CAPÍTULO DOIS

A cama estava vazia. O resto do quarto, decorado com móveis de mogno, papel de parede e espelhos, também se encontrava vazio. Serena ficou aliviada ao notar que o cô­modo parecia o mesmo desde a última vez que o vira.

Esperara encontrar um vazio. Mas não havia isso naquele apartamento. Cada centímetro do lugar tinha o cheiro de Luna, embora a tia-avó tivesse morrido. Ela era uma pessoa cheia de vida.

Serena notou que Mamoru estava em pé, a seu lado. E não fizera nenhum movimento para entrar no quarto.

- Não quer procurar no armário embutido? - ela indagou.

Mamoru permaneceu onde estava, olhando atentamente para dentro do quarto.

- Por que sua tia-avó tem uma armadilha para urso no quarto?

A armadilha estava aos pés da cama, em uma caixa de vidro.

- Como eu disse, uma garota precisa se proteger de alguma forma.

Serena entrou no quarto e, como Mamoru não a seguiu, ela olhou para trás e o fitou. O que viu foi curiosidade, não desejo. Então, respondeu:

- Luna tinha isso há pouco tempo. Não sei de onde veio.

Mamoru entrou no quarto. Mais uma vez, Serena percebeu que ele andava com a desenvoltura de um atleta. Um sujeito como esse teria energia e paciência, tanto na cama quanto fora. Pena que não fosse com ela.

- Você disse que precisava pegar algumas roupas para a sua tia-avó, certo?

Serena desviou a atenção, voltada para uma especulação sem sentido sobre como ele seria como amante, e a focou na tarefa que tinha a cumprir. Quanto mais cedo se livras­se daquilo, mais cedo se libertaria daquela sensação de medo. Assim, dirigiu-se ao doset de Luna. Antes de abrir a porta, não resistiu e olhou para Nicholas.

- Não me importo se o sr. Chiba é seu pai. Se ele saltar de dentro desse doset, vou lhe dar uma joelhada no meio das pernas.

Mamoru resmungou algo, que pareceu "sinta-se à vonta­de". Serena abriu a porta do doset. Não viu nada, apenas sapatos e roupas de estilistas. Então, comentou:

- Lamento, está sem sorte, a menos que seu pai es­teja disfarçado de vestido.

- Você está bem? - Mamoru indagou.

Mais uma vez, a preocupação dele a surpreendeu. Ele não a conhecia e, pelo que parecia, já tinha proble­mas suficientes. Por certo, não podia saber como o estômago dela se revirava de pavor diante da idéia de ter que remexer nas roupas de Luna e encontrar a vestimenta perfeita que ela especificara para o próprio funeral.

-Sim. Apenas desapontada por não ter conseguido aperfeiçoar minhas habilidades com chutes.

- Não vou me oferecer para ajudá-la com isso.

- Que pena. Bem, seu pai não está por aqui. Então, sinta-se à vontade para ir embora, se é isso que está planejando fazer.

- Estou bem aqui.

- Terminarei tudo em um minuto. Se quiser, pode esperar na sala, ou na cozinha. Também pode fazer um café. Parece que precisa de um.

- Vou ficar aqui. Você pode precisar de companhia. Não deve ser fácil ter que mexer nas roupas da sua tia-avó.

- Como quiser - Serena retrucou e entrou no closet. As roupas cheiravam ao perfume exótico e picante de Luna.

"Por favor, me enterre com meu vestido Gaultier preto, de lantejoulas, a capa com pele de raposa cinza e sapatos pretos Vuitton", Luna escrevera no seu plano de funeral. Serena revirou um número infindável de cabides, perguntando a si mesma como saberia qual era o vestido certo quando o visse.

- Sempre permite que estranhos entrem no seu apar­tamento? - Mamoru perguntou, encostado ao batente da porta do closet.

- Já disse, o apartamento não é meu.

- Ainda assim é algo estúpido a fazer. Eu poderia ser um qualquer.

- Quer que eu ponha em prática minha habilidade de chutes no meio das pernas?

- Apenas algumas dicas de segurança.

- E aí vai uma: pare de me criticar.

Serena o fitou. Em seguida, deu-lhe as costas e recome­çou a procura. Pouco depois, tocou algo suave e macio. Sem olhar, sabia que era a capa, um tecido preto fino, com colarinho de pele, cinza.

- Raposa? - Mamoru indagou.

- Não imaginava que você fosse um especialista em moda - Serena respondeu e tirou a roupa do trilho do ar­mário.

- Não sou. Enquanto caminhava por aí, vi peles desse tipo.

- Luna era muitas coisas. Porém, politicamente correta não era uma delas.

