Capítulo 2 – A tragédia

POV Edward

Os anos se passaram como uma brisa mansa, sorrateiros e agraciados, Bella e eu não tínhamos como agradecer a Deus as maravilhas que nos cercavam. Nossa filha já estava com quatro anos, falante e sorridente, motivo de maior orgulho para minha mulher e eu.

Renesmee era doce e graciosa, estava sempre a sorrir, contagiando a todos a sua volta. Nossos familiares se deslumbravam como se fosse a primeira vez todas as vezes que estavam em sua presença. Nessie nunca quis muito, nunca fez questão de atenção ou mimos, mas sabia se mostrar eternamente grata no que lhe era proporcionado.

Todas as noites, Bella ou eu líamos para nossa menina, na realidade era sempre eu, contudo, nos dias em que meus plantões me impossibilitavam de estar em casa na hora de seu sono, Bella cumpria meu papel.

Dizer que eu desejava mais seria blasfêmia, eu tinha tudo que um dia pude sonhar, eu era feliz, muito feliz e tolo, acreditei que essa felicidade pudesse se fazer eterna. Doce ilusão.

Foi em uma noite calma, como qualquer outra, que nós três estávamos reunidos a mesa, jantando, Bella e eu brincando com Nessie ao mesmo tempo em que a ajudávamos a degustar de sua sopa, quando a campainha tocou.

Bella e eu nos olhamos confusos, não estávamos esperando ninguém, fiz menção de me levantar quando Bella interveio. – Deixa que eu vou. – ela se levantou e seguiu para a porta, não vi problema naquilo, afinal, eu estava mesmo "ocupado" ajudando Nessie.

Voltei minha atenção a minha pequena, peguei um pouco de sopa com a colher e assoprei levemente, garantindo que minha menina não iria se queimar. - Olha o aviãozinho... – declarei enquanto balançava levemente a colher pelo ar, Renesmee abriu um sorriso radiante e abriu a boca de bom grado.

Bella demorou um pouco a vir, mas logo escutei seus passos se aproximando. – Quem era, querida? – perguntei despreocupado, antes de me virar para olhar.

Para meu completo desespero Bella era segurada rudemente pelo braço por um homem encapuzado, o qual segurava uma arma que estava apontada para a barriga de Bella. Minha mulher tinha uma expressão apavorada no rosto, as lágrimas já se faziam presentes. – Não deixe que machuquem Renesmee! – pediu ela desesperada ela antes do cara a empurrá-la.

Atrás dos dois haviam mais algumas pessoas encapuzadas, e antes que eu pudesse reagir, ou ao menos assimilar aquela imagem irreal, dois deles já estavam próximos de Renesmee e eu; como um choque de adrenalina, peguei minha filha no colo embalando-a protetoramente com meu corpo. – É melhor largá-la! – grunhiu uma mulher, senti a arma próxima a minha cabeça, mas não me movi, antes a minha morte que um arranhão em minha filha.

-Peguem o que quiserem, mas, por favor, não façam nada conosco. – pedi agoniado, Renesmee já começava a perceber algo errado, estava assustada, agarrou-se com força as minhas vestes.

O homem próximo a nós se irritou chutando a mesa a nossa frente, assustando mais ainda Renesmee. – ACHA QUE ESTAMOS DE BRINCADEIRA? – Gritou ele me puxando pelos cabelos para trás, forçando-me a olhá-lo, ele mirou sua arma em meu rosto. Renesmee começou a chorar, com medo. – Preste bem atenção! NÓS damos as ordens aqui! É melhor fazer tudo que mandamos, - ele direcionou o gatilho para Renesmee. – Ou a coisa vai ficar feia.

Minha alma se dilacerou, eu estava em pânico, não sabia o que fazer, queria saber onde Bella estava, se estava bem, queria ficar com Renesmee, protegê-la, mas não podia correr o risco de... – Sentindo-me morrer por dentro meus braços foram afrouxando, soltando Renesmee levemente.

A mulher arrancou-a com agressividade de meus braços. – PAPAI! – Gritou ela desesperada tentando voltar para perto de mim.

-Vai ficar tudo bem, querida, eu prometo! – falei duas oitavas mais alto, tentando me levantar, tentando ver se ela estaria bem, mas fui arremessado longe por um soco do homem.

-É pra ficar quietinho ai. – declarou ele ainda com a arma apontada para mim, eu estava desolado, precisava de minha filha, precisava de minha mulher.

-Por favor, não as machuque... – pedi sentindo as lágrimas tomarem meu rosto, desesperado, me ajoelhei perante o homem. – Faça o que quiser comigo, mas as deixem em paz, por favor.

