II

sleep a little more if you want to

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As primeiras férias de verão foram as piores de toda a minha vida. Eu as trocaria de bom grado por uma pilha de deveres de Poções e Transfiguração, mas isso, infelizmente, não era possível.

Meu pai foi me buscar na estação, sozinho. Antes de entrarmos em casa, ele pôs as mãos nos meus ombros e me olhou como se eu estivesse prestes a morrer e aquela fosse a última vez que nos víamos.

Ou talvez eu esteja exagerando um pouco.

O certo é que eu não gostei nem um pouco da pena que ele parecia ter de mim. Ele suspirou e falou:

- Não foi culpa sua.

Eu o olhei, confuso. Não conseguia entender por que eles faziam parecer que alguma coisa terrivelmente errada estava acontecendo. Tudo bem, eu não era um Slytherin, mas isso era tão ruim assim?

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele abriu a porta e entramos na velha e pura casa dos Black. Nossa casa. Minha casa.

Bom, talvez já não fosse mais tão pura assim. Ou talvez nunca tivesse sido.

Minha mãe passou por nós, com um dos longos vestidos escuros que costumava usar, fosse qual fosse a estação e o clima. Antes de ir para Hogwarts, eu falava para ela sobre todas as cartas detalhadas que eu mandaria e, apesar de ela sempre responder "Sim, sim, é claro, Sirius. Agora fique quieto.", naquele momento eu realmente lamentei não ter podido escrever nenhuma daquelas cartas, porque o olhar dela confirmava o que eu pensei durante o ano letivo: ela não queria receber essas cartas.

Sem se demorar no corredor, ela nos deu as costas e entrou na sala de visitas. Quando passei em frente àquela porta para subir a escada, a vi sentada perto da lareira, quieta. Hesitei um ou dois passos, e decidi não entrar. Subi a escada devagar, talvez desejando que ela milagrosamente se levantasse e me perguntasse como tinha sido a escola e se eu havia sentido a sua falta.

Eu diria que sim, tinha sentido, e daria o abraço que ela nunca me deixava completar. Mas mamãe e eu éramos terrivelmente parecidos e, se ela se recusava a voltar atrás, eu também não seria diferente.

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Regulus me esperava no meu quarto, morto de curiosidade. Ele sabia, é claro, que eu não era um bom exemplo, e me olhava com a admiração que os irmãos mais novos costumam ter para os seus irmãos mais velhos e irresponsáveis.

- Como você fez isso, Sirius? – ele perguntou, enquanto eu lhe mostrava uma flâmula da Gryffindor.

- Como fiz o quê?

- Não entrou na Slytherin. Toda a família...

- Já conheço essa história. E não fiz nada. Só pus o Chapéu Seletor e ele disse Gryffindor. Não tive culpa.

Era a primeira vez que eu dizia aquilo e, de alguma forma, era como estar admitindo ter feito algo errado.

Regulus, no entanto, era a única pessoa da casa disposta a me ouvir, e foi para ele que despejei todas as minhas histórias sobre Hogwarts e meus novos amigos, e sobre como a Gryffindor não era um lugar ruim.

- Tem certeza?

- Absoluta. Eu estou lá, não estou?

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Walburga Black não era uma mulher de muitas palavras, pelo menos para mim. Várias vezes, no entanto, ela começava uma conversa sobre a pureza do sangue quando estavam todos reunidos, e eu me dividia entre a vontade de responder e a de arranjar uma desculpa para me retirar. Um dia, me entreguei à primeira.

- O que foi que eu fiz? – perguntei, de repente, fazendo Regulus levantar os olhos do prato como se tivesse levado um choque. – Vou te dizer o que foi: eu me sentei em um banquinho e coloquei um chapéu velho na cabeça, foi isso o que eu fiz. E ele me colocou na Gryffindor e isso não tem nada a ver com pureza de sangue e tudo o mais.

- Isso é só o começo, seu traidorzinho. Sabe-se lá com que tipo de gente você anda, o que têm colocado na sua cabeça... – minha mãe falou, batendo o garfo na mesa. – Nossa família toda foi Slytherin...

- Eu sei disso, sei desde que nasci, não precisa ficar repetindo o tempo todo.

- Não fale assim com a sua mãe, Sirius.

- Por que não? Olhe como ela fala comigo! Ou pior, olhe como ela não fala comigo, fica só reclamando...

- Não sei onde foi que erramos com você, garoto – ela falou, furiosa.

