Título: Sorte de Herói – Capítulo 3 – "E vós, mortais, guardai-vos de julgar" (Dante Alighieri)

Autora: Amy Lupin

Beta: Lunnafe

Par: Harry/Draco

Classificação: pg-13

Avisos: Fic escrita para o Projeto Sectumsempra de Amor não Dói III.

Razão utilizada: 44. Porque o Harry ficou chocado demais ao ver seu inimigo frio e insensível chorando com desespero. (O Príncipe Mestiço, pg 409)

Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas e pertencentes a J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.

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Harry estava olhando o movimentar do líquido esfumaçado na penseira, absorto em seus próprios pensamentos quando ouviu um toque suave na porta da diretoria de Hogwarts. Harry, Ron e Hermione junto com vários outros bruxos haviam se voluntariado para um mutirão organizado pelos professores para reconstrução da Escola de Magia e Bruxaria. O castelo havia levado a pior parte na Guerra, mas a magia utilizada pelos fundadores estava tão arraigada nas pedras que muitas vezes tudo que eles tinham que fazer era colocar tudo em seu devido lugar que o próprio castelo se encarregava de emendar as rachaduras.

"Entre" Harry falou e Hermione abriu uma fresta da porta.

"Você ainda está aí? Ron estava procurando por você. Eu expliquei o que você estava fazendo e ele não ficou muito feliz" Hermione entrou fechando a porta atrás de si.

"Imagino que não. Como está a Biblioteca?" Harry perguntou, se sentando numa das cadeiras em frente à mesa de McGonnagal.

"Graças a Deus não houve muitos danos por aquele lado. Teria sido uma perda inestimável, sabe? Não há nenhuma biblioteca tão rica quando esta em todo o Mundo Bruxo!" ela se aproximou e tomou o assento ao lado de Harry. "E você? Como está se saindo?"

"Já acabei... acho" Harry falou, franzindo as sobrancelhas. Ele havia pedido para McGonnagal para usar a penseira por alguns minutos e aproveitar para descansar um pouco. A diretora não havia hesitado em concordar dizendo que ele poderia ficar à vontade sempre que precisasse. Afinal o trio se voluntariava sempre que possível para ajudar na reconstrução da escola.

"E chegou a alguma conclusão?" Mione perguntou delicadamente.

"Sim..." Harry falou evasivo, umedecendo os lábios. "Mione você lembra do nosso sexto ano quando você e Ron falavam que eu estava obcecado por Malfoy?"

Mione deu uma risadinha que Harry achou no mínimo desconcertante.

"Claro que me lembro. E garanto que Ron também. Nós pensávamos que você estava procurando pêlo em ovo, mas no final você tinha toda razão em desconfiar dele".

Harry assentiu, baixando a cabeça.

"E você acha que continuo obcecado?" o moreno perguntou num fio de voz.

"Ah, Harry..." Hermione suspirou. "Não leve tão a sério as coisas que o Ron diz. Ele não consegue deixar rixas pessoas de lado tão facilmente quanto você".

Harry assentiu pouco convencido. Hermione pareceu notar e se sentou mais na beirada da cadeira para colocar uma mão no ombro do amigo.

"Harry, eu confio no seu julgamento. Ron e eu não vimos nem metade das coisas que você viu..."

"Fique à vontade" Harry acenou em direção a penseira, cujo conteúdo rodopiava como nuvens em um céu tempestuoso.

Hemione hesitou, mas acabou se levantando e se inclinando de encontro à bacia de pedra. Harry aguardou pacientemente. Havia acabado de rever as próprias memórias com a riqueza de detalhes que só a penseira proporcionava. Não apenas aquelas lembranças que fizeram com que Harry pedisse para ser chamado como testemunha de defesa no julgamento dos Malfoy – coisa que Ron não apoiava - como também várias das que Ron não parava de lembrá-lo. Como quando Draco deu mostras de sua fascinação pelas artes das trevas. Ou quando Lucius Malfoy torturou trouxas por diversão depois da Copa Mundial de Quadribol. Ou ainda quando Lucius Malfoy, depois de entregar o diário de Riddle para Ginny quando esta tinha apenas onze anos, havia ameaçado Harry de morte.

"Você vai ter o mesmo fim sangrento dos seus pais um dia desses, Harry Potter" as palavras de Lucius voltaram a ecoar em sua mente. "Eles também eram tolos e metidos".

Mas mesmo depois de rever todos os prós e os contras, o coração de Harry continuava a pender para o mesmo lado. Ele sentia que era o certo a fazer. Por mais que desprezasse o Draco que conhecia antes - que o culpava pela prisão do pai e não hesitou antes de quebrar o nariz de Harry no Expresso de Hogwarts quando o moreno estava petrificado e incapaz de se defender -, não conseguia deixar de se lembrar desse mesmo Draco chorando no banheiro da Murta de Geme e quase se rendendo à proposta de Dumbledore na Torre de Astronomia.

Quando Hermione finalmente se endireitou tinha lágrimas não derramadas nos olhos.

"Harry! Voldemort o estava obrigando a torturar outro comensal! E ele presenciou a morte da professora Burbage! E... ele chorando no banheiro... Harry, eu não imaginava...!"

Harry forçou um meio sorriso.

"É diferente quando você vê, não é?" o moreno perguntou desanimado.

Hermione limpou os olhos com as costas da mão.

"Mas e quanto a Lucius? Não vejo como ele pode ter se redimido... quero dizer, ele pareceu bem abalado no final, mas ainda assim será que uma pessoa pode mudar tanto assim? Narcissa parece nunca ter se envolvido ativamente, mas Lucius... Você não pretende defendê-lo também, pretende?"

"Pretendo" Harry falou com firmeza.

"Mas Harry..." Hermione olhou ao redor como se procurasse o que dizer. "Você tem certeza que vai usar sua influência do Ministério – essa mesma influência que você tanto despreza – para ajudar Lucius Malfoy a se safar mais uma vez?"

"Me sinto na obrigação de tentar, Mione. Se eu não fizer isso, ninguém mais vai defendê-los. Ninguém do nosso lado viu o que eu vi e sobreviveu para fazer algo a esse respeito. Preciso fazer isso por Dumbledore".

Harry não estava sendo totalmente sincero com a amiga. Não era apenas por Dumbledore que estava fazendo aquilo. Era por si mesmo. E por Draco. Mais do que ficar chocado por ver a vulnerabilidade do sonserino, Harry se apiedara de Malfoy. Mas quanto a Lucius... Harry queria que Draco soubesse que daquela vez a culpa não seria dele se Lucius fosse preso. Harry faria o que estivesse ao seu alcance para tentar defender Lucius Malfoy apenas para não ver a mesma acusação de antes nos olhos de Draco.

Hermione pareceu que ia protestar, mas desistiu e suspirou. "Bem, a decisão é sua. Como você pretende defendê-los?"

"Prefiro guardar meus argumentos para o julgamento Mione, sem ofensas... Você vai estar lá, não vai?"

"Com certeza" Hermione concordou, se levantando. "Agora vamos descer?"

