Capítulo 3
— Eu disse para você que aquela garota não prestava. — Eu sei Mae.
— Eu disse que você estava cometendo um erro aceitando a garota daquele jeito.
— Sim, Mae. — Gina engoliu um suspiro. — Você me disse.
— Se continuar pegando cobras, vai acabar sendo mordida.
Gina resistiu, só ligeiramente, à vontade louca de gritar.
— Eu sei que você me disse.
Com um grunhido satisfeito, Mae terminou de limpar seu orgulho e alegria — o fogão a gás de oito bocas. Gina podia dirigir o hotel, mas Mae tinha suas próprias idéias de quem era a chefe ali.
— Você tem o coração muito mole, Gina.
— Pensei que tinha dito que sou cabeça-dura.
— Isso também. — Como tinha um carinho especial pela jovem funcionária, Mae serviu-lhe um copo de leite e cortou uma fatia generosa do que havia sobrado do bolo de chocolate de duas camadas. Mantendo uma voz zangada, colocou os dois sobre a mesa. — Coma isto agora. Meus bolos sempre deixam você mais feliz.
Gina sentou-se e enfiou um dedo na cobertura.
— Eu teria dado uma folga para ela.
— Eu sei. — Mae esfregou a mão larga no ombro de Gina. — Este é o seu problema. Você é muito caridosa.
— Odeio que me façam de boba. — Ainda aborrecida, Gina abocanhou um grande pedaço do bolo. Chocolate, tinha certeza, seria um remédio muito melhor para dor de cabeça do que um vidro inteiro de aspirinas. Sua culpa era uma coisa diferente. — Acha que ela vai conseguir outro emprego? Sei que ela precisa pagar o aluguel.
— Gente do tipo de Mary Alice sempre aterrissa sobre os dois pés. Não ficaria surpresa se ela se mudasse de mala e cuia para a casa do tal Perkin, portanto, não precisa se preocupar com gente como ela. Eu não lhe disse que ela não duraria seis meses?
Gina colocou outro pedaço de bolo na boca.
— Você disse? — murmurou.
— Agora me diga, quem é esse homem que você trouxe para casa?
Gina tomou um gole do leite.
— Harry Potter.
— Que nome mais estranho. — Mae olhou em torno de si, para toda a cozinha, surpresa e um pouco desapontada por não ter mais nada que fazer. — O que sabe sobre ele?
— Ele precisava de um trabalho.
Mae enxugou suas mãos avermelhadas no avental.
— Imagino que existam muitos assaltantes, ladrões e assassinos em série precisando de trabalho.
— Ele não é um assassino em série — declarou Gina. Achou que seria melhor reservar seu julgamento para as outras ocupações citadas por Mae.
— Talvez sim, talvez não.
— Ele é um andarilho. — Encolheu os ombros e engoliu mais um pedaço de bolo. — Só que não diria sem destino. Ele sabe para onde vai. De qualquer maneira, com a partida do George para dançar o hula-hula, eu precisava de alguém. E ele trabalha bem, Mae.
A própria Mae tinha reconhecido isso, fazendo uma viagem rápida à ala oeste. Mas tinha outras coisas em mente.
— Ele olha para você.
Surpresa, Gina correu a ponta do dedo para cima e para baixo do lado do copo.
— Todos olham para mim. Estou sempre aqui.
— Não banque a bobinha comigo, mocinha. Já troquei muitas fraldas suas.
— E o que isso tem a ver com qualquer coisa? — Gina respondeu com um sorriso. — Ele me olha? — Deu de ombros. — Pois eu olho de volta. — Quando Mae arqueou as sobrancelhas, Gina apenas sorriu. — Você não vive me dizendo que preciso de um homem em minha vida?
— Existem homens e homens — disse Mae, com sabedoria. — Esse não tem os olhos maus, e não tem medo do trabalho. Mas demonstra ser muito tenso. Esse sujeito já fez das suas, minha menina, não se iluda.
— Acho que você passou muito tempo com Jimmy Loggerman.
— Um verme sem espinha.
Gina deu uma gargalhada e, em seguida, segurou o queixo da amiga entre as mãos.
— Você tinha razão, Mae. Estou me sentindo melhor. Contente, Mae desamarrou o avental da ampla cintura. Não duvidava de que Gina fosse uma garota sensível, mas pretendia ficar de olho em Harry.
— Ótimo. Agora, não coma mais nem um pedaço desse bolo, se não vai ter dor de barriga a noite toda.