- É só uma Casa! Só. Uma. Casa. Uma mesa diferente no salão, só isso! – quase gritei, pontuando o começo do fim ao me levantar, batendo a cadeira na mesa e fazendo os talheres tremerem perigosamente.

Subi para o meu quarto, tão furioso quanto minha mãe, e ainda tive tempo de ouvir meu pai dizer:

- Termine o jantar, Regulus.

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As coisas não tinham como melhorar, então minha única distração durante o verão era ver Regulus ansioso para entrar na escola. No dia primeiro de setembro de setenta e dois, meu pai deu um forte aperto de mão em cada um de nós, e minha mãe beijou a testa de Regulus, exatamente como havia feito comigo há um ano. Daquela vez, no entanto, ela só me deu um olhar de reprovação.

Voltar à Hogwarts era um acontecimento tão feliz que a primeira coisa que fiz ao entrar no trem foi levantar Lily Evans e rodar com ela pelo corredor estreito do Expresso.

- Me solta, seu maluco! – ela gritava, enquanto me batia com seus punhos pequenos e James se dobrava de rir. Quando suas unhas, embora pequenas, começaram a chegar perto demais do meu rosto, eu a soltei.

- Não sabe brincar, Evans? – reclamei, enquanto ela bufava de raiva e se trancava em uma cabine.

Regulus, apesar de todas as ordens de ser um Slytherin e não andar com as más companhias de Sirius, não saía de perto de mim e acabamos ficando na mesma cabine. Feitas as apresentações iniciais, James começou a se mexer no seu assento como se estivesse se lembrando de uma coisa muito importante.

- Vocês não vão acreditar no que eu tenho aqui! – ele falou, ansioso, se levantando e pegando um pacote fino das suas coisas.

Era uma vassoura, visivelmente nova, que ele mostrava com orgulho.

- Uau, James! Esse modelo acabou de sair! – Peter exclamou, excitado. – Posso segurar?

Estávamos todos babando a vassoura, principalmente Regulus, que foi o próximo a ter a honra de segurá-la. Remus parecia apenas educadamente interessado.

- Não é incrível a nova vassoura de James? – perguntei, rindo e me sentando ao lado dele.

- Nem tenho palavras para descrever minha emoção em vê-la – Remus respondeu, irônico. – Oh, veja! Quase posso tocá-la! – ele suspirou, e rimos por quase meia-hora.

- Quer um? – ofereci um sapo de chocolate a ele, quando paramos de rir e a conversa dos admiradores de quadribol se abrandou.

Remus aceitou e sorriu. Ele parecia um tantinho mais saudável do que da última vez em que nos vimos.

- Como foram as férias? – ele perguntou, olhando de esguelha para Regulus.

- Difíceis – respondi depois de um tempo. – Eu entendo a história de quebrar a tradição e tudo o mais. Só... não faz sentido. Não era pra ser tão grave assim.

Remus deu mais uma mordida no sapo e concordou com a cabeça.

- É muito difícil aceitar o que é diferente – ele comentou sombriamente.

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O Chapéu Seletor não demorou muito na cabeça de Regulus. Seja lá o que for que ele tenha encontrado lá dentro, achou que ficaria melhor na Slytherin. Não foi a melhor das sensações ver meu irmão ir se sentar na outra ponta do salão, mas, por outro lado, era melhor assim.

- Então... – James começou, possivelmente para me distrair dos meus pensamentos. – Vamos continuar, não é?

- O quê?

- Como o quê, Sirius? – ele reclamou, exasperado. – Você sabe. A Capa, Hogwarts, Hogsmeade... – ele explicou vagamente, baixando a voz.

- Ah, sim.

No último ano letivo, gastamos bastante tempo das nossas madrugadas percorrendo os andares de Hogwarts e anotando quais eram os atalhos úteis para todo tipo de lugar. O único problema era que todos esses lugares para os quais os atalhos levavam estavam dentro do castelo.

- Deve haver alguma passagem para fora – Remus disse, pensativo. – Uma construção tão antiga quanto esse castelo deve ter rotas de emergência, ou qualquer coisa assim.

- Bom, em caso de emergência, saímos voando do castelo – James concluiu, espetando uma cenoura despreocupadamente.

- Isso vai entrar para a lista das Coisas Mais Idiotas que James Potter Já Disse – Remus sentenciou, atirando um pãozinho nele enquanto eu e Peter ríamos.

- Por falar em voar – Peter começou. – Você vai fazer o teste para o time de quadribol?

- Claro – James respondeu, inflando de orgulho.

