- Capítulo 3 –

Detenção

"Estou começando a odiar esse seu namorado," comentou Lexi ao acaso, enquanto penteava os cabelos no banheiro do dormitório feminino da Sonserina. Ela não era a pessoa mais vaidosa do mundo, mas sempre estava apresentável, mesmo para tarefas insuportavelmente chatas, como era o caso em questão. Pelo reflexo no espelho, encarou a companheira de quarto.

"Declan?" perguntou Dominique, sentada aos pés de sua cama.

"Quem mais?"

Dominique não se deu o trabalho de conter o riso. Depois da confusão que Lexi e James tinham arrumado nos corredores do castelo, Declan os colocou em detenções conjuntas por duas sextas à noite. No primeiro dia, os dois tiveram de ajudar o Prof. Longbottom nas estufas, o que incluíra uma nojenta extração de pus de bubotúberas e várias horas perdidas, considerando que Lexi teve a péssima ideia de provocar James novamente sobre Quadribol e os dois acabaram explodindo alguns vasos de Neville, que os obrigou a ficar até cerca de meia-noite limpando e replantando tudo. Não fosse o suficiente, aquele episódio lhes custou um sábado a mais de detenção.

Na segunda sexta-feira, eles acompanharam o Prof. Slughorn na busca de ingredientes na Floresta Proibida. Como ele tinha um bom coração e adorava bajular James, fez com que a exploração fosse breve, embora Lexi suspeitasse fortemente que era ele quem ficara incomodado em entrar na floresta à noite.

No sábado seguinte, Declan tirara a manhã para fiscalizá-los na árdua tarefa de limpar o banheiro dos monitores inteiro – incluindo as paredes – até brilhar, e sem utilizar magia, claro. Lexi enlouquecera por ter que faltar ao primeiro treino de Quadribol do semestre e todo o seu mau humor – aliado à presença de James – fez com que ela soltasse um 'pelo menos eu estou no time' e as coisas não acabassem exatamente como o esperado. Sem varinhas, eles deram um jeito de travar uma luta de esfregões e só pararam quando Declan os sentenciou a mais um dia de detenção.

"Não é culpa dele se vocês se comportam como crianças," disse Dominique enquanto observava Lexi se preparar para seu – a princípio – último dia de trabalho escravo. "Qual o problema em simplesmente fingir que o James não existe?"

"Ele não colabora," murmurou ela, fazendo Dominique soltar um riso curto, obviamente desaprovando a resposta.

"E, graças a vocês dois, a Corvinal lidera a Copa das Casas mais uma vez."

"Foi tudo um plano do seu namorado, aposto," Lexi saiu do banheiro e sentou-se em sua cama, que ficava ao lado da de Dominique.

Dominique revirou os olhos, afinal, era muito mais fácil para Lexi reclamar de James e Declan do que admitir seus próprios erros.

"Pare de dizer que ele é meu namorado, ou as pessoas já vão começar a espalhar boatos, já que é tudo o que sabem fazer."

Alexia ergueu uma sobrancelha. "Por que a preocupação com os boatos? Por acaso você – "

"Não, Lexi," antecipou-se ela, rindo da suposição, "mas acho que ele está gostando da Macmillan. Não seria nada bom se ela te ouvisse falar que ele é meu namorado, certo?" ela riu, mesmo achando que o interesse do corvinal não era nada sério. Lexi deu de ombros.

"Pro Declan gostar dela, ela deve ser esperta, não vai ligar para um comentário desses."

"Tem razão, ainda mais um comentário vindo de você," brincou ela, Lexi mostrou a língua.

Dominique se levantou da cama para logo mais parar em frente ao armário, abrindo-o a procura de um casaco apropriado. Se seus dois melhores amigos estariam atarefados nas próximas horas, seria bom que ela arrumasse algo para fazer, fosse ir até a biblioteca para adiantar os deveres de Defesa Contra as Artes das Trevas ou simplesmente caminhar pelos terrenos gelados de Hogwarts.

