Sakura POV.


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Não posso negar que nunca senti falta da minha mãe, por mais que meu pai estivesse presente na minha vida, ele jamais poderia substituí-la. Amor de pai é completamente diferente de amor de mãe, e eu tinha cada vez mais certeza disso toda vez que eu via Mikoto-san acariciar Sasuke enquanto ele fazia birra por algo, ou quando Kushina repreendia Naruto pela falta de modos à mesa.

Era uma coisa que eu jamais teria, que foi tirado precocemente de mim e que não voltaria.

Mas eu procurava não pensar muito nisso, tentava me encher com o amor que me davam e convencia a mim mesma de que isso era suficiente. Mas não era.

Eu nunca fui o tipo de garota revoltada, que afoga seus medos e angustias com drogas e vícios, eu amo demais meu pai e meus amigos para se quer pensar nesse tipo de coisa, porém, a adolescência é um período de descobertas, de curiosidade e de aprovação. É a parte da vida onde nos é permitido errar e ainda assim seguir em frente, é a hora de aprender, e eu senti falta da minha mãe passando a mão na minha cabeça, preocupando-se comigo ou mesmo me aconselhando sobre a vida.

Ainda hoje, quando deito em minha cama, fico imaginando como seria se minha mãe estivesse ali. Se ela deixaria eu dormir com dois garotos fora de casa, se ela não iria se importar sobre meu trabalho de meio período, se ia se preocupar com a minha alimentação e horários...

Talvez, se ela fosse viva, eu tivesse me tornado outra pessoa. Uma pessoa completamente diferente, mais madura talvez, com outras manias, outra maneira de viver.

E isso me assusta.

Pensar que eu não viveria minha vida exatamente da maneira que eu vivi até o presente momento, que eu não conheceria essas pessoas, e que a probabilidade delas jamais terem me afetado existiria me abala.

E honestamente eu não sei se eu trocaria tudo que tenho — tudo o que eu passei, que valorizo, e o que sou — pela vida da minha mãe.

Não pensem que eu sou ingrata, não é isso.

Ela poderia ser viva, e eu poderia ser uma revoltada da vida, poderia não valorizar seu amor, e isso é horrível. E eu também acho que de onde ela está, ela também concorda comigo, e de alguma maneira, também sente a minha falta.

Desculpe mãe, e obrigada.

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— Oe, Sakura-chan! — Gritou Naruto atrás de mim. — Mais devagar, por favor! — Implorou pedalando fervorosamente para me alcançar.

— Não seja preguiçoso! — Falei diminuindo o ritmo, e logo Naruto me alcançava, reclamando do porque estávamos indo a praia de bicicleta se ele tinha um carro. Revirei os olhos ignorando as reclamações.

Era uma quinta-feira, feriado na nossa cidade, o que implicava que sexta seria imprensado, logo não teria aula e a maioria das pessoas estavam viajando. O que não era o meu caso, nem o de Naruto.

Chegamos a praia e deixando as bicicletas no bicicletário e corremos pra areia. Naruto colocou uma toalha e um guarda-sol na areia enquanto eu tirava o vestido com um puxão só e saia correndo para o mar.

— Sakura-chan! — Ele gritou, e quando eu me virei para mostrar a língua, ele já havia me colocado sobre o ombro, como um saco de batatas, e me jogado na água salgada. Gargalhamos.

Nesse feriado, Sasuke tinha viajado com a família, tinham ido pruma tediosa reunião familiar com todos os membros do clã Uchiha. Uma tradição bem antiquada que o bisavô de Sasuke — Madara — insistia em manter.

— Imagino a cara do Sasuke a essa hora! — Falou Naruto colocando o cabelo para trás, joguei um pouco de água nele e dei uma pequena risada.

— Acho que ele não está de divertindo muito... — Ponderei olhando para as nossas coisas na areia. Prum feriado, não havia tantas pessoas na praia.

— Você acha? — Então, outra vez ele me colocou sobre os ombros, soltei um pequeno grito e balancei as pernas resmungando um "você não precisa fazer isso!" com Naruto ignorando. — Eu tenho certeza! — E riu enquanto saia comigo da água.

Eu e Naruto já tínhamos ido passar um final de semana com os Uchihas a pedido de Sasuke, mas não tínhamos ideia de como era tediosa aquela situação. O bisavô de Sasuke fazia questão que todos estivessem acordados as seis horas da manhã, tomávamos café da manhã em uma longa mesa de madeira com várias cadeiras, onde Madara sentava-se na ponta, logo após, Madara e seus netos e bisnetos iam pescar para incentivar a comunicação, as mulheres resignavam-se a trabalhos como cozinhar, e os homens cortavam lenha.