- Pra qual posição?

- Artilheiro.

Remus sufocou um risinho. Meu olhar, sem que eu pudesse evitar, foi até os artilheiros atuais da Gryffindor, que estavam sentados na outra ponta da mesa. Eles eram no mínimo quatro anos mais velhos e duas vezes maiores que James.

- Sinto muito, mas a Gryffindor já tem artilheiros – eu disse, dando tapinhas de consolo nas costas do meu amigo.

- Não por muito tempo – ele respondeu alegremente. – Posso ficar no time de reserva até Crawford sair. Ele está no sexto ano, então eu posso ter esperanças de entrar como titular no quarto ano.

- Bom, faz sentido. – Peter concordou.

Na nossa segunda semana de aulas, James rumou confiante para o campo de quadribol. Ficamos nas arquibancadas, observando de longe ele tentar convencer o capitão de que ter um artilheiro reserva não poderia de modo algum ser uma má ideia. Ainda desinteressado, Frank Longbottom finalmente concordou em fazer um teste rápido para que James saísse do seu pé.

Sozinho com a goles e o goleiro, James marcou cinco gols em menos de quinze minutos. Com os outros seis jogadores atrás dele, fez mais três, e combinando de improviso jogadas com Crawford, quatro.

Frank provavelmente deveria estar reconsiderando o fato de James ser apenas um garoto magro de doze anos.

- Quase treze – ele corrigiu, quando eu disse isso a ele. – Março está chegando.

Estávamos em Setembro, mas tudo bem, eu não o culpo por isso.

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James não fazia ideia do que era, exatamente, pertencer ao time de reserva. Naquela época, por sinal, o time todo era formado apenas por ele que, logo descobriu, deveria fazer mais do que assistir aos treinos e guardar as bolas.

- Frank me fez lustrar as vassouras. Lustrar as vassouras – ele reclamou outro dia, pontuando cada palavra com uma farpa de madeira que tentava tirar da mão.

- Mas você adora lustrar a sua vassoura – Remus falou num tom óbvio de bem feito. Se eu fosse um tantinho mais velho e menos inocente, teria até aproveitado aquele comentário para um mês de piadinhas obscenas.

- Exatamente. A minha vassoura, não a dos outros. Ele está querendo que eu desista, pensa que daqui para o dia em que Crawford sair vai aparecer alguém melhor do que eu...

- Isso não é impossível, é? – perguntei, ferindo o avantajado ego de James.

Ele me olhou, irritado, e preferiu mudar de assunto rapidamente.

- Remus, você tá com aquelas anotações?

- Aham.

Ele tirou discretamente de dentro de um livro um maço de pedaços de pergaminho e nos mostrou. Com as cabeças unidas, vimos os cuidadosos desenhos da propriedade que Remus havia feito.

- Uau, Remus. Achei que só estivesse anotando – falei.

- Bom... são anotações, de qualquer modo. Achei que com esquemas e mapas ficaria mais fácil de localizar.

- Mapas? – James repetiu, com um brilho perigoso no olhar.

James não falou mais em mapas nos dias seguintes, mas eu sabia que ele estava aprontando alguma coisa. Estava levando mais livros que o normal para o dormitório e, se ele não nos contava nada até ter certeza, é porque a coisa era grande.

- Oh, olhem! O Sr. Snape terminou o nosso desafio com perfeição. E Srta. Evans, sim? Quase lá, querida, quase lá! Só precisava ficar um pouco mais límpida...

- Ele não cansa nunca? – reclamei outro dia, enquanto o professor Slughorn babava seus alunos favoritos. – Deve ter pelo menos dez pessoas nesta sala que fizeram poções iguaiszinhas às deles.

- Eu acho que não, Sirius – Peter falou tristemente, olhando para os caldeirões ao redor e o seu próprio.

- Quem diria, hein? O esquisitão é bom em alguma coisa – James comentou venenosamente, num tom um pouco mais alto que o prudente.

- Não fale assim – Remus reclamou. – Ele não fez nada com você.

James olhou para o teto e suspirou, dramático, mas se calou. Depois, ele olhou para mim, maldoso, e eu retribui o olhar, rindo. Eu também não gostava de Severus Snape, com aquele jeito escorregadio e pretensamente superior. Mas, no fim das contas, nós dois implicávamos com ele porque tínhamos que implicar com alguém.

Pelo menos naquela época era por isso.