"Isso te incomoda, Nicki?" indagou Lexi, fazendo com que Dominique a encarasse em confusão. "Sabe, o Declan estar a fim de alguém?"

Ela soltou um riso curto, cenho franzido. "Por que me incomodaria? Eu acho bom que ele tenha conhecido alguém... E a Macmillan é bem decente pra ele."

"Bom, ele é seu amigo e, querendo ou não, você perderia boa parte da companhia dele."

Dominique ficou alguns segundos remexendo nas profundezas de seu armário de maneira robótica, apenas uma pequena porção de sua mente de fato prestava atenção nas roupas ali presentes. Não era como se ela estivesse completamente abalada com o envolvimento de Declan com quem quer que fosse, mas Alexia tinha um bom ponto.

"Talvez eu fique com um pouco de ciúmes," murmurou ela, encarando a amiga somente depois de longos segundos. Ela encontrou um sorriso digno de uma sonserina, na outra cama.

"Um pouco? Vai dizer que você não acha o Declan bonito?"

"Ele é um corvinal, é claro que é bonito," Dominique riu com a própria afirmação, afinal, havia a famosa lenda de que os alunos da Corvinal tinham de possuir uma certa beleza para serem selecionados... lembrando que toda regra tem suas exceções. "Mas você já está misturando as coisas, Lexi."

"Bom, eu ficaria com ciúmes."

Após dividir um olhar divertido com a colega de quarto, Dominique acabou por optar pelo suéter cinza normal, vestindo-o rapidamente.

"Aonde você vai?" perguntou Lexi, pondo-se em pé.

"Não sei, acho que vou procurar a Molly."

"Ela estava no pátio de Transfiguração com aquele amigo charmoso, mas isso já faz algum tempo já."

Dominique lançou-lhe um olhar questionador. "Que amigo?"

"A sombra do Potter," Lexi torceu o nariz como se aquele fosse um defeito grave.

"Lodbrok?"

"Uhum. Ele nunca foi um príncipe encantado, nem em beleza nem em atitude, mas não acha que ele progrediu bastante? Agora tem lá o seu charme..."

Dominique franziu a testa, mas abriu um divertido sorriso no rosto. De fato, Caius passara por uma mudança notável desde o final do terceiro ano, começando pelos cabelos castanhos minuciosamente mais compridos e pelo seu porte físico. Ele costumava ser da sua altura, talvez até menor. A diferença era que ela crescera muito pouco desde então, enquanto Caius crescera pelo menos um palmo. E não era só isso, ele também tinha encorpado um pouco e, embora não fosse um brutamontes, tinha um físico mais avantajado do que James, por exemplo. Ainda assim, estava longe de ser o maior motivo de suspiros juvenis.

"Acho que todo mundo melhorou desde o final do terceiro ano, Lexi."

"Alguns mais do que os outros," comentou ela, mas sua pausa foi breve o suficiente para não deixar Dominique se manifestar, "O que acha de eu investir nele?"

Dominique revirou os olhos. "Não sendo só para provocar o James..."

"Eu nem tinha pensado nele, Nicki."

E, mesmo achando que Lexi iria adorar ver como James ficaria irritado se ela saísse com o melhor amigo dele, Dominique preferiu não comentar mais sobre o assunto e as duas saíram do dormitório sem mais delongas.


Caius estava sentado na mureta de uma ponte de pedra, os pés balançando para o lado de fora, enquanto seus olhos apreciavam as montanhas ao longe. Ele gostava daquilo, a sensação de estar no limiar entre o chão firme e a queda brusca. Era um pensamento metaforicamente profundo, mas completamente inútil.