— Sim, senhora!
— E não deixe minha cozinha bagunçada— acrescentou, enquanto vestia um casaco marrom.
— Não, senhora. Boa noite, Mae.
Gina suspirou quando a porta fechou-se atrás de Mae. Sua saída geralmente assinalava o fim do dia. Os hóspedes já estariam deitados em suas camas, ou terminando um jogo de cartas. Tirando alguma emergência, não havia mais nada para Gina fazer até o nascer do sol.
Nada a fazer a não ser pensar.
Ultimamente, andava brincando com a idéia de mandar fazer uma piscina de hidromassagem. Isso poderia aumentar em pequena percentagem o número de freqüentadores do resort. Tinha levantado o preço de alguns kits para um solário, e já podia até ver em sua mente uma sala onde pudessem tomar banho de sol, na ala sul do hotel. No inverno, os hóspedes poderiam voltar das caminhadas para uma banheira quente e borbulhante e encerrar o dia com um ponche de rum junto da lareira.
Ela mesma gostaria muito, especialmente em um daqueles raros dias de inverno, quando o hotel ficava vazio e não havia nada para fazer a não ser ficar andando por ali sozinha.
Depois, havia também seu plano a longo prazo de acrescentar uma loja de presentes que teria objetos dos artistas e artesãos locais. Nada de muito elaborado, pensou. Queria manter tudo simples, para não fugir ao espírito do hotel.
Ficou imaginando se Harry permaneceria por ali tempo suficiente para trabalhar no que estava pensando.
Não era sábio pensar nele ligado a qualquer de seus planos. Provavelmente, não era sábio pensar nele de maneira alguma. Ele era, como ela mesma dissera, um andarilho. E homens como Harry não ficavam em um lugar por muito tempo.
Ela parecia ser incapaz de parar de pensar nele. Quase que desde o primeiro momento, sentira alguma coisa por ele. Atração, era uma dessas coisas. Afinal de contas, ele era um homem atraente, de uma maneira rude e perigosa. Mas havia mais. Alguma coisa em seus olhos verdes e iintensos? Perguntou-se. Em sua voz? No modo como se movia? Ela brincou com o resto do pedaço de bolo, desejando descobrir o que poderia ser. Podia simplesmente por ele ser tão diferente dela. Taciturno, desconfiado, solitário.
E no entanto... Seria sua imaginação, ou havia alguma coisa nele que aguardava para se agarrar em alguma coisa? Ele precisava de alguém, pensou ela, apesar de talvez nem mesmo saber disso.
Mae tinha razão, pensou. Ela sempre tivera um fraco por marginais e pessoas com falta de sorte. Mas este caso era diferente. Ela fechou os olhos por um momento, desejando conseguir explicar, mesmo que só para si mesma, por que era tão diferente.
Nunca vivenciara nada parecido com as sensações que surgiram nela, por causa de Harry. Era uma coisa mais do que física. Podia admitir agora. Mesmo assim, não fazia o menor sentido. E, novamente, Gina sempre pensara que os sentimentos não precisavam fazer sentido.
Por um momento na estrada deserta, naquela manhã, ela sentira as emoções que jorravam dele. Eram quase assustadoras em sua velocidade e força. Emoções como aquela podiam ferir... quem as sentisse, quem as recebesse. Elas deixaram-na tonta e dolorida — e excitada, teve que admitir.
Pensou que sabia qual seria o gosto de sua boca. Não seria macia, nem doce, mas pungente e poderosa. Quando ele estivesse pronto, não pediria, tomaria. E ela ficava preocupada por não se ressentir disso. Crescera conhecendo a própria mente, fazendo as próprias escolhas. Um homem como Harry teria pouco respeito pelos desejos de uma mulher.
Seria melhor, muito melhor, que mantivessem o relacionamento — o relacionamento a curto prazo, acrescentou — em um nível puramente profissional. Amigável, mas cuidadoso. Afundou novamente o queixo nas mãos. Era uma pena que sentisse tanta dificuldade para combinar os dois.
Ele observou-a brincando com as migalhas que agora restavam no prato. Os cabelos estavam soltos e ondulados, como se tivesse desmanchado a trança com dedos impacientes. Os pés nus estavam cruzados na altura dos tornozelos, descansando na cadeira que estava na frente dela.