Mais tarde, depois de saber de algumas coisas, eu acharia quase natural se Remus tomasse as dores das pessoas diferentes, com quem garotos como eu e James gostávamos de implicar. Mas ele não fazia isso com todos. Na verdade, eu nunca entendi muito bem qual era o motivo especial pelo qual Remus tomava as dores de Snape e não as de uma outra pessoa qualquer. Talvez fosse só porque era a vida dele que fazíamos questão de transformar em um inferno.

Mas, claro, no segundo ano ainda não éramos tão terríveis assim. Éramos uns anjinhos.

Bom, talvez nem tanto.

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- O que você acha de mapas, Sirius?

Levei alguns segundos para entender a pergunta de James, de tão fora de contexto que ela era. Estávamos fazendo uma tarefa de Astronomia e, como de costume, nós dois terminamos primeiro e ficamos olhando Peter e Remus discutirem alguma coisa sobre a posição de Marte.

O deus da guerra, veja só. Mas ainda não havia chegado o tempo dele.

Por um momento eu pensei que ele estivesse falando de mapas de estrelas, mas achei a pergunta sem sentido mesmo assim. Depois me lembrei dos mapas de Remus.

- E pra que seriam os mapas?

- Para o castelo, ué.

- Mas... nós sabemos os caminhos, não é como se a gente fosse se perder por aí.

James não falou nada por algum tempo; estava pensando. Estava claro que havia algum objetivo maior ali que ele talvez ainda estivesse formulando.

- Mas, sabe... o mapa não seria apenas para olhar os caminhos.

- E seria para o quê?

- Eu não sei – ele falou, dando de ombros.

Admito que não pensei muito nisso por algum tempo. Não via muita utilidade prática em um mapa do castelo, e as ideias de James ainda eram muito vagas. Comecei a rabiscar um Salgueiro Lutador muito mal feito num pedaço de pergaminho. Remus não gostava muito daquela árvore, principalmente quando teimávamos em tentar chegar perto.

Peter finalmente havia conseguido convencer Remus de que era o dever dele que estava errado, e não o seu.

James examinava atentamente as próprias mãos, provavelmente em busca de alguma farpa esquecida desde a última inspeção.

Lily Evans passou por nós como uma bolinha vermelha rabiscando o ar, mas parou por dois segundos para acenar para Remus.

Ah, ele estava cansado naquele dia, dava pra notar. Olhava para o Salgueiro que eu havia desenhado com um sorriso enviesado.

Salgueiro. Jardins. Hogsmeade. Um mapa não teria muita utilidade dentro do castelo.

Mas e fora dele?

- James?

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Remus não tinha, exatamente, um talento especial para o desenho, mas era um cara paciente. Ele não tinha pressa nenhuma para fazer os esquemas do castelo, e resolvia os pequenos erros com um aceno de varinha. No fim de mais ou menos um mês, tínhamos em mãos vinte e cinco pergaminhos com o máximo de detalhes que garotos de doze anos podem perceber.

- Agora só precisamos descobrir como juntar tudo isso em um só – disse Peter, desanimado com a quantidade de pergaminhos.

- Perguntamos para McGonnagall.

As piadas de Remus às vezes eram sutis o bastante para nos deixar sem saber se eram realmente piadas por uns dez segundos. E então, passado o susto, nós ríamos.

- Bom... acho que vamos ter que pesquisar, não é? – eu falei, e Remus riu provavelmente pela simples possibilidade de me ver pesquisando algo na biblioteca.

Parecia ser uma coisa simples de se descobrir, mas talvez seja bom lembrar que estávamos no segundo ano e ainda não sabíamos fazer "nada interessante" e mais complexo com feitiços. E, naquele momento, transformar vinte e cinco pergaminhos em um único e interativo mapa parecia uma tarefa impossível a cada livro que tirávamos das estantes da biblioteca.

- Sabe o que eu estive pensando? – James começou, em mais um dia de peregrinação na biblioteca. Remus não estava conosco; tinha desaparecido mais uma vez, e era exatamente nisso que eu estava pensando antes da pergunta.

- No quê? – Peter perguntou, distraidamente, enquanto folheava um livro enorme.

- Imagine que estamos fazendo alguma coisa errada. Alguma coisa que os professores não podem saber...

- Não é difícil de imaginar.

- ...e agora imagine que podemos simplesmente nunca ser surpreendidos por eles – ele concluiu, animado.

- Ah, é? E como?

- Com o mapa – ele respondeu, como se eu tivesse uma capacidade intelectual abaixo da média por não ter pensado nisso antes.

