Chegou a hora. A ruiva, dessa vez, estava pronta para encarar seu medo. Ela tomou um banho, pôs seu vestido roxo favorito, e uma tiara verde. No final, pegou sua bolsa da mesma cor que a tiara, colocando duas canetas e um bloco de notas. Comeu uma maçã, despediu-se dos pais e saiu de casa. Ela não estava contente, mas também não estava triste; partia mais de uma neutralidade, do pensamento que estaria lá somente para fazer o trabalho com ele. Afinal ela não era sua namorada para saber de sua vida íntima, era apenas sua melhor amiga.

Ao chegar a sua casa, novamente foi recebida por ele. Estava sem camisa, sujo de graxa no rosto, corpo, inclusive sua bermuda jeans de cor verde abacate.

"D-daphne?" o loiro perguntou confuso, ligando-se logo depois "Ah, droga. Desculpe, perdi a noção do tempo."

Ela balançou a cabeça, rindo.

"Não se preocupe, Fred. Se quiser, eu posso ir embora e voltar depois." A ruiva apontou com o polegar para trás, dando um curto passo.

"Não, espere." Rapidamente o loiro a segurou pelos dois braços, deixando-a com o coração acelerado por causa do ato repentino.

"Olha só, eu vou tomar um banho rápido e volto para podermos continuar, tudo bem?"

Por poucos segundos, trocaram olhares, mas que foram cortados por Daphne, que corava por estar tão próxima dele.

"S-sim. Eu fico." Disse gaguejando.

"Obrigado. Agora, não seja tímida e entre. A casa é sua."

"Pare com isso, e vá logo!" a ruiva corou mais ainda e lhe deu um pequeno empurrão.

"Está bem, está bem!" ele entrou na brincadeira e correu para subir às escadas, partindo para o banheiro.

"Com certeza, não era sono." Ela pensou em voz alta.

Daphne não conseguia parar de sorrir vendo aquele homem. Talvez aquilo não fosse mera coincidência; talvez estivesse apaixonada, o que não era incomum. Já o conhece há tanto tempo, que o amor poderia se desenvolver de uma forma ou de outra.

Ela dirigiu-se à sala de estar e sentou-se no sofá, observando o livro que encontrava-se no mesmo lugar de antes, em cima da mesa de centro. A ruiva o pegou e começou a analisá-lo sem compromisso. Foi então que ouviu uma música tocar; era o celular de Fred que tocava. A curiosidade era grande e que foi aumentada ainda mais, pois o aparelho estava ao seu lado.

A jovem não ia atendê-lo, é claro, mas queria pelo menos olhar quem ligava. A culpa a seguiria logo depois, só que no momento, estava ausente. Então o pegou, e arrependeu-se de ter visto aquilo.

"É verdade..." ela sussurrou. Era Alice quem estava ligando, o que reforçou a teoria de que os dois estavam namorando mesmo. O sorriso que carregava antes desapareceu, assim que viu o rosto daquela mulher na tela de seu celular.

Não demorou muito até que ela deixasse o celular do mesmo modo que estava. A ligação parou e ela agradeceu por ele ter parado de tocar. A vontade que tinha no momento era sair dali e correr para mais longe possível, mas não podia sair novamente e deixá-lo na mão. Já havia feito isso ontem, e seria um erro fazer novamente. A consciência falou mais alto e ela teve de aguentar aquela mistura de raiva e tristeza dentro de si.

Ela pegou novamente o livro, e deslizou suas mãos pelas páginas, mas logo cansou-se de disfarçar. Levantou de seu lugar e começou a caminhar pelo cômodo. E para deixá-la ainda mais incômoda, o celular de Fred começou a tocar mais uma vez.

"Isso não vai parar?" ela pôs a mão em sua cabeça e gritou para o objeto, arrependendo-se depois de ter aumentado sua voz.

A espera estava lhe dando nos nervos. Nunca pensou que aguardar por alguém naquele estado fosse tão torturante. Só depois de longos e intermináveis minutos, o loiro voltou. Ainda estava um pouco molhado pela água do banho, devido à pressa; ele vestia uma camisa branca de mangas curtas, uma bermuda cinza e chinelos. O rapaz desceu correndo às escadas, apenas para não perder mais tempo e continuar o trabalho com ela, e encontrou observando algumas fotos presentes na cômoda da sala.

