Primeira parte – A Paladina sem memória.

Uma das características mais notáveis dos integrantes do clã Pactum Scelleris era a de conseguir aparentar ter nada a fazer ao mesmo tempo em que rodavam o reino, ilhas e repúblicas adjacentes em busca de aventura e itens. Tal qualidade estava sendo brilhantemente demonstrada pela Paladina de mechas loiras mescladas a castanho claro, sentada à frente de uma mesa no bar de Prontera separando as cartas de monstros repetidas que possuía. Vale notar a quantidade relativamente grande de cartas Bode.

Nós duas havíamos ficado sozinhas depois de todos os outros saírem para fazer qualquer coisa. Riponga parecia não querer fazer nada aquele dia, pois sua armadura permanecera no quarto. Era estranho ver a Paladina que geralmente usava tanto metal recobrindo o corpo (causando confusão aos desavisados, que levavam um longo sermão se a confundissem com um Paladino) com somente o uniforme cinzento e a saia de couro.

Finalmente cansei de somente observar de longe, decidindo me aproximar e sentar em uma das cadeiras próximas. Riponga levantou os olhos cor de mel e sorriu quando me reconheceu.

- Oi, Carol. Não tem nada pra fazer também?

- Não...

- Ótimo, faremos nada juntas. – Ela voltou à sua pilha de cartas e começou a juntá-las, de forma a iniciar as fundações de um trêmulo castelo de cartas. Permaneci em silêncio enquanto ela concentrava todas as suas forças em não derrubar o que conseguira empilhar, mas logo a porta do bar foi aberta, permitindo que uma leve brisa entrasse e mandasse os pequenos quadrados de papel voando. Com um suspiro e um sorriso leve, Riponga voltou ao procedimento de colocar as cartas em posição.

Durante todo esse tempo uma parte de mim pensava que aquele momento calmo era propício a começar minha "pesquisa", por assim dizer, sobre o passado dos fundadores do clã. Quando a Paladina a minha frente começou a cantarolar decidi fazer a pergunta de vez, não havia encontrado outra forma de suavizá-la mesmo.

- Riponga, o que tu fazia antes de fundar o PS?

Ela fixou os olhos em mim por um momento, até que respondeu, como se fosse algo óbvio:

- Bom... Eu era parte do GdS...

- Eu sei, mas antes disso?

Os olhos que até agora permaneceram em mim se voltaram para um ponto qualquer no espaço. Após um momento de contemplação, ela simplesmente disse:

- Não sei.

Como fiquei pasma ela teve tempo suficiente de aumentar um pouco mais seu castelinho de cartas.

- Como não sabe?

- Bom... Eu sei... Mas não sei. Sabe?

- ...

Minha cara provavelmente devia ser de boba, pois ela riu e continuou:

- É que eu não lembro direito, só isso.

- Se importa de desenvolver?

- Não, só que gostaria de saber o motivo da pergunta antes.

O caderno que já estava fora da bolsa parou no meio do caminho.

- Bom... Acho que eu posso dizer que é curiosidade minha...

- Uhum... Bom, que seja. – Ela fez um gesto com a mão que parecia querer dizer "quem se importa?". Olhou para o meu caderno, já em cima da mesa, mas pareceu não se importar muito.

Transcrevo aqui o que anoteinaquela tarde amena de Prontera.

As primeiras lembranças de Riponga são de quando uma Sacerdotisa a encontrou em um cemitério próximo a Geffen e a criou em uma igreja de uma cidade próxima. Isso foi quando tinha aproximadamente 17 anos (se é que se pode definir uma idade para ela, pois parece constantemente jovem e a falta de memórias torna impossível definir um ano de nascença; eu tentei e falhei), nessa época ela aprendeu as crenças e ensinamentos da igreja.

Pelo que ela se recordava, a vida era tranqüila¹. E claro, a tranqüilidade no reino de Rune Midgard nunca é regra. Uma chuva de fogo parece ter destruído a cidade (Chuva de Meteoros, provavelmente), deixando somente ruínas e mortos para trás. Os mortos foram corrompidos pela energia maligna que tomava conta do lugar, formando uma cidade amaldiçoada onde a vida não existia mais.

Apesar de não lembrar como, Riponga sobrevive. Recorda-se somente de lembranças confusas, com ela carregando um grande escudo com o desenho de uma cruz em direção a Geffen, onde um Bruxo a socorreu.

