O cenário a frente de Cuddy era, no mínimo, estranho. Sentada em sua cadeira de balanço de sua área, observava a movimentação na casa ao lado. Ela tinha certeza que o novo vizinho mecheria com sua paz interior, ele sempre o fazia. De qualquer forma, sentia-se estranha por tê-lo por perto novamente e curiosa para saber o que viria pela frente. Quando o caminhão de mudanças foi embora já havia anoitecido. Ela amamentava Sofia e Rachel continuava a brincar com legos quando o novo vizinho invadiu seu espaço.

"Santo Deus, que saudades!" Disse com os olhos fitados em seu seio. Como de costume, ela rolou os olhos, deixando explícito seu descontentamento. "Dia cheio, não? Estou exausto!"

"House, você não precisa fazer isso."

"Por que não? Somos vizinhos agora, precisamos de uma política de boa convivência."

Ela o ignorou, fechando os olhos e balançando para frente e para trás em um ritmo suave.

"Você me quer por perto." Cuddy abriu os olhos e o viu sentando-se na cadeira ao lado.

"Exatamente, faz todo sentido levando em consideração que te coloquei na cadeia." House sorriu.

"Você confirmou a minha teoria do inbox celestial a Clark Atlanta University." Ela o questionou com os olhos.

"Não sei do que você está falando."

"Os relatórios dos meus casos foram enviados a Clark Atlanta University. Consegui um emprego no Laboratório Médico de Pesquisas."

"Eu sei o que você quer dizer, House. Mas eu posso garantir que não enviei. O Foreman..."

"Não foi ele."

Seus olhos escureceram de repente e ele fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás.

"Eu te sabotei." Wilson disse com certa dificuldade, esboçando um pequeno sorriso.

"Ele me disse em sua última semana. Mas nesse estágio ele falava coisas desconexas."

Cuddy colocou a mão em seu braço e apertou suavemente.

"House, sinto muito."

"Não, foi ótimo! Tenho uma casa agora, um emprego e aqui em Atlanta existem ótimas prostitutas de luxo." Ela fez uma cara de nojo. "Preciso organizar algumas coisas."

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Havia se passado duas semanas e as caixas ainda estavam espalhadas. Aquelas caixas de coisas simples que pessoas normais poderiam organizar, como seus livros, seus pornôs preferidos, suas revistas de motos, seus quadros e pôsters, suas coleções de miniaturas de soldadinhos de chumbo e afins de decoração. Muitas caixas, na verdade. Ele poderia contratar alguém para organizar, mas simplesmente não o fez. E essa coisa de agachar, subir em cima de algo para alcançar a parte mais alta não era bem um exercício fisioterapeutico para um aleijado. Ele só se importou com isso depois de estar estirado no chão rangendo os dentes sem conseguir se mover, um esbarrão para qualquer um poderia ter sido motivo de riso, para ele era como se estivesse no filme "Saw", ele tinha o número dela, Wilson havia passado para que eles falassem sobre Sofia, mas ele resistia há uma hora e meia. E agora já não era só sua perna que gritava, todo o seu corpo também devido a posição imóvel, ele precisava de vicodin, mas não conseguia se mover, cada tentativa de se levantar era terrivelmente doloroso. Claro que uma simples queda não seria para tanto, há alguns dias ele havia reduzido as pílulas de vicodin e compensando com prostitutas. Era ótimo no momento, a endorfina o aliviava, ao mesmo tempo que poderia fazer cena para Cuddy, que com certeza havia percebido a grande movimentação de mulheres gostosas. O sexo consequentemente tinha impacto, porque após o orgasmo o esforço trazia consequências. Mais meia hora e só o que ele conseguiu foi mais dor e então ele deu o braço a torcer. Após alguns minutos ele ouviu o barulho de alguém entrando e falando alguma coisa, em seguida a mulher cruzou o outro lado da sala e atrás do sofá o avistou.

"Seu idiota!"

Olhou para ele, que tinha a testa brilhando de suor e os olhos muito vermelhos. Ajoelhou-se no chão e colocou a cabeça dele em seu colo. Era tão estranha a sensação daqueles dedos finos em seu rosto e os olhos dela demonstravam muita doçura. Ele se sentiu muito irritado.

"Na gaveta do criado mudo. Vicodin."

