Capítulo III – Mensagens Perigosas
Um mês se passou dês do dia em que Tia defendeu Anat e agora elas pareciam elos inseparáveis. A serva jamais deixava a companhia de minha noiva e muitas vezes eu pude ouvi-las conversando animadamente e rindo.
Ao menos Anat serviu para alguma coisa. Na presença da garota estabanada e de barriga redonda, Tia parecia se afastar de seus deveres e ser apenas uma jovem que busca diversão. Aquilo me dava à esperança de que nossos desentendimentos seriam passageiros, apenas uma questão de adaptação e com um futuro proveitoso para ambos.
Em tempos de paz me sobra pouco para fazer enquanto vizir. Cabia a mim ler relatórios e mais relatórios produzidos pelos escribas reais e cuidar de questões administrativas. Isso me tornava mais ocioso e consecutivamente os problemas domésticos começavam a chamar muito mais minha atenção.
Eu tinha consciência de que o faraó devia ter enviado aos hititas alguma mensagem falando sobre a situação da princesa. Eu estava ansioso para ver com meus próprios olhos a reação de Mursili II quando soubesse que sua irmã se casaria comigo. Era inútil esperar que ele respondesse de forma violenta. O imperador não colocaria a perder todos os seus esforços para conseguir a paz com o Egito por causa de um revés no destino da irmã mais nova, mas eu não esperava que ele ficasse satisfeito com a idéia.
Pensar em Mursili II trazia lembranças desagradáveis a mim. Me fazia imaginar como Yuri estava se saindo como tawannana e no fato de que ela já devia ter dado a luz ao primeiro filho deles. Eu desejei aquela mulher mais do que a coroa do Egito, eu não vi nenhum problema em roubá-la e fazer dela minha e tudo o que eu consegui foi voltar para minha terra sem vitória e sem ela.
Em algumas noites, quando minha mente estava povoada por muitos pensamentos distintos, eu ainda sonhava com Yuri. Eu ainda sentia a pele macia dela contra a minha e o seu corpo pequeno, levemente infantil, respondendo ao meu. Nada are tão frustrante, nem tão doloroso, quanto lembrar que a única mulher que me dei ao trabalho de desejar nunca me pertenceu.
Então o destino me sorria um sorriso irônico enquanto me atava à irmã do mesmo homem que conquistou o coração de Yuri. Parecia um prêmio de consolação com um leve sabor de vingança. Enquanto Kail estivesse na cama com sua nova imperatriz, eventualmente seus pensamentos voariam para o fato de que eu poderia estar fazendo a mesma coisa com sua irmãzinha. Isso me dava satisfação e me causava incomodo ao mesmo tempo.
A pesar de meu entendimento com Tia não ser dos melhores, eu não sentia nenhum desejo de fazer mal a ela. De algum modo, sua forma pouco convencional de pensar tornava-a interessante, e nossas discussões me pareciam muito mais instrutivas do que agressivas. Eu tinha respeito por ela, sem qualquer motivo aparente.
Mursili II ia se manifestar eventualmente e quando o fizesse como Tia agiria? Era o tipo de coisa que eu pensava a respeito dela. Quando ela demonstraria emoções minimamente verdadeiras? Quando ela deixaria de ser o exemplar perfeito de princesa e se tornar apenas uma mulher.
Mas é claro que enquanto assuntos mais sérios povoavam minha cabeça, Neferet se ocupava de me repassar o relatório de atividades de Tia. É claro que minha irmã jamais se contentaria só com isso, então ela acrescentava um ou outro comentário sobre como eu devia tratar minha noiva.
- Você é impressionante sabia?- Neferet me disse um dia, enquanto eu estava perdido na análise dos relatórios de mercadorias que estavam sendo escoadas para outros países através do Delta.
- E eu posso saber como você chegou a esta brilhante conclusão? – eu a olhei por cima dos relatórios. O rosto de Neferet estava indignado.
- Você tem uma noiva, vai se casar em breve e nem mesmo se deu ao trabalho de dar a ela uma jóia decente?! Que tipo de homem é você?! – Neferet disse histérica.
- Todo esse escândalo por que eu não dei a minha noiva uma jóia?! Tenha a santa paciência! – eu disse incrédulo. – Eu não tenho a obrigação de dar a ela uma jóia.
- Como você espera ter o apoio dela se é incapaz de ser gentil com uma princesa?!
- O que uma coisa tem há ver com outra? Ela vai se casar comigo e isso é o bastante. – respondi voltando a me concentrar nos papeis.