"Vamos..." Harry removeu as próprias memórias da penseira e conjurou um frasco para colocar uma em particular antes de deixar a sala circular. Teve certeza de ter visto Dumbledore piscar para ele de seu retrato antes de sair.

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O Ministério da Magia estava bastante movimentado naquele dia. Não era o primeiro Julgamento Criminal depois do fim da Guerra, mas era o mais importante até aquele momento. A fila de visitantes para identificação de varinhas estava imensa. Por sorte Harry tinha um mandado judicial que lhe deu passe livre e ele poderia seguir direto para o Décimo Tribunal.

Harry torceu para não ser notado, porém aquilo era pedir demais.

"Hey, Harry!" um garoto que Harry achou familiar acenou da fila. Devia ser um aluno de Hogwarts. Depois dele, várias pessoas acenaram e algumas até estenderam a mão para cumprimentá-lo. Harry identificou os cabelos loiros de Luna junto de Hanna e Neville, mas eles apenas acenaram em cumprimento.

Quando finalmente deixou o Átrio e pegou o elevador, Harry respirou aliviado. Mas o fez cedo demais. Os Weasley e Hermione estavam tentando entrar todos no elevador de uma só vez, falando ao mesmo tempo.

"Ah olá Harry!" o Sr. Weasley foi o primeiro a notá-lo e o restante dos Weasleys o cumprimentou. Harry logo deu por falta de Ginny e Bill e percebeu que Ron desviou os olhos. O Sr. Weasley voltou-se para a família "Sabe, podem descer. Vou de escada com Harry. De qualquer forma o elevador só vai até o próximo nível".

"Ah, ótimo" Percy respirou aliviado e deixou as grades se fecharem com um tinido de metal.

"Então, como tem passado Harry?" o Sr. Weasley perguntou gesticulando para as escadas que levavam ao Departamento de Mistérios. "Nós sentimos sua falta. Você sabe que se fosse por Molly você se mudaria para a Toca permanentemente".

"Ah... estive um pouco ocupado me preparando para o julgamento..." Harry falou evasivo. Estava fugindo dos Weasley ultimamente e não apenas por causa de Ron. Apesar de ninguém mais tocar no assunto, Harry sabia que eles não concordavam com a decisão de Harry de defender Lucius Malfoy por causa do que ele fizera a Ginny. Tanto que o próprio Sr. Weasley iria testemunhar contra o patriarca Malfoy.

"Ah sim, imagino..."

"Ginny não quis vir?" Harry perguntou enquanto outros bruxos e bruxas passavam por eles conversando, entre eles uma garota que não poderia ter mais de treze anos.

"Você conhece a Ginny... se ela realmente quisesse vir teria vindo não importa o que nós disséssemos. Quanto mais agora que completou dezessete anos! Mas nós todos concordamos que seria melhor se ela ficasse em casa. Fleur e Bill ficaram fazendo companhia a ela. Não sei como as pessoas podem trazer crianças para um lugar desses. Devia ser proibida a entrada de menores de idade".

Eles desceram mais alguns degraus e Harry já podia ouvir a algazarra dos demais Weasleys no andar de baixo quando o Sr. Weasley parou e se voltou para ele segurando os ombros do garoto de maneira firme.

"Harry... sei que você acha que todos nós estamos bravos com você, mas não é verdade. Nós sabemos que você se importa com Ginny tanto quanto nós e que com certeza tem seus motivos para defender Lucius. Mas se você pelo menos pudesse nos explicar..."

Harry abriu a boca pensando no que dizer, porém acabou baixando os olhos. Como poderia explicar para os Weasley seus motivos quando nem ele próprio sabia? Mas o Sr. Weasley não se deu por vencido.

"Está bem, Harry. Não precisa dizer se não quiser. Só me diga se você tem certeza do que está fazendo".

"Absoluta" Harry respondeu sem pestanejar e o patriarca dos Weasley acenou afirmativamente.

"Então isso basta para mim. Vamos ou iremos nos atrasar".

Harry não entendeu muito bem o que havia acabado de acontecer, mas acabou deixando sua intriga de lado e voltando a se concentrar no que estava prestes a fazer. Finalmente chegaram ao Décimo Tribunal e Harry inspirou profundamente antes de entrar.

O cômodo amplo de pedra estava bem mais iluminado que das outras vezes que Harry estivera presente. Havia ainda poucas pessoas nas arquibancadas, mas a julgar pela fila de visitantes no Átrio logo os bancos estariam lotados. Harry não demorou a localizar as cabeças vermelhas dos Weasley e a Sra. Weasley acenou para eles, porém Percy não estava entre eles.

"Pai, Harry, por aqui" Harry se sobressaltou ao ouvir Percy bem ao seu lado. "As testemunhas de acusação e de defesa ficam na primeira fila da direita".

Harry o seguiu e se sentou ao lado do Sr. Weasley, que por sua vez havia se sentado ao lado dos aurores Sturgis Podmore e John Dawlish. Mais além havia um medibruxo idoso.

Harry então se voltou para a arquibancada da frente. Como na manhã de seu quinto ano quando Harry fora convocado para uma Audiência Disciplinar por usar magia enquanto ainda era menor de idade, naquela manhã também havia cerca de cinquenta pessoas em vestes cor de ameixa com um W bordado no lado esquerdo do peito em fio de prata. Eram os jurados, membros da Suprema Corte dos Bruxos. Harry procurou por um rosto conhecido, mas não achou nenhum.

Ao olhar para a primeira fila Harry chegou a ter esperanças de encontrar o chapéu-coco verde-limão de Fudge e o rosto severo e justo de Amelia Bones antes de se lembrar que a Amelia fora assassinada e Fudge já não exercia qualquer cargo no Ministério. Em seus lugares estavam respectivamente Kingsley Shacklebolt e Elphias Doge. Após um breve período em que exerceu interinamente o cargo de Ministro da Magia, Kingsley fora eleito pela comunidade mágica para exercê-lo efetivamente. Elphias Doge, antigamente consultor especial da Suprema Corte dos Bruxos, havia sido chamado para substituir Amelia Bones provisoriamente na chefia do Departamento de Execução das Leis da Magia, pelo menos enquanto durassem os julgamentos. O terceiro ocupante da primeira fileira conversava gravemente com Shacklebolt, porém seu olhar se voltou para Harry como se percebesse que estava sendo observado e o garoto o reconheceu como Gawain Robards o chefe do Quartel General dos Aurores. Robards o encarou seriamente como se o medisse e Harry se sentiu desconfortável. Shacklebolt seguiu o olhar do chefe dos aurores e cumprimentou Harry com um aceno discreto antes de voltar a chamar a atenção de seu interlocutor.

No meio do cômodo três cadeiras com correntes estavam dispostas lado a lado, todas voltadas para os três inquiridores e os jurados. Harry engoliu em seco. Quando voltou a olhar para a própria fileira, Harry se espantou em ver como se enchera de um minuto para outro. Tinha um palpite que a maioria daquelas testemunhas não estava ali para ajudá-lo em sua defesa.

"Pois é, se você está pensando a mesma coisa que eu então as coisas não estão muito fácil para o seu lado" comentou o Sr. Weasley tentando ser simpático.