"Demorei muito?" Fred perguntou com um sorriso no rosto.

"Nem contei as horas." Ela respondeu ironicamente.

Fred fez um gesto com a mão dando a deixa para que ela se sentasse, e a acompanhou em seguida.

"Acabei não preparando um lanche dessa vez." O loiro bateu as duas mãos em suas pernas, envergonhado.

"Tudo bem, Fred." Ela lhe deu um tapinha no ombro.

"Bem, vamos continuar?"

Daphne abriu o livro e os dois continuaram a ler. Naquele momento, Ralf, o personagem principal acabara de se deparar com vários homens cercando uma garota.


Ralf, mesmo não conhecendo-a, seria incapaz de deixar aquela situação prosseguir. Algo dentro dele falava tão alto que todo o seu corpo obedeceu ao comando. Os olhos dele queimaram e o rapaz não esperou, correndo em direção à cena.

Ele aproximou-se do grupo e empurrou um dos que estavam próximos à garota derrubando-o no chão.

'Parem de mexer com ela!' ele disse, com coragem estampada em seu rosto.

Os homens começaram a rir da atitude de Ralf. Em nenhum momento demonstraram medo ou temor, até porque ele era um só contra os três. E mesmo sabendo que estava em desvantagem, não recuou, ficando todo o tempo perto da garota.

'Você está maluco?' ela perguntou assustada.

'Shh. Quando eu disser você corre.' Ele sussurrou rapidamente.

'O q-'

'Agora!' Ralf gritou, e inconscientemente a garota começou a correr no caminho dirigido ao colégio. E antes que um dos homens fosse atrás dela, o rapaz jogou seu corpo para segurá-los.

Aquilo impediu que ela fosse perseguida, e ele sabia da consequência ao tomar aquela atitude. Ralf foi cercado por eles e derrubado no chão. Não demorou muito até que os três começassem a chutá-lo sem piedade. O rapaz tentava proteger as partes vitais de seu corpo, mas não adiantava muito; levou pontapés e socos nas costas, barriga e na cabeça. Ele mal conseguia se levantar para fugir dali, muito menos gritar por ajuda.

[...]

Pensou que estava sozinho, que morreria até. Mal imaginava que o primeiro dia de aula terminaria daquele jeito.

O fim, para ele, estava próximo. Entretanto, enganou-se.

'Saiam daí!' Ouviu-se uma voz ao longe. Ralf não percebeu, pois tentava se proteger.

De repente, o que parecia ser a morte para o jovem, teve como destino a possibilidade de viver novamente. Dois seguranças do colégio corriam até o local do espancamento, e com eles, a garota que ele havia protegido.

Ralf percebeu que não estava mais sendo atingido e abriu os olhos com muita dificuldade. Ele sangrava pela boca e pelo nariz, e sentia que, possivelmente, havia quebrado uma costela. Os três homens haviam fugido, com medo dos seguranças, mas ainda zombaram do ferido ameaçando de vida.

Rapidamente a garota correu até ele, gritando para os dois virem ajudá-lo. Ralf estava muito ferido e mal conseguia se mover, estava correndo risco de vida.

Tudo aconteceu tão rápido para o rapaz. De uma vida pacata em sua terra natal, veio e teve seu primeiro dia, um pesadelo.

[...]

'Onde... onde eu estou?'

Ralf abriu os olhos. Sentia-se cansado e fraco; tentou mexer as mãos e os braços e depois as pernas, reparando depois que havia sido anestesiado. Ainda sentia dores pelo corpo, mas não eram mais tão intensas como nos momentos após ter sido espancado.

Ele reparou também nas agulhas nos braços e o barulho do equipamento ao seu lado, que monitorava seus batimentos cardíacos. Depois viu a figura branca à sua frente que analisava alguns papéis.

'Vejo que você acordou.' Uma voz grossa e profunda virou-se para Ralf.

O rapaz assustou-se com a figura. Nunca tinha o visto antes, além disso, o efeito dos remédios o deixou pior.