Ele deu ênfase a palavra, de certa forma para machucá-la e ele sorriu meio de canto quando ela saiu de sua vista. Ela voltou também com um copo de água e colocou-o no chão para colocar a cabeça dele novamente em seu colo.

"Ainda não tenho um braço aleijado, posso colocar o remédio na boca."

Ele disse alfinetando-a e ela simplesmente abaixou a cabeça entregando duas pílulas. Ele engoliu em seco ignorando a água que ela havia trazido. Aquela cena simples a afetava muito. Ela se levantou e ele achou que ela não voltaria, mas após algus minutos ela voltou com dois travesseiros, uma tesoura e uma maleta de primeiros socorros.

"Seria menos constrangedor se você falasse algo."

Ela parou de procurar o que queria na maleta para olhá-lo, após olhar profundamente em seus olhos, abaixou a cabeça e voltou a procurar, casualmente olhando para o lado e limpando uma lágrima que escorreu, rezando para que ele não notasse. Ela colocou os travesseiros abaixo de sua cabeça e se voltou a maleta, retirando um frasco de spray e o que parecia ser um gel. Utilizando a tesoura iniciou o corte em sua calça, desde a barra até um pouco acima da cicatriz, para não ter que retira-la e obrigá-lo a movimentos que poderiam trazer mais dor.

"Onde está Rachel?" Perguntou sentindo-se incomodado com o silêncio.

"Está no outro sofá dormindo. E sofia está na cadeirinha para bebês no tapete, também dormindo." Frisou bem o nome da filha mais nova, como de costume.

"Por que você insiste nessa merda toda? Acho que deixei muito claro que não me importo com a menina!" Cuddy parou com a tesoura e olhou bem para ele, em sua expressão facial transmitindo toda sua raiva.

"A vontade que eu tenho é de enfiar essa tesoura nessa sua maldita cicatriz." Disse com uma voz suave e completamente contraditória aos seus sentimentos. "E mesmo que doesse muito, não se compararia a dor que uma mãe sente ao ouvir palavras como essa relacionadas a sua filha."

House gargalhou de repente, a irritando ao extremo.

"E por que não enfia a tesoura, mamãezinha-de-meia-idade?"

"Porque isso me igualaria a você." Cuddy espandiu o corte lateral da calça, deixando a vista sua cicatriz.

House tremeu em nervosismo, enquanto o suor escorria por sua testa. Em todo o tempo ele se segurava para não gemer, mas agora foi inevitável ao sentir os dedos dela tocando para ter uma noção mais precisa da dor.

"Por que você veio?" Ele perguntou de repente. "Você está sendo contraditória."

"Porque eu tenho pena de você." Disse com um sorriso maldoso. House sentiu aquelas plavras o atingindo profundamente e tentou se levantar. Ela se afastou devido aos movimentos frenéticos e ansiosos, enquanto ele tremia de dor pelo esforço. De repente, rendido ele bateu a cabeça no chão e tampou os olhos com o braço.

"Saia daqui, Cuddy!" Gritou com ira.

Cuddy sabia o resultado e confirmou ao ouvir o choro da filha mais nova e os movimentos da filha mais velha.

"Mamãe?" Rachel perguntou com voz chorosa enquanto House repetia as mesmas palavras. Cuddy o olhou com ódio e se levantou, abraçando a filha rapidamente e confortando-a com palavras ternas. Abaixou-se e pegou Sofia do bebê conforto, balançando-a suavemente até a acalmar. House apenas tinha os olhos tapados, enquanto Rachel o observava.

"House mau?" Perguntou colocando a mãozinha em seu braço. Ele abriu os olhos e retirou o braço para encará-la. Ele não sabia o que dizer, de repente estava muito assustado. "Fez Sô chorar." ela parecia repreendê-lo, pois mantinha um bico enorme e os olhos fixados de força ameaçadora. "Não gosto mais de você."

Rachel se levantou e voltou-se para a mãe, observando-a colocar Sofia para dormir novamente. Cuddy beijou Rachel na cabeça e ligou a televisão para mantê-la entretida.