"Alguma chance de um deles ser testemunha de defesa além de mim?" Harry perguntou temendo já saber a resposta.

"Hmm..." o Sr. Weasley analisou atentamente os presentes. "Não, acredito que não. Lucius costumava ter bastante influência no Ministério, foi assim que se safou da última vez. Mas a maioria dos que o apoiava está na mesma situação que ele agora ou já não o apreciam como antes. Veja aquele último que está se sentando agora, por exemplo" o Sr. Weasley apontou para um bruxo muito idoso e muito magro. "Ele pertence ao Conselho de Hogwarts e foi ameaçado por Lucius certa vez para que votasse a favor de afastar Dumbledore da diretoria de Hogwarts quando Ginny... bem, você sabe..." ele limpou a garganta. "Além disso tem o histórico de Lucius com a Maldição Impérius... E veja o Sr. Ollivander..."

"Com licença..." uma bruxa pediu ao se sentar ao lado de Harry interrompendo a conversa. "Ah, olá Harry".

"Katie!" Harry exclamou ao reconhecer Katie Bell, sua antiga companheira de quadribol. Porém logo o estômago de Harry afundou ao ver Madame Rosmerta se acomodar ao lado da garota e se dar conta do motivo de Katie estar ali. Era para testemunhar contra Draco. "Olá Madame Rosmerta".

A dona do Três Vassouras acenou um cumprimento um tanto apreensivo.

"Harry, é verdade o que estão dizendo? Que você vai testemunhar a favor dos Malfoy?" Katie perguntou com uma sobrancelha levantada, como se o desafiasse a dizer que sim.

Harry abriu a boca para responder, porém no mesmo instante Kignsley se levantou e limpou a garganta. O fato de sua voz - normalmente ressonante e grave - estar magicamente ampliada fez com que a conversa no tribunal cessasse no mesmo instante. Percy posicionou a pena no pergaminho, tenso. O Ministro então começou calmamente e era possível ouvir o arranhar da pena de Percy por entre suas palavras.

"Senhoras e senhores, nós vamos dar início à sessão. Julgamento Criminal de 7 de agosto de 1998. Inquiridores: eu, Kingsley Shacklebolt, Ministro da Magia; Elphias Doge, Chefe Interino da Suprema Corte dos Bruxos; e Gawain Robbards, Chefe do Quartel General dos Aurores. Escriba: Percy Weasley, Subsecretário Sênior do Ministro. Os réus: Lucius Malfoy, Narcissa Malfoy e Draco Malfoy. Que entrem os acusados".

Harry, como todos os presentes, voltou-se para a entrada com o coração aos saltos. Aquilo era novo para ele. Nos julgamentos que presenciara pelas lembranças da penseira de Dumbledore, os acusados geralmente só eram chamados após as testemunhas terem sido ouvidas. Harry não contava que tudo o que dissesse a favor dos Malfoy estaria sendo assistido pelos próprios e aquilo o deixou ainda mais nervoso.

A porta se abriu e os Malfoy entraram, cada um deles sob a mira de uma varinha. Porém Harry se sentiu aliviado ao ver que eles tinham os braços livres e não ofereciam nenhuma resistência ao caminharem de queixo erguido rumo às cadeiras. Eles haviam sido vigiados na Mansão enquanto aguardavam a convocação – mais precisamente, três longos meses enquanto o Ministério se reestruturava o suficiente para conduzir os julgamentos - e Harry não os vira desde a Batalha de Hogwarts. Não pareciam ter sido maltratados nesse ínterim. De fato, Lucius já estava com o olho completamente curado sem nenhum indício de que sofrera agressões físicas no passado. O olhar de Harry se demorou em Draco enquanto os três acusados tomavam seus lugares – Narcissa na cadeira da direita, Draco na da esquerda e Lucius no meio. Draco parecia mais magro e pálido que antes, se é que aquilo era possível. Ele também não parecia tão senhor de si quanto os pais. Seu olhar estava ligeiramente mais baixo e menos petulante, apesar dele aparentemente não ter perdido o orgulho próprio.

A primeira reação dos expectadores foi um murmúrio, mas depois que alguém tomou coragem para gritar o primeiro insulto houveram vários. Até que Shacklebolt reinstaurou o silêncio com sua voz ribombante.

"Ordem no tribunal" ele pediu severamente e o barulho morreu. Então sua voz retomou a costumeira calma. "Quero lembrar a todos que essas pessoas estão aqui para serem julgadas justamente e que ainda não foram declaradas culpadas ou não. E isso cabe apenas a esta Corte. Agora eu passo a palavra para Elphias Doge".

Doge se levantou e o Ministro se sentou. Elphias era velho e encurvado pela idade. As mãos tremiam um pouco enquanto segurava o papel com seus dizeres. Quando falou, sua voz asmática mesmo ampliada parecia prestes a se quebrar, mas seu olhar era firme.

"As acusações. O Sr. Draco Malfoy é acusado de participar voluntariamente do grupo de Comensais da Morte e executar tarefas sob o comando de seu líder, Tom Marvolo Riddle, dentre elas a contribuição para infiltração de Comensais na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, tentativa de assassinato e uso da Maldição Impérius. A Sra. Narcissa Malfoy é acusada de oferecer asilo ao referido grupo dentro de sua própria residência, sendo portanto acusada de acobertar ações criminosas e dificultar as investigações dos aurores, ainda que não haja nenhuma evidência de que tenha participado ativamente do grupo. O Sr. Lucius Malfoy é acusado de fugir da prisão, onde cumpria pena por ato flagrante de invasão do Ministério; participar do círculo íntimo de Riddle como membro de destaque entre os Comensais da Morte; praticar tortura a trouxas e bruxos nascidos trouxas; entregar objeto carregado de Magia Negra para uma criança; suspeita de assassinato a funcionário do Ministério; uso de diversas Maldições Imperdoáveis; entre outras acusações".

A voz de Doge havia quase desaparecido completamente quando ele se interrompeu para tomar um copo d'água, após o que continuou.

"Assim sendo, convido a primeira testemunha a se levantar: O Sr. Arthur Weasley, chefe da Seção para Detecção e Confisco de Feitiços Defensivos e Objetos de Proteção Forjados" O Sr. Weasley se pôs de pé rapidamente, alisando as vestes. "Sr. Weasley, o senhor poderia descrever para esta Corte sua acusação?"

"Na verdade..." o Sr. Weasley começou, fazendo esforço para falar alta e claramente. "Gostaria de retirar a minha queixa contra o Sr. Lucius Malfoy".

Houve um burburinho em todas as arquibancadas e Harry achou ter ouvido mal. Mas pelo jeito não fora o único a ter dúvidas.

"Como?" perguntou Doge aturdido e a pena de Percy quase caiu.

"Eu gostaria de saber se ainda há tempo de retirar a minha queixa e, assim sendo, me recusar a testemunhar contra esta família" o Sr. Weasley continuou com toda calma, ajeitando os óculos como se tivesse acabado de pedir seu chá com leite.