Relaxada. Harry não tinha certeza de algum dia ter visto alguém tão completamente relaxado, a não ser dormindo. E era um contraste agudo com a grande energia que a dominava durante todo o dia.
Desejou que ela estivesse em seus aposentos, deitada na cama e dormindo profundamente. Desejaria não ter que cruzar com ela. Era muito pessoal. Precisava que ela saísse de seu caminho, para que atravessasse o escritório vindo do hall. Tratava-se de trabalho.
Sabia que deveria recuar e ficar fora de sua vista, até que ela se recolhesse.
Mas o que havia naquela cena de tão atraente, tão irresistível? A cozinha estava quente e os odores da comida eram sentidos agradavelmente, sobrepujando os cheiros de pinho e limão da limpeza de Mae. Havia um vaso pendurado sobre a pia, que estava pesado com uma planta verde e cheia de folhas. Cada superfície estava esfregada, limpa e brilhante. A geladeira enorme murmurava.
Ela parecia tão confortável, como se estivesse esperando que ele entrasse e sentasse ao lado dela, para conversar coisas simples e sem grande significado.
Aquilo era uma loucura. Ele não queria que nenhuma mulher esperasse por ele, especialmente não aquela.
Mas não recuou para as sombras da sala de jantar, apesar de poder ter feito isso com a maior facilidade. Andou em sua direção, na direção da luz.
— Pensei que as pessoas dormissem cedo no campo.
Ela deu um salto, mas recuperou-se rapidamente. Já estava quase acostumada com a maneira silenciosa dele se mover.
— Quase sempre. Mas Mae me serviu chocolate e um papo agradável. Quer um pedaço de bolo?
— Não.
— Melhor assim. Se quisesse, eu teria comido outro pedaço e ficado doente. Não tenho a menor força de vontade. Que tal uma cerveja?
— Sim, obrigado.
Ela levantou-se preguiçosamente e foi até a geladeira, onde verificou as marcas disponíveis. Ele escolheu uma e a ficou observando enquanto a servia em um copo comprido. Reparou que ela não estava zangada, apesar de ter estado, na última vez em que se viram. Então, Gina não guardava mágoas. Não guardaria, Harry decidiu, enquanto recebia o copo das mãos dela. Ela perdoaria quase que qualquer coisa, confiaria em qualquer um e daria mais do que seria pedido.
— Por que está me olhando desse jeito? — murmurou.
Ele se controlou e, em seguida, sorveu um generoso gole da cerveja.
— Você tem um rosto lindo.
Ela levantou uma sobrancelha quando ele se sentou e pegou um cigarro. Depois de tirar um cinzeiro de uma gaveta, sentou-se ao lado dele.
— Gosto de aceitar cumprimentos quando os recebo, mas acho que esse não era o motivo de estar me olhando daquele jeito.
— É motivo suficiente para um homem olhar para uma mulher. — Tomou outro gole de cerveja. — Você teve uma noite agitada.
Isso mesmo, disse Gina para si mesma.
— Agitada o suficiente para contratar outra garçonete e depressa. Ainda não tive a oportunidade de agradecer a você, por ter me ajudado a servir o jantar.
— Tudo bem. Passou a dor de cabeça?
Ela olhou para ele um pouco aborrecida. Mas, não, ele não estava debochando dela. No entanto, parecia que não podia estar bem certa do motivo daquela impressão ser tão forte, que sua pergunta pareceu como uma espécie de pedido de desculpas. Decidiu aceitá-lo.
— Sim, obrigada. Ficar zangada com você me fez deixar de pensar em Mary Alice, e o bolo de chocolate de Mae fez o resto. — Pensou em fazer um pouco de chá, mas depois decidiu que estava cansada demais para se incomodar. — E como foi seu dia?
Sorriu para ele como se simplesmente oferecesse sua amizade, que ele achou difícil de resistir e impossível de aceitar.
— Foi tudo bem. A Sra. Minerva disse que a porta do quarto dela estava emperrada e fingi colocar óleo.
— E ela ganhou o dia.
Ele não pôde deixar de sorrir.
— Acho que nunca fui tão convincente antes.
— Oh, imagino que sim. — Ela inclinou a cabeça, para estudá-lo de outro ângulo. — Mas, mesmo tendo que me desculpar com seu ego, no caso da Sra. Minerva, trata-se mais de uma questão de miopia do que de luxúria. Ela é vaidosa demais para usar óculos na frente de qualquer homem com mais de 20 anos.
