Cap 3: A pelagem de uma raposa.

Enquanto jogava um cobertor felpudo e pesado sobre a enorme cama de casal, Loli cantarolava a melodia alegre que ficara em sua mente desde a noite de sábado. Ele curvou-se sobre a cama e puxou o cobertor, deixando-o tão liso quanto o de um soldado dentro de um quartel. Sorriu satisfeito com o seu trabalho. Olhou pela janela aberta: o Sol de verão ardia forte lá fora, e um bando de pássaros passou por trás das altas árvores da propriedade.

-Por favor, quando terminar aí, traga-me toalhas secas, sim?

O garoto se virou. Imediatamente reconheceu aquele homem como o "sócio do patrão". Loli se curvou em uma reverência.

-Muitíssimo bom dia, senhor! Certamente trarei, o mais breve possível.

-Obrigado.

Loli sorriu e se retirou, deixando o homem ruivo sozinho. "Que garoto adorável.", pensou ele. O homem foi até a janela e se sentou. Havia acabado de sair do banho. Seus cabelos encharcados haviam empapado suas costas, e por isso (e também pelo fato de o homem estar usando apenas uma calça fina e uma camisa de linho branca), qualquer vento, por menor que fosse, fazia-o se sentir em uma grande banheira de água fria. O homem trazia nas mãos um livro que parecia bem antigo, com uma capa de couro vermelho escuro.

Ele encostou a cabeça e fechou os olhos. Respirou fundo. "Mas certamente o que eu mais gosto no verão é poder tomar um banho refrescante, sentar-me diante da janela e ler um bom poema... ou então simplesmente admirar os pássaros voando ao longe... as árvores...e aquele vento!" . O 'sócio' riu ao se lembrar das palavras da pequena raposa. Riu da inocência com que as disse, e principalmente: riu de si mesmo, por ter lembrado daquilo.

-Com licença, senhor –era Loli novamente-, aqui estão suas toalhas. Eu não sabia se o senhor preferia vermelho, azul ou branco, então trouxe as três.

O homem olhou-o por algum tempo antes de começar a rir.

-Desculpe-me –começou, ele-, pode deixar as três, mesmo.

-Sim, senhor. – Loli colocou as toalhas na cômoda ao lado da janela. Quando saía, Loli viu o livro de capa vermelha nas mãos do homem. Seus olhos se arregalaram, seu coração bateu forte e ele deixou escapar uma exclamação de felicidade.- Santa tartaruga!! O senhor tem um livro de poemas de Parmye Ezzão!! E é a primeira edição! Céus... há quanto tempo eu não vejo um desses...? Quatro, talvez cinco anos!

-Você conhece Parmye Ezzão? – Ele ficou assombrado: apenas pessoas de alta classe conheciam o poeta.

-Mas é claro! Ele é um deus dentro do mundo poético! Eu tinha todos os seus livros. Desde de "Morangos em cesta de cajus", "Bode de porcelana", e "Inconjuvigne" até "Maria, Maria não vá com elas" e "Oito". Mas o meu favorito sem dúvida é seu único livro de história, mesmo. "O vampiro Louie". Maravilhosos! Lia todas as noites, e às vezes dias inteiros. –completou, visivelmente abatido.

-Concordo plenamente! E... por mil rabanetes, eu também tenho todos! –ele levantou-se da janela e se aproximou um pouco do garoto. Apesar de estar feliz por ter encontrado alguém com o mesmo gosto que o seu, estava ao mesmo tempo muito assustado. Além de ser um livro pouco publicado, e muito, muito raro, cada um de seus volumes valia uma pequena fortuna. Como esse garoto podia conhece-los?- Mas agora não posso deixar isso passar em branco. Qual seu nome, criança?

-Lólindir Awamanë -respondeu ele sorrindo.- Mas me chame de Loli, por favor! Todos me chamam assim. E também, seria uma honra se um admirador de Parmye Ezzão me chamasse por um apelido!

-Hahaha! Muito bem, Loli. Sou Louie. Louie de Lafontaine.

-É um prazer, senhor Lafontaine.

-Por favor...Louie. –ele sorriu.

"Que sorriso bonito!", Loli pensou

-Ah! Senhor Lafon...Digo, senhor Louie, o café da manhã está servido.

Louie sorriu. "Apenas Louie, está bem?" disse ele enquanto descia as escadas para a sala de refeições, no primeiro andar. Loli abriu as portas do salão, se curvou em uma reverência, e assim ficou até que o homem estivesse a meio caminho de sua cadeira, do lado direito do lugar de honra da mesa e do dono da casa. Então, fechou as portas e subiu novamente, para continuar a arrumação dos quartos.

Como sempre, o café da manhã havia sido servido, e todos os empregados saíram do local. O patrão serviu-se de um copo de suco de Morango, seu favorito. Pegou torradas, torta de cereja e rabanetes cozidos em calda de pêssego. Louie desejou-lhe bom dia e se sentou. Olhou para fora novamente. Como queria estar lendo "O vampiro Louie", agora. Uma tacada do destino. "Um nome tão bonito!" pensou ele, em uma brincadeirinha sem motivo. Encheu seu prato com biscoitos de mel e amêndoas, um cacho de uvas e encheu um cálice de vinho.