O vestido Gaultier estava perto da capa. Serena o tirou de lá. Mesmo no cabide parecia pequeno. Luna, como muitas mulheres da família Tsukino, tinha sido graciosa, elegante e bonita, mesmo aos setenta e poucos anos. Traços que a sobrinha não herdara.

- Era próxima à sua tia-avó?

Ao sair do closet carregando as roupas, Serena esbarrou em Mamoru . Ela podia sentir a diferença de odores, do ar­mário perfumado para o cheiro de campo que ele exalava. Ao colocar as roupas em cima da cama, respondeu:

- Não muito. Não contávamos tudo uma à outra. Não a conhecia realmente. Ela me deixava ficar aqui quando eu precisava.

Por que estava contando aquilo a um estranho?

- Não tenho a menor idéia de como vou encontrar os sapatos - acrescentou. Voltou para o closet, fazendo o possível para não ver o rosto de Mamoru Chiba.

- Você a amava.

Ao passar por Mamoru , Serena encostou nele de novo. E se abaixou para olhar a variedade de sapatos, quase todos pretos.

- Como eu disse, não a conhecia de fato.

- Isso não significa que não a amasse.

- Ouça, tenho certeza de que ainda não procurou seu pai em alguns armários da cozinha. Vá e faça isso ago­ra. Senão, por favor, fique calado.

Mamoru se juntou a Serena. O closet enorme agora parecia muito pequeno com ele ali dentro. E tão... tentador...

- O que está procurando?

- Sapatos.

- Que tipo?

- Vuitton, pretos, de salto.

Mamoru olhou para as prateleiras e comentou:

- Se você tivesse boas pernas, esses sapatos iriam parecer muito sensuais.

Aquela palavra a atingiu como se Serena tivesse bebido uma dose dupla de uísque, aquecendo-a da garganta até os dedos dos pés. Ela pegou um par, ao acaso, e viu a etiqueta: Louis Vuitton. Eram pretos e tinham saltos bem altos e estreitos.

- Quanto você calça?

- Trinta e oito - Serena respondeu. Parada, com os sapatos nas mãos, comentou: - Encontrei os sapatos.

Ao sair do closet, Serena pegou um protetor de roupa e começou a arrumar o vestido e a capa. Mamoru também saiu de lá e comentou:

- Sua tia-avó tinha um gosto interessante.

- Era uma pessoa muito agradável.

- Como acha que Luna conheceu meu pai?

- Não tenho a menor idéia.

- Qual o seu nome?

- Por quê?

- Porque sabe o meu.

Ela terminou de fechar o zíper do protetor de roupa, percebendo que tinha mais um motivo para lhe dizer seu nome. Acabara de fazer o que precisava e não derrama­ra nem uma lágrima graças a ele.

- Serena Tsukino.

- Olá, Serena. - Mamoru estendeu-lhe a mão e sorriu. Ela apertou-lhe a mão. Ele era firme, gentil e cordial.

Depois, largou a mão dele e comentou:

- Já terminei aqui. Café?

- Na verdade, gostaria de usar o banheiro. Fiquei mui­to tempo naquele corredor, à espera, e estava começando a pensar em usar uma das minhas garrafas de água...

- Vá em frente.

- Lembro de onde é, perto da cozinha - Mamoru comen­tou, encaminhando-se para o corredor.

Serena o seguiu e o viu entrar no banheiro de hóspedes. Depois, pendurou o protetor de roupa perto da porta da frente e encontrou uma sacola para guardar os sapatos. Então, despiu a jaqueta de couro e foi à cozinha. Estava acostumada à rotina da casa de Luna. Quando ficava ali, uma das tarefas era fazer café de manhã e levá-lo na cama para ela.

Serena encontrou os grãos no congelador. Fora isso, tudo vazio, exceto pelas bandejas de gelo. Pegou o moedor, mediu os grãos, colocou água na máquina e arrumou a mesa enquanto o aroma de café enchia a cozinha.

Agora, não tinha mais que servir café a Luna. Ela deveria se sentir solitária e muito triste. Ainda assim, Mamoru parecia ter amenizado toda a tristeza, evitando-lhe as lágrimas quando esteve no closet. Serena tivera medo de remexer nas roupas da tia-avó, mas aquele homem a fizera rir.

Franziu as sobrancelhas. Em que estava pensando? Nem cinco minutos depois de conhecê-lo e ele já a envolvera de forma que acabara entrando no apartamen­to de sua tia-avó. E, logo depois, na vida dela também. E Serena estava feliz com tudo isso?

Pegou duas canecas. Ela lhe serviria uma xícara de café. Depois, lhe daria um pontapé antes que fizesse alguma besteira.

Mamoru lavou as mãos e o rosto. Após dirigir por dez horas e esperar outras tantas em um corredor, água quente e sabonete eram uma maravilha.

