GD é da Clamp, yaoi rules, e esse capítulo cita coisas fofas do volume 3. Enjoy.
Vícios e Venenos
Capítulo 3: Tão Natural
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Kazahaya estava simplesmente feliz. Não havia palavras suficientes para descrever.
– Ei, Rikuou. – disse, sorrindo. Sentia-se um garotinho, assim, no colo. – Me põe no chão.
O moreno assustou de ver que o garoto em seus braços estava acordado e consciente. Ou quase... parecia mais um bêbado risonho. Mas, aparentemente, poderia andar. O colocou no chão, cuidadosamente, como faria com uma criança.
Quando os pés de Kazahaya tocaram o chão, ele jogou a cabeça para trás, como se fosse gargalhar – mas apenas sorriu, silencioso. O braço de Rikuou ainda o sustentava, e isso lhe dava confiança. Porque ele sempre tinha Rikuou para cuidar dele.
Rikuou salvara Kazahaya no natal, o ensinara a cozinhar, o ensinara a fazer o trabalho na farmácia, e as mil pequenas coisas da vida cotidiana. Kakei-san lhe dera abrigo e emprego, mas sem Rikuou não haveria Kakei-san algum na vida de Kazahaya. Isso, mais as várias vezes que o rapaz lhe salvara a vida.
Agora, com a mente límpida e ainda cheia de lembranças deliciosas, era até difícil lembrar porque teimara tanto em não gostar de Rikuou. Mesmo quando admitira pra si mesmo, no colégio nas montanhas, que talvez pudesse se envolver com Rikuou, tratara de afastar isso da mente, como se o simples pensamento o queimasse. Irônico que, agora, isso parecesse tão natural.
Kazahaya parecia estar realmente melhorando, Rikuou achava. Mantinha o braço em torno da cintura dele por precaução, mas ele poderia andar sozinho. O calor do corpo dele era reconfortante, naquela garoa gelada. Mas era melhor quando ele estava em seus braços...
Aliás, essa era uma coisa interessante. Trabalho paralelo após trabalho paralelo, Kazahaya sempre ia parar nos braços de Rikuou. Não que ele estivesse reclamando, mas era estranho. Sempre tinha alguma coisa, e eles acabavam de mãos dadas, ou Kazahaya no colo de Rikuou.
O moreno não sabia bem o que pensar sobre isso. Mas com certeza era a parte mais agradável da sua rotina.
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– A primeira dona da fita vermelha foi uma senhora que viveu há muitos e muitos anos, – explicava Kakei-san – e ela conhecia um pouco de magia antiga. Colocou todas as raras sensações de felicidade que já havia tido na fita, e presenteou a filha com ela. A fita foi passando por meninas e mulheres de várias gerações, com cada vez mais felicidade imbuída, alimentada por cada momento de felicidade de cada uma delas. E nunca se deteriorando, essa felicidade a mantendo intacta.
Eles estavam na sala dos fundos da farmácia. De um lado, Rikuou e Kazahaya sentados lado a lado, do outro, Kakei sentado e Saiga em pé ao seu lado, como um valete protetor. Todos bebiam chá quente. Kazahaya estava muito mais tranqüilo, embora ainda parecesse bem feliz. Com um pouco de sorte, não ficaria gripado.
– É uma fita muito valiosa, mas estava perdida há alguns anos, escondida naquele muro, e me pediram que a recuperasse. Ela, agora, vai voltar para as mulheres daquela família. – Kakei sorriu, ao ver o sorriso de Kazahaya – As pessoas adultas sentem alguma alegria ao estarem com a fita nas mãos. Nas crianças, o efeito é maior, e elas podem esquecer suas tristezas e preocupações por um tempo, depois que a tocam. Kudou-kun foi fortemente afetado por esse efeito por ter talentos especiais, além de um espírito inocente.
Rikuou pensou em dizer, mais tarde, algo relacionado ao 'espírito inocente' de Kazahaya, que ele poderia descrever como 'infantilidade imbecil' ou algo parecido. Mas Kazahaya parecia tão bonito e tranqüilo, sorrindo como se aquele tivesse sido o elogio do ano... e... bocejando?
– Agora é melhor vocês irem... dormir. – disse Saiga, sorrindo, e colocando as mãos nos ombros de Kakei.