"Mas que absurdo!" Gawain Robards reclamou e mesmo que sua voz não estivesse ampliada magicamente Harry teve certeza que todos no tribunal o ouviram.

"Silêncio" pediu Shacklebolt voltando a se levantar e encarando o Sr. Weasley com seriedade. "Sr. Weasley, o senhor tem todo o direito de se recusar a testemunhar bem como de retirar sua queixa, embora não devesse ter deixado para tomar essa decisão no último momento. Se isso é tudo, pode voltar a se sentar".

"Obrigado, senhor Ministro" Artur Weasley inclinou a cabeça respeitosamente e apesar de seu atordoamento Harry não pôde deixar de achar esquisita toda aquela formalidade para com Kingsley, que costumava tomar chá nos Weasley de tempos em tempos.

"O senhor não precisava..." Harry começou assim que o Sr. Weasley se sentou.

"Eu sei. Mas na verdade não tenho provas de minha acusação. E confio no seu julgamento, Harry".

"Sr. Doge, prossiga por favor" disse Shacklebolt antes que Harry pudesse responder alguma coisa.

"Sim senhor Ministro..." Doge falou franzindo a sobrancelha e procurando o próximo nome na lista. "Sr. Ollivander".

O fabricante de varinhas havia se recuperado muito bem nos últimos meses, mas precisou de ajuda para ficar em pé, pois seus músculos ainda estavam muito enfraquecidos por causa das diversas torturas às quais fora submetido. Doge limpou a garganta.

"Sr. Ollivander, o senhor confirma ter sido sequestrado e mantido cativo no porão da residência dos Malfoy em Wiltshire, onde sofreu incontáveis torturas?"

"Sim senhor" Ollivander respondeu depois de lançar um rápido olhar na direção de Harry. "Se não fosse Harry Potter ter me tirado de lá e providenciado para que eu fosse medicado, provavelmente não teria saído vivo daquele porão".

"O senhor confirma a presença dessas três pessoas na residência, agindo por vontade própria de maneira subserviente a Riddle?"

"Eles pareciam não estar sendo coagidos, não senhor, mas..."

"Todas elas, inclusive a Sra. Narcissa Malfoy?" Doge reforçou, aparentemente sem perceber que havia cortado a fala da testemunha.

"Sim senhor" Ollivander falou baixando os olhos.

"O senhor chegou a ser torturado por algum deles?"

"Não senhor" o fabricante de varinhas respondeu rapidamente, voltando a levantar a cabeça. "Fui torturado apelas por Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Ele temia que eu desse informações demais para os outros, caso fosse torturado por outro Comensal" ele estremeceu ao final da frase e o medibruxo ao seu lado o apoiou antes que ele caísse.

"Mas nenhuma dessas três pessoas fez alguma tentativa de ajudá-lo? Qualquer tentativa?"

"Não senhor" Ollivander respondeu tristemente.

"Então isso é tudo, obrigado" Doge o dispensou e voltou a consultar sua lista enquanto o Sr. Ollivander voltava a desmoronar no próprio assento, exaurido. "Auror Sturgis Podmore" Doge chamou. "E agora eu passo a palavra para Gawain Robards".

Podmore fora uma das vítimas da Maldição Impérius lançada por Lucius. Robards tinha a voz muito mais firme do que Doge e falava com mais paixão, muitas vezes arrancando "oh"s e "ah"s das arquibancadas com suas perguntas certeiras e impiedosas. Ele fez o interrogatório de Podmore e de muitos que se seguiram.

O próximo a ser chamado foi o Dawlish. O auror testemunhou ter visto Lucius Malfoy interrogar o Inominável Broderic Bode, que estava sob Impérius ao invadir o Ministério anos atrás para tentar pegar a profecia de Harry e Voldemort. O medibruxo que atendeu Bode confirmou os indícios da Maldição Impérius no paciente e reforçou que Bode foi assassinado logo depois por um Visgo do Diabo, porém não havia provas de que a planta fora enviada por Lucius Malfoy. Depois uma bruxa nascida trouxa testemunhou ter sido torturada na Copa Mundial de Quadribol de 1994 e disse ter reconhecido Lucius Malfoy pelos cabelos compridos de um loiro inconfundível. Em seguida foi a vez do velho bruxo do Conselho de Hogwarts. Muitos outros se seguiram antes que Madame Rosmerta fosse chamada e, por último, Katie Bell.

Em meio aos testemunhos Harry sempre se voltava para os acusados, como se eles atraíssem seu olhar. Mas a cena que via era sempre a mesma. As correntes das cadeiras não haviam ganhado vida, pois os três Malfoy além de estarem completamente desarmados não demonstraram nenhum sinal de relutância e provavelmente se comportaram muito bem perante os guardas. Estes permaneciam bloqueando a saída com expressões sérias e austeras.

Lucius Malfoy tinha o queixo erguido e uma expressão quase entediada. Narcissa Malfoy tinha o ar mais grave, seu cenho se franzia várias vezes durante os relatos, porém ela também mantinha o queixo alto e desafiador. Harry achou tê-la visto olhando em sua direção pelo canto do olho, mas ela não fez nenhum sinal nem qualquer outra tentativa de comunicação com ele. Pelo jeito era orgulhosa demais sequer para lembrar Harry de sua contribuição para a guerra. Ou talvez ela já desconfiasse por que motivo o moreno se encontrava ali no banco das testemunhas. Era certo que os inquiridores o estavam guardando para o final, como uma sobremesa. Se pelo menos a demora tivesse servido para acalmar os nervos de Harry...

Já Draco Malfoy era difícil de ler. Ele não mantinha o queixo levantado o tempo todo, às vezes baixava os olhos para as próprias mãos, se remexia na cadeira e Harry achou ter visto seu rosto se contorcendo enquanto Madame Rosmerta testemunhava sobre o tempo em que passara sob a influência da Maldição Impérius. Harry só percebeu que encarava fixamente para o garoto quando este devolveu o olhar. O moreno não soube explicar o motivo de seu coração ter saltado no peito. Talvez pela expressão de derrota que viu no rosto de seu antigo rival. Era como se Draco lhe pedisse algo com aquele olhar e Harry se surpreendeu pelo receio que teve de decepcioná-lo, de falhar em seu propósito.

"Agora a testemunha de defesa, Sr. Harry Potter" Harry se levantou sobressaltado ao ouvir a voz asmática de Doge o chamando. Harry fez uma mesura em cumprimento ao velho amigo de Dumbledore e Doge retribuiu o aceno brevemente. "Sr. Potter, mais cedo essa semana o senhor nos entregou uma evidência, correto?"

"Correto, senhor" Harry concordou.

"Se importa em descrever para esta Corte de que se trata tal evidência?"

"De maneira nenhuma, senhor. Trata-se de uma lembrança minha de uma cena que testemunhei. Eu estava na Torre de Astronomia em Hogwarts na noite em que Albus Dumbledore morreu, sob a Capa da Invisibilidade e petrificado pelo próprio Dumbledore".

Houve um murmúrio na platéia, mas a voz asmática de Doge se sobrepôs a ele. Harry conteve o impulso de se voltar para a direção de Draco para ver sua reação.