Raivoso, o homem bateu-me com a arma, fazendo-me ir ao chão, senti minha cabeça latejar o sangue escorrer por meu rosto. – Eu mandei calar a boca! – grunhiu ele, eu sabia que eu nada poderia fazer, só me restava obedecê-lo e orar para que Deus protegesse Bella e Renesmee.

-Amarre-o! – ordenou a voz da mulher. Nem um minuto depois eu já conseguia sentir cordas envolvendo meus punhos e calcanhares. Tudo aquilo era inacreditável, eu não conseguia acreditar que estava acontecendo, por que? O que fizemos para merecer tudo isso?

Fui vendado e arrastado para algum cômodo da casa, nem mesmo sei dizer se foram os minutos ou as horas que testemunharam toda a minha agonia, mas cada barulho, cada passo, cada voz, tudo me apavorava, tudo me consumia, e eu me via em desespero e em alivio por não ouvir a voz de Bella ou Renesmee. Elas estariam bem?

Vidros foram quebrados. Moveis revirados. Tudo foi destruído eu podia perceber e eu me consumia por estar incapacitado de ajudar minha mulher e minha filha, minha alma se dilacerava uma vez que eu imaginava o que elas poderiam estar passando, a falta de noticias.

Eu estava preso, sem poder fazer qualquer coisa a não ser rezar, e foi o que eu fiz.

Deus, se Tu existe, eu te suplico, proteja Bella e Renesmee, não permita que eles façam qualquer coisa com elas, por favor... Não permita que a dor chegue a elas. Faça o que quiser comigo, permita que tudo que eles queiram seja direcionado a mim, mas, por favor, não os deixe machucá-las.

Sei que não sou merecedor de qualquer atenção sua, sei que já errei por muitas vezes e não sou digno de pedir qualquer coisa, mas Bella é a mulher mais pura que eu conheço nesse mundo, nunca fizera mal a ninguém, não merece sofrimento algum, e Renesmee... Oh meu Deus! É apenas uma criança, um pequeno anjo sem asas... Como pode um anjo ser merecedor de qualquer sofrimento?

Por tudo que é mais sagrado, não permita que algo aconteça a elas...

Mais barulhos, mais vozes até que em fim, o silêncio. Por um segundo eu senti-me aliviado, mas bastou o cheiro de fumaça e o calor chegarem até mim para me apavorar. A casa estava em chamas.

Bella. Renesmee. Se eu estava amarrado, talvez elas também estivessem, ou talvez estivessem desacordadas, as chamas lhes atingiriam. Oh meu Deus, proteja-as! Reuni todas as minhas forças para tentar me livrar da corda, senti meus punhos ensangüentarem, mas não desisti, eu precisava socorrê-las, precisava ajudá-las... Precisava...

-Tem alguém aqui! – Uma voz grossa soou em meus ouvidos, senti o pavor se acentuar, o que viria agora? Mas para minha surpresa, o homem se aproximou e soltou as amarras que me prendiam, assim como a venda que me cegava. Minha visão se fez turva diante da luminosidade, a minha frente pude ver dois vultos próximos, instintivamente me encolhi para trás. – Senhor Cullen? – Indagou um deles, foi só então que percebi o uniforme de bombeiro que trajavam, o alivio foi instantâneo.

O alivio não durou mais que alguns segundos e a visão de minhas preciosidades sendo levadas para longe de mim me invadiu, olhei em volta e pude ver o fogo começando a domar a sala. - Renesmee! Bella! – gritei agoniado tentando me levantar, mas uma vertigem me atingiu, fazendo-me cair, um dos homens me segurou e uma máscara de oxigênio foi posta em meu rosto.

-Fique calmo, senhor Cullen, sua mulher já está em segurança. – garantiu-me um deles fazendo-me relaxar, a fumaça antes mal percebida agora se fazia pesada em meus pulmões, a inconsciência ameaçava me envolver; lutei contra ela, eu não poderia fraquejar agora, não sem antes...

Com dificuldade arranquei a máscara de meu rosto. – Renesmee... – consegui dizer, não sem esforço. – Minha filha... Renesmee... – os bombeiros trocaram olhares interrogativos entre eles, eu precisava alertá-los que ela ainda poderia estar na casa. – Ainda está na casa... Renesmee...

Os dois bombeiros ficaram tensos, eu pude sentir. – Sua filha estava na casa, tem certeza? – indagou um deles, assenti freneticamente.

–Eles nos separaram, mas ela ainda estava em casa... – O outro bombeiro passou um rádio comunicando que Renesmee ainda estava na casa e nada mais disseram, apenas cobriram novamente meu rosto com a máscara.