– Serão pagos amanhã, cinqüenta por cento para cada um. Agora podem ir. – Kakei-san sorriu, e o sonolento Kazahaya se sentiu muito feliz por poder ver todos os dias alguém tão absolutamente bonito como Kakei-san. Era muito bom morar nessa farmácia, afinal.
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Kazahaya acordou com o joelho de Rikuou pesando dolorosamente em suas costelas.
– Acorda. É o seu dia de fazer o café da manhã. – Rikuou tirou o joelho de Kazahaya e foi ler o jornal, evitando deliberadamente os olhos âmbar do garoto.
Coçando os olhos e se espreguiçando devagar, Kazahaya se sentou na cama. Não sabia se estava triste ou feliz por tudo ter, aparentemente, voltado a ser como era antes do beij... da viagem que Rikuou tinha feito.
Foi preparar o café da manhã.
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O dia realmente correu mais ou menos como costumava ser. Mas Kazahaya sentia, cada vez mais, que esse falso ar de 'tudo bem' não era exatamente o que ele queria. Tudo que pensara enquanto estava enfeitiçado pela fita não parava de voltar à sua mente. Cada vez que Rikuou ria dele, cada vez que o ofendia, cada vez que tudo parecia ter voltado uma semana no tempo, Kazahaya respondia, tentava ser o mais ferino possível. Mas tudo parecia diferente do que deveria ser, diferente do que queria que fosse.
Claro que um Rikuou amável e carinhoso seria algo bem estranho... mas essa distância era dolorosa.
Lembrou-se novamente de todos os sentimentos que admitira a si mesmo enquanto estava embriagado de felicidade... ARRRGH!! Não podia estar (aaarrrrgh!!) apaixonado.
Mas estava. E achava que o pior disso era que não ia conseguir disfarçar por muito tempo, e ia ter que agüentar as piadinhas de Kakei-san e Saiga-san. E as de Rikuou, se ele não quisesse admitir que correspondia a esses sentimentos. Porque (AHA!) Kazahaya sabia que Rikuou sentia o mesmo. E a idéia de isso lhe dar poder sobre o moreno era tão deliciosa, que teve que morder os lábios duas ou três vezes pra não gritar algo relacionado a isso em resposta às provocações de Rikuou.
Kazahaya calculava que o que deveria fazer era arrumar suas poucas coisas em uma mochila, e partir durante a noite. Tá, ok, mesmo que gostasse de Rikuou. Não quereria ele mexendo em seu passado, assim como ele não quereria que Kazahaya soubesse do dele. E... isso nunca daria certo.
Observou Rikuou atendendo um bando de garotas adolescentes, parecendo ainda mais sério em contraste com as risadinhas delas. Às vezes parecia que ele nunca sorria... A não ser na presença de Kazahaya. Se fosse embora, Rikuou não iria sorrir nunca mais? Bom, normalmente ele ria de Kazahaya, mas... tanto faz. Cada sorriso, cada risada, cada expressão divertida, cada brincadeira, apenas diante de Kazahaya. Mesmo os seus sorrisos maliciosos e cruéis, eram só para Kazahaya.
Rikuou terminou de atender as garotas, que pareciam não parar de pedir coisas, e olhou de relance para Kazahaya. E se surpreendeu muito ao vê-lo com o olhar fixo em seu rosto, uma expressão distraída de vago divertimento e alegria.
Ah, não, ah, não, ah não.
Não podia ser... O idiota... aparentemente pensava... que estava apaixonado! E só por causa de um beijo!! Realmente não havia limites para a falta de noção. E isso era... absolutamente constrangedor.
Como Rikuou poderia suportar esse maldito olhar de 'ai, ai, ai, Rikuou!', sendo que gostava do maldito que fazia isso, e não podia fazer nada? Nada! Sabia que era tudo apenas porque Kazahaya tinha a mentalidade e a inocência de um garotinho, e pra ele, Rikuou ter correspondido àquele beijo, deveria ter sido algum tipo de declaração de amor.
Não que não tivesse sido.
Rikuou se sentiu corar, e desejou ser fulminado por uma morte instantânea e dolorosa por isso. Principalmente porque ainda estava olhando para o ser patético de cabelos claros, olhos lindos e brilhantes, e uma caixa de curativos na mão. Virou as costas rapidamente e foi... fazer qualquer coisa, em qualquer lugar.