- Ainda não entendi – Peter falou, desconfiado.

- Eu também não.

- Ah, mas vocês também... imaginem que a gente precise apenas olhar pro mapa pra saber se tem alguém vindo na nossa direção.

E então fez-se a luz. Peter e eu rimos bobamente por algum tempo, imaginando o quão maravilhoso seria esse mapa. Claro que não estávamos pensando nos feitiços de rastreamento e todos esses detalhes naquele momento.

- Nossa, o Remus precisava estar aqui agora! – eu falei.

- Verdade... aonde ele foi, afinal? – Peter perguntou, intrigado.

- Não faço a mínima ideia. Ele sempre some assim, todo mês.

James estava pensando de novo. Ele passava o tempo todo tão agitado que quando parava e ficava quieto nós quase podíamos ouvir o seu cérebro trabalhando.

- Vamos fazer um teste – ele disse.

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Por algum motivo que eu ainda não havia entendido, o teste ficaria apenas entre ele, eu e Peter. Durante a semana em que Remus ficou fora, procuramos exaustivamente fazer funcionar uma variação de um feitiço de rastreamento em um dos muitos pedaços do mapa. Por fim, conseguimos milagrosamente encantar um pontinho que se movia no pergaminho.

O pontinho representava Peter, e se algum professor um dia houvesse sabido do que nós conseguimos fazer por aquele mapa, com certeza nos colocariam num altar e receberíamos todos os prêmios do mundo por ter toda essa genialidade na mais tenra idade.

Ou talvez eu esteja apenas exagerando.

O fato é que o pontinho realmente funcionava. Aonde quer que Peter fosse, contanto que estivesse dentro dos limites daquele pedaço encantado de mapa, o pontinho rotulado ia também. Genial.

E o pior é que, cá entre nós, a coisa toda foi meio por acaso mesmo. James estava tão empolgado em tentar o feitiço que o errava sempre, e então eu fui tentar e Peter não parava de falar em como tudo seria mais fácil se Remus estivesse ajudando a gente. E então de repente ele esbarrou no meu braço e o feitiço saiu de qualquer jeito da varinha.

Seja lá o que tenha acontecido, foi o jeito certo.

Mas isso não importa, não é mesmo?

Depois de voltar do seu sumiço mensal, Remus e nós voltamos a tentar juntar os mapas, mas ele ainda não sabia do nosso pequeno teste, e eu estava louco para contar pra ele a nossa proeza. Mas James dizia que ainda não, e eu, curioso como era com todas as ideias absurdas dele, concordava, assim como Peter.

Foi mais ou menos nas férias da Páscoa que conseguimos. Remus, sem voz pela surpresa, me puxou pela manga da roupa e apontou o novo, maravilhoso, perfeito e único pergaminho no lugar de todos os anteriores.

Genial.

Se me perguntassem agora, eu provavelmente não saberia dizer como aconteceu, mas acho que foi mais uma superposição de um monte de feitiços feitos do jeito errado e um bocado de sorte.

Passamos muitas noites apenas olhando para o Mapa – agora sim, imponente e maiúsculo Mapa -, mesmo que ainda não estivéssemos usando os pontinhos. E, finalmente, quando Remus teve que voltar urgentemente para casa mais uma vez, James colocou em prática seu plano secreto.

- Ha! – ele gritou, de repente, no meio do dormitório. Pulou na minha cama e mostrou o pontinho rotulado Remus caminhando nos terrenos da escola.

- Mas ele foi embora ontem à noite, por que ainda está aqui... – Peter perguntou, confuso.

- Eu não sei – James falou, e o pontinho desapareceu na borda do mapa. Ainda não tínhamos feito todo o jardim. – Mas ele acabou de sumir bem na direção do Salgueiro.

Levamos muito tempo para pegar a capa e disparar pelas escadas. Quando chegamos ao jardim, já não havia ninguém perto do Salgueiro Lutador. E aquilo tudo era muito, muito estranho. Estávamos começando a perceber que Remus poderia estar escondendo alguma coisa de nós.

Não era difícil achar um padrão nas saídas dele. Todas aconteciam durante uma semana por mês, e na semana anterior ele nunca parecia muito bem. E, quando voltava, estava pior ainda.

Eu não queria acreditar que ele estivesse mentindo para nós, por qualquer motivo que fosse. Porque ele simplesmente não precisava fazer isso. Eu gostava muito de Remus, daquele jeito atrapalhado que os garotos gostam uns dos outros. Continuamos monitorando o pontinho Remus no mapa, até que exatamente uma semana depois ele apareceu na ala hospitalar.