Tudo bem arcaico.

— Diga "X"! — Naruto disse juntando o rosto dele ao meu e esticando um braço com o celular, rapidamente eu dei um sorriso e click. — Haha, vamos fazer inveja ao Sasuke! — Completou martelando a tela do celular.

— Fale que a noite vamos jogar BF3! — E ri enquanto Naruto se jogava na toalha estendida na areia ao meu lado. O sol era tão revigorante.

Kiba também havia viajado com a família, tinham ido para a cidade vizinha ajudar a avó dele com os cães. A família de Kiba tinha um abrigo para cães em Okayama, mas que foi fechado por falta de recursos, e por isso, estavam fazendo uma grande feira de doações, para certificarem-se que todos os cachorros teriam um lar.

— Olha. Ele respondeu. — Falei pegando o celular de Naruto que tinha vibrado, abri a mensagem e não era de Sasuke. — Oh.

— O que foi? — O loiro se esticou para o meu lado, deixando que seus olhos caíssem sob a tela. — Ah... — Disse voltando à sua posição inicial. — Eu ia te falar isso... — Era uma mensagem de Ino.

— Então... Vocês vão sair? — Perguntei deixando o celular cair na areia, Naruto não se importou com isso, apenas mexeu a cabeça, fazendo sinal que sim.

Ficamos em silêncio por um momento, Naruto cosou a cabeça e depois ergueu o troco, ficando sentado. Já eu continuei deitada, sentindo os raios de sol tocarem meu corpo com toda a sua glória. O céu estava incrivelmente azul, e as nuvens dançavam em torno do sol.

— Eu a chamei para ir no parque perto do pier. — Começou levantando-se, tapando o meu sol. — Eu não sabia se ela ia aceitar. A Ino não parece o tipo de garota que gosta dessas coisas, mas eu não queria levá-la num shopping, ou coisa do tipo. — E de repente, ele parecia bem preocupado com isso, tão preocupado que me fez dar uma pequena risada.

— Ela tem trauma de parques. — Falei levantando-me. — Mas do jeito que ela anda falando de você pra mim, era obvio que mesmo que você chamasse ela prum concurso de quem-come-mais-ramén, ela iria. — Naruto corava instantaneamente, e eu dava outra pequena risada. — Ela já tinha me falado que ia sair com você. — Ele fez uma carranca.

— Eu falei pra ela que queria falar pra você. — Completou fazendo um bico dramático. Eu dei uma sorriso tenro e apontei pra melancia.

— Do jeito que você é, eu só ia ficar sabendo quando você tivesse casando. — Ele revirou os olhos e riu.

Naruto pegou uma melancia que tínhamos trazido e andamos calmamente até um quiosque, ele me contava de como foi difícil escolher o lugar para sair com Ino, que a chamou para o parque porque ela não parecia ir muito a esse tipo de lugar, e de fato, ela não ia.

Sentamos em uma mesa no local, partimos a melancia e a comemos lentamente, eu dizia a Naruto o que fazer para manter a atenção da loura inteiramente nele, enquanto ele ria como se fosse a coisa mais idiota que ele já ouvira na vida.

— Sabe, Sakura-chan..!? — Começou para chamar minha atenção, eu o olhei e ele continuou. — Eu acho que você está apaixonada. — Arqueei uma sobrancelha e dei uma risada alta, incentivando-o a explicar tal suposição. — Ahn... É que em outras épocas você não ia gostar d'eu sair com outra pessoa...

— Ah... O caso da Hinata foi diferente. — Falei tirando um caroço da boca. — Você não falava mais comigo. Morávamos na mesma cidade, estudávamos no mesmo colégio e eu mal te via. — Ele revirou os olhos e eu o acompanhei. — Mas com Ino as coisas vão ser diferentes. Ela é minha amiga e sabe como funciona a nossa amizade, e também faz tempo que ela não fica com um cara legal... Quer dizer... Eu estou feliz por vocês. — Naruto me olhava com aqueles grandes lagos luminosos como se tivesse acabado de descobrir que sua irmã mais nova tinha amadurecido embaixo do seu nariz e ele não tinha percebido. — Dois dos meus três melhores amigos vão ficar juntos como um casal, e eu sei que os dois vão se dar bem um com o outro... Não tem porque eu ficar colocando empecilho e–

—..E eu ainda acho que você está apaixonada. — Interrompeu-me com um olhar um tanto desafiador. Nos encaramos por um breve segundo e eu lhe perguntei "porque". — Sabe... Você está com aquele sorriso bobo na cara o dia todo. — Arqueei a sobrancelha divertida.