- Já pensou que uma mulher apaixonada pode ser mais interessante? – Neferet me encarou como um gato.
- Casamentos nem sempre necessitam de amor.
- Mas você amou Yuri, talvez seja esse seu medo.
- Bobagem.
- Faça um agrado a ela. Pobrezinha, ela merece depois de ter domado Iset. – acho que minha irmã notou que eu não estava prestando a menor atenção no que ela dizia. Então Neferet me deu as costas – Oh! Fique com seus relatórios, mas não me culpe se seu casamento se tornar uma droga.
- E se você não parar de me atrapalhar eu vou cuidar para que o seu casamento seja uma droga. – eu ameacei e Neferet deixou a sala pisando duro e bufando de raiva.
Mesmo não gostando de admitir, a idéia de minha irmã tinha seu mérito. Talvez eu devesse dar a Tia um presente, um mimo. Quem sabe assim ela se tornasse mais tratável e menos fria.
A verdade é que nunca tive que me preocupar em agradar a uma mulher, sempre julguei que este fosse o dever delas, me agradar. Eu esperei que Tia me tratasse como um rei, quando era ela quem possuía o status de nobreza e devia ser conquistada. Um pensamento estranho e incomodo, mas que tinha seu fundamento.
O que fazer diante de uma mulher que teve um país inteiro para reverenciá-la? Eu devia me curvar e admitir-me como seu devoto e servo? Não, eu jamais faria isso. Jamais me curvaria diante de uma mulher. Quando muito eu a trataria como uma igual. Talvez, apenas talvez, eu tentasse agradá-la só para descobrir se Tia era capaz de sorrir para mim.
Mandei fazer para ela um colar fino, de ouro e lápis lazuli. Era uma jóia simples, bem menor do que as que minhas irmãs gostavam de usar e talvez muito discreto para os padrões egípcios, mas achei que combinaria com ela. Segurei o presente em minhas mãos por um longo instante, como se procurasse nele um motivo em especial que pudesse trazer ao rosto inexpressivo de Tia um sorriso sincero. Quase desejando que minhas esperanças não fossem tolas e vãs, deixei que meus dedos se fechassem ao redor da peça.
Seguro de mim, caminhei até os aposentos dela, sem ser anunciado e sem pedir permissão. Eu era o senhor daquele lugar, eu tinha o direito de vê-la e de entrar em qualquer cômodo que eu desejasse. Mesmo assim, minhas inseguranças começaram a ganhar voz no momento em que me deparei com a porta maciça.
Quando entrei nos domínios de Tia, eu a encontrei sentada, conversando com Anat e uma outra serva que eu não me lembrava. Ela não parecia a princesa hitita que eu vi pela primeira vez em um banquete oferecido pelo faraó. Ela não parecia a mulher fria e resignada que eu conhecia. Ela era apenas uma jovem, com anseios e esperanças muito bem escondidas, mas ainda assim bonita e capaz de sentimentos reais. Ela era uma estrela pálida que longe dos meus olhos parecia brilhar com toda intensidade.
- Seja bem vindo, senhor. – Anat disse ao notar minha presença, levantando-se com dificuldade por causa da barriga muito grande. A outra serva a imitou, mas Tia permaneceu sentada, sem olhar para mim e seu semblante voltou à habitual frieza.
- Deixe-me a só com minha noiva. – eu ordenei e silenciosamente as servas saíram. Tia ouviu a tudo sem demonstrar qualquer reação.
O silêncio pairou, constrangedor, entre nós. Tia parecia absolutamente confortável com a ausência de som enquanto eu apenas a observava.
- Se você se deu ao trabalho de dispensá-las imagino que tenha algo a dizer. – ela disse serena. Nem rispidez, nem carinho naquela voz, apenas a indiferença polida de uma nobre – Então, o que é? – eu me aproximei em silêncio.
- Imagino que seja de bom tom um noivo presentear sua noiva. Enquanto pensava nisso recordei que não lhe dei um presente de boas vindas apropriado. – aquilo não pareceu afetá-la de maneira alguma, mas pelo menos agora ela estava olhando para mim diretamente.
- No incidente com Iset você foi meu intermediário, achei que sua participação foi um presente de boas vindas de grande generosidade. – ela respondeu serena, como se sua voz tivesse ganhado algum sentimento que eu não sabia explicar.
- Eu estava apenas provocando você. Aquilo não foi um presente apropriado. – eu respondi dando de ombros. Então estendi a ela o colar. – Este é meu presente de boas vindas.
Ela olhou o colar longamente, como se o analisasse, ou estivesse ponderando se devia ou não aceitar.