Logo senti o calor ceder e um vento gélido arrepiar-me por inteiro, já estávamos fora da casa. Eu conseguia ouvir pessoas falando e correndo, água jorrando e o fogo crepitando, mas um som se distinguiu na multidão. O choro agoniado de Bella. – Bella. – sussurrei desesperado, precisava alcançá-la, precisava tê-la em meus braços. – Bella. – comecei a me remexer, tentando me livrar daqueles braços que me seguravam.

-Ele quer a mulher. – ouvi o outro bombeiro declarar, tão logo mudamos de direção e eu fui depositado em uma maca, sentado, nem meio segundo depois senti os braços macios de minha mulher abraçando-me com força e desespero; isso me fez despertar. – Edward... – choramingou ela, suas lágrimas molhando com ferocidade minhas vestes arruinadas. – Oh Edward...

Meus braços a envolveram com igual força. – Eu estou aqui, está tudo bem... Shh... Calma... Tudo ficará bem agora. – sussurrei sentindo-me aliviado de estar com minha mulher novamente.

-Oh Edward... Como puderam...? Como...? Ainda não acharam Renesmee...! – seus soluços eram agoniados e seu choro desesperado, lágrimas surgiram em meus olhos.

-Vai ficar tudo bem... Eles vão achá-la... Ela está bem, você verá! – mesmo fazendo tais promessas eu ainda sentia meu peito se dilacerar... Algo estava errado, eu podia sentir... Me separei de Bella e a encarei, examinando-a rapidamente. – Você está bem? Eles a machucaram? Fizeram algo com você?

Bella negou com a cabeça, ainda chorando compulsivamente e voltou a se atirar em meus braços. Envolvi-a com o maior afinco possível, olhando por cima de sua cabeça os bombeiros erradicarem o fogo, esperando ansioso pelo momento em que um deles chegaria com minha filha... Bem... Viva...

-Senhor Cullen? – uma nova voz soou em meus ouvidos, levantei meu olhar e me deparei com uma policial, logo atrás dela, havia um dos bombeiros. Assenti confirmando minha identidade. – Sou a delegada Christine Parker, - ela me mostrou rapidamente sua identificação. Assenti novamente, ainda com Bella nos braços, esperando pelo que ela desejava me dizer. – Recebemos uma denuncia anônima dizendo que sua casa fora invadida e você e sua família foram feitos reféns, essa informação procede?

Assenti novamente. – Sim... Mas não sei dizer o que houve, eles nos separaram, me amarraram e vendaram, quando percebi a casa já estava em chamas... – o choro foi subindo e me vi precisando respirar fundo para agüentar firme, Bella soluçou mais alto em meus braços, apertei-a mais.

A policial assentiu e fez sinal para que um dos policiais se aproximasse. Enquanto isso, o bombeiro tomou a palavra. – Senhor Cullen, eu sou o tenente Carter Folt, chefe dos bombeiros, e estou aqui para informá-lo com segurança que sua filha não está dentro da casa. – Ao mesmo tempo em que senti o alivio emergir, o pânico me tomou, onde estava Renesmee? – Meus homens vasculharam toda a casa, não há mais ninguém lá...

Bella se ergueu no mesmo instante, o desespero nítido em seu olhar. – O que? Onde ela está? Onde está minha filha? – seu pâncio cada vez maior. Um outro policial se aproximou, carregando um noltbook.

-Senhor Cullen. – Continuou a delegada Christine, abrindo um vídeo no computador, nas mãos do policial. – Tivemos acesso as câmeras de segurança da rua. – declarou ela. – E esta imagem foi gravada a pouco mais de uma hora. – O vídeo começou a rodar e nele, cinco pessoas mascaras, vestidas inteiramente de preto, saiam de nossa casa. – Por favor veja isso. – ela indicou um volume a mais nos ombros de um deles, instantes depois aproximou a câmera e meu mundo desfaleceu ao perceber que ali, nos ombros daquele homem, era minha filha.

O histerismo de Bella atingiu o ápice, ela se jogou no chão, de joelhos. A loucura em seu olhar tão cristalina quanto à água de um rio. -ONDE ESTÁ RENESMEE? – O pânico tomava conta de Bella, assim como dominava a mim. Onde estava nossa filha? - ONDE ELA ESTÁ? Oh meu Deus! Onde está minha menina? - Bella caiu de joelhos desolada, o choro histérico e os soluços desmedidos tornando-a quase insana. Suas mãos agarraram seus cabelos, sua cabeça negou com firmeza, tentando não aceitar, tentando não acreditar. Eu queria acolhe-la, queria lhe jurar que tudo ficaria bem, queria prometer que nossa filha logo estaria conosco, que estava bem... Mas a verdade me destruía, me deixando incapaz de agir. Eles haviam levado-a.