— Que sorriso bobo? — Perguntei.

— Você sabe... — Ele revirou os olhos ao mesmo tempo que gesticulava. — Aquele que você dava quando tava com aquele idiota. — E foi a minha vez de revirar os olhos.

— Mais respeito, Naruto! — Repreendi-o e ele riu. — E eu não sei do que você está falando. Aliás, nem tem como você saber... Só durou uma semana mesmo.

— Você teve mudanças sutis na semana que passou com seu namoradinho.

— Ele tinha nome, Naruto. — E então me levantei da cadeira e uma brisa suave soprou levando meus cabelos, Naruto me olhava intrigado. — E eu não estou apaixonada. — E antes que ele retrucasse com algum argumento falho, eu me adiantei. — Fim de papo.

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Perto das onze horas voltamos para casa, decidimos não voltar pedalando, apenas empurramos nossas bicicletas ladeira acima, conversando calmamente e sentindo o sol ficar cada vez mais forte. Chegamos na casa de Naruto, deixamos as coisas lá — incluindo as bicicletas — e ele me levou para casa no carro dele.

Chegando em casa, fui direto para o banho. É incrível como uma ducha morna conseguia relaxar todo o corpo. Lavei preguiçosamente os cabelos, passando duas vezes o shampoo e deixando o condicionador agir por três minutos, cada parte do meu corpo tinha sido lavado de modo a deixar o sabonete fazer bastante espuma, só para depois ver a água levar tudo.

Saí do banho com uma toalha enrolada nos cabelos e outra envolta ao corpo, abri as portas do guarda-roupas procurando algo confortável para passar o resto dia, mas antes que eu escolhesse, o telefone começou a tocar incansavelmente.

Era Sasuke.

— No meio de toda essa diversão, você ainda tem tempo de me ligar? — Zombei ao atender, ele deu uma risada sarcástica e eu ri. — E ai?

"Pelo amor de Kami, pega Naruto e venham me buscar, agora." — Eu ri alto.

— O que é uma manhã na praia comparado à arte da pescaria? — E continuei rindo enquanto imaginava a cara tediosa de Sasuke.

"Para com isso." — Falou mal-humorado. — "É sério, isso tá um saco."

— Haha, desculpe. Eu não resisti. — Coloquei no viva-voz e voltei a escolher alguma coisa para vestir. — Você sabe que não vão deixar eu e Naruto irmos tão longe sozinhos. — Dei uma breve pausa puxando um vestido. — Mas se você realmente quiser voltar, a gente pode dar um jeito. — Completei.

"Não quero meter vocês em encrenca." — Coloquei a roupa lentamente, notando que iria ficar com uma leve marca de biquíni. — "Eu tenho que desligar antes que o vovô perceba que eu fugi." — Sorri torto imaginando Sasuke no banheiro, fingindo uma dor de barriga, e falando baixinho para não ser descoberto. — "Eu queria muito estar com você... e com o Naruto. Divirtam-se por mim."

— Pode deixar. — Peguei o telefone e tirei do viva-voz. — Tente se divertir também, nem que seja coisa pouca. — E eu podia sentir aquele sorriso de canto se formando nos lábios dele.

"Vou tentar por você, gata." — Nós dois rimos. — "Tchau, Sakura." — E então desligamos.

Joguei-me na cama fazendo barulho, ri imaginando Sasuke no meio de todos aqueles Uchihas. Era engraçado ver como a família de Sasuke havia mudado depois daquele incidente. Se não fosse aquilo, talvez Fugako-san ainda fosse paranoico como Madara, colocando acima de tudo as tradições Uchiha. De algum jeito, aquele terrível acontecimento tinha sido algo bom para Sasuke, nem que fosse coisas sutis.

Lembro-me de Naruto chegando apressado no hospital, do meu pai me dando uma bronca ao mesmo tempo que me abraçava como se a qualquer momento, algo fosse acontecer outra vez. Mikoto-san vestindo apenas preto e foi a primeira vez que eu vi Fugako-san faltar ao trabalho. Kushina-san não desgrudava de Mikoto, e Sasuke...

...Descobriu que não era tão forte quanto pensava.