- Obrigada. – ela disse mecanicamente ao pegar o colar das minhas mãos – Mas é um presente desnecessário. – então ela se afastou e sem mais nenhuma palavra, Tia guardou o colar no fundo de uma caixa de jóias.
- Não gostou do colar? – eu perguntei ríspido e furioso pelo descaso dela com meu presente. Ela estava zombando de mim? Ela estava rejeitando meu esforço de aproximação? Ela estava me rejeitando?!
- É lindo, mas eu não preciso de outra jóia, ou presentes caros. Como eu disse, ter me ajudado com Iset já foi um grande mimo. – meus dentes trincaram e sem pensar direito eu a agarrei pelo pulso.
- Então agora são dois presente. – eu a puxei para junto de mim – Agora é a minha vez de cobrar um agrado. – ainda furioso eu colei meus lábios aos dela e sem a menor cerimônia, minha língua pediu passagem. A pesar da resistência inicial, Tia acabou cedendo.
A pesar da aparência delicada e da frieza de caráter, o corpo dela emanava um calor reconfortante e era agradável tê-la entre meus braços. Era esclarecedor estar com ela tão próxima. Tia não era insensível, não era inalcançável enquanto mulher. Ela estava ali, tão vulnerável quanto qualquer outra, totalmente entregue.
E eu me deixei levar pela idéia tentadora de que eu a havia alcançado aquela mulher. Foi breve, foi turbulento e foi também uma ilusão deliciosa, até a mão dela acertar em cheio o meu rosto.
Tia me estapeou e eu fiquei surpreso. Eu desconhecia os limites da força daquela mulher e no fundo de seus olhos queimava o ódio puro e simples. Ela me odiava, isso agora estava bem evidente, a única questão remanescente era o por que.
- Não encoste em mim outra vez. – ela disse entre dentes.
- Sou seu noivo. Eventualmente isso vai se repetir. – eu retruquei no mesmo tom. – O status de marido me garante outros privilégios também, e o fato de você ter sangue nobre não fará a menor diferença.
- Saia do meu quarto! – ela ordenou histérica.
- Eu vou, mas eu só recebi o agradecimento por um dos presentes. Vou voltar para buscar o outro. – eu deixei o quarto e minha noiva furiosa para trás, tentando negar meu desejo de que o momento tivesse durado mais.
Na semana seguinte notícias do império hitita chegaram à Tebas e o faraó despachou um mensageiro para me informar que Mursili II não estava exatamente satisfeito com o destino da irmã. Aquilo não era uma surpresa, tão pouco uma preocupação, já que ninguém queria entrar em guerra com um acordo de paz assinado a tão pouco tempo. O surpreendente foi o fato de que o irmão de Tia, ou princesa Puduhepa, como os hititas a conheciam, exigiu que um emissário de sua confiança fosse verificar com seus próprios olhos a vida que ela estava levando em Memphis.
Aquilo cheirava a armação. Da ultima vez que Mursili II enviou um emissário até Memphis foi para ajudar Yuri a fugir da minha propriedade. No fim das contas eu fiquei sem noiva e com uma imagem desmoralizada perante o faraó.
É claro que a situação era diferente, havia um tratado que garantia um reforço a paz estipulando com todas as letras que a princesa agora pertencia ao Egito. Ainda que o faraó não tivesse agido como esperado, tentar retirá-la de lá geraria um incidente diplomático desnecessário, ainda mais quando os conflitos entre civis hititas e egípcios em Biblos estavam se tornando tão freqüentes. Ainda assim eu me sentia apreensivo. Kail Mursili II seria capaz de tomar de mim outra noiva?
Em todo caso, achei melhor não pensar muito a respeito disso quando havia outros assuntos a respeito de Tia que me intrigavam mais.
Em uma manhã específica eu decidi dar uma volta pela mansão para esticar as pernas antes de me encontrar com o escriba real para estudar os relatórios mais urgentes antes que o período da cheia do Nilo começasse. Eu estava distraído quando um de meus sentinelas me avisou que o emissário hitita havia chegado a mansão, requerendo uma audiência com a princesa Tia-Sitre.
Imagino que o mais correto é que o tal emissário pedisse a minha permissão. Não era adequado que uma mulher, ainda mais uma que estava comprometida, fosse vista concedendo audiências privadas a estranhos.
Era tolice, mas eu me senti subitamente inseguro com aquela estranha "audiência", sem pensar duas vezes eu decidi procurar Tia e encontrei Anat no caminho, sustentando sua barriga redonda e usando no pescoço o colar que eu havia dado à Tia.