Precisava conversar com Kazahaya, mais tarde, assim que terminasse o expediente. Não poderia continuar assim, 'insustentável' era muito pouco pra definir essa situação. Ele tentaria explicar o quanto Kazahaya estava enganado, e que não havia paixão alguma, amor algum. Faria ele entender, nem que para isso... nem que para isso tivesse que desprezá-lo, que... que mentir, e ser cruel, e quebrar o coração dele.
Não. Não poderia fazer isso. Não com o seu Kazahaya, o garoto que protegia desde que pusera os olhos nele pela primeira vez. Não deixaria que nada o machucasse, nem mesmo suas próprias ações e palavras. E era por isso, também, que não deixaria o garoto ir embora, não importava o que acontecesse. Ele não sabia cuidar de si mesmo sozinho, precisava do emprego e de Rikuou. E Rikuou precisava dele também – isso deve ter sido um castigo, uma maldição, que seja, mas precisava, assim como precisava de ar e como precisava procurar Tsukiko. E como precisava pensar no que iria dizer para esse idiota, mais tarde.
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Kazahaya estava tirando o avental, pronto pra subir as escadas. Kakei e Saiga tinham acabado de se retirar. Rikuou o segurou pelo braço, sem muita gentileza.
– Vamos sair. Precisamos conversar.
– Temos o quarto... – Kazahaya corou imediatamente – Po-podemos conversar lá.
Não, no quarto não, pensou Rikuou. Um lugar onde ele se sentisse menos vulnerável a ceder... ao que quer que fosse. Tentou sorrir.
– Qual o problema em sairmos?
– Ahn... nenhum. – jogou o avental sobre o balcão. Que Kakei não o visse jogado ali. – Vamos.
Rikuou soltou o braço de Kazahaya, e sentiu falta do contato. E lembrou que ainda não sabia o que iria dizer.
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A noite estava fria como uma navalha, e os dois não estavam adequadamente agasalhados. Mãos nos bolsos, começaram a andar em direção a um parque daquele bairro primordialmente residencial.
– Eu te pago um café. – grunhiu Rikuou, um pouco constrangido. – Mas isso não é um encontro.
– Mas é claro que não!!!! – Kazahaya quase gritou. Acalmou-se em seguida. Pessoa estranha... – Mas, o dinheiro não vai fazer falta?
Idiota, idiota, idiota.
– Claro que não. É só um café.
– Ah...
Caminharam por um tempo, em silêncio. Chegaram a uma praça simpática, com uma cerquinha quadrada, com bancos de madeira. Kazahaya sentou em um dos bancos pintados de branco, enquanto Rikuou comprava duas latas de café. Jogou uma para Kazahaya, abriu a sua e tomou um grande gole. Sentou ao lado do garoto.
– Eu sei o que você está pensando. – Rikuou falava olhando para as estrelas, que pareciam muito brilhantes no céu limpo. Era uma noite bonita. – E é melhor parar de pensar nisso. Você está apenas iludido.
– Eu estou apenas iludido, eh? – Kazahaya deixou a lata de lado, e olhava para o rosto de Rikuou. – E você, está o quê?
O moreno se assustou, e olhou para Kazahaya. Estava pronto para os gritos, não para uma resposta... madura? Lógica? E os olhos dele brilhavam de um jeito diferente. Mukofujiwara-san lhe falara que vira algo assim, mas Rikuou achou que era impressão dele. E como ele sabia? Maldição.
Porque Kazahaya o deixara sem palavras. E aquela era a segunda vez, no mesmo dia, que Rikuou desejou morrer fulminado por uma providência divina qualquer.
– Eu não confundo desejo com sentimento. – Não era mentira, realmente sabia o que sentia. Sabia que não era apenas desejo. E sabia que fizera parecer o contrário, com essas palavras. Mas se aquele Kazahaya estranho ia pegar pesado, Rikuou iria se conter (um pouco) menos para não machucá-lo.
– Havia desejo naquele beijo. E havia sentimento. Ou você acha que eu não sei discernir o que eu vejo e sinto naquilo que toco, nem mesmo depois que minha mente clareia? – Kazahaya falava calmamente, e Rikuou estava hipnotizado por aquele olhar... diferente. – Eu sei, Rikuou. E só o que eu queria dizer pra você, é que não eram apenas o seu desejo e o seu sentimento, naquele beijo. E que fita nenhuma teria me deixado tão feliz, se eu já não estivesse alegre por saber que você... correspondia.