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O resto do dia passou calmo e comum. Almocei pizza com meu pai, vimos Procurando Nemo juntos e a noite eu saí com Naruto para jantar sorvete. E dessa forma, um novo dia chegou.

Acordei tão tarde quanto uma adolescente deveria acordar num feriado, passei a tarde toda de pijama, ora jogando no Wii, ora vendo TV e as vezes, fazendo um show particular em meu quarto, usando um frasco de desodorante como microfone e a voz de algum cantor como backvocal.

Era quarto horas e eu estava jogada na cama, apreciando a arte de não-fazer-nada, quando o meu telefone de repente vibra. Uma mensagem.

"Não esqueça que você tem uma prova na segunda."

Comecei a rir enquanto lia. Para alguém tão ocupado quanto Hatake Kakashi, estar lembrando seus alunos das provas não era muito... comum.

"Não se preocupe, ainda tenho uma aula antes de fazê-la ;) "

Respondi imediatamente e em seguida olhei para o relógio de cabeceira, nos veríamos em quatro horas. Talvez ele estivesse preocupado em saber se eu iria nesse feriado, afinal, eu poderia estar viajando, ou algo assim.

"Oh... Sobre isso, desculpe, mas preciso desmarcar. "

Arqueei uma sobrancelha.

"Ah... Tudo bem. De todo jeito, acho que eu já estou bem preparada para as provas, obrigada sensei. "

Martelei a tela sem pensar muito no que estava digitando. Na verdade, eu estava contendo a minha curiosidade em perguntar porque, mas não era da minha conta. Suspirei jogando o telefone em cima da mesinha. De alguma forma, eu estava irritada e antes que eu pudesse entrar numa profunda reflexão sobre isso, o toque — que nesse momento eu achei terrivelmente irritante — do meu celular ecoou no meu quarto.

— Sensei? — Minha voz saía surpresa.

"Sakura." — Respondeu do outro lado da linha. — "Desculpe por hoje. Aconteceu um imprevisto." — Disse parecendo cauteloso.

— Tudo bem. Acho que eu consigo revisar o assunto sozinha. — Falei calmamente, tentando parecer não estar incomodada.

"Tem certeza?" — Perguntou sem me dar a real oportunidade de responder. — "Se você quiser, eu vou até aí. Nosso compromisso foi marcado antes que isso e eu gosto de cumprir meus compromissos." — Eu não pude deixar de dar uma pequena risada. Kakashi-sensei era realmente muito honesto.

— Tudo bem, sensei. — Confirmei novamente com um ar mais descontraído dessa vez. — Como eu falei, já acho que estou bem preparada, graças a você. Obrigada.

"Sempre é bom revisar." — Ele deu uma curta pausa. — "Eu estou em Fukuoka, não é tão longe, tem certeza que não...?" — E em algum lugar dentro de mim surgiu uma pequena vontade de pedir para que ele voltasse.

— Eu já disse, está tudo bem. — Disse outra vez. — Mas estou curiosa. O que você está fazendo em Fukuoka?

Nós não nos víamos desde que nos encontramos no terraço do prédio onde ele morava, então essa era a primeira vez que nós nos falávamos em dias. O casaco dele estava lavado e dobrado, colocado cuidadosamente dentro de uma sacola para ser devidamente devolvido. Desde aquela noite, eu não sabia como seria quando nos encontrássemos de novo, eu sentia que algo havia mudado, mas não sabia o quê. De alguma forma, eu entendi que quando eu devolvesse aquele casaco, esse sentimento de mudança iria se confirmar e assim eu iria saber o quê exatamente tinha mudado, e se tinha mudado para nós dois. Dessa forma, eu tinha que estar preparada para o que viesse acontecer, e como uma tola, eu fiquei ensaiando frente ao espelho como devolve-lo.

"Ah... A biblioteca central fechou, vários títulos estão sendo doados, estou aqui para garantir que algumas relíquias tornem-se propriedade da universidade." — Falou com um interesse peculiar. Esse era Hatake Kakashi, amante de livros. — "Aliás, posso lhe trazer algo de Fukuoka?" — Perguntou após uma pausa.

Eu também havia tentado falar com Sasuke sobre aquele pedido estranho no elevador, mas eu sentia que não devia abordar aquele assunto de uma forma direta com ele, então tentei ser sutil, mas como sempre, sutileza é tão útil quanto uma pedra de gelo no Alasca, desse jeito, resolvi esquecer esse assunto.