- Onde conseguiu isso, Anat? – eu perguntei rispidamente apontado para o colar. A garota encolheu os ombros.
- A senhora Tia me deu. Ela disse que era um presente pro meu bebê. – Anat respondeu timidamente. Tia era uma serpente traiçoeira e vingativa.
- E onde está sua senhora neste momento? Por que não está junto dela? – eu disse, tentando conter a raiva pelo descaso de Tia pelo presente que eu havia dado a ela.
- A senhora está nos jardins. Ela está recebendo o emissário e pediu para que eu os deixasse. Se o senhor me der licença, eu tenho outros serviços a fazer. – Anat fez uma breve reverência e eu a dispensei.
Furioso eu segui até os jardins. Tia fazia o possível para me provocar. O que aquela mulher maldita queria a final? Enlouquecer-me?!
- Soube que sua adorada noiva está recebendo um emissário em uma audiência particular. – a voz de Iset falou venenosa enquanto minha irmã saia de uma das salas no caminho para o jardim – Os hititas são tão modernos a ponto de considerar isso apropriado.
- O que está insinuando, Iset? – eu questionei mal humorado enquanto ela olhava para mim com seu falso olhar inocente.
- Nada. Eu estava apenas divagando. – ela disse se fazendo de sonsa – Sua noiva não parece tão apaixonada por você como devia e essa audiência pode dar uma impressão errada sobre ela. Sem mencionar o fato de que ela não é mais uma hitita e nos ouvidos errados este relato pode soar como alta traição contra o Egito. – meu sangue gelou nas veias. Aquilo era uma ameaça disfarçada. Iset estava indo longe de mais em sua raiva.
- Não gaste tanto tempo pensando bobagens. Seria mais adequado se você começasse a pensar na possibilidade de arranjar um marido para você. Acho até que já tenho um bom candidato para você. – eu revidei a ameaça. Já fazia um tempo que eu estava analisando uma proposta de casamento para Iset, talvez fosse o momento ideal para aceitar.
- Você está blefando. – ela disse.
- Não estou. Meu companheiro de exército, Acha, ele acabou de receber um cargo diplomático e vai ser mandado para a Babilônia. Ele fez uma proposta pela sua mão e tendo em vista a elevada posição que ele ocupa, além do fato de que você estará longe o bastante para não me importunar, acho que vou aceitar a oferta. Espero que isso ensine seu lugar, irmã. – eu mal olhei para a expressão chocada que Iset tinha. Tudo o que eu queria era encontrar Tia o mais rápido possível.
Corri para os jardins e avistei duas figuras elegantes ao longe. Com cuidado e as escondidas eu me aproximei para ouvir o que diziam. Eles não notaram a minha presença e eu pude reconhecer o emissário. O homem de traços finos, com o longo cabelo preso numa trança, era Ilbani, o conselheiro e amigo de Mursili II.
- Confesso que esperei encontrá-la usando uma peruca de tranças e tantas jóias que a senhora mal conseguiria andar por causa do peso. De certa forma é um alívio ver que a senhora não mudou. – Ilbani falou com grande respeito e Tia sorriu simpática.
- Nos conhecemos dês de criança, alguma vez eu fui diferente? – ela disse num tom risonho e eu senti o ódio queimar dentro de mim.
- Não. – ele respondeu – Sempre foi a filha rebelde e amorosa do antigo imperador. – a voz habitualmente fria e objetiva de Ilbani mal podia ser reconhecida. Era como se ele estivesse diante de uma divindade. – O imperador, seu irmão, está preocupado com a inesperada mudança em sua sorte. Ele ordenou que eu verificasse se a senhora está bem.
- Eu estou bem, apesar de tudo. – ela disse em seu habitual tom resignado.
- Conhecendo-a como eu a conheço posso dizer que jamais admitiria, mesmo que estivesse em um terrível sofrimento, que há algo errado. – Ilbani disse segurando a mão dela entre a dele – O imperador disse que tenho autorização para exigir seu retorno ao império, uma vez que o faraó não cumpriu sua parte no acordo, e levá-la de volta a Hatusa.
- Nós dois sabemos que isso seria um transtorno. A paz com o Egito é instável. Se eu deixar este país isso gerará problemas ao meu irmão num futuro próximo. – ela disse sem fazer menção de soltar a mão de Ilbani. O meu desejo era matar aquele homem insolente – Você sabe que eu não faria isso. – Ilbani se ajoelhou diante dela e eu precisei de um segundo para controlar minha ira.