"E o que o senhor presenciou, Sr. Potter?"

"Presenciei a tentativa e falha de Draco Malfoy, sob ameaça, de cumprir uma tarefa designada por Riddle. Presenciei também a proposta de Dumbledore, que ofereceu esconderijo e proteção a Draco e sua família se ele viesse para o nosso lado".

"Você afirma que o jovem falhou em sua tentativa".

"Sim. Como Dumbledore, acredito que Draco nunca o teria matado. E acredito também que se houvesse um pouco mais de tempo Draco teria aceitado a oferta de Dumbledore e só não o fez por acreditar que o diretor já estava derrotado".

"Se ele tivesse aceitado?"

"Eu teria feito valer a promessa de Dumbledore, estando ele vivo para cumpri-la ou não" Harry falou com convicção arrancando uma exclamação da platéia.

"Você teria protegido todos os Malfoy?" Robards falou aparentemente incapaz de se conter.

"Sim" Harry respondeu com a mesma convicção. O chefe dos aurores comprimiu a boca, mas não disse mais nada, pelo que Doge prosseguiu.

"E o senhor tem mais algo a acrescentar em favor de Draco Malfoy?"

"Sim. Draco Malfoy pode ter se juntado aos Comensais por vontade própria, mas no fim ele só estava agindo sob ameaça. Posso dizer com certeza que ele se arrependeu de sua escolha".

Harry respirou fundo e relatou as vezes em que Draco tentara salvá-lo, ainda que suas tentativas fossem inúteis sem que ele arriscasse a própria vida. Harry contou também como a varinha de Draco contribuiu para sua vitória. Depois relatou que - através da conexão que tinha com a mente de Voldemort e das lembranças de Snape - Harry presenciara como Lucius e Narcissa haviam deixado de ser leais a Voldemort a partir do momento em que este demonstrara descaso pela vida de seu filho, como Narcissa acreditava que Voldemort intentava que Draco morresse tentando completar uma missão impossível, como os Malfoy já não se importavam mais com quem ganhasse contanto que salvassem a vida do filho. Contou por fim como Narcissa mentira sobre a morte de Harry, poupando-lhe a vida, preocupada apenas com o filho e como Lucius e Narcissa estavam desarmados na Batalha de Hogwarts, como se mantiveram neutros no final.

"Besteira" disse Robards às palavras de Harry. "Eles perceberam quem estava ganhando e mudaram de lado para caírem nas nossas graças! Eles já se safaram antes e estão tentando fazer o mesmo agora!"

"Foi criado algum débito de vida com o ato de Narcissa?" Doge perguntou ignorando as palavras do chefe dos aurores.

"Não" Harry respondeu. "Eu havia acabado de salvar a vida de Draco do Fogomaldito na Sala Precisa. Acredito que por isso ficamos quites".

"Então você não está agindo em defesa dos Malfoy por ter alguma dívida para com eles?"

"Não senhor. Estou defendendo minhas próprias convicções".

"Sim, sim, prossiga" Doge concedeu e Harry concluiu.

"Como eu dizia, Voldemort perdeu a lealdade dos Malfoy quando demonstrou descaso pela vida de Draco. E eles provaram que valorizam a família acima de qualquer coisa".

"E por isso deveriam ser inocentados de todas as acusações?" disse Robards sarcástico.

"Eu só gostaria que vocês compreendessem o quanto essa família foi importante para a nossa vitória. Se não fosse pela varinha de Draco e pela mentira de Narcissa, eu não teria sobrevivido para derrotar Voldemort".

"Mas e quanto a Lucius Malfoy?" Robards continuou. "Nós trouxemos aqui várias testemunhas de crimes cometidos por esse homem. Percebi que em toda a sua defesa você não tentou sequer uma vez desmentir os muitos testemunhos contra Lucius Malfoy. Você não pode estar sugerindo, Sr. Potter que nós ignoremos tudo o que foi dito perante essa Corte apenas porque é você quem está pedindo?"

Shacklebolt limpou a garganta. Até mesmo Percy havia parado de escrever para encarar Robards. Este pareceu perceber o que acabara de dizer e voltou a se sentar.

"Continue Sr. Potter. Tenho certeza de que você tem mais argumentos do que estes" o Ministro falou calmamente.

Harry respirou fundo e se dirigiu especialmente aos jurados quando falou.

"Estou, sim, apelando para o coração dessa Corte. Depois de todo meu relato, quero lembrar os jurados da proposta de Dumbledore. Ele entendeu o que realmente importava para Draco e tentou usar isso para trazer a família toda para o nosso lado. Se a única coisa que impediu os Malfoy de serem leais Voldemort foi justamente o fato de Voldemort tê-los separado, nós não conseguiremos que eles fiquem do nosso lado separando-os. Isso só criaria mais rancor nessas pessoas que já foram muito maltratadas pelo ódio de quem elas seguiam. O pior castigo para os Malfoy foi o que eles já passaram nas mãos de Voldemort. Eu fui separado da minha família antes mesmo de entender o real significado da palavra e não desejo isso nem para o meu pior inimigo".

Harry fez uma pausa diante dos sussurros que surgiram a toda sua volta e por um momento se permitiu ter esperanças.

"Quanto a Lucius Malfoy" Harry continuou ignorando os olhares piedosos que muitos jurados lançavam em sua direção. "Não estou pedindo que ele seja inocentado de todas as acusações, apenas que não seja mandado para Azkaban. Acredito que a companhia de Draco e Narcissa só fará bem a ele. Lucius poderá se apegar ao seu melhor lado junto da família. Mandá-lo para Azkaban só o tornará amargurado e além de alimentar o ódio dele pelo Ministério, também destruirá o que há de melhor no restante de sua família".

"Você está sugerindo Liberdade Condicional ao réu?" Doge questionou.

Houve outra comoção entre os jurados.

"Não estou sugerindo nada, senhor. Essa decisão cabe apenas aos senhores. Já disse tudo o que eu tinha a dizer".

"Obrigado" Slacklebolt o dispensou.

Harry tornou a se sentar ignorando o olhar que Katie lançava em sua direção. Sentiu-se grato quando o Sr. Weasley colocou uma mão em seu ombro como que para assegurá-lo de que havia feito o que podia. Mas Harry sabia que estava pedindo demais. Mesmo com toda a indulgência que o Ministério demonstrava a seu favor. O moreno continuou sem ter coragem de encarar os Malfoy que permaneceram em silêncio durante toda a audiência, porém se viu obrigado a olhar diante das próximas palavras do Ministro.

"Os acusados têm algo a dizer em seu favor?"

O olhar de Harry encontrou o de Draco imediatamente, mas o loiro desviou os olhos antes que Harry pudesse tirar alguma conclusão sobre a intensidade das emoções que achou ter visto. Por um momento pareceu que nenhum deles se manifestaria, porém Lucius acabou falando lentamente.

"Acredito que posso oferecer informações úteis ao Ministério um troca de não ir para Azkabam".

Robards soltou o ar pelo nariz num ato de desprezo.