— Você pode me trazer uma camisa do Avispa Fukuoka. — Dei uma risada imaginando a expressão no rosto do homem.

"Você gosta de futebol?" — Perguntou incrédulo. — "E torce pros Avispa Fukuoka?" — Dei uma risada mais alta ainda. — "Quem diria, hein?"

Conversamos por longas duas horas. Kakashi-sensei me falava dos importantes livros que havia adquirido e de como Fukuoka era agitada a noite. Ele perguntou-me como estava passando o feriado e do porque d'eu não ter viajado. Foi uma conversa agradável, daquelas que nós costumamos ter no apartamento dele, casual e descontraída.

Por um momento, enquanto falava com ele, achei que nada ia mudar. Que quando eu o visse outra vez tudo seria exatamente igual, e estranhamente isso me incomodou ao mesmo tempo que me confortava.

Quando desliguei, fui até a janela do quarto e fitei o céu. A constelação de Pyxis* se mostrava timidamente a leste. Pyxis, a bússola. Talvez eu precisasse de um norte.

Talvez.

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Sábado chegou com chuva, impressionante como o tempo as vezes é contraditório. A semana toda um forte sol brilhava radiante no céu, mas foi só o final de semana chegar que as nuvens tomaram conta do céu e despejaram litros d'água em toda a cidade. Nartuo havia me ligado cancelando o nosso programa da tarde. Iamos andar de patins até o shopping, assistir algum filme em cartaz e depois passar no Ichiraku Ramén para jantarmos. Se a chuva desse uma pequena trégua, talvez ainda pudéssemos ir até o Ichiraku.

Como era um dia chuvoso, meu pai tinha resolvido colocar a mão-na-massa e fazer um Manju tradicional. Comemos assistindo um novo anime de um mangá famoso que contava a história de um ninja escandaloso que queria trazer um amigo de volta para a vila dele por causa de uma promessa feita a garota que ele ama. Estranhamente, o personagem principal me lembrava Naruto.

Depois de comer, tomei um longo banho quente com ervas e fiquei no quarto ouvindo música, desejando que a chuva passasse. Quando menos espero, meu telefone vibra. É Ino no What's Up.

"Yamanaka I. says:Faz alguma macumba pra essa chuva passar, por favor!"

"Haruno S. says:Eu tenho cara de índio por acaso?"

"Yamanaka I. says: Ah... Sério, porque tem que chover logo no final de semana testuda?"

"Haruno S. says: Pois é, também não entendo... Teve a semana toda pra chover."

Dei uma rápida olhada pela janela e parecia que o mundo ia acabar.

"Yamanaka I. says: Desse jeito meu encontro... ): "

"Haruno S. says: Amanhã o dia vai tá lindo, vai."

"Yamanaka I. says: Eu não me importo que chova amanhã, contanto que seja perto do final do dia, quando Naruto estiver me levando para casa, então teremos que esperar um pouco debaixo de algum lugar coberto, a rua vai tá deserta, vamos estar levemente molhados e..."

Comecei a rir lendo o devaneio amoroso de Ino. Ela assistia muitas comédias românticas.

"Haruno S. says: Você sabe que o Naruto tem um carro né?"

"Yamanaka I. says: ... "

Ino com certeza tinha uma mente bastante fértil e estava mais que empolgada para sair com Naruto. Ficamos um tempo conversando sobre os clichês desse tipo de encontro, e de como evitá-los, mas não chegamos a nenhuma conclusão plausível. A loira parecia levemente distraída, talvez estivesse falando com mais alguém.

"Yamanaka I. says: E o Sasuke?"

"Haruno S. says:O que tem o Sasuke?"

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A primeira vez que eu tomei alguma bebida alcoólica foi com o incentivo de Ino. Foi numa festa do pijama na casa dela, a mãe dela tinha viajado com o pai e nós tínhamos a casa só para a gente.

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"Yamanaka I. says: Você sabe..."

"Haruno S. says: Talvez eu não saiba... haha... Ele tá bem, eu acho."

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Era uma garrafa azul-brilhante, assim como o céu. O liquido era transparente e parecia ser um pouco mais grosso que a água, mas tinha tanta mobilidade quanto, também tinha o cheiro forte e quando você engolia, ele descia suave, mas queimava cada parte do esôfago.

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"Yamanaka I. says: Você tá diferente. Aconteceu alguma coisa?"

"Haruno S. says: Diferente como?" Arqueei uma sobrancelha. Eu não me sentia diferente, mas Ino me conhecia bem o suficiente para notar qualquer mudança de humor ou personalidade em mim.

