Cartas para você
Capítulo 3 – Uma visão

Equanto Arthur permanecia parado em frente da loja, ele não pode evitar mas perguntar de onde saiu aquela confiança em Francis. Ele entrou, ouvindo a porta bater contra um pequeno sino. O interior da loja era antigo e com madeira escura. Um atendente caminhava vagarosamente, tirando o pó de vários recipientes com chá pela loja inteira. Ele se virou quando ouviu o sino e deu um "olá" antes de voltar a seu trabalho. Inglaterra olhou em volta, esperando ver outro envelope branco, mas não havia nada.

Ele casualmente percorreu o local, coração batendo mais forte em antecipação. Apenas para parar quando não havia mais sinal de nada com o formato de uma carta naquela pequena loja. Arthur suspirou, se sentindo um idiota e foi comprar uma caixa de Earl Grey.

Isso foi estúpido! O que ele estava esperando do França? Ele já havia se decepcionado muitas vezes antes – e esse foi o motivo deles terem rompido.

E enquanto ele estava em uma tempestade enraivecida de pensamentos, ele olhou para frente e viu a carta atrás da caixa registradora. Ele piscou e se acalmou um pouco, se perguntando como ele não notou o óbvio envelope perto de uma vívida rosa.

Com alguns passos, Inglaterra parou em frente à caixa registradora e viu o assistente parar atrás dela. – Posso ajudar com alguma coisa, senhor? – Ele perguntou.

- Esta carta, atrás do balcão, é para alguém?

- Sim. Um senhor Kirkland, se me lembro bem. – O assistente o observou, seus olhos castanho-escuros registrando Arthur cuidadosamente – E esse seria você?

- Sim, na verdade. – Arthur estava curioso do porque a carta estava atrás do balcão e era um pouco estranho pedir pelo envelope e pela rosa.

- Certo, então. Três perguntas – O homem sorriu e se apoiou no balcão, face próxima a de Arthur, com três dedos levantados.

- Perdão?

- Três questões, eu devo lhe perguntar – Ele pausou e sorriu novamente. – Cara, não foi idéia minha. O francês que veio aqui me pediu isso. – Ele encolheu os ombros e se afastou, se ajeitando e cruzando os braços. Agora que Arthur o olhava bem, ele parecia espanhol. – Então, responderá as perguntas?

Assentindo, Inglaterra assistu enquanto o jovem assistente sorriu e levantou os três dedos novamente. – Qual o seu nome?

Ah, Deus, por favor, Não Monty Python - Arthur Kirkland.

O homem assentiu e abaixou um dedo – Qual a sua missão?

- É sério? – Arthur grunhiu.

- Não, tava só brincando com você – Ele pausou e congelou quando Iglaterra le lançou um olhar frio. – Qual o seu chá favorito?

- Earl Grey.

- Quantos você quer?

Arthur o observou em confusão e o assistente apenas sorriu. – Desculpe?

- Ele está pagando pelo chá. Quantos você quer? – Ele saiu detrás do balcão e pegou algumas coisas, fazendo malabarismos enquanto caminhava pela loja – Nós temos algumas variedades se quiser dar uma olhada. – Quando não houve resposta, ele se virou – Señor?

Arthur estava observando a carta e então se virou – Um tradicional Earl Grey, então.

O assistente assentiu e trouxe a pequena caixa negra com ele. Enquanto ele empacotava, ele entregou a carta e a rosa para Inglaterra. Ele não disse mais nada, mas manteve o sorriso. Quando ele finalmente entregou o pacote, um suspiro escapou seus lábios.

– Cara, você tem sorte. Gostaria que a minha garota fizesse algo assim por mim.

Arthur corou levemente e pegou seus itens. Dizendo um corrido 'obrigado' pelo chá, ele deixou a loja ouvindo o atendente suspirar um 'tchau' e andou em direção ao banco mais próximo.