— Eu preferiria continuar pensando que ela estava apaixonada por mim — disse ele. — Ela falou que vem duas vezes por ano para cá, desde 1972. — Ele pensou no caso por um instante, surpreso de que alguém pudesse retornar sempre a um mesmo lugar por tanto tempo.
— Ela e a Sra. Sibila já fazem parte do lugar. Quando eu era pequena, pensava que fôssemos parentes.
— Dirige o hotel há muito tempo?
— Durante idas e vindas, quase que todos os meus 27 anos.
— Sorrindo, afundou novamente na cadeira. Ela era uma mulher que relaxava com facilidade e que gostava de ver os outros relaxados também. Ele parecia estar agora, com as pernas esticadas embaixo da mesa e um copo na mão. — Você não quer realmente ouvir a história de minha vida, não é, Harry?
Ele soprou uma baforada de fumaça. — Não tenho nada para fazer. — E ele queria ouvir sua versão daquilo que tinha lido em sua ficha.
— Muito bem. Eu nasci aqui. Minha mãe se apaixonou um pouco mais tarde do que era costume na época. Tinha quase 40 anos quando nasci, e era muito frágil. Houve complicações no parto. Depois que ela morreu, meu avô me criou e cresci aqui, no hotel, exceto durante os períodos em que ele me mandou para o colégio. Eu adorava este lugar. — Olhou em volta da cozinha. — No colégio, morria de saudade daqui e do vovô. Mesmo quando já estava na faculdade, sentia tanta falta que vinha para casa todos os fins de semana. Mas ele queria que eu conhecesse outras coisas antes de me estabelecer aqui. Eu iria viajar um pouco, ter novas idéias para o hotel. Conhecer Nova York, Nova Orleans, Veneza, sei lá... — Suas palavras vagavam suavemente no ar.
— E por que não fez isso?
— Meu avô estava doente. Eu estava no último ano da faculdade quando soube o quanto ele estava doente. Quis desistir de tudo, voltar para casa, mas ele ficou tão perturbado com a idéia que achei melhor me formar. Ele ainda resistiu durante três anos, mas foi muito... difícil. — Ela não queria falar das lágrimas e do terror, ou sobre a exaustão de levar o hotel adiante, ao mesmo tempo em que cuidava de um semi-inválido. — Ele foi o homem mais valente e gentil que conheci. Fazia tanto parte deste local que às vezes ainda espero entrar num quarto e vê-lo verificando se há poeira nos móveis.
Ela ficou em silêncio por uns instantes, pensando tanto no que evitara falar, quanto no que contara. Ela sabia que seu pai fora citado como desconhecido — um obstáculo difícil em qualquer lugar, mas principalmente numa cidade pequena. Nos últimos seis meses da vida do avô, as despesas médicas quase levaram o hotel à falência. Mas ela não falou dessas coisas; nem ele detectou qualquer sinal de amargura.
— Alguma vez pensou em vender o hotel, em ir embora daqui?
— Não. Oh, ainda penso em Veneza, às vezes. Existem dúzias de lugares aos quais eu gostaria de ir, desde que tivesse o hotel para voltar. — Levantou-se para pegar outra cerveja para ele. — Quando se dirige um lugar como este, conhecemos pessoas de toda parte. Sempre existe uma história de algum lugar novo.
— Viagens por tabela?
Sentiu-se atingida, talvez porque aquela idéia estava próxima demais dos próprios pensamentos.
— Pode ser. — Colocou a garrafa perto do cotovelo dele e levou os pratos para a pia. Mesmo percebendo como ela ficara sensível àquele ponto, ele não a impediu de continuar pensando. — Alguns de nós fomos feitos para serem aborrecidos.
— Eu não disse que você era aborrecida.
— Não? Bem, suponho que seja, para alguém que pega suas coisas e parte sempre e quando decide. Simples, acomodada e ingênua.
— Está pondo palavras em minha boca, meu bem.
— É fácil fazer isso, meu bem, já que você raramente coloca alguma lá por si mesmo. Apague as luzes quando sair.
Ele segurou-a pelos braços no momento em que ela ia sair, num movimento quase reflexo, do qual se lamentou quase que antes mesmo de ele ter sido feito. Mas já estava feito, e o olhar zangado e desafiador que ela lhe enviou desencadeou uma reação em cadeia que correu por todo o corpo. Havia coisas que ele poderia fazer com ela, coisas que ele ansiava por fazer, e que nenhum dos dois esqueceria jamais.