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No começo eu não queria beber, e depois que ela me forçou a tomar a primeira dose de Vodka, eu tive certeza que eu não queria beber. Logo de imediato me causou uma sensação estranha e eu sabia que se tomasse outra dose, essa sensação ia aumentar, e talvez eu não fosse gostar disso.

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"Yamanaka I. says: Não me entenda mal... Mas vocês está parecendo mais... Feliz."

Feliz.

"Haruno S. says: E porque eu não seria feliz?" Respondi e logo subi a conversa, lendo rapidamente para encontrar algum sinal diferente em mim.

"Yamanka I. says: Não que vocês não fosse feliz... Não é isso... Mas você parece mais feliz. Como se algo tivesse acontecendo, ou acontecido pra isso... Não sei, pensei em Sasuke."

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Mas é claro que Ino não ia me deixar dormir sem antes acabar com aquela garrafa, então eu bebi. Um copo atrás do outro e como eu temia, aquela sensação estranha começou a tomar conta de mim. Primeiro eu senti um pouco de sono, depois eu queria dançar, e nós dançamos todas as músicas que Ino tinha no MP3. Nós rimos, falamos alto, caímos, vomitamos... Tudo o que tinhamos direito.

Porém... Há mais um efeito que o alcool traz...

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"Haruno S. says: Sasuke?"

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Naquela noite, eu falei coisas que eu não ousava nem pensar direito. Coisas que eu tentava afastar por ter medo de admitir. Naquela noite, eu contei a Ino que amava Sasuke.

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"Haruno S. says: Ele é meu amigo, Ino." Estranhamente, pela primeira vez na vida, eu senti que não estava omitindo algo. Eu olhei incrédula para aquelas palavras, lendo e relendo cada uma delas, tentando achar aquele sentimento que sempre que surgia eu o afastava para longe.

Mas não veio nada.

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Dado ao nosso consumo de álcool, Ino ficou mais eufórica que o comum. Ela queria ligar para Sasuke, dizer que ele tinha que ficar comigo e que nós éramos feitos um para o outro. Mas eu disse que não. Que não podia ficar dessa maneira com Sasuke, e é claro que ela me perguntou o porque disso. Então eu respondi:

"Porque eu também acho que amo Naruto."

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"Yamanaka I. says: Bem... Se você diz... ;x " Revirei os olhos enquanto digitava em resposta.

"Haruno S. says: É, Ino... Inclusive, eu não o vejo desde quinta. Ele viajou com a família."

"Yamanaka I. says: Você está namorando alguém e eu não sei?" Encarei a tela por um longo — eterno — minuto, processando as palavras uma por uma, e depois ri.

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Ino se calou na hora, me encarou por um instante, e depois me serviu mais uma dose, alegando que eu precisava. E hoje eu concordo, eu realmente precisava beber.

Na manha seguinte, acordamos descabeladas, vomitadas e de ressaca. Mas lembrávamos de tudo. Absolutamente tudo. Como a boa amiga que é, após um banho, quando estávamos na cozinha comendo alguma coisa, Ino levantou esse assunto, disse que eu devia me abrir, contar a ela como eu me sentia, para que juntas achássemos uma solução.

Eu não queria falar sobre isso, eu apenas queria que ela esquecesse, mas nós conversamos, e eu me abri, falei sobre o medo de escolher um e outro começar a me odiar, ou no mínimo se afastar.

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"Haruno S. says: Não que eu saiba, haha."

"Yamanaka I. says: Vamos ver se eu entendi. Você não está com Sasuke, também não está incomodada com Naruto sair com outra pessoa (comigo) e também não está namorando... " Não pude deixar de rir com cada palavra.

"Haruno S. says: Pois é!"

Por mais incrível que pareça, eu estava a vontade com Ino e Naruto como um casal, e também não estava sentindo aquele frio na barriga quando Ino me perguntou sobre Sasuke.

Talvez eu estivesse mesmo diferente.

"Yamanaka I. says: Você. Está. Apaixonada. E. Eu. Quero. Saber. Quem. É. O. Cara."

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Depois de muita conversa, nós chegamos a uma conclusão. Eu, Naruto e Sasuke éramos ótimos em ser amigos.

E deveríamos continuar assim.

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"Haruno S. says: Não. É. Ninguém."

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E eu concordei plenamente.

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Ino não desistiu tão facilmente, e continuou insistido naquela ideia por horas, e eu é claro negava de várias formas diferentes, até que finalmente ela teve que fazer outra coisa, e saiu do What's Up.