A verdade era que ele tinha alguns deveres para fazer – já que os professores, alegando ser ano de N.O.M.s, tinham resolvido atolá-los de atividades desde o começo do semestre – , porém não estava com a mínima vontade de botar o lado produtivo para funcionar. Ele sempre fora um aluno mediano, do tipo que não se destacava academicamente em nada – a não ser em raros momentos de sorte e lampejos de inspiração –, mas que também não precisava nem fazia questão de se matar trocando noites de sono por estudo para tirar as notas necessárias. O maldito intercâmbio ao qual fora designado não tinha sido mérito seu, e sim uma espécie de castigo de seus pais.

E, naquele momento, apesar de não querer estudar, ele também não se sentia no direito de sair por aí aprontando e se divertindo... e James tinha ido cumprir detenção, de qualquer forma, então ele também não teria companhia para tais atividades. Como resultado, acabou literalmente em cima do muro, sem fazer absolutamente nada.

"Lodbrok?"

Caius se virou para encontrar Dominique em pé a seu lado. Ele não a tinha visto chegar.

"Se está pensando em se jogar da ponte, escolha uma que não tenha uma paisagem bonita para você estragar," disse ela em tom sério, o divertimento sendo denunciado apenas pelo leve sorriso que ela não pôde conter.

Ele franziu a testa. Não era de se espantar que ela conseguisse afastar os mais desavisados pretendentes sem grandes esforços. Dominique não era muito arrogante, mas seu humor diferenciado – difícil de ser reconhecido por trás de uma expressão mais firme do que descontraída – fazia com que as pessoas nunca tivessem certeza de quão grande era a parcela de verdade presente.

"Alguma sugestão?", indagou Caius no tom mais casual que conseguiu.

"Qualquer uma que não seja em Hogwarts," respondeu ela, sem dar sinais de que gostaria de prolongar a conversa. "Você viu a Molly por aí?"

"Acho que ela voltou para a sala comunal. Algo importante?"

Dominique olhou rapidamente para o castelo, então deu de ombros e debruçou-se sobre a mureta, ao lado de Caius. "Na verdade, só estou esperando o tempo passar."

"Ah, a maldita detenção. Eles devem se divertir ficando acordados até tarde só para atormentar monitores e professores, não é possível."

"O Declan me disse que se essa não for a última vez ele vai pendurar os dois no topo da Torre de Astronomia pelos calcanhares em uma noite fria e só soltar quando a McGonagall aparecer," ela trocou um olhar divertido com Caius. Ele riu.

"Espero que ele tenha separado um cobertor e treinado algum feitiço poderoso para segurá-los a noite inteira."


O rosto de James se contorceu ao se deparar com a enorme pilha de panelas e tachos de latão empilhados ao seu lado. Ele já havia se acostumado com a ideia de trabalho braçal quando descobriu que iriam para a cozinha – no terceiro ano, ele e Caius tiveram de ajudar os elfos domésticos a prepararem a janta, porém o Prof. Longbottom os tirou dali antes que mais alunos viessem reclamar da falta ou da má qualidade dos alimentos da mesa da Sonserina –, só não contava com aquela imensidão de sujeira, que ia desde pratos até o chão e as bancadas. Em um ritmo normal, eles demorariam dias para limpar tudo aquilo.

"Qual o seu problema, Declan? Por que ao invés de nos mandar limpar coisas sem magia você não nos coloca pra fazer algo realmente útil, hein?" manifestou-se Lexi, fazendo com que James revirasse os olhos. Sendo aquela uma detenção, ninguém estava preocupado se aquilo era útil ou não. Tudo o que ele mais queria era acabar o mais rápido possível.

"Se por 'realmente útil' você se refere a ajudar professores, eu diria que nenhum deles suportaria vocês dois juntos por mais uma noite sequer," disse Declan, cruzando os braços como se questionar sua efetividade como monitor fosse uma ofensa. "Além do mais, eu precisava delegar uma tarefa que fosse de fácil supervisão. Agora andem logo, me dêem suas varinhas."

Relutante, James cumpriu a ordem, mas não antes que Lexi o fizesse.

"Silencio," murmurou Declan, aplicando rapidamente o feitiço nos dois.