Desarmado. Era como Rikuou se sentia.
E agora os olhos de Kazahaya voltavam ao de sempre, seu rosto corando. Parecia pronto a começar a berrar, mas estava calado. Era uma sensação estranha, não estar escondendo seus sentimentos nem de si mesmo. Geralmente ele estaria extravasando essa vontade de sair correndo e gritar, ou sei lá. Mas aquele era como um momento solene, e ele falara tudo que achava que deveria dizer.
A última vez que fizera isso, dissera tudo e fora sincero, no colégio masculino nas montanhas, parecia... ter ajudado. Agora... ele não sabia qual seria o resultado. Sabia qual resultado preferiria, e admitir isso a si mesmo (e pior, ter de alguma forma admitido isso ao Rikuou) causava uma sensação que era quase uma dor física. Baixou os olhos, esperando. Ele estava apavorado, e se conter sentado e calado denotava um esforço sobre-humano. Mordeu o lábio.
Mas o soltou quando viu a mão de Rikuou à sua frente, segurando seu queixo, erguendo seu rosto. Seus olhos pareciam muito mais verdes sob a luz das estrelas.
– Você está enganado, Kazahaya. E eu também. Isso tudo é um erro.
Os olhos verdes ficaram mais próximos, e se fecharam. Os âmbares também se fecharam, e o dono deles sentiu os lábios mais macios e quentes do mundo sobre os seus. Apenas um toque, uma leve pressão. Acabou muito rápido, mas foi realmente doce.
E os dois sabiam que, agora, não havia mais contra o quê lutar. Embora suas almas de guerreiros não soubessem bem como lidar com isso.
– E agora? – Kazahaya murmurou. Olhava Rikuou com um fascínio absoluto, entregue. Pertencia apenas a ele, e sempre pertencera. E os dois sempre souberam.
– Agora... – Rikuou sorriu. Ficava tão bonito sorrindo. – Agora vai ser difícil suportar as brincadeiras de Kakei e Saiga.
A risada suave de Kazahaya era linda.
– Está ficando muito frio, aqui. Vamos pra casa. – Kazahaya levantou, colocando os braços em volta do próprio corpo. Estava muito frio. Viu um sorriso maldoso se delinear no rosto de Rikuou.
– Só é uma pena que não estejamos em um dos trabalhos paralelos, e portanto, você não vai voltar no meu colo dessa vez.
– AH...! Eu não acredito que você disse isso!!! – se virou para o moreno como que para bater nele, enlaçou os braços em torno de seu pescoço e o beijou. Um beijo ainda inexperiente, e delicado, que terminou com uma leve mordida no lábio inferior de Rikuou. – Idiota!
– Mas é verdade. Quebras na rotina são dolorosas, sabia? Afinal, você sempre arranjou um jeito de voltar pra casa nos meus braços...
– N-N-NÃO! Babaca! Não, claro que não, eu não...!!! Ahhhhhh!!!!!
– De que adianta negar agora, depois de tudo? – Rikuou ria. Esperava ganhar outro beijo de cala-boca.
– ARRGH!! Morra, Rikuou!! Imbecil!!! A culpa nunca foi minha, e aaaaaarghhhh!
Ganhou.
Fim
Weeeeee!!!! Fim da fic, mas não vão embora ainda! Porque ainda tem o extra \o/
Bom, muito muito muito random, uma quantidade enorme de blá blá blá, uma resolução meio waahhh do nada, e um fim absolutamente nonsense.
A vida não é linda?
Hi-chan, Gustavo-chan e Nanda-chan. Tão lindo saber que tinha gente lendo a fic! E gostando! Nhoo!! Amo vocês, ever, pelas reviews, pela atenção, por tudo, tudo, tudo.
E também amoooo, ever, a Kaza-chan, que mais uma vez me aturou, e fez a primeira leitura, e review, e me ajudou a corrigir coisas, e tudo de mais lindo. Não gostou da fic? Reclame com ela!
E amo também o CrisPepper, que ficou fangirlizando (bom, fanboyzando, no caso) comigo dentro do ônibus, enquanto eu contava os planos pra fic.
A fic é totalmente dedicada a vocês cinco.