Fiquei olhando para o teto por um instante, refletindo a nossa conversa e rindo sozinha ao lembrar de algumas partes. Eu estava tão distraída que a chuva parou e eu mal havia notado.

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O domingo passou com a volta de Sasuke e família no final do dia, e com Naruto nos contando de como o seu primeiro encontro com Yamanaka Ino foi maravilhoso, de como ela era linda e encantadora, e sobre como ele conseguiu beijá-la antes de voltar para casa.

Logo a segunda veio, e com ela as responsabilidades letivas também vieram.

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A sala estava completamente silenciosa, só conseguia-se ouvir o barulho dos lápis riscando as provas e do vendo que entrava com força pela janela. Ao meu lado, Sasuke escrevia secretamente as respostas no celular, e do meu outro lado, Naruto as recebia e copiava na folha-resposta. Era um esquema clássico dos dois. Dei um pequeno sorriso, aliviada por Naruto conseguir mais uma boa nota, e então voltei a concentrar-me em minhas respostas.

A primeira questão era sobre Ikku Jippensha*, foi uma das ultimas aulas que eu tive com Kakashi-sensei, logo eu a respondi. A questão de número dois era sobre uma de suas obras, naquela aula, o Sensei havia me falado sobre seu cachorro, Pakkun, e de como fazia tempo que ele não ia visitá-lo.

Sobre Chikamatsu Monzaemon* foram as três questões seguintes. Era o mais popular autor do pré-modernismo. Kakashi-sensei havia me induzido a jogar poker nesse dia. Ele me venceu seis vezes com o mesmo jogo na mão, o que é quase impossível de acontecer.

Saikaku Ihara* apareceu em outras três questões da prova, e eu não pude deixar de corar ao lembrar do Sensei recém saído do banho, com gotículas de água escorrendo milimetricamente pelo seu corpo bem-definido. De como o seu cabelo estava caído por ainda estar úmido, e de como a toalha branca adornava os seus quadris, fazendo-me pensar que a qualquer momento ela poderia cair.

As duas últimas questões foram sobre Bakin Kyokutei. Foi, de fato, a ultima aula que eu tive com Kakashi-sensei, eu ainda me lembrava de cada palavra, detalhe e gesto daquela noite. O constante olhar de preguiça que ora caía sob mim com uma malícia inocente, a voz suave e rouca ecoando pela sala, as vezes rindo de uma história engraçada, os braços fortes que folheava aquele pequeno livro vermelho com destreza, e seu cheiro de chuva impregnando minhas narinas.

As respostas fluíam da cabeça para o lápis, e do lápis para o papel e uma sensação de fim começava a me invadir. Eu estava acabando a prova, eu ia tirar um dez e não precisaria mais de aulas extras.

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Acabei a última questão colocando o lápis sobre a mesa. Eu não precisaria mais passar minhas noites com Hatake Kakashi.

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Levantei carregando a folha, indo em direção ao professor que me encarava do birô. Estava tudo acabado.

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Entreguei a folha para o professor e ele deu uma rápida olhada no conteúdo.

— Parece que dessa vez você vai tirar uma nota melhor. Parabéns. — Ele disse sussurrando, e mesmo que não estivesse, eu mal o escutaria.

Saí da sala vagarosamente, andei pelos corredores indo em direção ao banheiro feminino. A sensação de perda me acompanhava martelando no meu interior. Eu não precisava mais de aulas, não iria mais na casa dele, e porque eu estava pensando nisso? Eu voltaria a ter minhas noites livres, poderia fazer algo nelas. E Kakashi-sensei sempre estaria ali não é? Quer dizer... Nós ainda seriamos os mesmos... Não é?

Parei no meio do corredor, apoiando uma mão na parede mais próxima e levando a outra ao rosto. Eu não havia pensado nisso, e de qualquer modo, não havia o que pensar, era tão evidente, uma hora eu ia parar de ter aulas extras, e quando essa hora chegasse, o que quer que eu tivesse construído extra-aulas com Hatake Kakashi estaria perdido.

Pasma, escorei as costas na parede, levando a outra mão também ao rosto. Eu era tão tola, enganando-me esse tempo todo.

Naquele momento, varias questões invadiram a minha mente. Muitas delas eu tentei afastar, não queria ouvi-las porque temia a respostas, a outra parte dizia respeito a algo que eu acreditava ser impossível desde criança, que eu tentei mudar em um período da minha vida, e que deu totalmente errado.