Os olhos de James se arregalaram e, num impulso, ele aproximou-se do corvinal. Declan foi rápido no recuo, lançando-lhe um olhar de censura.

"Lamento, mas decidi tomar medidas drásticas para evitar outra briga."

Os outros dois se entreolharam e só então James percebeu que Lexi também adotara uma posição ofensiva, provavelmente também por reflexo.

Cerrando os punhos e bufando, James deu as costas para o monitor, então arregaçou as mangas e rumou para a pia mais próxima pisando forte no chão. Por que ele tinha que ser tão irritantemente correto? Por que não podia simplesmente fingir que tinha aplicado detenção? Eles dormiriam mais cedo e toda aquela palhaçada acabaria.

O tempo foi passando e tudo o que se ouvia era o barulho da água fria escorrendo pela torneira e o tilintar de peças metálicas se chocando. Lexi assumira a pia mais distante de James, o que não passava de alguns metros, já que pias em uma escola mágica possuíam funções bem mais limitadas do que em uma casa trouxa, fazendo com que uma cozinha enorme como aquela possuísse uma quantidade relativamente pequena de torneiras.

No final das contas, tudo ocorreu perfeitamente bem, ou pelo menos devia ter sido assim aos olhos de Declan, que ficou a maior parte do tempo sentado em um banco lendo algum livro que James jamais abriria. Para o grifinório, no entanto, ser obrigado a ficar quieto tinha sido uma punição maior do que a detenção em si, servindo apenas para deixá-lo em um péssimo humor. A falta de expressão fazia com que ele se sentisse como um animal enjaulado, um dragão na pele de um elfo doméstico.

Não que ele quisesse causar mais uma briga, muito pelo contrário, seu pai já lhe enviara uma carta repreendendo-o por causar problemas com Albus e sua mãe ameaçara enviar um berrador caso ele recebesse mais uma detenção. Ele pouco se importava com as broncas de seus pais, mas um berrador era tudo o que ele menos desejava para acabar de vez com a sua reputação em Hogwarts, que já não era mais lá grande coisa.

E, quando o sono e o cansaço começaram a tomar conta de si e toda a revolta quase lhe fez arrancar a cabeça de Declan, o corvinal limpou o restante da sujeira com o auxílio da magia e devolveu as vozes e as varinhas aos dois escravos.

"Você me paga, Campbell," resmungou James, forçando passagem entre ele e Alexia.

Lexi protestou alguma coisa que ele não se deu o trabalho de entender e ele tomou seu rumo sem esperar por companhia.


Já era madrugada quando Dominique acordou com o barulho da maçaneta do dormitório. Ela esfregou os olhos com as costas da mão, levantou um pouco o tronco e abriu parte do reposteiro a tempo de ver Lexi atravessar sua cama em direção ao banheiro.

"O Declan se superou no horário dessa vez," sussurrou Dominique, recebendo uma resposta nem tão sussurrada assim.

"Só te digo duas coisas, Nicki: primeiro, eu mato aquele corvinal; segundo, o safado do Campbell pegou a Macmillan hoje."

Como que para dar mais impacto à fala e evitar perguntas, Lexi imediatamente entrou no banheiro. Dominique franziu a testa e deixou seu peso devolvê-la ao travesseiro. Uma certa inquietação dificultou seu sono, e ela sabia que Lexi não diria mais uma palavra sobre o assunto – ela adorava soltar a bomba e apenas observar a ansiedade das pessoas em silêncio. Claro que aquilo aconteceria, ela já suspeitava que Declan estivesse gostando da lufana – ele vivia parando para conversar com ela nos corredores, mesmo sendo tímido quando o assunto era novas amizades –, mas o que mais incomodava Dominique era que ele tinha escondido seus sentimentos dela.


N/A: Essa fic foi pensada para ser simples e descontraída, sem planos maquiavélicos, grandes aventuras ou mistérios. Espero que, tendo isso em mente, vocês estejam gostando deste início. Até a próxima atualização ;D