Colocando o chá ao lado, Inglaterra sentou-se confortavelmente no banco negro e estudou a carta. Era a mesma das outras três, a única diferença era a rosa que a acompanhava. Ele esboçou um sorriso e abriu a carta.

Arthur,

Vou presumir que você não está mais rasgando minhas cartas a partir de agora, mas sim as lendo. Essa simples ideia me deixa mais feliz do que eu já estive desde que você me deixou. Tudo fica escuro e solitário sem você, Arthur, mon amour.

Você tem sido a chama constante em minha vida, que brilha e me mantém andando em frente para melhorar e sobreviver à esse mundo caótico. Desde que você se foi, essa luz está se extinguindo e eu estou caindo em escuridão. Eu rezo para que essa luz retorne para mim algum dia. Não há um momento onde eu não tenha sentido a falta de sua presença em meus braços, ou simplesmente estar com você no mesmo local. Eu rezo para que possamos fazer as pazes.

Como você já deve ter adivinhado, eu o trouxe para outro local que é importante para mim. Você pode não reconhecer, mas é aqui que eu sempre compro chá quando você fica sem. Você mencionou uma vez anos atrás como você gostava desse chá, e eu mantive isso em meu coração. Não há nada no mundo melhor do que ver você abrir a pequena caixa e inalar vagarosamente enquanto saboreia o aroma e o sabor das folhas. Talvez você nunca tenha notado, mas você fica distante quando estuda seus chás – A mesma concentração em suas folhas como um músico com seu instrumento. É tão difícil te destrair de uma conversa sobre chás, assim como é difícil distrair um músico no meio de sua canção.

Eu tenho, particularmente, uma afeição pelo dia em que eu fui te visitar para o Natal, antes ainda de ficarmos juntos. Ficamos presos pela neve na sua casa, o que não era realmente ruim, visto que era noite de Natal e tínhamos tanto para conversar na frente do fogo, mas você tinha ficado sem chá e lamentava o fato. Eu saí pela neve não muito tempo depois (Seu biquinho faz com que eu faça qualquer coisa, mon chéri). Esta era a única loja aberta, mas tudo valeu a pena quando seus olhos se iluminaram quando eu voltei. Ainda me lembro como você me disse que era o melhor chá que você já tomou.

Não há muito o que dizer, mon chéri, eu estou à quilômetros de distância enquanto te escrevo isso, ainda assim todos os meus pensamentos doem para estar nos seus braços novamente, e tudo que eu posso fazer é esperar. Tudo o que eu posso fazer é implorar por perdão de novo e esperar que você escute as minhas palavras. Tudo o que eu posso fazer é rezar.

Arthur, mon amour, a próxima carta está numa loja, na Avenida Walburn, 31. Eu espero que você continue a lê-las.

Eternamente fiel,

Francis.

Arthur deixou a carta em seu colo, dente canino mordendo seu lábio inferior. Ele se lembrava daquela noite, de fato. Ele havia esquecido de comprar chá junto com seus igredientes para o jantar e passou a noite congelante ansiando pelo sabor das ervas e folhas. Inglaterra não havia dito uma palavra – e também não havia feito biquinho!- e ainda assim, Francis sabia exatamente daquilo e foi correndo no meio da tempestade de neve atrás de uma caixa de chá.

Um sorriso surgiu à memória de quando Francis voltou para casa, cabelo molhado e rosto corado com um resfriado, mas um sorriso brilhante no rosto. Arthur o reprimiu por ter saído na neve, mas Francis apenas fungou e com uma gargalhada, lhe entregou a caixa que ele não havia dito ao Arthur que tinha saído para comprar. Inglaterra o olhava espantado, observando o nariz e as bochechas avermelhadas em contraste com os seus lindos olhos azul-oceano os quais ele se apaixonou profundamente. Ele agradeceu ao homem que tremia de frio e prontamente o colocou na frente do fogo com seu cobertor mais quente – depois que ele retirou as roupas molhadas, é claro, e fez para ambos uma xícara de chá quente.