Não podia estar acontecendo.

Não naquele momento.

Não com aquela pessoa.

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— Oe, Sakura-chan! — Naruto veio correndo até mim pelo corredor, acenando freneticamente com um sorriso de ponta a ponta. Tirei as mãos do rosto e vi aquele olhos azuis correndo em minha direção. Minha boca entreabriu milimetricamente. — Está tudo bem? Aconteceu algo? — Perguntou segurando meus ombros, olhando em meus olhos. Eu não respondi.

— Naruto, eu falei para você me esperar, mas que saco. — Sasuke surgiu atrás dele, caminhando lentamente com as mãos nos bolsos. Sua expressão era a mesma de sempre, calma e tédio misturadas em uma coisa só. — Sakura? — E agora havia um pouco de preocupação. Só um pouco.

— Eu estou bem. — Disse forçando um sorriso. Eles se entreolharam e voltaram a olhar para mim de novo. — É sério. — Completei endireitando-me. E logo quando eles iam começar com as especulações e perguntas incisivas, algo vibrou no meu bolso. Uma mensagem.

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"Boa sorte."

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Olhei para os dois meninos na minha frente, abri a boca e a fechei em seguida, desistindo do que ia falar. Soltei o telefone no bolso e dessa vez, dei um genuíno sorriso. Eles relaxaram, e em parte, eu também.

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Você pode fugir das pessoas. Pode fugir das situações. Pode fugir de conversas. Mas não pode fugir de si mesmo.

Você nunca vai conseguir fugir de si mesmo, e sendo assim, você também não pode escapar dos seus sentimentos e das suas próprias perguntas, a melhor coisa a fazer, é simplesmente, aceitar.

Sim...

Porque acontece todos os dias não é?

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Uma aluna, apaixonar-se por seu professor.

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Avispa Fukuoka: Time de Futebol da cidade de Fukuoka / Pyxis: Constelação da Bussola / Pessoal da Prova da Sakura: Autores famosos da era pré-moderna da literatura japonesa.

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E aii!

Er... Eu sei, eu sei, atrasei muito esse capítulo, é... Então, antes de tudo, minhas sinceras desculpas. Acho que vocês compreendem o que é ficar sem inspiração, ter toda uma ideia formada na sua cabeça e não conseguir explicitá-la no papel. É frustrante.

Não teve um só dia em que eu não pensasse nessa fic, e numa forma de escrever esse capítulo da melhor maneira possível. Esse capítulo foi re-escrito cinco vezes, onde todas as vezes ele foi mudado completamente.

Na minha primeira ideia pra ele, a Sakura começava conversando com a mãe de Naruto sobre a faculdade, da segunda vez, ela começava na casa de Kakashi, da terceira, ela tinha viajado com Sasuke, e na quarta, ela estava com Ino no shopping.

É... Foram muitas ideias, mas nenhuma tinha o resultado que eu queria, que me desse aquele sentimento de "é isso!", e devo confessar que até esse não ficou do meu real agrado, mas foi o que mais se aproximou disso.

Eu queria passar dois momentos nesse capítulo, mas ficaria cheio e corrido demais, então foi melhor apresentar só um momento. Aceitação.

Fora tempo, quem faz faculdade sabe que final de período é sinônimo de correria. Trabalhos, provas, reavaliações (eu devia tá estudando pra uma, agora.), to atrasada com todas as fics que eu acompanho ou tava lendo D: e agora nessa ferias vou morar no fanfictionet. kkk

Eu espero que esteja satisfatório, e a altura da fic. Também queria dizer que o próximo capítulo provavelmente sairá em Janeiro, logo no começo. Mas não é uma certeza absoluta.

Quero agradecer a todos os meus leitores lindos. E pedir desculpas mais uma vez, isso não costuma acontecer.

Ah, e um obrigada especial a usuária: S2KakashiS2, pela pm, que quer queira quer não, foi um incentivo a mais para esse capítulo sair. E também a uma amiga, que mostrou uma imagem linda (kakasaku) e acabou me dando a ideia do futebol pra essa fic. Obrigada!

Ah, não esqueçam das reviews, elas são tão importantes quanto o peru no natal, ou o porco no ano novo, ou quanto o papai Noel pras criancinhas.

Aliás, vou logo desejando feliz natal pra vocês e um feliz ano novo! Tudo de bom pra vocês minhas lindas k3


Beeeijos, e morrendo de saudade de vocês, Loreyu.