— Por que está zangada?
— Não sei. Não consigo conversar com você por mais de dez minutos sem ficar aborrecida. Como normalmente me dou bem com todo mundo, o problema deve ser seu.
— Você deve estar certa.
Ela se acalmou um pouco. E também não era culpa dele se ela nunca estivera em lugar algum.
— Você está aqui há pouco menos de 48 horas e já discuti com você três vezes. Isso é um recorde para mim.
— Eu não mantenho os escores.
— Pois acho que mantém. Duvido que se esqueça de qualquer coisa. Já foi policial?
Ele teve de fazer um esforço deliberado para manter o rosto impassível e evitar que seus dedos ficassem tensos.
— Por quê?
— Você disse que não era um artista. O que foi minha primeira escolha. — Ela relaxou, apesar de ele não ter tirado a mão do braço dela. A raiva era uma coisa de que ela gostava somente em demonstrações rápidas e ligeiras. — É o jeito como você olha para as pessoas, como se estivessem preenchendo uma ficha de descrições e alguma marca especial. E, às vezes, quando estou com você, eu me sinto como se devesse me preparar para um interrogatório. Um escritor, então? Quando se trabalha em hotéis, fica fácil descobrir as profissões das pessoas.
— Pois errou, desta vez.
— Então, o que você é?
— No momento, sou um faz-tudo.
Ela deu de ombros, deixando a conversa de lado.
— Outra característica de pessoal de hotel é respeitar a privacidade, mas, se no final da história, você for um assassino em série, Mae jamais vai me deixar ouvir o final da história.
— Geralmente, só mato uma pessoa de cada vez.
— Esta notícia é boa. — Ela ignorou a ansiedade súbita que sentiu, ao imaginar que ele pudesse estar dizendo a verdade.
— Ainda está segurando meu braço.
— Eu sei.
Então, era assim, ela pensou, e esforçou-se para manter uma voz normal.
— Devo pedir-lhe para largá-lo?
— Eu não me daria a esse trabalho.
Ela respirou profundamente, tentando acalmar-se.
— Muito bem. O que você quer Harry?
— Tirar isto do caminho, por nós dois.
Ele se levantou. Ela recuou um passo instintivamente, o que a surpreendeu mais do que a ele.
— Não acho que esta seja uma boa idéia.
— Nem eu. — Com a mão livre, segurou os cabelos dela. Eram macios, como ele sabia que deveriam ser. Espessos, cheios e tão macios que seus dedos perderam-se entre os fios. — Mas prefiro arrepender-me de uma coisa que fiz do que de uma que não fiz.
— Pois eu preferiria não ter que me arrepender de nada.
— Tarde demais. — Ele ouviu o suspiro fundo, quando puxou seu corpo para junto do dele. — De uma maneira ou de outra, nós dois vamos ter muito do que nos arrepender.
Ele estava deliberadamente bruto. Sabia como ser gentil, apesar de raramente pôr esse conhecimento em prática. Com ela, poderia ter sido. Talvez, exatamente por saber disso, afastou imediatamente qualquer desejo de agir com ternura. Queria assustá-la, para ter certeza de que, quando a soltasse, ela fugiria, fugiria dele, porque o que mais desejava na vida era que ela fugisse dele.
Lá no fundo de sua mente havia a esperança de que ele pudesse assustá-la o suficiente, a repelisse o suficiente, para mandá-lo embora imediatamente. Se fizesse isso, estaria a salvo dele, e ele dela. Pensou que conseguiria isso rapidamente. Mas, de repente, tornou-se impossível pensar em qualquer coisa.
Seu gosto era o do paraíso. Ele nunca acreditara no paraíso, mas o sabor estava em seus lábios, puro, doce e cheio de promessas. A mão tinha ido para o peito dele, num gesto automático de defesa. Mesmo assim, não lutava com ele, como ele tinha certeza de que faria. E ela devolveu seu beijo quase brutal, com paixão, entrelaçada com confiança.
A mente dele esvaziou-se. Era uma experiência aterrorizante para um homem que mantinha os pensamentos sob estrito controle. Em seguida, seu vazio encheu-se dela, do perfume, do toque, do gosto.