'Ei, acalme-se, meu amigo. Está tudo bem agora. Meu nome é Edward Hill,' O homem de jaleco aproximou-se dele, tocando em seu ombro 'você recuperou-se rapidamente. Não esperávamos que fosse acordar logo.'

Ralf tentou dizer algumas palavras, mas não conseguiu.

'É um rapaz muito forte, Ralf. Eu ouvi sua história de como chegou até aqui.'

'A... garota...' ele disse apreensivo.

'Senhorita West? Ela não está aqui, mas saiba que ficou muito preocupada com seu estado. Elisa ficou por muito tempo esperando alguma notícia sua. Só não ficou mais, pois seus pais vieram buscá-la. Vejo que temos mais um herói na cidade.'

Ralf olhou para o lado. Ainda estava atordoado com a situação, e com Elisa, a garota que salvou e que só depois conheceu seu nome.

'Os garotos...' novamente ele forçou a voz, e os sinais vitais começaram a acelerar. Na mesma hora o médico percebeu e disse:

'Acalme-se. A polícia já vai cuidar disso. Agora repouse, você ainda está debilitado e precisa descansar o máximo possível.'


"Não acha melhor tomarmos nota das partes mais importantes do livro?" a ruiva interrompeu a leitura.

"Tipo, um resumo?" o loiro perguntou.

"Isso mesmo. Como teremos de fazer isso, e ter que debater com a turma depois, é melhor anotarmos tudo o que acharmos mais conveniente, pegando as partes chave.

"É uma boa ideia."

Daphne pegou o bloco de notas e uma caneta de sua bolsa, e começou a anotar as partes chaves do livro que leram até o momento, desde o começo. Fred dizia o que achava essencial e também anotava. Pararam no meio do capítulo 3, onde Ralf acordou no hospital e conversava com o médico. Os dois mal perceberam, mas passaram 3 horas fazendo aquele trabalho, sem contar o tempo que pararam para comer um lanche ou quando ficaram conversando. Foram as únicas horas que Daphne esqueceu-se de Alice, tempos que acabaram-se quando ouviram a campainha tocar.

"Eu atendo." Fred falou, levantando e seguindo até a porta.

Os dois não esperavam por aquela visita, que os pegou de surpresa.

"Freddie." A voz feminina disse alegre. Era Alice. Ela não esperou e logo beijou os lábios de Fred, que também a beijou, surpreso.

"Querida, eu não esperava você por aqui."

"Eu tentei ligar para você várias vezes, mas você não atendia então eu vim te ver."

"Ah... me desculpe."

"Tudo bem, meu amor." Ela lhe deu um rápido beijo, e depois entrou sem aviso dele.

Até o momento, Daphne não sabia quem estava na porta. Ela ainda estava no sofá, esperando por Fred. Somente quando a loira entrou na casa, as duas viram uma a outra.

"Alice?"

"Daphne? Fred, não sabia que você tinha visita."

"Não se esqueceu de que eu tenho de fazer um trabalho com ela, Alice?" ele respondeu, fechando a porta.

"Oh sim, eu lembro."

"Uma visita que já está de saída." A ruiva inesperadamente levantou recolhendo seu bloco e sua caneta.

"Mas... já?" Fred aproximou-se da sala.

"Adiantamos muita coisa e acho que já está um pouco tarde."

Daphne começou a caminhar até a porta, passando ao lado de Alice. Fred não percebeu, mas as duas trocaram olhares mortais.

O loiro acompanhou-a até a saída, lamentando por ela estar indo.

"Vejo você amanhã?" ele perguntou, abrindo a porta.

Ela assentiu.

"Passe bem, Fred." Ela disfarçou e saiu.

"Tchau, Daphne." Alice gritou, e a ruiva podia sentir o tom de zombaria contido em sua voz. A ruiva olhou para trás uma última vez e viu os dois se beijando. A última coisa que ela queria ter visto era aquilo.

Daphne não tinha palavras para descrever o momento. Estava tão bem com ele, e de repente, aquela pessoa, logo ela aparece e estraga à tarde dela. Tudo o que queria fazer era gritar, espernear e arrancar aquela mulher dos braços de Fred.

O dia com ele havia acabado, e a detetive tinha o desejo de chegar em casa o mais rápido possível, descansar e esquecer aquela cena.