E isso definitivamente não era bom.

Nosso objetivo, então, era simples: chegar até lá de noite e ver como ele estava. De quebra, provavelmente também saberíamos onde estivera durante aquela semana toda.

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Providenciamos um pontinho para Madame Pomfrey no mapa e, quando ela se recolheu à noite, começamos nossa jornada. Não sei explicar muito bem o que eu esperava que acontecesse. Acho que só queria esperar Remus voltar e nos contar onde esteve, e seria algo tão normal que riríamos das nossas desconfianças e diríamos que devíamos ter pensado nisso antes.

Não foi o que aconteceu, claro.

Remus estava dormindo quando chegamos na ala hospitalar, debaixo da capa. Tinha curativos por toda parte e parecia bem abatido. Um dos cortes no braço ainda sangrava um pouco, e ele parecia infinitamente menor e mais frágil ali.

Naquele momento eu quis tanto pegar o infeliz que tinha feito isso com ele.

- Vocês estão aí, não estão? – ele perguntou de repente, ainda com os olhos fechados. James se assustou e pisou no pé de Peter, que cambaleou e caiu em cima de mim. Um pequeno desastre silencioso, e lá se ia o nosso anonimato.

Remus já olhava para nós, mas não perguntou como tínhamos encontrado ele ali. Ele sentou na cama e continuou olhando, como se esperasse o que íamos dizer. Depois que conseguimos voltar a uma posição respeitável, James foi o primeiro a falar.

- Nós conseguimos – foi o que ele disse, mostrando o mapa. Remus ficou encantado com os pontinhos que se moviam pelo castelo – pelo menos em teoria, já que a maioria agora estava dormindo – e, se a situação já não fosse preocupante, provavelmente teria nos perguntado como fizemos. – E testamos primeiro com você.

Porque não acreditamos quando você diz que sua mãe está doente, e quando desaparece por exatamente uma semana todos os meses, Remus. Era esse o resto da frase, mas James não disse, claro. Não precisava. Remus não disse que era injusto espioná-lo pelo mapa, ou que devíamos ter conversado antes de qualquer coisa. Na verdade, ele não disse nada. Só segurou o mapa com mais força e olhou pela janela. Eu olhei também. Dava para ver a lua minguante.

Há alguns dias, a lua estava cheia.

Cheia.

E não era preciso ser um gênio para deduzir em quais semanas houve lua cheia nos meses anteriores.

Voltei a olhar para Remus, e acho que poucas vezes na vida pensei em tantas coisas ao mesmo tempo, com a sensação de não estar pensando em nada.

Eu imaginei que perguntaria Por quê?, e ele me diria Desculpe, e era como se aquilo fosse tudo.

- Madame Pomfrey me leva até o Salgueiro todo mês. Tem uma entrada para um túnel que dá na Casa dos Gritos. Eu fico lá.

- A casa mal-assombrada? – Peter perguntou.

- Não são fantasmas. Sou eu.

Ele baixou os olhos para o mapa e não chorou. Em nenhum momento foi dita a palavra "lobisomem". Acho que James já desconfiava antes, e eu e Peter entendemos ali mesmo.

- Por que não nos contou? – eu perguntei.

- Porque... eu não queria que vocês deixassem de ser meus amigos.

Peter tinha a expressão mais assustada. Eu quase podia ver todas as histórias sobre lobisomens que ele tinha ouvido passando pela sua cabeça.

- Mas não vamos deixar de ser amigos, Remus – ele disse, e talvez por ter sido ele antes de qualquer outro, Remus quase sorriu.

Era tão corajoso, o pequeno Peter.

Não pensei exatamente em todo o sofrimento de Remus, nem em como ele poderia ser perigoso, ou algo do tipo. Ainda estava magoado por ele não ter confiado em nós, mas não podia culpá-lo, podia? Eu teria feito o mesmo, provavelmente.

- Ele está certo – James disse, se referindo ao que Peter dissera. – Você sabe que é preciso muito mais do que um probleminha desses para se livrar de nós.

Remus nos olhava meio assustado, meio desconfiado. Talvez temendo que estivéssemos brincando e fôssemos começar a tratá-lo como o Snivellus. Talvez pensando se era possível alguém querer ser seu amigo.

Ele então olhou só para mim, como se esperasse um veredicto.

- Moony – foi o que eu falei, e ele franziu a testa sem entender por alguns segundos.

E então Remus riu.