"Duvido que ele dê mais nomes além dos que já temos, senhor Ministro".

"Não apenas nomes de Comensais" Lucius continuou como se não houvesse sido interrompido. "Posso dizer quem estava agindo por vontade própria e quem estava sob efeito de feitiços persuasivos. Posso dizer quem fez o quê. Posso dar o paradeiro de pessoas desaparecidas. Ou o que sobrou delas. Posso dizer, por exemplo, o nome dos responsáveis pela morte de Amelia Bones e quem mantinha Pius Thicknesse sob Impérius".

A essas últimas palavras, houve outra comoção entre os jurados. Thicknesse pertencia ao Departamento de Execução das Leis da Magia antes de se tornar Ministro sob o controle de Voldemort. Sem contar que ninguém ainda havia se recuperado do assassinato brutal de Amelia Bones. Shacklebolt limpou a garganta novamente.

"Os demais têm algo a dizer em defesa própria?" Houve um silêncio prolongado carregado de expectativa antes de o Ministro voltar a falar. "Sendo assim, peço que se manifestem aqueles que são a favor de inocentar Narcissa Malfoy de todas as imputações".

Timidamente, os jurados começaram a levantar as mãos e Harry sentiu um alívio percorrê-lo ao constatar que mais da metade das mãos havia se levantado. Não havia como não perceber que todas as mulheres tinham se manifestado a favor, provavelmente a maioria delas era mãe e compreendiam muito bem o que Narcissa passara.

"Os que são a favor da condenação?" o Ministro pediu e poucas mãos masculinas se levantaram, cerca de quinze pessoas.

"Narcissa Malfoy, portanto, está livre para deixar esta Corte" Shacklebolt falou, porém Narcissa sequer mexeu um músculo, apesar de que Harry podia reparar como seu peito arfava visivelmente. "Agora os que são a favor de inocentarem de Draco Malfoy de todas as imputações".

O coração de Harry bateu forte no peito conforme os jurados se entreolhavam. Mas logo as mãos começaram a se levantar. Harry começou a contar. Vinte e duas mãos para o ar. Só mais um pouco, pensou Harry e seu desejo foi atendido. Trinta pessoas levantaram as mãos. Harry sorriu e olhou na direção de Draco por puro reflexo. O loiro tinha os lábios levemente entreabertos em surpresa, a respiração visível. Draco se voltou para Harry, sua testa se franzindo lentamente.

"Eu devia ter imaginado" Katie Bell reclamou ao seu lado, mas Harry mal a ouviu.

"Os que são a favor da condenação?" o Ministro falou por sobre o burburinho dos expectadores, mas Harry não se preocupou em contar as mãos. "Draco Malfoy está também livre para deixar esta Corte".

Draco foi o primeiro a desviar os olhos, porém como sua mãe não fez qualquer menção de se levantar. O Ministro suspirou sonoramente antes de continuar.

"Peço agora que se manifestem aqueles que são a favor de inocentar Lucius Malfoy de todas as acusações apresentadas, concedendo-lhe liberdade plena como qualquer outro cidadão".

Harry sentiu o estômago afundar. É claro que Shacklebolt não estava facilitando colocando as palavras daquela maneira. Três mãos tímidas se levantaram no ar. E nenhuma a mais.

"Os que são a favor da condenação de Lucius Malfoy com pena de prisão perpétua em Azkaban?"

Harry prendeu a respiração. Dez mãos se levantaram com determinação. E nenhuma a mais. Harry franziu o cenho, confuso. Alguns expectadores começaram a comemorar, mas Shacklebolt pediu silêncio.

"Agora os que são a favor da condenação de Lucius Malfoy com pena de Liberdade Condicional em troca de informações a respeito das atividades dos Comensais da Morte".

Várias mãos se levantaram no mesmo instante e Harry arregalou os olhos, incrédulo.

"Parabéns, Harry!" o Sr. Weasley cochichou em seu ouvido enquanto toda a arquibancada se manifestava, não necessariamente com vivas. "Você conseguiu".

"E-eu..." Harry mal podia acreditar. Olhou para Lucius Malfoy e se perguntou se havia mesmo feito a coisa certa. O homem não havia movido um músculo sequer do rosto. Mas então Harry viu como ele havia alcançado a mão do filho e a apertava firmemente. Do outro lado Narcissa segurava o braço do esposo com força. O coração de Harry desanuviou de imediato. "Eu consegui".

"Ordem no Tribunal" a voz possante de Shacklebol pediu e foi atendida. "Sr. Lucius Malfoy, o senhor foi condenado a Liberdade Condicional por esta Corte. O senhor deverá responder imediatamente a qualquer convocação do Ministério para dar depoimento. Daqui a uma semana a contar de hoje - nenhum dia a mais – sua residência será minuciosamente revistada por aurores e quaisquer objetos suspeitos de Magia Negra serão confiscados. O senhor estará sujeito a um Feitiço de Rastreamento e não poderá deixar o país sem comunicar ao Ministério antes. Estará livre para ir e vir em Londres, mas se for flagrado utilizando qualquer das Maldições Imperdoáveis ou qualquer tipo de feitiço relacionado a Magia Negra ou ainda em posse de objeto suspeito, será mandado para Azkaban sem direito a julgamento. O senhor se declara ciente de tais condições?"

"Sim senhor" Lucius Malfoy respondeu impassível.

"Aguarde nossa convocação em breve. Quanto aos seus direitos, com o risco decorrente de sua disposição a atuar como testemunha, o senhor e sua família têm direito a requerer proteção do Ministério caso se sinta ameaçado. Aos demais expectadores eu lembro que esta família foi julgada abertamente e que qualquer atentado a estes cidadãos será punido conforme a lei. Eu declaro esta sessão encerrada e a Corte dispensada. Um bom dia a todos".

As pessoas começaram a se levantar, mas Harry permaneceu sentado.

"Harry eu tenho que ir encontrar Molly, mas gostaria que você fosse almoçar conosco hoje" o Sr. Weasley teve que falar alto, mesmo estando ao seu lado. "E não aceito um não como resposta".

Harry sorriu.

"Está bem".

"Ótimo. Até daqui a pouco".

Harry recebeu vários tapinhas nas costas, ainda que muitas das testemunhas parecessem contrariadas. Mas não conseguia desgrudar os olhos da cena a sua frente. Os três Malfoy haviam se levantado e se abraçavam no meio do tumulto de pessoas nas arquibancadas se atropelando para a saída.

"Eu aprecio sua atitude, Harry" Harry ouviu a voz do Sr. Ollivander a seu lado e se obrigou a desviar os olhos dos Malfoy. O fabricante de varinhas havia se sentado ao seu lado. "Principalmente em favor do garoto. Qualquer um podia ver que ele estava apavorado".

"O senhor não está zangado por eu tê-los defendido?" Harry perguntou intrigado.

"Claro que não. Apenas fiz a minha obrigação como cidadão. Dei meu depoimento conforme solicitado pelo Ministério. Mas você fez mais do que sua obrigação. Você lutou por uma causa perdida".

Harry suspirou e sorriu.