Ele se afastou — para seu bem, não para o dela. Ele era e sempre tinha sido um sobrevivente. Sua respiração estava rápida e áspera. Uma das mãos continuava enroscada em seus cabelos, e a outra apertava o braço com força. Não conseguia soltar-se. Apesar de insistir consigo mesmo que deveria soltá-la, afastar-se e ir embora, não conseguia mover-se. Olhando-a fixamente, viu seu reflexo nos olhos dela.
Amaldiçoou-a — era a última tentativa de recusa— antes de amassar-lhe os lábios com os dele, novamente. Não era para o céu que estava indo. Era para o inferno.
Ela queria acalmá-lo, mas ele não lhe deu a chance. Como antes, enviou-a para um lugar quente e sem ar, onde havia espaço somente para sensações.
Ela tinha razão. A boca de Harry não era macia, era dura, sem piedade e irresistível. Sem hesitação, sem um pensamento de auto-preservação, entregou-se a ele, aceitando ansiosamente o que lhe era oferecido, desprendidamente dando o que lhe era exigido.
As costas estavam pressionadas contra a superfície lisa e fria da geladeira, encurralada ali pela força do corpo dele. Se fosse possível, ela o teria atraído para mais perto ainda.
Seu rosto era áspero e ele esfregou-o contra o dela, arranhando-a, e ela tremeu de emoção e prazer que tudo aquilo lhe proporcionava. Já desesperada, mordeu seu lábio inferior e sentiu nova onda de excitação, quando ele gemeu e aprofundou o beijo já tão exigente.
Ela queria ser tocada. Tentou murmurar essa nova necessidade contra sua boca, mas só conseguiu emitir um gemido. Seu corpo doía. Só a antecipação das mãos dele correndo por seu corpo já a faziam tremer.
Por um momento, seus corações bateram um contra o outro, e no mesmo ritmo.
Ele se afastou, consciente de que tinha perigosamente se aproximado de uma linha que não ousaria cruzar. Ele mal conseguia respirar, muito menos pensar. E até ter certeza de que poderia fazer ambos, ficou em silêncio.
— Vá para a cama, Gina.
Ela permaneceu onde estava, certa de que, se desse um passo, as pernas se dobrariam. Ele ainda continuava perto o suficiente para que ela sentisse o calor que irradiava de seu corpo. Mas olhou dentro dos olhos, e viu que ele já estava fora de seu alcance.
— Assim, sem mais nem menos?
Mágoa. Ele podia ouvi-la em sua voz, e desejaria poder acreditar que ela mesma a teria causado. Ia pegar a cerveja, mas mudou de idéia, quando percebeu que a mão não estava firme. Somente uma coisa estava clara. Ele tinha que se livrar dela depressa, antes de voltar a tocá-la.
— Você não faz o tipo de um sexo rápido no chão da cozinha.
A cor que a paixão provocara em seu rosto desapareceu.
— Não. Pelo menos nunca fiz. — Depois de respirar profundamente, avançou. Acreditava em encarar os fatos, mesmo os desagradáveis. — E isso seria tudo o que poderia ter acontecido, Harry?
Sua mão fechou-se, formando um punho.
— Sim — disse. — O que mais?
— Entendo. — Ela manteve os olhos presos aos dele, desejando poder odiá-lo. — Sinto muito por você.
— Não sinta.
— Você dirige seus sentimentos, Harry, não os meus. E sinto muito por você. Algumas pessoas perdem uma perna, a mão ou o olho. Ou conseguem lidar com isso ou tornam-se amargos com a perda. Não vejo que parte sua está faltando, Harry, mas é tão trágico quanto. — Ele não respondeu nem ela esperava que ele o fizesse. — Não se esqueça de apagar a luz.
Ele esperou que ela saísse para pegar um fósforo. Precisava de tempo para recuperar o controle de sua cabeça — e das mãos — antes de encontrar o caminho para o escritório. Porém o que o preocupava mais era que ele levaria tempo demais para recuperar o controle do coração.
Aproximadamente duas horas mais tarde ele caminhou dois quilômetros para usar o telefone público no posto de gasolina mais próximo. A estrada estava quieta, a pequena aldeia, escura. Um vento começara a soprar e tinha o gosto de chuva. Harry desejou que ela só caísse depois que ele voltasse para o hotel.
Discou os números e esperou pela ligação.
— Conby.
— Potter.
— Está atrasado.
Harry não precisou olhar o relógio. Sabia que eram três horas da manhã na Costa Leste.
— Acordei você?
— Devo presumir que você já se estabeleceu?