Quando Cuddy voltou House estava extremamente envergonhado e não conseguia encará-la. O vicodin já começava a fazer efeito e ele começava a se sentir melhor. Ele tentou ignorar com todas as forças a sensação do spray gelado tocando sua perna, precedido dos dedos de Cuddy esfregando a cicatriz suavemente. Estava inflamada e ela se reprimiu para não comentar isso e dar um sermão, em seguida com um pano limpou o spray, para em seguida passar um algodão com álcool. Após o procedimento básico Cuddy aplicou um gel massageador e suavemente iniciou os movimentos de uma massagem, no início House sentiu ainda mais dor, mas após alguns minutos a dor foi diminuindo.

"Onde você aprendeu?" Ele sabia que o momento não era tão propício para perguntas, mas mesmo assim o fez.

"Eu fiz um curso de massoterapia de curta duração."

House riu gozando dela.

"E para quê a chefona iria sujar suas mãozinhas delicadas com gel de massagista?"

"Talvez para ajudar o ex com a dor crônica, para evitar que ferrasse com a própria vida por meio das drogas."

Sem graça seria eufemismo, ele ficou muito envergonhado. Após alguns minutos, conjuntamente ao efeito do vicodin e a massagem, ele já sentia uma dor suportável. Ela terminou a massagem e ele conseguiu levantar um pouco o corpo e ficar sentado. Colocando muita força ela conseguiu levantá-lo, o que depois traria uma dor infernal na coluna. Quando ele se apoiou em seu ombro foi inevitável encará-la com uma mistura de sentimentos. Raiva, mágoa, dor, agradecimento e amor (?), não sabia ao certo, mas ela tentou ignorar, desviando o olha e o guiando lentamente ao quarto. Ao chegar lá pediu para que se apoiasse na parede, enquanto ela o despia. Retirou a calça e a camiseta, jogando-os no canto. Em seguida o guiou até a cama, reparando na expressão forte de dor. Puxou todos os forros e jogou-os no chão, em seguida ajeitando os travesseiros para que ele se deitasse. Após isso ele ficou a encarando e ela se virou para sair, quando ouviu a voz dele.

"Cuddy..." ele esperou alguns segundos como quem está tentando criar coragem. "obrigado". foi quase inaudível, mas ela sabia o que ele disse pela simples entonação dada. Se virou para ele com uma expressão vazia.

"Não fiz por você, agradeça ao Wilson." Disse sinceramente.

"Então você me ajudou por causa de um morto? Você tem ideia do quão patética é?"

"Fiz simplesmente o que ele faria por você, se estivesse vivo."

"Então você irá substituí-lo? A sessão de pornô é às terças, Monsters Truck às quintas e baseball aos sábados, traga pipoca amanhã." Disse com sarcasmo. "Não preciso de você."

"Ah, sério? Você não parecia muito capaz de levantar a bunda do chão."

"Caso não tenha reparado, tem se igualado a mim."

Cuddy sorriu com os olhos em lágrimas.

"Eu, ao menos diferente de você, me importo com a minha filha."

"Então você vai cobrar e cobrar? Me pressionando até limpar caquinha, dar papinha e pagar pensão?"

Cuddy achou inacreditável suas palavras e se reprimiu de pular em seu pescoço e matá-lo por estrangulamento.

"Você tem razão, House. As pessoas não mudam."

Dito isso ela se virou, não antes de ele ver outra lágrima escorrendo. Ele suspirou forte completamente exausto incapaz de manter o controle. De repente tudo passou por sua mente. O dia em que ela perdeu a Joy, que ele a beijou, em seguida a aluscinação, logo após o choque de saber que ela namorava o Lucas, o lance com a nova casa, o acidente em Trenton, ela aparecendo em seu banheiro, o dia seguinte, os dias que se passaram, a forma como sentiu medo por estar feliz, o modo como descobriu que a amava, a felicidade andando lado a lado todos os dias e a forma como aprendeu a gostar da Rachel, para um dia ela ficar doente, ele tomar vicodin, ela terminar com ele, ele entrar com o carro na casa dela, a notícia de sua gravidez, a morte do Wilson, sua vinda para Atlanta, a casa ao lado da sua e em tudo isso o que mais pertubava: Sofia. Ela tinha seus olhos azuis da cor do oceano e seus cabelos dourados e extremamente lisos, como quando ele era criança. Tinha um jeito resmungão de protestar, mas era linda como a mãe. E o pior, ela atormentava constantemente os seus pensamentos e seus sonhos, deixando-o terrivelmente incomodado.

Sofia... Sofia... Sofia.

Tão pequena e já tão irritante!