Mais uma vez, vistoriou o banheiro à procura de sinais de presença masculina, alguma pista de que o pai tivesse estado ali. Mas o sabonete tinha um cheiro forte e o xampu era floral. Havia uma escova de dentes no armário, cor-de-rosa.

Mamoru se lembrava de Eric Chiba como um homem grande, do campo, um caçador e um pescador que sem­pre usava camisa de flanela e calças de brim desbotadas. Não descartava a possibilidade de Eric usar uma escova de dentes rosa, mas isso em si não era uma evidência convincente.

Olhava o banheiro da suíte, mas também não vira nada suspeito. Em todo o apartamento, a coisa mais comprometedora tinha sido a armadilha para urso, e até mesmo isso era ambíguo. Não tinha a menor idéia se o pai havia caçado ursos ou não. A única certeza era de que, se ele tivesse caçado, não guardaria a armadilha em uma caixa de vidro.

No corredor, Mamoru sentiu o cheiro de café fresco. Seguiu-o até a cozinha, onde Serena estava sentada à mesa com duas canecas à frente.

- Não há leite. Luna não bebia.

- Está bem, gosto de café puro.

Mamoru sentou-se e bebeu um gole do café. Ela havia tirado a jaqueta, revelando uma camiseta preta que, pela primeira vez, permitia que Mamoru visse seu corpo. Tinha seios grandes, barriga bem definida e braços fortes.

Serena subiu alguns pontos na apreciação de Mamoru . Não era bonita, ou ao menos não o tipo pelo qual ele se sen­tia atraído. Gostava de mulheres pequenas, femininas, e Serena não era assim. O queixo era quadrado, a boca larga, o nariz bem definido, mãos com unhas curtas. Mas sua aparência era melhor do que a que Mamoru imaginara ao vê-la no corredor. Principalmente quando falava. A boca e os olhos eram interessantes, os movimentos fluíam. E o sorriso era espontâneo e luminoso. Entre­tanto, agora, ela não estava sorrindo.

- Qual o problema?

- Tenho que preparar um funeral e há um sujeito que entrou no apartamento, sem pedir licença, à procura do pai.

- Por um minuto, pensei que estivesse irritada comi­go. Alguma vez sua tia-avó falou sobre o meu pai? Acha que ele ainda pode estar aqui? ,

- Você só pensa nisso?

- Quando eu tinha dez anos, meu pai saiu um fim de semana para uma caçada e nunca mais voltou. Minha mãe pensou que tivesse havido um acidente. Ela estava histérica. Lembro que eu e minha irmã íamos para a escola e fingíamos que estava tudo bem enquanto minha mãe ficava em casa, esperando. Dois dias depois da data em que meu pai deveria estar de volta, ela recebeu um telefonema. Lembro que eu estava assistindo o Perna-longa na TV quando o telefone tocou.

- E o que era?

- Minha mãe achou que era a polícia ligando para dizer que meu pai estava morto. Nunca a tinha visto tão aterrorizada.

Ao contar a história, Mamoru sentiu o mesmo instinto de proteção que o fez, aos dez anos, desligar a televisão e ir para perto da mãe, pegar-lhe uma das mãos. Naque­le momento, tornou-se um homem.

- Mamoru ?

Após ficar preso nas próprias lembranças, ele conti­nuou:

- Era meu pai ao telefone. Reconheci a voz. Não consegui ouvir o que disse. Quando minha mãe recolocou o fone no gancho, falou que meu pai não estivera caçan­do, estava bem, mas que tinha ido embora e não o vería­mos por um bom tempo. Um mês depois, minha mãe empacotou as coisas dele e colocou tudo no sótão.

- E nunca mais você ouviu falar do seu pai até essa carta?

- De vez em quando, minha mãe recebia envelopes com um pouco de dinheiro. Nunca me mostrou o ende­reço do remetente. Queimava os envelopes antes que eu pudesse pegá-los. Sabia que eu iria atrás do meu pai.

- Parece que sua mãe estava certa.

- Geralmente estava. Eu era muito novo. Os envelo­pes pararam de chegar quando eu tinha 16 anos.

- Teve medo de que ele estivesse morto?

- Se estivesse morto teria uma desculpa. Serena empurrou a cadeira para trás e pigarreou:

- Bem. A conversa foi boa. Obrigada por comparti­lhar isso comigo, mas tenho que ir para casa e arrumar as coisas. Tenho certeza de que você está louco para passar o pente fino em toda a cidade à procura do seu pai desaparecido. Já acabou o seu café?

Ela esticou o braço para pegar a caneca dele, mas Mamoru não se mexeu.

- Não vou a lugar algum. Vou ficar aqui.