— Sim. Já estou lá. Banquei o faz-tudo e consegui um emprego. Trocar o pneu me deu a abertura. A Srta. Weasley é... confiante.
— É o que devemos acreditar. Confiante não significa que não seja ambiciosa. O que você conseguiu?
Um caso terrível de culpa, pensou Harry, enquanto acendia o fósforo. Um caso muito sério.
— Os aposentos dela estão limpos. — Fez uma pausa e manteve a chama na ponta do cigarro. — Existe um grupo de excursionistas lá agora, em sua maioria canadenses. Alguns trocaram dinheiro. Nada mais de 100 dólares.
A pausa foi muito breve.
— Isso é muito pouco para fazer com que o negócio valha à pena.
— Consegui uma lista do escritório. Os nomes e endereços dos hóspedes registrados.
Houve outra pausa, mais longa, e um ruído que disse a Harry que seu contato estava procurando material para escrever.
— Deixe-me anotar isso.
Ele leu tudo, da cópia que tinha feito.
— Malfoy é o guia turístico. Costuma ir lá uma vez por semana, para uma estada de uma a duas noites, dependendo do pacote.
— Vision Tours.
— Exato.
— Temos um homem nesse ponto. Você se concentra na Weasley e na equipe dela. — Harry escutou o leve tap tap tap do lápis de Conby no telefone. — Não há como fazer nada sem ter alguém dentro. Ela é a resposta óbvia.
— Não se encaixa.
— Como disse?
Harry amassou o cigarro com o salto da bota.
— Eu disse que não se encaixa. Eu a tenho vigiado. Verifiquei todas as contas pessoais dela, droga! Ela tem menos de 3 mil em dinheiro vivo. Todo o resto foi empregado para comprar lençóis e sabonetes.
— Entendo. — Outra vez a pausa. Era enlouquecedor. — Suponho que a nossa Srta. Weasley nunca ouviu falar em bancos na Suíça.
— Já disse que ela não é desse tipo, Conby. É o ângulo errado.
— Deixe que eu me preocupe com os ângulos, Potter. Você se preocupa em fazer o serviço. Não preciso lembrar-lhe que levamos quase um ano para chegar perto dessa coisa toda. O Bureau quer isto esclarecido rapidamente, e é o que espero de você. Se tiver um problema pessoal com isto, é melhor me contar agora.
— Não. — Ele sabia que problemas pessoais não eram permitidos. — Se quer perder tempo e o dinheiro dos contribuintes, é o mesmo para mim. Torno a falar com você.
— Faça isso.
Harry desligou. Sentia-se um pouco melhor por ter desabafado ao telefone e imaginar Conby perdendo uma noite de sono. Mas, gente como ele, raramente perdia o sono. Acordaria algum funcionário às seis horas e mandaria que ele passasse a lista pelo computador. Conby tomaria seu café, assistiria ao programa Today e esperaria em sua casa confortável nos subúrbios de Washington, D.C. pelos resultados.
Trabalho difícil e sujo era deixado para os outros.
Era assim que o jogo funcionava, Harry lembrou-se enquanto reiniciava a longa caminhada de volta ao hotel. Mas ultimamente, só ultimamente, começava a se cansar daquelas regras.
Gina ouviu quando ele entrou. Curiosa, olhou o relógio, após ouvir a porta sendo fechada. Já passava de uma e a chuva começara a cair há quase 30 minutos, com um ruído suave e insistente, que prometia ganhar força ao longo da noite.
Perguntou-se aonde ele teria ido.
Problema dele, lembrou-se enquanto rolava na cama e tentava deixar o barulho da chuva provocar-lhe o sono. Desde que fizesse seu trabalho, Potter era livre para ir onde quisesse. Se quisesse passear na chuva, ela não se importava.
Como ele poderia tê-la beijado daquele jeito e não sentir nada?
Gina fechou os olhos com força e recriminou a si mesma. Era com seus sentimentos que deveria se preocupar, não com os de Harry. O problema era que ela sempre sentia demais. E desta vez não poderia se dar a esse luxo.
Alguma coisa acontecera com ela quando ele a beijara. Alguma coisa emocionante, algo que tinha penetrado no seu âmago e aberto possibilidades sem fim. Não, não possibilidades. Fantasias, pensou, sacudindo a cabeça. Se fosse esperta, receberia aquele momento de excitação e não desejaria mais nada. Andarilhos não corriam grandes riscos emocionais. Ela tinha o exemplo perfeito diante de si.
