deixe retribuir o café." Já mais calma, completou: "Na verdade, farei um café pra você, mas acordei com vontade de beber alguma outra coisa, talvez um suco."
Poucas vezes ela viu uma expressão de tanta perplexidade. Castle não falou nada, mas arregalou os olhos e depois piscou duas ou três vezes até parar o olhar mudo sobre Beckett.
"Está tudo bem?" Ela perguntou, mas não encontrou resposta.
"Castle? Castle? Rick!" o grito despertou-o de seus devaneios.
"Ah, sim, claro, você quer um suco. Eu também sempre acordo querendo algo diferente. Num dia, estou com vontade de comer cereais, no outro, omelete ou talvez panquecas. Isso é natural...ter essas vontades, sim, normal. Não é como se isso fosse uma grande coisa ou como se... você está grávida?" –todas essas palavras voaram para fora da boca dele encontrando uma Beckett de testa franzida que nada entendia sobre o que ele falava.
"Quê?! Por que a pergunta. Eu vi você passando a mão na minha barriga. Mas eu sei que não engordei nada e, além do mais, você sabe que não estou mais com...ninguém, então, o que está havendo?" Ela exigiu explicações, já sentada sobre uma perna em cima da cama, a outra apoiada no chão.
Aquela mulher sabia como deixar um homem acuado, mas Castle não podia afirmar que não apreciava aquela sensação.
Passando a mão na testa, respondeu devagar: "Não aconteceu nada, não dormi muito bem e fiquei confuso. Foi só um sonho bobo, você grávida e me pedindo suco, só isso."
Ela ficou envergonhada pela reação exagerada, puxou a outra perna pra cima da cama novamente e tentou oferecer um sorriso, quase se desculpando por ser a causa daquela noite mal dormida.
"Ah, um sonho. Sim, eles são tão reais às vezes. Outro dia sonhei que estava num templo hindu. Quando acordei, senti um terrível cheiro de incenso. Fiquei preocupada, mas notei que vinha da janela do vizinho." – Eles riram juntos, Beckett dando um leve tapinha na perna de Castle. Era isso que faltava, um pouquinho de descontração.
"Sim, imagina que eu estava sonhando e você me pediu que trouxesse suco, depois chamou correndo para sentir nosso bebê mexendo em sua barriga. Aí, quando acorda, qual é a primeira coisa que quer beber? Suco!" – Ele se jogou pra trás e deu uma gargalhada que se espalhou pelo ambiente silencioso. Quando voltou a encarar Beckett, ela estava com uma expressão de surpresa, seus músculos do pescoço retesados, tentando conter uma risada nervosa.
"Nosso bebê?" – ela perguntou, mostrando dúvida se havia escutado direito.
"Eu falei 'nosso bebê?'" – como ela ficava impaciente quando ele respondia a uma pergunta com outra.
"Sim. Falou. Você disse que sonhou comigo e que nós tínhamos um filho. Que era nosso. Nosso bebê." – ela queria demonstrar estar chateada, mas o brilho em seus olhos denunciava o prazer que sentia ao imaginar a situação.
"Não. Você falou 'nosso bebê'. Pegou minha mão, colocou em sua barriga e disse "Nosso bebê está se mexendo."
"Isso foi no seu sonho, Castle. Eu estava aqui dormindo confortavelmente em minha cama." – Disse ela, fingindo não estar se divertindo com a estranha discussão.
"Exato. E eu estava sonhando inocentemente que entrava em minha casa e você me aparece com dois filhos que eu nem sei como fiz."
Ela revirou os olhos, desistindo do rumo daquela conversa. Colocou-se em pé ao lado da cama e, com o sorriso mais largo do dia estendeu a mão para Castle com o intuito de ajudá-lo a levantar. Ele prontamente segurou a mão dela, a espiou com o canto dos olhos e num movimento repentino, puxou-a rapidamente de volta para cama, arrancando um gritinho fino de susto. Ela ia cair em cima dele, mas Castle desviou seu corpo e eles acabaram trocando de lugar. Enquanto Beckett acabou deitada, com os cabelos espalhados e braços para o alto, Castle colocou-se de joelhos, as mãos prendendo sua detetive, uma de cada lado de seu corpo. "Aproveite um pouco mais sua cama. Deixe que eu lhe prepare esse suco que invadiu os meus sonhos." Disse ele num tom exageradamente brincalhão.
Ela riu, não acreditando na ousadia dele. Foi quando, num impulso para se levantar, Castle flexionou os braços e, nesse movimento, terminou projetando o tronco para mais próximo de Beckett diminuindo a distância entre seus rostos. Num reflexo, ela espalmou as mãos no peito dele, como se quisesse impedi-lo de chegar mais perto. Mas o efeito foi contrário, pois sentir seu toque apenas serviu para aumentar a necessidade que eles tinham de ficar o mais perto possível. Olhos mergulhados um no outro, sentiram o tempo parar por alguns segundos, batimentos disparados, ambos suspensos no ar. Beckett mordeu os lábios desejando que fosse Castle quem os mordesse, passou a mão em seus cabelos, querendo que fosse a mão dele a lhe acariciar. Um milhão de pensamentos corriam em sua cabeça e, no mesmo instante em que ela puxou o ar que a ansiedade havia consumido e fechou os olhos para oferecer sua boca já semiaberta ao escritor, ele saltou num golpe ligeiro, sem ao menos se dar conta das intenções dela.
Se foi para a cozinha deixando-a de olhos cerrados, mãos tapando o rosto como quem não acreditava que estavam tão perto. Ficou imersa em seus pensamentos, enquanto ele falava várias coisas sem importância à distância. Sentiu raiva e impaciência com aquele jogo infinito. Depois, lembrou que ele não sabia que ela estava ciente do amor que ele havia declarado. Tentou se colocar no lugar dele. O que ela faria se fosse ele? Se tivesse dito que o ama e ele afirmasse não lembrar de nada? Ela esperaria um sinal, é claro. Um sinal. Era isso que ele estava esperando? Ela tê-lo chamado no meio da noite não era o suficiente? Deixar que a derrubasse na cama não bastava? Ou ele achava que qualquer um poderia fazer aquilo? Não, ele sabia que, se fosse outro em seu lugar, já teria virado saco de pancada. Que outro sinal ele estava esperando?
Durante mais de cinco minutos, ela ficou sozinha no quarto pensando. Avistou novamente o copo de bebida vazio no chão e concluiu que não queria esquecer apenas o dia do disparo, queria esquecer o homem que lhe dava motivos de sobra para tirá-la de sua busca cega por justiça. Sorriu levemente ao lembrar-se das centenas de conselhos que Lanie havia lhe dado. Se fosse pela amiga, eles já estariam juntos há muito tempo. Depois, tentou fazer o caminho contrário em seus pensamentos. E se fosse realmente possível esquecer Castle? Se ele fosse apenas um amigo pra sempre? Se voltasse a desfilar com modelos esculturais até que uma delas conseguisse levá-lo para o altar? Ela mal conseguiu concluir o último pensamento. Não podia nem imaginar algo desse tipo. Pensar em seu dia a dia longe dele deixava seu peito apertado, como se algo estivesse fora de seu lugar.
"Ei, você dormiu? Estou chamando há horas e nada." Castle surgiu da cozinha trazendo um aroma mentolado de creme dental e arrancou Beckett de seus pensamentos.