"Obrigado Sr. Ollivander. O senhor está bem, espero?"

"Perfeitamente!" o velho assentiu animado, mas Harry o ajudou a se levantar assim mesmo. Ele agora usava uma bengala para se apoiar. "Tenho esperanças de reabrir minha loja em breve. Gostaria que você comparecesse à inauguração".

"Com prazer" Harry o certificou e eles se despediram.

"Potter" Harry se voltou para ver Gawain Robards com um sorriso amarelo no rosto. Era tão incomum ver aquele homem sorrindo que Harry pensou por um momento se ele não estaria com dor de dente. "Espero que você não tenha ficado chateado pelas coisas que eu disse lá de cima. Sabe como é... nós temos que nos despir de qualquer favoritismo ao representarmos a lei, você entende?"

"Claro, claro" Harry respondeu surpreso. Apesar de ter recusado a oferta de Rufus Scrimgeour sobre uma possível entrevista com Robards por puro orgulho, Harry se viu um pouco intimidado pelo homem. "Senhor" emendou o mais rápido possível.

"Sem ressentimentos?" Robards ofereceu a mão e Harry a apertou. "Ótimo, ótimo. O velho Rufus me falou sobre suas aspirações, mas isso foi antes da Guerra. Você ainda está disposto a se tornar auror?"

Harry não soube o que dizer. Não tinha mais parado para pensar naquilo, mas quando imaginava uma profissão para si mesmo só conseguia pensar em algo que envolvesse empregar suas habilidades com duelos e Defesa Contra as Artes das Trevas. Eu poderia me sentir satisfeito sendo auror, Harry pensou. Mas então...

"Quem sabe, depois que eu terminar os estudos, senhor. Ainda não tirei meu diploma".

"Terminar os estudos?" Robards riu e passou uma mão pelos ombros de Harry como se o conhecesse desde sempre e o garoto se viu forçado a caminhar acompanhando o fluxo de pessoas que deixavam o aposento. "Ora rapaz, não seja modesto. Você derrotou o bruxo mais temido deste século e vem me falar de um pedaço de papel? Ou será que você acha que o treinamento necessário para o nosso quartel envolve sentar em uma cadeira e ficar ouvindo sobre datas e nomes de eventos do passado? Nós prezamos a experiência prática, a agilidade, a estratégia, a luta" o chefe dos aurores falou com paixão. "E nós dois sabemos que você tem talento para isso. Afinal não foi à toa que sobreviveu durante tanto tempo lá fora quando sua cabeça estava a prêmio".

"O-obrigado, senhor" Harry gaguejou reprimindo-se por se deixar atingir por aquelas palavras. Estava acostumado a ouvir adulações por onde quer que passasse e com o tempo aprendera a deixar entrar por um ouvido, sorrir, agradecer polidamente e deixar sair pelo outro. Mas de alguma forma receber tais elogios de um homem de tal escalão fazia Harry se sentir perigosamente vaidoso.

"Nada de formalidades, Harry. Posso chamar você de Harry?" Harry assentiu e Robards finalmente soltou seus ombros, parando para encará-lo. "Ótimo. Bem, como eu ia dizendo vou fazer uma proposta para você. Passe no meu escritório um dia desses e assista ao nosso treinamento sem compromisso. Se você gostar, começa no dia seguinte. O que me diz?"

"Eu..." Harry desviou os olhos e passou a mão pelos cabelos, indeciso. Estava tentado. Uma parte de si mesmo dizia que Robards só estava fazendo aquela proposta por ele ser Harry Potter. Outra estava se gabando de que Harry tinha qualidades para ser um ótimo auror e que ele poderia provar seu valor uma vez que aceitasse a proposta de Robards. "Vou pensar a respeito" o garoto falou, por fim.

"Tenho certeza que você vai aceitar, Harry" Robards ofereceu a mão novamente. "Até breve".

Harry o observou afastar e ficou ainda algum tempo absorto nos próprios pensamentos antes de se lembrar onde estava e por que motivo. Olhou ao redor procurando pelos Malfoy, mas eles não estavam em nenhum lugar visível. Harry praguejou sem saber muito bem por que se sentia tão decepcionado. Não era como se tivesse algo a dizer para algum deles.

"Harry! Aqui!" Harry viu primeiro Ron, depois a mão de Hermione que ficava na ponta dos pés para chamar sua atenção em meio à multidão. Harry se dirigiu automaticamente para lá, por um momento se esquecendo de que Ron não estava muito feliz com ele nas últimas semanas. "Harry, você foi incrível!" Hermione falou animada. "Confesso que achei que você não se sairia muito bem sem minha ajuda, mas para variar eu subestimei você. Você usou todos os argumentos corretos, soube mexer com a emoção dos jurados... Ah, que orgulho!"

Por um momento Harry achou que a amiga o abraçaria, mas por sorte ela se contentou em dar pulinhos de excitamento.

"Hey..." Ron o surpreendeu ao cumprimentar. "Você foi muito bem..."

"Obrigado" Harry agradeceu sem saber o que fazer. Será que aquilo era um pedido de desculpas?

"Você vai conosco, Harry?" Hermione perguntou olhando de um para outro. "O Sr. Weasley falou que você tinha aceitado o convite para o almoço".

"Eu diria que foi mais uma intimação" Harry falou. "Sim, eu vou. Se estiver tudo bem pra todo mundo" acrescentou lançando um olhar de esguelha para o ruivo.

Ron suspirou.

"Olha, cara, sinto muito, ok? Sei que fui um idiota, que você tem seus motivos e etc. Mas você tem que entender que Ginny é minha irmã e..."

"Eu entendo, Ron" Harry o interrompeu. "Além de sua irmã, ela é minha namorada. Eu também me importo com ela. Só não sei se você reparou que ela cresceu bastante desde o incidente com o diário e pode se defender por si mesma. Ela foi a vítima e poderia ter pedido para eu não defender Lucius, mas não pediu!"

"Mas isso é porque ela sabe que você teria feito o que bem entendesse e preferiu não brigar com você, será que você não entende?"

"E você preferiu brigar comigo?" Harry perguntou irritado. Devia ter imaginado que Ron não daria o braço a torcer tão facilmente.

"Ron, Harry, já chega!" Hermione falou por cima da voz dos dois. "É uma vergonha vocês brigarem depois de tudo o que passamos juntos! Pensei que tinham amadurecido um pouco com essa Guerra, mas pelo jeito me enganei! Vocês dois vão ter que simplesmente concordar em discordar sobre esse assunto. E não se fala mais nisso".

Harry passou a mão pelos cabelos e Ron rolou os olhos, ainda zangado. Foi a vez de Harry ceder.

"Ron, Hermione tem razão. Não vamos brigar por causa disso".

Ron relutou a encará-lo nos olhos por algum tempo, mas acabou deixando os ombros caírem.

"Está bem, eu já estava sentindo falta de alguém que não se incomoda em perder para mim no xadrez" ele falou com tanta seriedade que Harry achou engraçado.

"É bom saber que alguém sentiria minha falta se eu caísse morto de uma hora para outra, Ron" Harry deu um tapinha nas costas do melhor amigo e os três seguiram para as escadas.