Mais tarde descobri que esse Bruxo deduziu que Riponga era uma espécie de imortal. Os ferimentos que ela tinha quando a encontrou mostravam que seria impossível que qualquer humano normal tivesse sobrevivido, o que, de fato, não ocorreu. O escudo que ela carregava deve ter protegido seu corpo, que permaneceu inteiro, apesar de temporariamente morto.

- Eu me esqueci de tudo, menos o que aprendi com a Sacerdotisa.

- Mas tu virou uma Espadachim, não?

- É... Apesar de eu ser um desastre com uma espada.

A união dos conhecimentos religiosos e o pouco que havia aprendido com espadas levaram Riponga para o caminho dos Templários. Passou por muitos testes para adquirir seu novo título e começou a aprimorar suas habilidades com o escudo, carregando sempre consigo aquele com o desenho da cruz que salvara sua vida.

O Bruxo que a havia ajudado um dia parte para uma viagem de autoconhecimento e desaparece, levando junto seu pequeno grupo de amigos, deixando a Templária sem mentor e sem clã.

Uma nova Sacerdotisa aparece em sua vida...

- Espera... A Leka?

- É.

- E como vocês se conheceram?

- Foi na Vila dos Orcs. Eu acho que provoquei elesdemais aquele dia e...

- Ah, entendi. – "Até a imagino com meia Vila dos Orcs correndo atrás dela...".

Leka leva Riponga para o clã Guerreiro das Sombras. Nessa época ela deixa de lado suas habilidades com o escudo e passa a utilizar a habilidade Crux Magnum, que invoca uma cruz de luz divina ao redor do Templário. Com essa habilidade passa a libertar as almas amaldiçoadas de uma certa cidade destruída.

- Lutei em várias guerras pelo clã, fazendo o que podia para proteger todos à minha volta. Continuei assim até que decidi buscar a resposta para as minhas dúvidas.

Ela se distanciou de seus amigos e viveu em reclusão, continuando seu solitário trabalho de trazer paz às almas dos amaldiçoados que encontrasse. Um dia descobriu tais respostas e se dirigiu à Valquíria, pedindo para renascer no mesmo corpo, com uma vida nova pela frente, sem um passado que a segurasse.

- Eu só me lembro de coisas vagas, mais vagas do que antes, se é possível. O que eu posso dizer com certeza é o que os outros sabem e me contaram.

Com uma vida nova, ela se volta ao escudo que havia negligenciado e retorna aos seus amigos, que estão chegando perto do final da pequena crise que levou ao fim do Guerreiro das Sombras.

- Então tu ajudou a criar o PS e agora é isso?

- Não... Ainda tenho umas perguntas sem respostas.

- E como tu sabe que essas não são perguntas que tu já tinha conseguido responder antes de ir até a Valquíria?

- ... Não sei, mas acho que essa é a graça disso tudo.

- Ah... Certo. E o Wings?

- Que tem ele?

- Quando vocês se conheceram?

- Ah, isso...

Fomos interrompidas pela entrada abrupta de Leka e Zell, que discutiam sobre o comportamento de alguém em relação a alguma coisa. O casal foi seguido por Ara e Shini, que entraram conversando e rindo alto, com uma Ju muito satisfeita com uma barra de chocolate vindo atrás. A satisfação e calma da ruiva acabaram rápido quando um funcionário novo do bar disse a ela que animais não eram permitidos, apontando para Belua e Amicitia. Logo o bar era um grande tumulto e tive que guardar minha curiosidade (junto com o meu caderno) quanto a histórias amorosas para outro dia.

¹: Leitor diz: Ju, tiraram o trema...

Ju diz: QUE SE DANE! Vou continuar usando ¬¬

Obs da autora: versão editada, FINALMENTE. Muitos que viram o anime de Ragnarok (anime ruim, por sinal) devem ter notado nessa história uma semelhança com a Takius e com o Bruxo maluco lá, mas duvido muito que seja intencional. Que eu saiba, a criadora da história NUNCA viu o anime em questão. Anyway, sorry pela demora com a fic em si, mas cursinho acaba com a vida de qualquer um. Eu redescobri a química, olha só O.o Espero que gostem desse... Update? Dá pra chamar disso? XD Desculpem de novo pela demora e não me amaldiçoem, plz ;-;