Sua mãe apaixonara-se por um andarilho e dera o coração a ele, a confiança, o corpo. Terminara grávida e sozinha. Gina sabia ter esperado por ele durante meses. Morrera no mesmo hospital em que seu bebê nascera, alguns dias depois. Traída, rejeitada e envergonhada.
Gina só descobrira a extensão da vergonha depois da morte do avô. Ele guardava o diário que a mãe escrevia. Gina queimara-o, não por vergonha, mas por pena. Sempre pensava na mãe como em uma mulher trágica, que buscara o amor e nunca o encontrara.
Mas ela não era sua mãe, Gina lembrou-se, enquanto ficava deitada acordada, ouvindo a chuva cair. Ela era muito, muito menos frágil. Amor foi o que a concebera, e ela sentia seu calor por toda sua vida.
Agora, um andarilho entrara em sua vida.
Tinha falado de arrependimentos, ela lembrou-se. E tinha medo de que o que tivesse acontecido — ou não tivesse acontecido — entre eles, ela também os teria.
***Nota da autora:
Olá meninas!!! Desculpa a demora mas to sem tempo de entrar na net... Faculdade me consome, ainda mais agora na reta final... Me perguntaram por e-mail se eu faço faculdade de Letras , e não Juliana, eu faço Fonoaudiologia que cuida da comunicação como um todo, então você tá quase lá! Rsrsrs. Escrever e ler são só meus hobbys!
Aliás, queria esclarecer (caso ainda não tenha ficado claro!) que a única fic de minha autoria exclusiva é a HP e os Segredos de Órion, pois as demais são adaptações de livros que eu li e gosto. Estou esclarecendo isso novamente porque um indivíduo não identificado me deixou a seguinte Review:
"From: __ ()
-------------------
Olha,
muito triste ter que fazer isso aqui, mas nao encontrei seu email
no
seu perfil...
Por um GRANDE acaso, estou lendo "a
suspeita" de Nora Roberts...
plágio é crime"
Oras bolas, sejamos inteligentes caro amiguinho. Você acha mesmo que eu seria burra ao ponto de deixar o mesmo nome do livro se eu desejasse dizer que era de minha autoria??? E se você leu meu perfil deveria ter visto que eu deixo bem claro lá que as demais além de Segredos de Órion são adaptações e as leitoras que falam comigo, seja pelo Orkut ou MSN sabem que eu sempre recomendo os livros da Nora Roberts, Sthephenie Meyer, Marian Keyes.... Enfim.. Só esclarecendo mesmo ok?
Mas não pense você que adaptar é fácil... Reler todo livro mudando nomes e personagens e suas respectivas características físicas e emocionais é o que eu faço, e não só ctrl+c, ctrl+v, ok??? Concordo que estou usando a idéia principal das autoras mas renimadas mas até que ela venham reclamar comigo ou até que ninguém mais goste de ler as adaptações elas continuarão aqui independente de seu julgamento, ok? Fica com Deus! ;)
***Respondendo as Reviews:
Alinemaioli: Que bom que você tá gostando da fic, e novamente lá mais mais um capítulo tardio! Rsrsrs. Lindinha eu juro que queria botar um capítulo por semana mas tá difícil viu?! Eu prometo que vou tentar, me esforçar ao máximo! E a histporia original tem 12 capítulos e a fic deve ter mais ou menos uns 10 capítulos, td bem??? Beijossss e obrigada pelo carinho! Ahh!!! Adorei o termo "hipoglicefic" = falta de fanfic no sangue! Huahuahua! Vou adotar! =) Bjsss
Cah Weasley Potter: Pois é lindona, a cena do próximo capítulo é pra dar uma água na boca mesmo! Rsrsrs!! Que bom que vc ñ "sentiu" o tamanho do capítulo! Bjãooo! =P
Cena do próximo capítulo:
"Quando a música terminou, ele conseguira afastar aquela emoção desagradável, mas outra surgiu para tomar seu lugar. O desejo. Ele a queria, queria tomá-la pela mão e puxá-la daquela sala lotada, levando-a para um local silencioso na penumbra, onde a única coisa que ouviriam seria a chuva. Queria ver seus olhos crescerem e ficarem fora de foco, o que acontecia quando se beijavam. Queria sentir a sensação incrível de sua boca derretendo-se e aquecendo-se sob a sua."
Beijos a todos!!!
*__Lya –Love