"O que Robards queria?" Ron perguntou e Harry se perguntou quanto esforço teria custado ao ruivo para conter a curiosidade por tanto tempo.

"Você nunca adivinharia" Harry falou sarcástico.

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"Deite aqui Harry" Ginny sorriu para ele indicando a almofada em seu colo. Harry olhou ao redor. Não havia mais ninguém na sala dos Weasley. Todos pareciam subitamente ocupados com alguma coisa apenas para dar mais privacidade aos dois. "Vamos Harry, não há nada de mais nisso. As portas estão abertas e você já é de casa" Ginny o encorajou.

Harry pensou em argumentar, mas acabou aceitando. Estava mesmo se sentindo sonolento depois de comer tanto no almoço. Do jeito que estava sentado, Harry se inclinou para apoiar a cabeça no colo da namorada. Ginny riu.

"Tire os sapatos, Harry! Estique as pernas! Vamos, fique à vontade... será que vou precisar chamar minha mãe aqui para convencer você de que está tudo bem?"

"Ginny..." Harry reclamou, mas acabou sorrindo junto com ela. Tirou os sapatos e se esticou no sofá, tentando relaxar. Ginny passou a mão delicadamente por seus cabelos e o moreno respirou profundamente, se acomodando melhor. "Me avise se George chegar perto demais. E se eu dormir, não me deixe sozinho!"

"Está bem, está bem..." Ginny falou sorridente e Harry deixou o olhar se demorar no rosto dela enquanto apreciava o carinho. Ela estava inclinada em sua direção, os cabelos cor de gengibre emoldurando o rosto e destacando as sardas nas maçãs no rosto e no nariz. "Pode fechar os olhos. Relaxe Harry".

E Harry assim o fez. Ginny era tão carinhosa com ele! Harry não se lembrava de ter recebido um afago assim em toda sua vida. Ele se perguntava se sua mãe teria sido carinhosa com ele como Ginny...

Harry afastou tal pensamento. Qualquer um podia ver que não era saudável relacionar a namorada com a mãe.

Ginny era perfeita para ele. Eles eram muito parecidos em certos aspectos. Ela era durona e teimosa como Harry. Mas justamente por ela ser tão perfeita... Harry sentia que faltava alguma coisa. Talvez viesse com o tempo.

"Ginny, você pode responder uma pergunta com toda sinceridade?"

"Claro!" Ginny concordou curiosa e Harry abriu os olhos para encará-la.

"Você ficou zangada por causa do julgamento?" ela bufou, mas Harry fez questão de reforçar. "Sinceramente, Ginny".

Ela mordeu o lábio inferior e seus olhos perderam o foco por alguns instantes.

"Confesso que tive esperanças de que você se negasse a testemunhar em favor de Lucius Malfoy mesmo sem eu pedir. Por mim. Mas reconheço que foi egoísmo da minha parte" ela deu um sorriso forçado. "No entanto, acho que entendo você. Eu estava lá quando você lançou aquele feitiço desconhecido em Malfoy. Vi como você ficou abalado. Entendo que você se sentiu culpado desde então e tentou compensar de alguma forma. E Mione me contou sobre seus argumentos como testemunha de defesa. Talvez tenha sido a coisa certa a se fazer... Se não fosse você querer defender o pai dele, com certeza ninguém o faria".

A mente de Harry ficou dando voltas repetindo as palavras de Ginny. Seria aquele o motivo de Harry querer fazer tudo que estivesse em suas mãos em favor de Draco? Culpa? Harry fechou os olhos e as lembranças o assaltaram novamente. Draco estirado no chão do banheiro feminino, gemendo, a água se tingindo do mesmo vermelho que cobria seu peito e escorria de seu rosto... O choque e o desespero que Harry sentiu ao se dar conta do que fizera...

"Recebi uma coruja da capitã das Harpias de Holyhead" Ginny falou depois de algum tempo.

"Como?" Harry tornou a abriu os olhos, espantado.

"A capitã das Harpias de Holyhead me convidou para um teste" Ginny deu de ombros. Mas havia algo em seu tom que denunciava o falso descaso.

"Ginny, isso é ótimo!" Harry falou. Então franziu o cenho diante da falta de entusiasmo da namorada. "Você respondeu dizendo que vai, certo?"

"Não, ainda não respondi. Mas honestamente não me sinto tão animada..."

"Por que não?" Harry se levantou para encará-la do mesmo nível. "Seus irmãos sabem disso? Rony sabe?" quando ela não respondeu, Harry continuou. "Ginny, ninguém da sua família conseguiu um convite desses! Eles vão ficar tão orgulhosos de você! Você é uma ótima jogadora, tenho certeza que você passaria no teste!"

"Mas Harry... as Harpias estarão no país durante a temporada de jogos, mas e depois?" ela se exasperou. "Fazer parte do time significa deixar tudo para trás e viajar pelo país!"

"E isso não é ótimo?"

"E a minha família, Harry? Não é à toa que as Harpias escolhem apenas garotas solteiras para o time. Eu teria que ficar longe da minha família pelo tempo que fosse preciso! Sei que a escola não será problema, mamãe já disse que concordaria contanto que eu me dispusesse a estudar por conta própria e prestar os exames de NIEM's assim que possível, mas..." ela desviou os olhos para as próprias mãos. "E nós dois? Como ficaríamos? Você não vai querer me acompanhar, não agora que já tem uma vaga no QG dos Aurores praticamente garantida..."

Harry meneou a cabeça, incrédulo.

"Ginny, nós temos a vida inteira pela frente. Nunca pedi pra você fazer sacrifícios por nós dois. Aliás, nunca me perdoaria se você deixasse passar uma chance dessas por minha causa! Posso esperar o tempo que for preciso..."

"Não seria justo fazer você esperar!" Ginny teimou.

"Então você prefere que nós terminemos?" Harry falou sem pensar e Ginny arregalou os olhos em surpresa. Harry praguejou mentalmente. "Ginny pense! É a chance da sua vida! Você consegue se imaginar a vida inteira como sua mãe? Cuidando de uma casa e dos filhos pelo resto da vida?"

A garota meneou a cabeça lentamente e Harry continuou.

"É claro que não. Também não vejo você assim. Agora deixe de bobagens. Sei que você está doida para responder que fará o teste, então faça isso".

Ao invés de responder, Ginny o beijou.

Harry correspondeu ao beijo. Mas por algum motivo, não conseguiu tirar Draco Malfoy do pensamento. Não, Harry não havia sequer cogitado desistir de defender Lucius por Ginny. Ele havia, ao contrário, defendido Lucius por causa de Draco. O que aquilo queria dizer?

E, mais importante, por que Harry se importava?

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Continua...

N.A.: Bem, é aqui que a fic começa de verdade. No Capítulo 2 eu tive 163 hits e 14 reviews \o/. Obrigada a todos que comentaram!

E Carol, o site engoliu o seu e-mail então eu vou ter que continuar respondendo por aqui rss. Obrigada, moça! Que bom que está gostando! Me deixe saber se você fizer um login, ok?