Foi o melhor chá que ele já tomou.

Tateando o papel suave, o sorriso permaneceu em seu rosto. Realmente foi muito gentil da parte dele sair daquela maneira. Arthur não havia nem pensado naquela memória por um bom tempo e se perguntava o porque. Uma brisa forte passou e Arthur se levantou, guardando o pacote com seu precioso chá dentro do casaco. Ele olhou ao redor e caminhou em direção à loja.

Enquanto ele caminhava pelo caminho acimentado, sua mente transbordava de pensamentos sobre o França. Francis poderia ser o namorado mais romântico e fiel, mas também poderia ser o maior idiota que o mundo já viu. Mas não estava Arthur no mesmo barco? Ele suspirou e chutou uma pedra aleatória, assistindo-a atravessar a rua e lá ficar.

Ele ainda estava em conflito com seus pensamentos, mas parou abruptamente na frente de um velho estabelecimento na Avenida Walburn 31. Ele franziu o cenho e olhou para o letreiro da loja. Ele deveria ter se confundido, esse não poderia ser o local. Inglaterra rapidamente desdobrou a carta e encarou o endereço, e depois as letras brilhantes em prata no estabelecimento. Estava certo, mas por que diabos o Francis o mandaria para um lugar como esse?

Com um suspiro, Arthur entrou na loja, olhando em volta pelos produtos, quando a caixa o observou entediado.

- Bem vindo ao Império do vidro e dos espelhos dos irmãos Joseph. Posso lhe ajudar com alguma coisa? – A garota lhe lançou um sorriso, corando assim que viu Arthur.

- Não, obrigado. Só passeando. – Inglaterra deu um passo para longe dela e começou a vagar pelo grande labirinto de espelhos, procurando por algum sinal do envelope. Desta vez, a carta foi surpreendentemente fácil de se encontrar. Estava no canto de uma parede cheia de espelhos antigos. Estava transbordando com a beleza brilhante de cada moldura esculpida, fazendo-a sentir-se pequena pelo seu tamanho. Inglaterra finalmente caminhou até o maior e mais majestoso espelho onde a carta estava inserida entre a moldura de ouro. Ele pegou o envelope e o olhou de relance antes de abrí-lo e pegar o papel dobrado.

Arthur,

Eu lhe trouxe aqui para mostrar o que há de mais belo e precioso na minha vida.

Francis.

Arthur observou a pequena nota, virando-a e procurando por mais palavras. Quando não encontrou nenhuma, seus olhos absintos se agarraram as palavras em confusão. Do que ele estava falando? Não havia nada ali além de espelhos.

Franzindo, o britânico de cabelos cor-de-areia levantou os olhos para ver se havia alguma outra nota presa na muldura quando ele percebeu seu reflexo. Seu reflexo estava espalhado por todos os espelho daquela parede, todas as molduras antigas e magníficas mostrando apenas ele. Sua respiraçõa ficou presa na garganta quando ele percebeu o que Francis quis dizer.

Inglaterra ficou lá, observando seu reflexo, sem acreditar, e depois olhou para a carta. Olhou para o espelho novamente, observando sua imagem espelhada limpar algumas lágrimas prestes a cair, porque ele não ia chorar, droga. Ele esfregou os olhos, um pequeno soluço subindo pela garganta enquanto ele procurava loucamente pelo francês. Onde ele estava? Aquele imponente, extravagante, apaixonante e bondoso idiota. – Onde ele estava?

Arthur olhou desesperado para a carta. Não havia mais nenhuma informação, nada para dizê-lo onde Francis estava. Uma lágrima caiu sobre o papel, tornando-o translúcido e Inglaterra olhou para a porta. Ele deu um passo para frente, se movendo lentamente. Um outro passo e ele ganhou velocidade. Mais um e ele estava correndo pelo ar livre, procurando pelo homem que o fez chorar e com que seu coração batesse mais forte.