-Está calado hoje, Louie. Aconteceu alguma coisa? –Perguntou o outro, enquanto mastigava um pedaço de sua torta de cereja.

-Não. Estou só um pouco inspirado demais hoje.

-Entendo... Eu não. –e mordeu mais um pedaço.

Louie rolou os olhos de forma discreta. –Não entendi..."Não" o que? –Ele mentiu. Sabia exatamente o que seu sócio, Esther, queria dizer com aquilo.

-Eu não estou bem. Muito menos inspirado. Estou de mau-humor. –Declarou enquanto abocanhava um rabanete inteiro. -Sabe o que aconteceu? Quer saber o porque de eu estar de mau humor? Quer?

"Não."

-Deve ter sido realmente terrível para você ficar nesse estado. –Louie disse em um tom monótono, visivelmente desinteressado.- O que foi?

-Desrespeito! E você sabe que eu não suporto isso. –Esther esmurrou a mesa e os talheres pularam juntos fazendo um barulho engraçado.

-Ah, é? Desrespeito por parte de quem?

-De um patife. Um homem pomposo e sem princípios. Foi durante a festa de ontem. –bebeu um pouco do suco. Tossiu.

Louie levantou a cabeça. Agora, sim estava interessado. Ele se lembrou do tal 'senhor pavão'. Meneou a cabeça negativamente, comeu um dos biscoitos e bebeu um gole de seu vinho. Respirou profundamente como se tentasse canalizar e expulsar toda a sua raiva, como Parmye Ezzão ensinara em uma passagem de seu livro, e disse:

-Aquela festa estava repleta de imundices. Aconteceu o mesmo comigo. Um ser desprezível. Quase senti necessidade de acertar-lhe com uma viga de madeira no meio da testa...

Louie bufou raivoso, porém contente por extravasar sua raiva de forma decente e não-vulgar. Seu extravaso foi acompanhado por uma gargalhada exagerada de Esther.

-É incrível como não se existe mais respeito entre as pessoas. Todos deveriam ser como nós. –e riu novamente, com a mesma extravagância de antes, enquanto Louie terminava sua taça de vinho.

x-x-x

Esther saiu da banheira por entre as nuvens de vapor. Como ele adorava aquela banheira... como ele adorava sentir sua pele arder quando em contato com a água quentíssima! Olhou para seus braços: estavam vermelhos. Foi até uma das prateleiras ao lado do enorme espelho e pegou um dos vidrinhos. Espalhou um líquido esverdeado sobre a pele ainda molhada. Refrescante... Enquanto saía do banheiro completamente nu, Esther massageava seus braços com o líquido. Passou para o rosto, o peito, as coxas, canelas e por fim pés. Deixou o vidrinho sobre a mesa de cabeceira, enrolou-se em seu roupão de seda branco perolado e se deitou. Havia acabado de jantar, e o dia seguinte lhe guardava muitos compromissos importantes, sem contar que ele deveria assinar papéis, verificar as contas da fazenda, seus investimentos, chefiar a compra de escravos, e o pior...acordar cedo. Enfim, uma chatice. Ele não gostava de acordar cedo, apesar de faze-lo quase todos os dias, com exceção dos sábados. Não...Esther Nicolas Lashére? Esse, sim é um homem que conhece os prazeres de se acordar tarde. E acima disso, um homem que sabe aproveita-los quando tem oportunidade.

Quando fitou o teto do quarto, passou a prestar mais atenção nos desenhos que os enfeites formavam. "Como nuvens", ele pensou. "A raposinha tinha mesmo razão...são como nuvens!" Esther sorriu brandamente e um calor ameno tomou conta de seu corpo. Estranho... essa sensação era ainda mais gostosa do que ficar horas e horas em uma banheira fervendo. O perfume do pequeno voltou à sua lembrança. Um perfume doce. Doce como ele próprio, doce como suas palavras. Ele se lembrou que antes de começar a falar de negócios, ele havia ouvido bastante dessas palavras. Às vezes tinha tanta raiva de si! Porque não ficar quieto e apenas ouvir? Ouvir e ouvir aquela voz macia...aveludada... "Maldição", ele pensou.

O tempo se arrastou vagarosamente, e Esther apenas o viu passar. Estava ocupado demais voando por entre as nuvens de um paraíso fictício, onde ele e sua raposinha caminhavam de mãos dadas, conversando sobre banalidades como o tempo, algodão doce ou a condição de vida dos escravos na fazenda.

'Como eu o desejo... como eu o desejo!!'

Movido por uma força sobrenatural, Esther finalmente levantou-se e entrou debaixo de um pesado cobertor azul-escuro com vários detalhes em azul celeste. Lá, deslizou a mão por seu peito, desceu até seu umbigo. Imaginou-se debaixo daquele mesmo cobertor com aquela raposinha. "Acalme-se" foi o que conseguir dizer para si mesmo antes de segurar um grito de fúria na garganta.

-Não adianta se esconder, senhor Raposa. Vou encontra-lo! Onde quer que esteja...vou encontra-lo.