- Então fuja comigo. Podemos desaparecer, ir para outro país e espalhar o boato de que nos perdemos no deserto. – Ilbani disse diante dela – Puduhepa, você não precisa sofrer outra vez. Não precisa se tornar mártir desta causa! Nem mesmo o imperador está lhe pedindo isso.
- Você é muito atencioso comigo, Ilbani, mas você não aceitaria uma proposta parecida se a situação fosse contrária. Nenhum de nós é capaz de negligenciar um dever. – ela disse benevolente – Dês de que me tornei viúva e mesmo antes disso você sempre foi muito bom para mim, sempre leal. Obrigada.
- Você sabe meus motivos. – Ilbani disse com fervor – Eu poderia, eu ia pedir sua mão ao imperador após a guerra.
- Ilbani, eu não poderia. – ela respondeu tristonha – Levante-se. Se alguém o vir assim com certeza vai pensar muito mal de toda situação. – considerei essa minha deixa e deixei meu esconderijo.
- Ela tem razão. Eu já estou pensando muito mal de toda esta cena. – eu disse ríspido, causando à Tia um sobressalto e recebendo de Ilbani um olhar frio. – O que pensa que está fazendo com a minha noiva?
- Transmitindo à princesa Puduhepa, conhecida nas terras do Egíto como Tia, os votos de felicidade do imperador Mursili II e da imperatriz Yuri Ishtar. – Ilbani respondeu tão convicto de sua mentira que eu quase acreditei nele.
- Poupe-me desta mentira e suma daqui. Minha noiva não vai deixar esta casa sob hipótese alguma. – eu respondi firme enquanto Tia fitava a situação com temor – Se eu o vir novamente por aqui vou acusá-lo de espionagem a serviço dos hititas.
- Estaria incriminando a princesa se fizesse isso. – Ilbani retrucou.
- Ela é minha noiva, posso manter as investigações longe dela, mas você será um prato cheio para os nobres mais resistentes ao acordo com os hititas. – mantive minha posição.
- Está bem, eu vou. Desejo felicidades no casamento. – ele deixou os jardins sem dizer mais nada, enquanto Tia permanecia calada.
Eu queria estapeá-la naquele momento por suas atitudes desleais e seus insultos a mim, mas eu não faria isso. Ficamos em silêncio por um longo tempo, isso me ajudou a recuperar o controle das minhas ações.
- Então você era amante do conselheiro do imperador. Que surpresa, um escândalo vindo de você. – eu disse sarcástico.
- Não seja tolo. Ilbani e eu fomos criados como irmãos praticamente. Acho natural que ele esteja preocupado comigo. – ela disse sem o menor constrangimento.
- O que eu não acho natural é que ele te proponha uma fuga! Que admita de joelhos que estava prestes a pedi-la em casamento! – eu rugi contra ela- Acha que eu sou o que?! Idiota?!
- E mesmo diante da proposta eu continuo aqui para cumprir minha obrigação, não é? Então pare de agir como se eu estivesse a ponto de cometer uma traição. – ela respondeu me dando as costas. Eu a segurei pelo pulso.
- Ele olhava para você como se estivesse diante de uma deusa.
- Ele sempre foi um servo leal, nada mais.
- E eu a vi olhando para ele com condescendência. Você gosta dele! – eu praticamente cuspi aquelas palavras.
- Ele é a única notícia de casa que eu recebi nos últimos dois meses e um rosto familiar. Ilbani me trata com consideração e simpatia, o mínimo que eu poderia fazer é retribuir a gentileza dele. – trinquei meus dentes diante daquela resposta.
- Se eu antes estava tentando adiar o casamento para dar a você a chance de se acostumar com a idéia, a única coisa que eu desejo neste momento é que a cerimônia aconteça o quanto antes. – eu disse determinado – Esteja preparada. Assim que terminar o festival de celebração ao período das cheias do Nilo, vamos nos casar. Eu fui claro?!
Eu não esperei para ouvir a resposta dela. Eu dei as costas à Tia e voltei para dentro da mansão, determinado a torná-la minha esposa o mais rápido possível e me ocupar da tarefa de ser o único homem a quem ela concederia audiências particulares, o único a obter sua atenção, carinho e simpatia.
Nota da autora: Mais um capítulo pronto. Acho que os ânimos começaram a se exaltar e agora Ramsés não só se sente atraído por Tia, como também está se roendo de ciúmes. Ilbani foi uma punhalada no orgulho do nosso egípcio e no próximo capítulo tem casamento, lua de mel e muitas revelações. Mais uma vez agradeço à Mila Kotsu pelo comentário.
Bjux
Comentém!
